Ele era um menino estranho. Era o que achava a maioria dos colegas.
Vivia fazendo planos e espalhando para todos que faria isso, isso e mais
aquilo. Que seria o melhor da classe, o mais famoso da rua, etc., etc.
Falatório de montão, mas, de concreto mesmo, pouco se via. Diziam que
ele era o Rei do vou fazer.
“Vou fazer isso, vou fazer aquilo, vou viajar para cá, vou viajar
para lá, para acolá.” Tudo isso”’ Um dia! Um dia que não chegava e,
quem sabe, jamais chegaria.
– Vou ser o campeão do torneio de tênis da escola — dizia ele. –
Amanhã vou acordar supercedo, fazer um supertreino, bolar uma
superjogada e dar um baile no adversário.
Só que, na manhã seguinte, batia uma superpreguiça nele e era um tal de
espreguiça para cá, espreguiça para lá, se encolhe, se estica”’ “Só
mais um minuto”, “um segundinho só”’”, e a hora passando.
Daí, meio-dia, acordava superassustado, comia superligeiro e corria
para a quadra.
– O treino acabou — dizia um amigo.
– Que cedo, hein, colega? É hora do almoço. Acordou para almoçar? –
brincava um outro.
– Tive um imprevisto — mentia ele, bronqueado. — Mas, amanhã, não
falho. Vou fazer um supertreino, vou fazer”’ vou fazer”’
– É mesmo o Rei do Vou Fazer. Não tem remédio! — diziam todos.
E remédio não tinha mesmo.
– Vou fazer a melhor prova! — e para a prova, às vezes, nem ia.
– Vou fazer uma viagem — e a viagem não saía.
– Vou fazer o maior balão! — e o tal balão não se via.
– Vou tirar a melhor nota! — e a tal nota, de pequena, até sumia.
Acontece que o garoto, apesar de bem intencionado, só falava e não
agia. “Vou Fazer”, mas não fazia!
Com isso, o tempo foi passando e o menino planejando. E só o que
aconteceu foi que o menino cresceu. Afinal, crescer era algo
involuntário. Algo que aconteceria sem depender de esforço seu. É claro
que precisava ajudar. Cuidar-se bem, alimentar-se. Mas comer foi coisa
que sempre fez. Aliás, até o regime ficava sempre para depois.
Daí, podemos dizer que o menino, ao invés de ser, só fez crescer.
Cresceu assim, sem ser nada. Nem diplomas, nem medalhas, nem vitórias
pra contar, com pouca coisa para dar. Um ser assim, meio estranho, que
muito diz, pouco faz. Ou por medo ou por preguiça ou por falta de
vontade. Só fez aumentar a idade e a lista do que não foi feito. Nem
isso é crescer direito.
Às vezes, desanimada, pareço esse tal menino. Penso, penso e não
reajo. Faço planos e não ajo. É um misto de preguiça, de me sentir
amarrada. Quero acordar, adormeço. Quero andar, fico parada. Sinto,
então, um desespero, um medo de só crescer (e olha, já sou crescida)
que, de repente, levanto, lavo o rosto, água gelada, olho no espelho e
bronqueio. Dou um pega assim, bem dado. Falo alto, em tom zangado.
– Acorda! Vamos, preguiça! Pare de só pensar e faça. Não queira ser
como fumaça que, assim como vem, logo passa, sem deixar a sua marca.
Ânimo, vamos, coragem! Ter preguiça é que é bobagem.
E, aí, eu volto à ação e me sinto mais feliz. Fico assim, de bem
comigo. Espanto meu inimigo.
E você, quer um conselho?
Não, conselho não vou dar. Nem você ia querer”’ Deixo apenas essas
perguntas para você responder.
(Responda para si mesmo. É só quem deve saber).
O que pretende da vida?
Você vai ser de verdade? Ou vai, como o tal menino, apenas ter mais
idade???
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