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	<title>Histórias Contos e Poemas Infantis</title>
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	<description>Histórias Infantis, Contos Infantis, Poemas Infantis</description>
	<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 16:28:50 +0000</pubDate>
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		<title>Dois Corações Generosos</title>
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		<dc:creator>Historias Infantis</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Tudo estava em festa no belo palácio dos duques de Morancé, onde se esperava, com alegria, o nascimento do primeiro filho.
Num amplo quarto, cujas cortinas corridas deixavam apenas entrar uma claridade suave, a jovem duquesa sorria enternecidamente à filha recém- nascida.
A criança dormia no seu berço de seda e rendas, enquanto a mãe sonhava com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo estava em festa no belo palácio dos duques de Morancé, onde se esperava, com alegria, o nascimento do primeiro <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-fortuna-do-gaspar" >filho</a>.</p>
<p>Num amplo quarto, cujas cortinas corridas deixavam apenas entrar uma claridade suave, a jovem duquesa sorria enternecidamente à filha recém- nascida.</p>
<p>A criança dormia no seu berço de seda e rendas, enquanto a mãe sonhava com a felicidade que lhe traria aquele pequeno ser.</p>
<p>A cerca de meia légua dali, via-se um dos mais humildes casebres da aldeia, onde vivia a pobre Mariana Aubin.</p>
<p>O ar entrava por um vidro quebrado e chegava até à miserável enxerga, onde choramingava uma pobre criancinha que acabara de nascer. O pai olhava-a de sobrolho carregado: era uma oitava boca a sustentar, mais uma criança a vestir e a criar&#8230; Perguntava, a si mesmo, como é que o trabalho dum só homem iria fazer face a tão pesados encargos.</p>
<p>Também os irmãos não acolhiam com prazer a recém-nascida. Só a mãe abria, inteiramente, o coração a esta infeliz criaturinha.</p>
<p>No mesmo dia foram levadas à igreja a filha da duquesa de Morancé e a de Mariana Aubin.</p>
<p>O altar estava deslumbrante de luzes e flores; uma dama elegantemente vestida levava nos braços a pequenina duquesa, bem aconchegada em cachemiras brancas. A filha da camponesa, envolta em lãs grosseiras, era, por sua vez, levada à pia baptismal por uma rude aldeã.</p>
<p>E no entanto as almas das duas crianças tinham a mesma origem divina; um anjo igualmente belo, puro e casto velava por cada uma delas e protegia-as com as suas asas imaculadas.</p>
<p>As duas crianças cresceram: Beatriz de Morancé cercada de luxo e de amor; Luísa Aubin no meio duma pobreza, que a morte do pai viera ainda agravar. Mariana Aubin, sempre doente e esgotada pelo trabalho, tivera de entregar ao <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/filho" >filho</a> mais velho</p>
<p>- o único que, como jardineiro, ganhava já um bom salário - a direcção da casa. Infelizmente, Simão Aubin, de carácter brusco e irritável, não tinha as qualidades necessárias para exercer a autoridade, que por morte do pai lhe caíra nas mãos. Abusava dela; os irmãos temiam-no mas não lhe obedeciam, e a própria mãe, conhecendo- o, não ousava consultá-lo, como seria seu desejo, em todas as circunstâncias da vida. Luísa sofria mais que qualquer outro, com os arrebatamentos do irmão</p>
<p>mais velho. Como nunca encontrara afeição nem benevolência da parte dos irmãos, concentrara toda a ternura na mãe, com a qual se parecia, não só no rosto como na alma.</p>
<p>Os filhos mais velhos de Mariana, salvo Simão, estavam empregados em herdades dos arredores e os mais novos começavam a aprender um ofício que lhes permitisse, mais tarde, ganhar a vida.</p>
<p>Quando Luísa fez nove anos, foi para casa duma vizinha guardar gansos. Não recebia ordenado mas sustentavam-na, o que aliviava os encargos da mãe.</p>
<p>Apesar de toda a sua coragem, a pobre Mariana sentia bem que as forças lhe diminuíam e que se aproximava, rapidamente, o momento em que seria obrigada a deixar os filhos.</p>
<p>Dissimulou os sofrimentos enquanto lhe foi possível, principalmente por causa de Luísa, cujo coração afectuoso sentiria vivamente a dor desta inevitável separação. No entanto, chegou o momento em que a doença triunfou da vontade, e Mariana caiu à cama para não mais se levantar.</p>
<p>Certa manhã, quando Luísa se preparava, como de costume, para levar os gansos ao pasto, a mãe chamou-a.</p>
<p>- Não saias, hoje, minha filha, pois se o fizeres, receio não tornar a ver-te.</p>
<p>Luísa olhou a mãe com inquietação e viu-lhe o rosto tão transtornado que, aflita, caiu a soluçar, aos pés da cama. A mãe estendeu-lhe a mão.</p>
<p>- Não chores, minha filha, Deus quer que eu parta. Faça-se a Sua vontade! Velarei por ti, quando estiver no Céu.</p>
<p>Depois, soerguendo-se, enquanto sorria tristemente tirou, de debaixo da almofada, uma bolsinha de malha e entregou-lha.</p>
<p>- Estão aí algumas moedas. Poupei-as, migalha a migalha, desde o dia em que nasceste. Era para te comprar um vestido no dia da tua primeira comunhão. Esconde bem esse pequeno tesouro, último presente da tua mãe.</p>
<p>Então abraçaram-se as duas e a pequenita desatou a soluçar.</p>
<p>Pouco depois o cura de Morancé, chamado a toda a pressa por uma vizinha, dava os últimos sa cramentos à boa mulher. Simão, que fora prevenir os irmãos do que se passava, entrou com eles no quarto. Mariana, muito serena, dirigiu palavras afectuosas a todos os filhos. Quando se calou, toda a gente caiu de joelhos e nada mais se ouviu senão a voz do sacerdote, recitando as últimas orações.</p>
<p>Luísa, sem compreender bem todo o significado desta cena fúnebre, permanecia a chorar ao pé do leito da mãe. Quando levantou a cabeça, o único ser que amava na Terra tinha subido aos Céus.</p>
<p>A bolsa</p>
<p>No dia seguinte, quando Simão voltava do enterro da mãe, encontrou Luísa a chorar, sentada na soleira da porta, com a cabeça escondida no avental.</p>
<p>Empurrou-a rudemente e obrigou-a a levantar-se.</p>
<p>- Toca a andar! Basta de lágrimas! Quando se chora não se faz nada. Julgas que é assim que honras a nossa mãe, que Deus haja? Vá! toca a ir guardar os gansos!</p>
<p>- Pois sim, Simão, eu vou.</p>
<p>- É verdade! Havia uma bolsa debaixo da almofada da mãe e não a encontro - disse Simão, com ar desconfiado. - Ela deu-ta?</p>
<p>- Sim, meu irmão - respondeu a pobre criança -, a mãe disse que era para a minha primeira comunhão.</p>
<p>E, ao dizer isto, entregou-lhe a bolsa que trazia na algibeira.</p>
<p>- Ouve - disse Simão num tom de voz mais brando -, precisamos desse dinheiro para viver.</p>
<p>Quando chegar a ocasião arranjaremos maneira de te comprar um vestido branco.</p>
<p>Luísa sabia por instinto que ele mentia, mas era demasiadamente dócil para resistir e estava triste de mais para responder. Não podia, porém, ficar junto do irmão e correu para a herdade em que era guardadora de gansos. As portas da casa estavam fechadas e o silêncio que reinava indicou-lhe que toda a gente dormia. Depois de ter em vão batido à porta, Luísa, a tremer de frio, ficou sem saber onde abrigar-se.</p>
<p>Amargurada, afastou-se, mas, ao passar diante do estábulo, ocorreu- lhe a ideia de ali entrar. Em purrou a porta.</p>
<p>&lt;&lt;Creio que não faço mal nenhum se me deitar, esta noite, na palha das vacas. A Sr. a Gervásia não ficará zangada. Farei o possível por não incomodar os animais. &gt;&gt;</p>
<p>Luísa entrou. Uma esplêndida vaca, deitada numa cama de palha, mal a viu, abriu os meigos olhos e encostou-se à parede.</p>
<p>Luísa teve a impressão de que o bom animal lhe oferecia um lugar a seu lado. Aproximou-se da vaca, acariciou-a um momento, depois rezou, agradeceu a Deus o abrigo que lhe deparara e, deitando-se junto dela, adormeceu tão feliz como os filhos dos ricos, em seus leitos caros.</p>
<p>Gracinha</p>
<p>Ao mesmo tempo que Luísa despertava junto da vaca da tia Gervásia, numa herdade da Touraine, em Paris, Beatriz abria os olhos, no seu quarto forrado de estofo cor-de-rosa e o olhar caiu sobre um bercito colocado ao lado da cama.</p>
<p>- O que é isto, Aninhas, um berço? - exclamou a pequenita saltando da cama para admirar a boneca que lá devia estar, com certeza.</p>
<p>- É uma boneca de louça, como não há outra, em Paris. Diz bom-dia, papá, mamã e muitas outras coisas. Senta-se, cumprimenta, abre e fecha os olhos, enfim, uma boneca maravilhosa que a princesa, vossa madrinha, nos envia hoje, 22 de Outubro, dia do vosso aniversário.</p>
<p>- É verdade, Aninhas, faço hoje dez anos. Talvez já não devesse gostar de bonecas, mas não há nada de que eu goste tanto. Como a madrinha é boa por se ter lembrado. Ah! que linda!</p>
<p>Beatriz afastara as cortinas do leito e, muda de admiração, contemplava uma boneca que, de olhos fechados, parecia realmente dormir.</p>
<p>Era tal qual uma criança com seus caracóis louros e sedosos e a carita rosada.</p>
<p>Ao lado do berço, Beatriz viu uma comodazinha de pau-rosa.</p>
<p>- Os vestidos da boneca estão ali dentro, não estão?</p>
<p>- Sim, menina.</p>
<p>Ainda que rica e amimada, a pequenita nunca contemplara tais maravilhas: camisas bordadas, guarnecidas de rendas, vestidos de veludo com peles de marta, casacos forrados de cetim branco, penteadores de musselina com valencianas, luvas de pele, botas de pelica, jóias verdadeiras com turquesas e coral, tudo marcado com o nome da encantadora boneca.</p>
<p>- Chama-se Gracinha - disse a criada - e tem um nome bem escolhido. Quer que ela diga mamã?</p>
<p>- Quero, quero, Aninhas! Bom dia, Gracinha!</p>
<p>- Bom dia, mamã - articulou a boneca.</p>
<p>Beatriz agarrou-a e abraçou-a com entusiasmo.</p>
<p>- Que linda! Como eu gosto dela! Arranja-me depressa, Aninhas. Quero vestir a Gracinha para levá-la a almoçar comigo. Vou convidar todas as minhas amigas para a merenda e mostrar-lhes-ei a minha boneca.</p>
<p>Nesse mesmo dia todas as amigas de Beatriz se reuniram no salão da duquesa de Morancé e, à merenda, presidiu a maravilhosa Gracinha.</p>
<p>Foi um nunca acabar de exclamações! Jamais se vira uma boneca assim! Todas as amiguinhas de Beatriz sonharam com ela nessa noite e durante mais dum mês não se falou doutra coisa.</p>
<p>Todas as vezes que a duquesa saía com a filha, esta levava Gracinha, trajando novos fatos.</p>
<p>Quando iam às Tulherias, todas as crianças cercavam Gracinha, exprimindo tal admiração, que o coração de Beatriz inchava de vaidade satisfeita.</p>
<p>Um dia em que tinham convidado Gracinha e Beatriz para uma festa infantil, a pequena duquesa, depois de ter sido saudada pelas suas amiguinhas, reparou numa garotinha, vestida de luto, pálida e triste, que estava sentada a um canto do salão.</p>
<p>Dirigindo-se a ela, Beatriz pegou-lhe afectuosamente na mão e perguntou-lhe:</p>
<p>- Que tens?</p>
<p>A pobre criança desatou a soluçar.</p>
<p>- Helena está triste - disse uma das convidadas - porque lhe morreu uma irmãzinha, há poucos dias.</p>
<p>- A tua irmãzita morreu, Helena? - exclamou Beatriz. - Ah! sim! deves ter muita pena.</p>
<p>- A mãe quis que ela viesse distrair-se, mas ela não quer brincar.</p>
<p>- Vá, Helena, deves vir brincar. Olha para a minha boneca!</p>
<p>Helena pegou maquinalmente em Gracinha e, enxugando os olhos, pôs-se a examiná-la.</p>
<p>Era mais nova do que Beatriz e menos rica; por isso, esta boneca extraordinária mais excitou a sua admiração.</p>
<p>Meia hora mais tarde já não havia lágrimas nos seus olhos. Gracinha era tão bonita. Parecia dormir e sorrir realmente. Falava tão bem, que teria, não consolado, mas distraído do desgosto outras crianças mais velhas do que Helena.</p>
<p>Durante toda a tarde, Beatriz esteve ao pé da sua amiguinha. Tentava fazê-la sorrir, mostrando-lhe todas as gracinhas da sua boneca.</p>
<p>Ao separar-se, Helena embalava nos braços a boneca adormecida.</p>
<p>- Toma lá a Gracinha. Ah! como és feliz em teres uma filha tão linda!</p>
<p>Beatriz dispunha-se a sair quando um soluço a fez voltar-se. Era a sua amiguinha que a seguia com os olhos e recomeçara a chorar. A filha da duquesa correu para ela.</p>
<p>- Minha querida - disse ela, abraçando-a. Tenho de me ir embora, mas deixo-te a Gracinha para te distrair um pouco.</p>
<p>- A Gracinha? - repetiu Helena com os olhos iluminados por súbita alegria. - Dás-me a Gracinha?</p>
<p>- Sim, dou-ta. Não chores mais. Só te peço que ma leves, de vez em quando, a fazer-me uma visita. Adeus Helena, adeus Gracinha!</p>
<p>E Beatriz saiu a correr, deixando nos braços de Helena, muda de admiração, essa boneca tão amada.</p>
<p>- Deste a Gracinha? - perguntou a duquesa à filha, quando ela voltou.</p>
<p>- Oh! mãezinha! dei-a à Helena que perdeu a irmãzinha. Precisa mais da Gracinha do que eu, que não tenho nenhum desgosto.</p>
<p>A duquesa beijou a filha enternecidamente. No dia seguinte, um criado levava a cómoda de pau-rosa com o enxoval de Gracinha, a casa de Helena.</p>
<p>vestido da primeira comunhão</p>
<p>- Quem é que bate assim à porta, Brígida?perguntou o bom do cura de Morancé à velha criada, enquanto esta punha a mesa.</p>
<p>- Não ouvi nada, senhor Abade.</p>
<p>&lt;&lt;A pobre Brígida está a ficar surda&gt;&gt; - pensou o bom do cura, levantando-se e indo ele mesmo abrir a porta.</p>
<p>- O quê? És tu, minha filha?</p>
<p>- Sim, sou eu, senhor prior. Não o incomodo?</p>
<p>- Entra, entra, minha querida Luísa; uma ovelha do meu rebanho nunca me incomoda.</p>
<p>O abade introduziu a pequena Luísa Aubin na sua saleta.</p>
<p>- Então, que me queres hoje?</p>
<p>- Ah! senhor Abade, nem sei como hei-de dizer-lhe.</p>
<p>- O quê, minha boa Luísa? A tia Gervásia já não precisa de ti?</p>
<p>- Oh! não, senhor Abade; a tia Gervásia tem sido sempre muito boa para mim, desde o dia em que me encontrou adormecida ao pé da Neve, a sua linda vaca branca. Dá- me de comer mas, coitada, não pode dar-me de vestir. Comecei a fazer um trabalho para ganhar algum dinheiro, mas não estará acabado no dia do Corpo de Deus. Ah meu Deus, o que hei-de fazer?</p>
<p>- Fizeste muito bem em vir ter comigo. Não estejas aflita. Diz-me lá, qual foi o trabalho que começaste?</p>
<p>- No primeiro dia do ano, a minha patroa deu-me algumas moedas e, com esse dinheiro, comprei umas meaditas de lã para fazer uma manta. Infelizmente a lã não chegou e não sei agora como hei-de acabar.</p>
<p>- Sossega, sossega! Deixa estar que sempre se há-de arranjar uma alma caridosa, que te livre de embaraços.</p>
<p>- Ah! senhor Abade! Se a minha pobre mãe fosse viva, não seria eu que, como uma pobre mendiga, o viria incomodar. Desgraçadamente, minha mãe morreu, e eu não posso receber Nosso Senhor, com este vestido que trago todos os dias. Mas também não gostaria de dever à caridade de ninguém o meu vestido da comunhão.</p>
<p>- Está bem! Descansa que terás o que desejas e, unicamente, graças ao teu trabalho. Irás de branco, prometo-te. Eu próprio me encarregarei de vender a manta. Alguém que eu conheço e que, nesse dia irá de branco como tu, a comprará de boamente.</p>
<p>Enquanto a pobre guardadora de gansos vivia inquieta, sem saber como arranjar o seu vestido de comunhão, no castelo de Morancé preparavam, com requintes, as vestes de Beatriz.</p>
<p>Quando o bom abade foi visitar a <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-irm-do-inocente" >senhora</a> duquesa, pôde admirar no salão um riquíssimo vestido bordado e um lindo véu de rendas. Ao lado deste podia ver-se um estojo que continha um admirável colar de pérolas.</p>
<p>- Ah! senhor Abade - exclamou a pequenina duquesa, cheia de alegria. - Veja como me cumularam de mimos. Olhe para este magnífico colar de pérolas que me mandou a minha madrinha. E o meu terço? Foi bento pelo próprio Santo Padre e deu-mo a avozinha!</p>
<p>- Sim, é soberbo e todo de ouro. Mas diz-me, minha filha; tens tenção de ir com todo este luxo fazer a primeira comunhão?</p>
<p>- Sim, acho que nada é suficientemente belo para esse dia.</p>
<p>- É verdade. Se toda a gente pudesse ir com vestes de princesa à mesa do Senhor, como isso seria admirável! Mas repara, Beatriz, tu és rica, mas quantas crianças o não são?! Queres ir humilhar com o teu luxo as tuas irmãs que, como tu, têm um lugar à sagrada mesa? Queres expô-las a invejarem os teus sumptuosos vestidos?</p>
<p>- Oh! não! certamente que não penso nisso. E, se este riquíssimo colar puder pagar vestidos às pequenitas pobres, levai-o e vendei-o, peço-vos.</p>
<p>- Conheço o teu grande coração, Beatriz. Sei bem que ninguém se lhe dirige em vão. No entanto, não é o teu colar que eu quero. As tuas irmãs não têm necessidade dum tal sacrifício. Não te peço que as faças subir até à tua pessoa; o que eu queria era que tu descesses até elas, e te confundisses com essa multidão de obscuras rapariguitas, vestida tal como elas, num simples vestido de cambraia branca. As suas almas não seriam perturbadas pela inveja e tu, minha filha, serias mais querida aos olhos de Deus, que tanto ama os humildes de coração.</p>
<p>- Tem razão, senhor Abade. Assim farei e será uma grande alegria para mim.</p>
<p>- Queres agora participar numa grande obra?</p>
<p>- Ah! certamente e com todo o meu coração.</p>
<p>- Escuta! Uma das mais pobres pequenitas que vai fazer a comunhão, anda a trabalhar numa manta de lã. Quer vendê-la para poder comprar o vestido para esse dia, mas, infelizmente, a manta não está acabada. Queres tu, mesmo assim, comprá- la?</p>
<p>- Oh! senhor Abade, então não hei-de querer? Diga-lhe que me venha trazer a manta.</p>
<p>- Não! Ela nunca ousaria vir. É muito envergonhada, muito tímida. Dá- me tu o dinheiro para lho entregar.</p>
<p>- Ah não, senhor Abade. Não me prive do prazer de a conhecer. Permita-me que eu vá a sua casa e aí lhe entregue, eu própria, o dinheiro.</p>
<p>- Talvez isso a humilhasse.</p>
<p>- Não tenha receio, senhor Abade&#8230; Sei o que hei-de fazer.</p>
<p>No dia seguinte, Luísa vestida com os mais limpos vestiditos, bateu à porta do presbitério. Brígida mandou-a entrar para a saleta, onde estava uma linda criança da sua idade, que se levantou mal a viu entrar.</p>
<p>Luísa, apesar de toda a sua timidez, sentiu-se absolutamente tranquila ao ver no rosto da bela castelã um sorriso ao mesmo tempo acolhedor e amigo.</p>
<p>- Há que tempos que eu desejava ter uma manta de lã branca - exclamou Beatriz, desdobrando a manta que Luísa trouxera.</p>
<p>- Infelizmente, ainda não a acabei - murmurou Luísa, com timidez.</p>
<p>- Mas há-de acabá-la, depois da sua primeira comunhão. No entanto, eu compro-lha já.</p>
<p>E, ao dizer isto, Beatriz tirou da sua bolsa duas moedas de ouro que colocou, com toda a delicadeza, nas mãos de Luísa.</p>
<p>- Oh menina, mas isto é de mais. Ah como é boa!</p>
<p>A filha da duquesa abraçou, quase à força, a pequena Luísa, muito perturbada com tamanha honra.</p>
<p>- Tornar-nos-emos a ver num lindo dia - exclamou Luísa à despedida.</p>
<p>Com efeito tornaram a ver-se, ambas igualmente felizes, no dia em que, profundamente comovidas, se ajoelharam à mesa da sagrada comunhão.</p>
<p>E foi essa a única vez na vida em que não foi possível conseguir distinguir a nobre filha do duque de Morancé, da humilde filha do lavrador Aubin!</p>
<p>A mesma alegria lhes enchia os corações, a mesma piedade se lia em seus olhos. Por um instante, foram irmãs perante os homens, como o eram diante de Deus.</p>
<p>Estas crianças, nascidas no mesmo dia, mas em tão diversas condições, tinham entre si uma afinidade misteriosa: as duas, embora muito diferentes, agradavam igualmente ao Senhor, uma pela sua humildade, submissão, amor ao trabalho e desejo de ser prestável segundo as suas fracas possibilidades; a outra pela sua generosidade, delicadeza, doçura para com os inferiores, bondade, caridade e elevação de alma.</p>
<p>Depois do dia da sua primeira comunhão, as duas encontraram-se na igreja: Beatriz ajoelhada no seu genuflexório de veludo, Luísa de joelhos na pedra fria. O mesmo raio de Sol caía por vezes sobre ambas, em cujas frontes brilhava a mesma piedade, a mesma candura e bondade e, a mesma paz de espírito.</p>
<p>Logo que Luísa acabou a manta de lã branca, Beatriz pediu-lhe que fizesse outra para oferecer a uma das suas amigas, o que era apenas um pretexto para lhe dar algum dinheiro a ganhar.</p>
<p>Luísa deitou-se ao trabalho com alegria. A tia Gervásia, como ela lhe guardava as vacas, passou a dar-lhe uma certa quantia por mês. Luísa ficou radiante com a perspectiva de ganhar assim a sua vida.</p>
<p>De tempos a tempos, nos seus passeios, Beatriz passava pelos campos, onde pastavam as vacas da tia Gervásia; encontrava Luísa a fazer malha ou a ler qualquer obra piedosa enquanto vigiava os animais e sentava-se junto dela. Informava-se da saúde, dos seus trabalhos, enquanto afagava Neve, a vaca preferida de Luísa.</p>
<p>A rica herdeira não desdenhava conversar durante muito tempo com a humilde camponesa, e estas conversas faziam bem às duas raparigas. Beatriz ficava a conhecer as várias particularidades dos trabalhos rústicos que ignorava, e Luísa escutava embevecida as narrativas de certos episódios da Bíblia e sentia-se como que elevada a seus próprios olhos, quando a pequena lhe falava dos tempos antigos, em que os filhos dos reis se ocupavam dos seus rebanhos e dos seus campos. O coração batia-lhe cheio de entusiasmo ao ouvir contar como uma pobre rapariga, uma simples pastora como ela, a pura e heróica Joana d&#8217;Arc, livrou a França ameaçada pelos ingleses e fez coroar, em Reims, o rei Carlos VII.</p>
<p>Oh! quanto reconforto é capaz de levar uma palavra amiga ao coração duma pobre e humilde cria tura!</p>
<p>A esmola mais generosa não tem tanto poder consolador, como uma palavra afectuosa. A verdadeira caridade sabe bem - isto e - nunca dá uma esmola sem que dê a outra.</p>
<p>Pedro Rigault</p>
<p>O Verão passou depressa para Luísa. Em Novembro a família Morancé deixou o castelo, o que a entristeceu bastante, apesar de Beatriz lhe prometer não a esquecer. Sentada à beira da estrada, a pobre camponesa viu através de lágrimas, que lhe embaciavam os olhos, afastar-se a carruagem que levava a sua grande amiga. Beatriz, ao avistá-la, acenou- lhe amigavelmente e, numa feliz inspiração, atirou-lhe, atada no seu lenço de rendas, uma esplêndida laranja. Luísa, sensibilizada com o gesto da duquesa, beijou o lenço, enxugou com ele as lágrimas que lhe corriam pelas faces, dobrou-o cuidadosamente e guardou-o como única lembrança da sua jovem benfeitora. Os factos que depois se deram, mais preciosa lhe tornou a delicada lembrança.</p>
<p>Pelo Natal, a tia Gervásia deixou a quinta de Morancé e foi morar com o filho que vivia a cerca de três léguas dali. Luísa, a quem ela convidara para a acompanhar, fê-lo de muito agrado, já pela gratidão que lhe devia, já porque o novo caseiro a achara demasiadamente nova e fraca para lhe guardar as vacas.</p>
<p>No entanto, o seu coração sangrava de pena porque, agora na Primavera, não poderia saudar a menina de Morancé, quando ela chegasse de novo ao castelo.</p>
<p>As estações sucederam-se, uma após outra, e Luísa nunca pôde afastar- se da quinta, onde os muitos trabalhos e preocupações a prendiam. E, assim, só tinha notícias da castelã pelas pessoas vindas de Morancé. E todas elas lhe diziam que Beatriz crescia em bondade e beleza.</p>
<p>Certo dia de Julho, pelo meio-dia, quando Luísa, sentada por entre o arvoredo, se dispunha a merendar o seu frugal pão e queijo, ouviu o som duma voz clara, que a obrigou a voltar-se.</p>
<p>Viu então um rapaz de dezasseis anos, aproximadamente, calçado de pesados socos de madeira. Vinha coberto de poeira e parecia afadigado pela grande caminhada feita. O desconhecido olhou-a e olhou sobretudo, com ar bastante significativo, para a merenda que ela se dispunha a comer.</p>
<p>Luísa compreendeu-o e, com a espontaneidade que caracteriza as pessoas de bom coração, perguntou- lhe:</p>
<p>- Tem fome? De muita boa vontade repartirei consigo o meu pão e o meu queijo.</p>
<p>- Ah, minha menina! Tão certo como me chamar Pedro Rigault, em como a minha fome iguala a minha sede. E se eu não receasse privá-la de parte das suas provisões, de bom grado me sentaria a seu lado, se mo permitisse.</p>
<p>- E porque não? Sente-se. Tem ar de quem está muito cansado.</p>
<p>Pedro Rigault não se fez rogar. Atirou com o saco para cima da erva e sentou-se ao lado de Luísa, que prontamente começou a repartir a merenda, guardando para si a menor porção.</p>
<p>Enquanto comia, o bom rapaz foi expondo o que lhe sucedera.</p>
<p>- Não quero que a menina fique a supor que sou um vadio. Não! Sou sapateiro de meu ofício. Desde muito novinho que faço calçado, principalmente socos que, sem vaidade, ficam muito bem feitos. Estava a trabalhar em Tours, mas o meu patrão dava-me mais pontapés e bofetões do que moedas, e confesso que isto não me agradava. Um dia, encontrei-me com Lessec que tem uma loja de calçado em Morancé. Precisa dum artista e eu combinei com ele ir trabalhar lá para a loja. Despedi-me do meu antigo patrão, peguei na minha trouxa e no meu dinheiro, que pouco era, e aí venho eu a caminho de Morancé. Infelizmente faltava-me a prática das viagens. No primeiro dia instalei-me numa hospedaria, comi, dormi e ao pagar a conta é que eu vi quanto esta era grande para a minha pequena bolsa. Paguei, mas fiquei depenado. Parti resolvido a dormir pelos palheiros e a comer um ou outro pedaço de pão seco, enquanto tivesse di nheiro para isso. Mas o demo do dinheiro sumiu-se e desde as cinco horas da manhã que eu ando a criar apetite sem ter, ao menos, uma triste moeda para comprar pão.</p>
<p>Luísa, que não tinha ainda tocado na parte da merenda que lhe coubera, deu-a a Pedro Rigault, com estas simples palavras:</p>
<p>- Leve-a que bastante mais falta lhe há-de fazer a si.</p>
<p>- Ah! mas essa é a sua parte.</p>
<p>- Pois sim, mas não tenho vontade de comer.</p>
<p>Rigault meteu o pão e o queijo no bolso e dispôs-se a seguir viagem.</p>
<p>- Muito obrigado, minha menina. Descanse que não fez esta esmola a um ingrato. Hei-de voltar a vê-la. Com se chama?</p>
<p>- Luísa Aubin.</p>
<p>- Adeus, menina Luísa e até breve. Costuma estar por aqui, não é verdade?</p>
<p>- Sim, mas não é preciso voltar a ver-me. De resto, tem que trabalhar muito, em casa do seu novo patrão; não vale a pena perder tempo por minha causa.</p>
<p>O rapaz atirou o saco para as costas, saudou Luísa com um adeus, e partiu.</p>
<p>A pequena já nem se lembrava de Rigault quando num domingo, ao voltar da missa da manhã, o avistou, ao pé da rapariga que a substituía, a guardar as vacas, na sua ausência.</p>
<p>- Bom dia, menina Luísa - e Pedro, ao mesmo tempo que lhe dirigia esta saudação, estendia-lhe a mão grossa e morena. - Com certeza que já não esperava ver- me.</p>
<p>- Sim, na verdade, não esperava vê-lo - respondeu Luísa um pouco acanhada. - Está contente com o novo patrão? - inquiriu, por simples cortesia.</p>
<p>- Não estou descontente. O patrão é um homem honesto. E a menina continua contente? Sabe que cresceu muito desde que a conheci?</p>
<p>- Talvez! Já tenho catorze anos.</p>
<p>- Agora vou-lhe mostrar que não a esqueci. Não sou rico, mas queria dar-lhe qualquer coisa, e então fiz-lhe um par de socos: Olhe.</p>
<p>- Muito obrigada. E que bonitos que são! Demasiadamente bons e bonitos para mim.</p>
<p>- Não diga isso. A menina tem um pé pequeno e verá como eles lhe ficam bem. Vê estes desenhos? Fui eu que os fiz. São engraçados, não são?</p>
<p>- Muito bonitos mesmo, mas eu não merecia que tivesse tanto trabalho comigo. O que fiz não tem valor nenhum.</p>
<p>- Pensei tanta vez em si e na sua bondade! Tive imenso prazer em fazer-lhe os socos!</p>
<p>- Vou experimentar se me servem.</p>
<p>Luísa calçou-os e, contente, começou a andar dum lado para o outro, batendo com os pés na terra dura.</p>
<p>- Estão-lhe perfeitamente.</p>
<p>- É verdade. Mas como conseguiu obter a medida do meu pé?</p>
<p>- Muito simplesmente. Sem que a menina desse por isso, tomei a medida na peugada que o seu pé tinha feito na terra e, como vê, não fui peco.</p>
<p>Luísa e Pedro ali se deixaram ficar, durante algumas horas a falar das suas vidas e dos últimos acontecimentos. Rigault contou que não tinha pai, que a mãe vivia numa aldeola afastada, que apenas tinha, para se sustentar, o produto da venda dumas flores que cultivava e o auxílio dos filhos mais velhos. Ele, Pedro, o mais novo, estava morto por ganhar o bastante para, também por sua vez, contribuir para o sustento da mãe.</p>
<p>Luísa, enquanto ouvia o seu amigo falar, descobria-lhe grandes qualidades, a par, é certo, dum feitio rude e por vezes brusco.</p>
<p>Estes dois seres tão experimentados da vida ligaram-se numa amizade sincera, em que Luísa na turalmente pôs a melhor parte, e Pedro o maior contentamento.</p>
<p>Aos domingos era certo e sabido vermos Rigault ao lado de Luísa, em conversa amena. Agora era ela que lhe cosia a roupa, fazia as meias, lhe cuidava dos mil e um nadas precisos na vida dum rapaz, sem família que cuidasse dele.</p>
<p>Nas festas da aldeia Pedro e Luísa dançavam sempre juntos e, como Rigault era um bom artista e ganhava menos mal, já podia presentear, de vez em quando, a sua boa amiga, ora com um xaile, ora com um avental, que com grande prazer lhe comprava na feira.</p>
<p>Um dia, Pedro veio despedir-se de Luísa, dizendo-lhe:</p>
<p>- Adeus, minha querida Luísa. Vou ver minha mãe, que está muito mal. Reze por ela, sim?</p>
<p>Ao fim de três semanas, Pedro apareceu muito triste e acabrunhado. Luísa adivinhou o que sucedera.</p>
<p>- Pobre Pedro!</p>
<p>- Sim, morreu, a minha querida mãe. Não supunha que havia de vê-la partir tão cedo! Nunca me poderei conformar com a sua morte.</p>
<p>Luísa compreendeu muito bem a dor do pobre rapaz e compartilhou o seu luto: nunca mais a viram nos bailes nem noutros divertimentos da al deia.</p>
<p>Pedro estava-lhe muito reconhecido por estes pequenos sacrifícios.</p>
<p>- Luísa - disse-lhe um dia Pedro -, tenho coisas muito importantes a tratar consigo, por isso quero falar-lhe diante da tia Gervásia. Já não sou empregado de Mathurin Lessec. Ele cedeu-me a loja e vou, a partir de agora, trabalhar por minha conta.</p>
<p>- Ah! como eu estou contente pela novidade que me dá.</p>
<p>- E pensei em casar - continuou Pedro.</p>
<p>- Vai casar?</p>
<p>- Sim. Não acha que faço bem?</p>
<p>- Certamente, se escolher uma mulher honesta, boa.</p>
<p>- Mas Luísa conhece-a perfeitamente - replicou Pedro estendendo a mão à amiga, que o olhava</p>
<p>entre tímida e satisfeita.</p>
<p>- Aceita, minha filha, aceita a mão deste ho nesto rapaz - interveio a tia Gervásia.</p>
<p>O coração de Luísa estremeceu de alegria e, num impulso de satisfação, colocou sobre a rude mão de Pedro a sua pequena mão.</p>
<p>A tia Gervásia abraçou Luísa tão comovida, como se fosse sua própria filha.</p>
<p>marquês de Méligny</p>
<p>Vejamos agora o que se vai passando, entretanto, no palácio da princesa.</p>
<p>A madrinha de Beatriz dava um baile magnífico e contava com a afilhada para nele brilhar como rainha. As horas, no entanto, passavam-se e não havia maneira de a menina de Morancé aparecer. Cerca da uma hora apareceu, finalmente, Beatriz, mas tão desfigurada, que a princesa foi ao seu encontro, cheia de cuidado e de inquietação.</p>
<p>- O que lhe aconteceu, minha querida?</p>
<p>- A mim nada, minha boa madrinha, mas venho horrorizada com um espectáculo que presenciei.</p>
<p>- Mas o que foi então?</p>
<p>- À saída de casa - expôs a Sr. a de Morancé</p>
<p>- quando a carruagem ia a voltar uma esquina, ouvimos gritos aflitivos e avistámos um desgraçado levado em braços, todo ensanguentado. Soubemos, então, que um trem o tinha atropelado. Para onde o havemos de levar?, era a pergunta embaraçada que chegava até nós. Beatriz, cheia de pena, olhou</p>
<p>para mim como a suplicar-me uma resolução. Confesso que me sentia também extremamente comovida. Fizemos transportar o ferido para a nossa casa e prestaram-se-lhe os primeiros socorros. Beatriz foi admirável de dedicação e caridade.</p>
<p>- Minha querida madrinha, creia que se não fosse por lhe causar desgosto eu não teria vindo a esta festa. Diga-me: como poderei dançar e divertir-me depois disto? O ferido, que é chefe duma familia pobre, vai ser muito bem tratado, é certo, mas o que será dos seus, sem o ganho do infeliz operário?</p>
<p>- Fizeste muito bem em vir, até mesmo para aliviarmos o infortúnio dessa desgraçada família. Vou associar todos os meus convidados a esta obra de misericórdia, começada por ti. Vem comigo. Vou contar esta história aos meus convivas e tu irás em seguida recolher as moedas que a sua caridade os levará a dar.</p>
<p>Fizeram calar, por um momento, a orquestra. A princesa falou, e mal Beatriz apareceu com uma bandeja a recolher as dádivas, choveram moedas de todos os lados.</p>
<p>A menina de Morancé apurou bastante dinheiro em todos os salões e finalmente chegou ao último, onde se tinham reunido os jogadores.</p>
<p>Mal Beatriz fez a sua entrada, todos os homens se levantaram, tocados pelo encanto da sua graça. Nem um só deixou de contribuir generosamente para uma tão simpática obra de caridade.</p>
<p>Chegada que foi em frente dum elegante rapaz, que a seguia com os olhos desde a sua entrada, Beatriz estendeu-lhe a salva de prata onde ele deitou todas as moedas de ouro, que empilhara na mesa de jogo. Fê- lo, porém, com tal precipitação, que algumas moedas rolaram pelo chão em todos os sentidos.</p>
<p>Beatriz baixou-se para as apanhar, mas o elegante moço não lho consentiu, dizendo-lhe:</p>
<p>- Não, minha <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/senhora" >senhora</a>, não se incomode - e, tirando da algibeira umas poucas de notas, deixou-as cair na bandeja ao mesmo tempo que Beatriz o olhava cheia de admiração.</p>
<p>- Já que a Providência permitiu que eu pudesse ser caridoso por seu intermédio, deixe, minha senhora, que o faça com generosidade.</p>
<p>- Oh! muito obrigada, senhor, muito obrigada, em nome dos meus pobres.</p>
<p>Depois, perguntou à madrinha:</p>
<p>- Como se chama este rapaz tão generoso?</p>
<p>- O marquês de Méligny, minha filha.</p>
<p>- É um nobre coração - volveu Beatriz, comovida.</p>
<p>Alguns momentos depois, o marquês de Méligny convidou Beatriz para dançar. E, à despedida, veio pedir à duquesa de Morancé licença para ir saber notícias do ferido.</p>
<p>Seis meses depois destes acontecimentos, Beatriz de Morancé e o marquês de Méligny uniam para sempre os seus destinos.</p>
<p>Uma aliança mais perfeita nunca se vira até então. O marquês pelas suas qualidades morais, nobreza e fortuna, era bem o digno noivo desta graciosa rapariga que, sendo muito bela, ainda brilhava mais pelas suas raras qualidades de carácter.</p>
<p>A capela estava ricamente adornada: tapetes caros, lustres, flores, veludos; tudo isto lhe realçava a beleza própria. À porta, a multidão apinhava-se para ver o desfilar do cortejo.</p>
<p>O velho prior que tinha baptizado Beatriz, abençoou este casamento, onde tudo - fortuna, nobreza e bondade - se reunia para a felicidade dos noivos.</p>
<p>No mesmo dia, diante da imagem da Virgem, um sacerdote unia Luísa e Pedro pelos laços do ma trimónio.</p>
<p>Luísa seria bela, muito bela mesmo, não fora a pele crestada pelo tempo e um certo cansaço nas feições.</p>
<p>À saída da capela, Luísa pousava a sua na mão calosa de Pedro, e assim saíram felizes, sem pompas, sem carruagens, sem cortejo. Felizes, porque se queriam com ternura. Luísa apoiava-se com confiança no braço daquele bom e honesto rapaz que a escolhera para sua mulher, e Pedro, cheio de orgulho, amparava a fresca rapariga que, por sua bondade, lhe conquistara para sempre o coração.</p>
<p>Aniversário de Beatriz</p>
<p>Festejava-se, no castelo de Morancé, o aniversário de Beatriz. Reuniram-se ali os amigos da família.</p>
<p>Seis anos tinham decorrido desde o casamento da senhora de Méligny e, no entanto, havia no seu rosto a mesma pureza de traços, a mesma expressão simples que encantava todos os que a olhavam.</p>
<p>A vasta sala, a larga mesa carregada de cristais e pratas, os grandes vasos de porcelana com flores raras, tudo isto, enfim, formava o fundo onde se destacava a graça fresca das encantadoras primas da <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/marquesa" >marquesa</a>; a aristocrática cabeça da duquesa de Morancé, a não menos fidalga cabeleira branca do avô, junto do qual se viam brincar os dois filhos da <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/chocolate-chuva" >marquesa</a>, Cora e Renato, cujos perfis tentariam por certo os mais afamados pintores.</p>
<p>Todos os que cercavam a senhora de Méligny, tão amável, tão linda, tão espirituosa; todos os que admiravam a sua beleza e o seu luxo, e viam brilhar no seu riquíssimo vestido as esplêndidas esmeraldas que o adornavam, todos os que diziam como é bela!&gt;&gt; ignoravam talvez que os pobres quando a viam murmuravam comovidos &lt;&lt;como é boa! &gt;&gt;.</p>
<p>Na verdade, esta senhora tão bonita e tão inteligente guardava no coração um imenso tesouro de bondade. A sua caridade envolvia todos os que a cercavam numa atmosfera de santidade; nada a afastava dos seus pobres; nada lhe repugnava; os deserdados, os enfermos, os pecadores mesmo; todos eles conheciam de quanto era capaz a ternura da sua grande alma. Sempre em toda a parte onde houvesse um necessitado, Beatriz de Méligny aliviava os males duns, escutava as queixas doutros, encorajava os arrependidos, semeando o bem com as mãos e a alma pródigas de bondade. A par disto uma modéstia ilimitada. Nunca falava do bem que fazia e nunca permitiu a maledicência em seus salões.</p>
<p>Quantas vezes, o marido, louvando-a pela sua atitude, a ouvia responder:</p>
<p>- Meu Deus! Não sou santa e receio enganar- me em meus juízos. Não será melhor desculpar do que acusar? Quem sabe do que seríamos capazes se tivéssemos nascido no mesmo meio que certos pecadores?</p>
<p>E ouvindo-a falar com tanta generosidade, os mais intolerantes davam- lhe razão.</p>
<p>No dia de seus anos, dia em que a filha se apresentava, pela primeira vez, na sociedade, a duquesa de Méligny desceu as escadarias encaminhando Cora para o salão, onde dentro em pouco começaria o baile. A sua entrada foi saudada com entusiasmo, mas, quando após a primeira quadrilha, a senhora de Méligny se retirava para dar umas ordens, foi abordada por uma rapariguita do campo, que se dirigiu na maior das aflições:</p>
<p>- Senhora marquesa! A minha avó está a morrer e mandou-me cá pedir- lhe para a ir ver, nem que fosse por um instante apenas. Eu compreendo que não era dia para vir cá, mas o que havia de fazer?</p>
<p>Como se chama a tua avó?</p>
<p>- Joana, minha senhora, a paralítica que mora no casebre, junto à igreja.</p>
<p>- Coitada! Bem sei! Entra que eu volto já.</p>
<p>Efectivamente, cinco minutos depois, aparecia a marquesa. Não mudara sequer de vestido. Apenas atirara sobre os ombros uma capa de seda preta. Mandou entregar, à pequenita, um cesto com alimentos, roupas, vinho, etc.</p>
<p>- Minha senhora, não quer que eu vá consigo?</p>
<p>- perguntou a criada.</p>
<p>- Não, Júlia. Vou bem assim. O tempo está bom e de resto o caminho é curto. Não digas nada a ninguém. Dentro de minutos estarei de volta.</p>
<p>Bem depressa chegaram ao casebre onde Joana agonizava.</p>
<p>A pobre paralítica, estendida no seu leito, tinha já impressos, no rosto pálido, os sinais evidentes da morte próxima.</p>
<p>Dentro do quarto uma vela alumiava mal o triste cenário e o coração cerrava-se de pena ao entrar- se no pequeno aposento, onde o silêncio era apenas quebrado pelos soluços duma rapariguita, ajoelhada aos pés da miserável cama e pelos ais angustiosos da moribunda.</p>
<p>Mal avistou a marquesa, a pobre Joana pareceu criar alento. Com esforço tentou soerguer-se e, estendendo-lhe a mão húmida e gelada, disse-lhe numa voz débil:</p>
<p>- Que bem me faz a sua presença! Não esperava tornar a vê-la e desejava-o quase tanto como a visita do nosso bom Abade.</p>
<p>- Vá, não fale; não se fatigue. Deixe que a ajude a colocar-se melhor. - E, auxiliada pela neta da paralítica, a Sr. a de Méligny ajeitou-lhe os lençóis e a almofada.</p>
<p>- Muito obrigada, muito obrigada, minha senhora. Agora, tenho um pedido a fazer-lhe. Morro; sinto que a morte não tarda. Vou deixar os meus netos com esta velha cabana e algum dinheirito que para aí tenho, e que bem pouco é. Não me queria ir embora deste mundo sem que a senhora marquesa me prometesse tomar, sob a sua direcção, os meus netinhos. Gostaria tanto que a Tónia fosse aprender costura e que o Júlio frequentasse a escola, até ao dia em que pudesse trabalhar!</p>
<p>- Prometo que tudo se fará como deseja, minha pobre Joana - disse a marquesa, puxando para si os dois pequenitos.</p>
<p>- Nosso Senhor a abençoe, minha senhora. Joana beijou a mão da marquesa com piedoso respeito.</p>
<p>- Vá-se embora, minha querida senhora. Não se prenda comigo. No castelo hão-de já estar inquietos com a sua ausência.</p>
<p>- Não quero deixar-te esta noite.</p>
<p>- Ah! minha senhora! Estou à espera do senhor Abade e, com ele, virá toda a paz de que necessito.</p>
<p>- Então, adeus. Estou satisfeita por a ver tão sossegada. Antónia, aí te deixo roupas e tudo o que possa ser preciso à tua avozinha. Trata- a bem, ouviste?</p>
<p>E, beijando os dois pequenos, a marquesa saiu do pobre aposento, onde trouxera um pouco de paz e de consolação.</p>
<p>No castelo já todos se inquietavam com a sua ausência, mas, assim que a viram aparecer, mais alegre e mais fresca, ficaram absolutamente tranquilos.</p>
<p>O marquês, habituado à sua maneira de ver, adivinhando o motivo do seu desaparecimento, beijou-lhe a mão, dirigindo-lhe uma pequena censura, envolta no mais afectuoso dos sorrisos.</p>
<p>O asilo</p>
<p>O Sol dourava apenas a seda das cortinas do quarto, quando a marquesa abriu os olhos. Olhou para o relógio e viu que marcava seis horas e vinte minutos.</p>
<p>- Ah! já estou vinte minutos atrasada - exclamou ela. - O que dirão de mim os meus pequenitos?</p>
<p>A criada de quarto abriu com precaução a porta, mas Beatriz já estava a pé.</p>
<p>- Pensava que a senhora marquesa ainda estava deitada. A senhora deitou-se tão tarde!.</p>
<p>- Fui muito preguiçosa hoje. Olha que já são seis e meia. Não imagines que vou abandonar os meus pequenitos lá porque ontem foi o meu dia de anos e dancei até tarde. Depressa, Júlia, dá-me o meu vestido preto, arranja-me o cabelo como quiseres, contando que eu esteja penteada dentro de poucos minutos.</p>
<p>Acabaram justamente de dar sete horas quando a marquesa deixou os seus aposentos. Esta senhora, tão admirada e festejada ontem, ali ia, sozinha, modestamente vestida, a caminho da aldeia que confinava com o seu castelo. Quando a maior parte das pessoas ainda dormia, andava ela a exercer a caridade, importando-se pouco com a fadiga, própria duma noite mal passada.</p>
<p>Como se habituara, desde novinha, a levantar-se muito cedo, fazia-o sempre, mesmo quando se tinha deitado tarde na véspera.</p>
<p>Na extremidade da vila, podia ver-se uma casa branca, construída há pouco, tendo a cercá-la um belo jardim. Ora, era aí justamente para onde se dirigia todos os dias, às sete horas da manhã, a senhora marquesa de Méligny.</p>
<p>A casa fora mandada construir pela própria marquesa e fora ela mesma quem desenhara os canteiros do jardim e todo o plano da casa. Nesta fizera um asilo para nele se abrigarem todos os órfãos não só da vila mas também dos arredores. Para isso vendera, um dia, parte das jóias. O marquês bem lhe fizera algumas objecções, mas tudo fora em vão.</p>
<p>A boa senhora consagrava parte da sua vida a esta grande obra de caridade, que lhe enchia o co ração de alegria. No fim dum ano já havia no asilo mais de vinte órfãos, dez rapazes e onze raparigas que, graças à marquesa de Méligny, recebiam alimentos, instrução e carinho.</p>
<p>Esta manhã reinava uma grande agitação na aula; olhavam com impaciência o relógio, e as cabecitas inquietas estavam semiescondidas por grandes ramos de flores. De vez em quando ouvia-se uma vozita dizer: &lt;&lt;A senhora já vem&gt;&gt;. E até mesmo um pequenito começou a choramingar. Nisto a porta abriu-se e a marquesa apareceu.</p>
<p>A Sr. a de Méligriy relanceou um olhar cheio de ternura por toda esta assembleia. O barulho desapareceu como por encanto; cada pequenito empu nhava em silêncio o seu ramo de flores.</p>
<p>A professora fez-lhe um gesto amistoso e, imediatamente, se destacou, de entre a pequenada, uma garotita que se aproximou da marquesa, a cumprimentou e recitou uns versos compostos em sua honra.</p>
<p>Mal acabou, lançou-se nos braços da sua benfeitora, chorando de emoção. E logo todos os outros pequenitos e pequenitas se aproximaram, rodeando- a de flores.</p>
<p>Estas cabecitas louras ou morenas, estas flores com todo o seu variado colorido, esta nobre e simpática senhora, estendendo os seus braços às pobres criancinhas - tudo isto formava um conjunto de beleza sem igual.</p>
<p>- Agora - disse a marquesa de Méligny, após ter afagado o seu pequenino mundo - é preciso agradecermos a Nosso Senhor os benefícios que nos concedeu; depois, vamos pedir-lhe para que os faça a todos, muito bons e obedientes.</p>
<p>Beatriz levantou os olhos ao Céu e assim começou a bela oração que Cristo nos legou:</p>
<p>&lt;&lt; Pai nosso. &gt;&gt;</p>
<p>Quando acabou de rezar, começou, como o fazia todas as manhãs, a perguntar-lhes o que haviam feito e como se tinham comportado.</p>
<p>Depois, dirigindo-se à professora, a marquesa pediu-lhe, com aquela graça natural que todos lhe conheciam :</p>
<p>- Já que os nossos pequenitos se portaram tão bem, é justo que se lhes dê um feriado, não acha?</p>
<p>- Vejam, meus filhos, como a senhora marquesa é boa - volveu a professora, dirigindo-se àquele inquieto rebanho de crianças de várias idades. - Vá, agradeçam esta graça, que a senhora marquesa lhes faz.</p>
<p>Não era preciso aconselhar-lhes que o fizessem. Mil gritos de alegria se elevaram de todas aquelas bocas. Assim que se lhes abriu a porta para o jardim, o bando de crianças lá foi em franca correria e por toda a parte reinava a satisfação e a alegria que se mostravam em risos, em jogos e em saltos e cabriolices.</p>
<p>A marquesa voltou para o castelo, levando nas suas mãos fidalgas as flores que trouxera do asilo.</p>
<p>Entrou no quarto, colocou um dos ramos numa jarra chinesa, em seguida mudou de vestido e desceu ao jardim.</p>
<p>Ninguém diria ao vê-la tão calma e bem disposta que tinha dormido apenas quatro horas.</p>
<p>Depois sentou-se a acabar as peças dum enxoval para uma criança pobre.</p>
<p>Nisto, o marido aproximou-se dela.</p>
<p>- Diz-me, querida. Não tenho razão quando digo que tu preferes os teus pobres aos nossos amigos? Ainda ontem deste provas disso.</p>
<p>- Bem vês que era caso de urgência e ainda assim não me demorei muito.</p>
<p>- Por mim acho que foi tempo de mais.</p>
<p>- Ah! não me atormentes. Bem sabes que é o único ponto em que não cedo.</p>
<p>- Está bem; calo-me, mas consente que te abrace, desejando-te muitas felicidades e que te dê o presente que te devia dar ontem. Chegou hoje mesmo de Paris.</p>
<p>E o marquês apresentou a sua esposa um magnífico escrínio onde repousavam, sobre veludo azul, duas miniaturas de crianças, cercadas por esplêndidos brilhantes.</p>
<p>- Os meus queridos filhos! - exclamou Beatriz. - Apenas as suas adoradas cabeças me fazem perdoar-te o teres gasto tanto dinheiro em jóias.</p>
<p>- Foste tu quem me ensinou a comprar eu próprio as tuas jóias. Todo o dinheiro que vai para as tuas mãos corre delas para outras, para as mãos dos pobres.</p>
<p>- Obrigada, meu amigo, por toda a ternura que envolve este presente, estas duas miniaturas tão amadas.</p>
<p>- Estão bem longe dos modelos - disse o marquês abraçando Cora e Renato, que entravam neste momento.</p>
<p>A adopção</p>
<p>Ao passo que a felicidade e a união reinavam no castelo de Morancé, o trabalho e a pobreza entravam como senhoras na casita da pobre Luísa Rigault.</p>
<p>Desde a sua primeira comunhão até ao seu casamento, Luísa viveu com a tia Gervásia a algumas léguas de Morancé. Quantas e quantas vezes a pastora interrogou as pessoas da sua aldeia natal que vinham tratar dos negócios à aldeia onde agora morava e, quantas vezes, também ela pediu a Nosso Senhor que lhe desse a ventura de a aproximar do castelo onde morava a sua antiga benfeitora. Um dia, Beatriz obtivera da sua preceptora licença para ir visitar a tia Gervásia. Luísa pensou que a visita era para ela e ficou-lhe bastante reconhecida.</p>
<p>- Sente-se feliz, minha boa Luísa? - perguntou-lhe a jovem castelã.</p>
<p>- Oh sim, Muito feliz.</p>
<p>Bom poderia ela ter acrescentado, pois isso correspondia bem à verdade: &lt;&lt;e hoje mais do que</p>
<p>nunca&gt;&gt;.</p>
<p>Beatriz deu-lhe alguns presentes e em cada Verão, quando voltava de Paris, lhe mandava pequenas lembranças.</p>
<p>Luísa, mais tarde, também foi a Morancé e visitou a sua benfeitora. Foi mesmo esta quem deu o vestido de noiva. Chegado o Inverno, a marquesa ia para Paris, mas, mal começava o Verão, lá voltava ela a Morancé, onde ficava alguns meses. Todos na terra se alegravam com o seu regresso principalmente Luísa que esperava ansiosa a visita</p>
<p>da marquesa. Chegava mesmo a ir até meio da estrada a ver se avistava de longe a sua carruagem. Cada dia que passava lhe trazia uma desilusão e cada um que surgia lhe criava uma esperança. E a casa andava muito varrida e desencascada como se fosse um dia de festa.</p>
<p>Pedro vinha de fora, carregado de flores, e as crianças, nos seus vestidos domingueiros, espreitavam entre tímidas e curiosas a tão almejada visita. Enfim, Beatriz chegou. Ao ver essa casa tão modesta mas tão cheia de alegria, não duvidou, nem um só momento, da felicidade que ali habi tava.</p>
<p>Vamos encontrar Luísa sentada na soleira da porta, a acabar um vestido de chita para a filha mais velha levar no domingo à missa. Para todos os que passavam, Luísa tinha um cumprimento amigo.</p>
<p>Um choramingar rabugento leva-a a correr para junto do berço do filho mais novo; depois dá uma volta pela cozinha, sopra o lume, mexe a panela; seu marido pode chegar dum momento para o outro e é preciso atender a tudo. Luísa mudou muito nestes últimos seis anos: a pele perdeu a frescura da juventude; as fadigas envelheceram-na prematuramente, mas já não tem o ar triste e inquieto da sua meninice. Gosta-se de olhar para esta cara onde se lê a paz e a doçura. É certo que passou noites perdidas, fatigou-se bastante, mas todos estes trabalhos fê-los de bom grado porque os consagrou aos entes bem amados.</p>
<p>De dia trabalhava com afinco nos tamancos para ajudar o marido, além de fazer todos os arranjos caseiros; à noite, curvada à luz da vela, cosia e remendava as roupas já velhas, ou ainda fazia renda para vender e assim ganhar mais umas módicas quantias.</p>
<p>No momento em que de novo a encontrámos, vamos achá-la rodeada de quatro pequenitos. 0 mais velho começava nesse ano a ir à escola e os outros, por serem mais pèquerruchos, exigiam, a cada momento, os seus cuidados. Luísa, activa e piedosa, agradecia a Deus, apenas, trabalhos e alegrias. Mágoas, sentia-as e grandes quando algum velhinho, curvado pelos muitos anos, vinha bater-lhe à porta a pedir- lhe esmola. Corada de vergonha, por não lhe poder dar quanto desejava, Luísa metia-lhe um pedaço de pão nas mãos trémulas, dizendo: &lt;&lt;Desculpe não ter mais nada que lhe dar, mas também sou pobre, como vê&gt;&gt;.</p>
<p>54 JULES DE PEYRRONY</p>
<p>Olhando estas misérias, Luísa quantas vezes se temia do futuro.</p>
<p>Conceder-lhe-ia, ao menos, o Senhor um bocado de pão para dar aos pobres? Se o marido adoecesse, uma vez que fosse, essa doença poderia atirá-los para a mais negra miséria.</p>
<p>&lt;&lt;Talvez chegue um dia em que as boas cores desapareçam das faces dos meus filhos e em que as suas bocas me peçam pão, sem que eu lho possa dar&gt;&gt; pensava Luísa.</p>
<p>Depois, confiada na bondade divina, Luísa fazia saltar sobre os joelhos o pequenino Tiago e assim as nuvens negras passavam.</p>
<p>Ora uma noite, o marido entrou em casa morto de cansaço e de acabrunhamento.</p>
<p>- Que tens, meu bom Pedro?</p>
<p>- Que hei-de ter? A renda tem de ser paga dentro de três dias e não tenho nem uma reles moeda. Passei por casa de todos os que me devem dinheiro: de João Lubin que me deve oito pares de calçado; do tio Mateus que nunca está contente com a obra, mas que nunca a paga; até do médico que exige bom trabalho, mas que não dá dinheiro a tempo, e todos, todos enfim me respondiam o mesmo: &lt;&lt;Passe por cá outro dia&gt;&gt;.</p>
<p>- Calma, meu amigo. Iremos prevenir o dono da casa e ele por certo não nos quererá prejudicar.</p>
<p>- Isso é verdade, minha querida Luísa. As tuas palavras animam-me. Como és corajosa! Trabalhas mais do que eu ainda, e nunca perdes a paciência.</p>
<p>Eu perco-a porque te vejo a trabalhar mais do que podes e, no entanto, apesar do teu esforço e do meu, continuas a ser a mais pobre da aldeia.</p>
<p>- Mas eu não me sinto triste, por isso. Dê-nos Deus saúde a todos e isso me basta.</p>
<p>Depois desta conversa, serviu-se a sopa e todos se sentaram à volta da mesa. As crianças acorreram contentes e a mais novita, cambaleando ainda, nas pernitas fracas, sentou-se junto da mãe. E o jantar decorreu, quanto possível, alegre.</p>
<p>Mal acabou de jantar, Luísa foi buscar uma caixa que devia conter algum dinheiro. Chocalhou-a e viu que estava muito leve. Efectivamente, poucas moedas lá havia. Faltavam ainda bastantes para perfazer a renda.</p>
<p>Como resolver a situação?</p>
<p>Na manhã seguinte, mal o dia despontava, ela pegou no cofre, no terço de prata, na mantilha valenciána do seu casamento, na cruz de ouro e nuns brincos que tinha.</p>
<p>&lt;&lt;Talvez que com tudo isto possa obter o dinheiro que falta. &gt;&gt; E partiu para a cidade.</p>
<p>Deram-lhe não só o que ela queria como até mais umas moedazitas, que guardou para qualquer despesa eventual.</p>
<p>Custou-lhe, é certo, separar-se daqueles objectos que tanto estimava mas, deixá-lo, com aquele dinheiro resolvia a crise actual.</p>
<p>Quando ia a entrar na aldeia ouviu um choro abafado sair de entre o trigo alto. Dirigiu-se para o sítio de onde partia o choro e viu uma criancinha com oito meses aproximadamente, envolta em velhos trapos. Estava ali abandonada pela mãe, condenada a morrer de fome. Ao ver o pequenino ente, o seu coração enterneceu-se. Logo se lhe apresentou na mente o pequenito Tiago, atirado sobre a erva, desfazendo-se em lágrimas, cheio de fome. Pegou na criança que lhe estendia os braços e, aconchegando-a a si, exclamou, com ternura:</p>
<p>- Meu pobre anjinho! Deixa que não perdes nada. Enquanto restar a Luísa Rigault forças para ganhar o pão de cada dia, tu terás a tua parte.</p>
<p>E dizendo isto, lá foi seguindo o seu caminho com a criancinha nos braços.</p>
<p>Ao aproximar-se de casa começou a temer o que o marido lhe pudesse dizer. Justamente agora que estavam nas mais precárias circunstâncias é que ela trazia mais uma boca para casa? Deixá-lo! Deus tinha-lhe posto esta criança no caminho, competia-lhe cuidar dela, como se fosse sua.</p>
<p>Antes de entrar, escondeu a criancinha sob o xale. Chegou-se então ao pé do marido e, apresentando- lhe as moedas disse-lhe:</p>
<p>- Aqui tens, Pedro. Vês que Deus não nos abandona?</p>
<p>- Onde foste buscar este dinheiro?</p>
<p>- Como? Esse é o meu segredo.</p>
<p>- Demoraste-te muito. Acaso o foste pedir?</p>
<p>- Não! Desfiz-me dumas coisas que não me serviam para nada.</p>
<p>- Vendeste o teu oiro?</p>
<p>- Sim! E então? Tinha objectos que não me serviam para nada; troquei- os por estas moedas que vêm trazer a tranquilidade à nossa casa.</p>
<p>- Minha querida Luísa! Como tudo isto me entristece!</p>
<p>- Agora ouve-me e promete-me não te zangares comigo. Tu sabes que, quando as aves constroem os ninhos no beiral dos nossos telhados, isso é sinal de felicidade. Pois bem! Nosso Senhor mandou-nos um passarinho sem ninho, apanhei-o e trouxe-o para nossa casa. Aqui o tens.</p>
<p>E dizendo isto, Luísa depositou a criancinha sobre os joelhos do marido.</p>
<p>- Ah! É então uma criança? Não nos bastavam as que temos? Vai levar o pequenito onde o encontraste, que, ficar com ele, seria rematada loucura.</p>
<p>Luísa não respondeu. Pegou na criança e deixou-lhe cair na boca algumas gotas do seu próprio leite.</p>
<p>- Agora já é meu filho. Olha bem para ele. Terás ainda coragem para me aconselhar a abandoná-lo? Vá, peço-te. Faz esta boa acção e Deus te recompensará. Foi o Céu que nos deu esta criança.</p>
<p>- Gente pobre como nós, bem pode dispensar tais esmolas.</p>
<p>Luísa encolheu os ombros, foi deitar a criança ao lado do seu pequèno Tiago e voltou para junto do marido, que se conservava amuado.</p>
<p>Quando chegou a hora de repousarem os corpos cansados do trabalho, Pedro estendeu a mão à mulher, dizendo-lhe:</p>
<p>- Vamos, mulher, nada de zangas entre nós. Que a nossa noite não se passe com um mal-entendido entre ambos. Traz-me lá então esse garotito.</p>
<p>Luísa, comovida, pegou na criança adormecida e levou-a ao marido. O pequenito abriu os olhos à luz que Ihos encadeava e sorriu. Este sorriso decidiu o seu destino. O honesto Pedro abraçou com ternura o pequerrucho.</p>
<p>- É, na verdade, bonito.</p>
<p>- Ficamos com ele, não é?</p>
<p>- Certamente que sim. Então depois de o abraçar, como abraço o nosso Tiago, havia de o mandar embora? Que seja mais um filho nosso e que Deus nos abençoe.</p>
<p>- Tu tens um grande coração. Nunca duvidei da tua bondade. E verás que Deus nos há-de recompensar pelo que agora fazemos.</p>
<p>Alguns dias após a chegada do pequenito, a quem Luísa baptizou com o nome de Luís, foi festejado o aniversário da Sr. a Rigault.</p>
<p>Pedro trouxe-lhe uma capa de lã em tudo semelhante à do pequenito Tiago. Luísa compreendeu a delicadeza do marido, que soube dar-lhe assim a melhor prenda de anos, trazendo para a criança adoptada um agasalho igual ao do seu próprio filhinho.</p>
<p>- Era o dia dos teus anos e visto que o adoptámos é justo que o tratemos como nosso verdadeiro filho, não achas?</p>
<p>As crianças foram crescendo, alimentadas com o mesmo leite, amparadas pelas mesmas mãos, amadas com a mesma dedicação e carinho. Apenas Luísa teve mais trabalhos e canseiras.</p>
<p>E assim, sob o olhar de Deus, estas duas mulheres, Luísa e Beatriz, iam espalhando o bem pela Terra, cada uma segundo o seu meio e possibilidades.</p>
<p>Beatriz e Luísa</p>
<p>O tempo passou. As crianças do castelo e as da casita humilde foram-se criando e crescendo. Para pagar as despesas que aumentavam com a vinda de mais uma boca, Luísa poupava em tudo: não fazia senão de três em três anos algum vestido para si; cosia e recosia os vestidos já velhos; tirava à sua própria boca; trabalhava até altas horas da noite e o dinheiro que ganhava, pode-se bem dizer que era o fruto das suas pequenas forças e do seu grande coração.</p>
<p>Beatriz prodigalizava ouro e saúde.</p>
<p>Muitas vezes, ao domingo, após a visita aos seus pobres, dava-se ao prazer de ir em passeio, através das ruas cheias de sombra do bosque da Touraine, cheias do perfume das ervas e das flores. Estes passeios davam-lhe saúde; sentia-se bem disposta no meio da calma da Natureza; parecia estar assim mais perto de Deus, em maior comunhão com Ele.</p>
<p>Certo dia, encontrou à beira da estrada uma criança de cinco anos aproximadamente. Estava vestida com pobreza, mas muito limpa. Chorav ao pé dum cesto vazio.</p>
<p>- Que tens, meu amiguinho? Porque choras?</p>
<p>- perguntou-lhe, cheia de interesse, a senhora d Méligny.</p>
<p>- Ai, minha senhora - respondeu a criançaperdi-me no bosque, e não sei como hei-de voltar para casa.</p>
<p>- Perdeste-te? Vamos, enxuga as lágrimas que eu vou levar-te a tua mãe.</p>
<p>- Ela está em Morancé e disse-me depois da missa: &lt;&lt;Tiago, leva este calçado a casa do tio Francisco Pitou&gt;&gt;. E eu disse-lhe: &lt;&lt;Pois sim&gt;&gt;, e abalei. Conheço bem a casa do tio Francisco e para lá nã me enganei, mas à volta é que não acertei com o caminho e perdi-me.</p>
<p>A marquesa enxugou carinhosamente as lágri mas do garotito e perguntou-lhe:</p>
<p>- Queres vir comigo? Vou levar-te a casa da tua mãe.</p>
<p>- A senhora? Não, a senhora não pode. É muito longe daqui.</p>
<p>- Pensas que eu não sei andar? Diz-me lá o nome da tua mãe.</p>
<p>- É Luísa e meu pai é o Rigault, o sapateiro da aldeia.</p>
<p>- Rigault? O marido da minha boa Luísa? Vem! Vamos os dois dar um grande passeio.</p>
<p>Beatriz, com efeito, pegou na mãozita de Tiago e lá foram ambos a caminho da casa de Rigault, Ao passar pelo castelo, o tempo mudou, como por encanto. Grossas nuvens negras corriam pelo céu; Não tardou a ouvir-se um trovão e a criança, cheia de medo, aconchegou-se à sua protectora e</p>
<p>Começou a chorar.</p>
<p>- Ai como a mãe vai estar aflita por minha</p>
<p>causa! - exclamou a criança entre soluços. Agora anda ela à minha procura, por toda a parte.</p>
<p>- Deixa que dentro de cinco minutos estaremos em tua casa.</p>
<p>E, dizendo isto, a marquesa pegou no pequenito ao colo, tapou-o com a capa e, assim mesmo carregada, começou a correr na direcção da aldeia.</p>
<p>A criança, já refeita do susto, encostava a cabeça morena nos ombros da sua protectora.</p>
<p>Quando ela chegou à casita de Luísa, corada pelo esforço que fizera, já o seu vestuário perdera toda a graça. A marquesa bateu à porta e Luísa, ao ver Tiago rindo de satisfação, nos braços da senhora, ficou tão estupefacta, que nem sabia o que dizer.</p>
<p>- Aqui está o seu pequenito. O pobrezinho perdeu-se e eu vim trazê- lo, para seu sossego e dele.</p>
<p>- Oh! que assustada eu estava, e como a senhora marquesa foi boa!</p>
<p>- Mas, também, está toda molhada. Aonde foi?</p>
<p>- Andei à procura do meu filho e o pai ainda continua em busca dele. Mas, ó senhora marquesa, venha secar os seus vestidos à lareira.</p>
<p>Beatriz ajudou a vestir o pequerrucho, e, enquanto as roupas secavam, as duas mulheres trocavam palavras cheias de ternura e de amizade.</p>
<p>- Já tenho visto a menina Cora. Parece-se tanto com a senhora marquesa!</p>
<p>Quando Beatriz entrou no castelo ia cheia de febre. O médico, chamado a toda a pressa, declarou que o seu estado era grave. Esteve seis semanas, entre a vida e a morte. Durante todo este tempo, uma mulher, cheia de ansiedade, ia todos os dias, acompanhada pelos filhos, saber notícias da doente. Não só os pobres, mas todos os habitantes da aldeia, faziam votos e preces para que a marquesa se salvasse, e o velho Abade rezou várias missas por piedosa intenção. Enfim, a marquesa venceu o combate com a ajuda da sua mocidade e sem dúvida porque Deus não quis privar os pobres da sua tão caritativa benfeitora.</p>
<p>Em Morancé festejou-se, com grande alegria, o restabelecimento da senhora de Méligny quando ela apareceu, ainda bastante pálida, entre o marido e os filhos, lia-se, em todos os rostos, maior contentamento. Uma emoção celestial esp lhava-se em toda a sua pessoa. E, quando desceu da carruagem, foi aclamada, com entusiasmo, p los pequeninos do asilo que ali estavam nos seus fatos domingueiros, a oferecer-lhe flores.</p>
<p>Beatriz, ao sair da igreja, levou consigo os seus protegidos e no parque do castelo, à sombra de grandes árvores, foi servida uma esplêndida merenda. À mesa dos mais velhinhos presidiu a próPria marquesa.</p>
<p>À noite, Cora abriu o baile com Germano Rigault, o mais velho dos filhos de Luísa. O baile foi</p>
<p>animado, embora durasse só até à meia-noite.</p>
<p>- Durante muito tempo se falou nesta festa e, quando a marquesa foi passar os seis meses mais frios a Paris, os pobres diziam, ao olhar as janelas fechadas do castelo:</p>
<p>- Ah! se saísse fumo daquelas chaminés, não</p>
<p>haveria quem sentisse frio nestas cinco léguas mais próximas.</p>
<p>A partida</p>
<p>Mesmo de longe, a marquesa continuava a ocupar-se das suas obras de caridade, principalmente do asilo, mas só ela sabia fazer o bem com aquela elegância que torna ainda mais bela a caridade. Por isso, os seus protegidos lhe sentiam a falta. Sim, eles eram bem tratados, mas não se sentiam felizes senão com a presença da sua querida benfeitora.</p>
<p>É que nem só o ouro alivia os males; a piedade, essa espalha-se como um bálsamo suave por sobre todas as dores. Infelizmente, à medida que Cora e Renato cresciam, mais se espaçavam as suas vindas ao castelo.</p>
<p>A marquesa quis educar, ela própria, a filha e manter, junto de si, até o mais tarde possível seu filho Renato.</p>
<p>Durante o Inverno, os dois irmãos recebiam lições de professores ilustres, a que a mãe assistia. No Verão, no castelo, era ela quem lhes ministrava o ensino, e tinha cuidados extremos em gravar na alma de Cora os preceitos da mais sã moral. Quando tardava a vir a Morancé, logo os Rigault se inquietavam com a sua ausência. Todas as noites os filhos de Luísa rezavam pelo bem- estar da senhora marquesa e um deles dizia, com certa graça:</p>
<p>- Rezemos agora para que a senhora regresse e veremos se ela não vem amanhã!</p>
<p>Luísa sorria, abraçava-os a todos com ternura e juntava as suas orações às dos filhos.</p>
<p>Um ano houve, porém, em que Luísa não pôde festejar o regresso da marquesa, que ela desejava, tão ardentemente.</p>
<p>Pedro Rigault tinha um tio em Lussan, vila afastada dali uns dez quilómetros. Chamava-se Tom Rigault e era dono da casa onde morava. De idade avançada e viúvo, vivia agora sozinho, pois as sobrinhas que até então tinham vivido com ele haviam casado há pouco.</p>
<p>Embaraçado com o governo da casa, Tomás escreveu a Pedro, propondo- lhe ir com a família v ver com ele; dar-lhe-ia a sua clientela, mais rica e numerosa que a do sobrinho, a troco de pequena remuneração. E por último declarava que Pedro seria seu herdeiro.</p>
<p>Rigault, é claro, não resistiu a tão boa oferta e, dentro de pouco tempo, mudou-se para Lussan.</p>
<p>O tio Tomás, vaidoso e egoísta, tinha um grande orgulho no dinheiro que possuía e fazia sentir, com dureza, o seu peso, a todos os que o cercavam. Luísa bem cedo reconheceu os vícios desta natureza tão diferente da sua, e pressentiu que teria muito que sofrer com este velho egoísta. Em lugar dum protector, para si e para os seus, tinha encontrado um patrão.</p>
<p>&lt; Com efeito passado pouco tempo, Tomás censurava asperamente a sobrinha, atirando-lhe à cara a sua pobreza e lamentando que Pedro tivesse feito a loucura de casar com uma pobretona.</p>
<p>Muito meiga e resignada, Luísa não respondia a nenhum destes ataques. Apenas deixava correr, em silêncio, algumas lágrimas, que Luís enxugava com os seus beijos.</p>
<p>Luísa apertava ao coração o pequenito que parecia compreendê-la e amá-la acima de tudo e de todos. Ele era, a pobre criatura, uma fonte de alegria incessante. Logo que ela o ouvia misturar o seu riso ao dos filhos, parecia-lhe ouvir uma voz secreta dizer-lhe :</p>
<p>&lt;&lt;Fizeste bem em adoptar esta criança. O seu riso f uma bênção do Céu. &gt;&gt;</p>
<p>Luís adorava a mãe adoptiva; queria-lhe com uma ternura cheia de dedicação e sensibilidade.</p>
<p>Mas delicado e mais novo que os outros filhos de Luísa, a boa mulher tinha de o cercar de cuidados e precauções e isto fazia com que vivessem mais em contacto um com o outro. Tiago, gozando duma boa saúde, corria por toda a região, fazia recados e não temia nem perigos nem canseiras. As suas partidas faziam rir o velho tio, que gostava mais dele que dos outros sobrinhos.</p>
<p>Em compensação detestava Luís, que passava a maior parte do tempo ao pé da mãe, a ajudá-la a dobrar as meadas ou a ler-lhe qualquer história piedosa, para a distrair.</p>
<p>Tomás ignorava que Luís fora adoptado pelo sobrinho. Se o soubesse, com certeza que o poria fora da porta.</p>
<p>O pequeno desagradava-lhe em absoluto, não só pelo seu feitio meigo e concentrado como até pela sua espiritualidade e inteligência. Grosseiro e vingativo, Tomás influenciava o sobrinho a castigar o pequeno e, quantas vezes, este se foi deitar sem ceia, o que fazia sangrar de dor o coração de Luísa.</p>
<p>Germano, o filho mais velho de Rigault, ajudava-o no seu ofício; as duas pequenas iam para a modista; Tiago levava a obra aos fregueses; só o pequeno Luís ficava em casa, quando não ia à escola, onde obtinha sempre os primeiros prémios.</p>
<p>Apesar disto, o velho Tomás chamava-lhe oi &lt;&lt;boa-vida&gt;&gt; para o deprimir.</p>
<p>Luís</p>
<p>Há pessoas que, não sendo totalmente más, são de tal modo mesquinhas, que procuram todos os meios para desagradar àqueles com quem não simpatizam. Tomás Rigault era uma destas criaturas. como tal, um dia resolveu subtrair Luís à protecção da sua mãe.</p>
<p>Uma noite, depois da ceia, os cinco pequenitos foram-se deitar. Luísa, depois de arrumar a cozinha, ficou-se a fazer umas meias de lã, enquanto Tomás fumava o seu cachimbo e Pedro se entretinha a gravar desenhos numa faca de madeira.</p>
<p>- Ora vamos lá a ver, Pedro. O que contas fazer do teu filho mais novo?</p>
<p>- O mais novo? Temos ainda muito tempo para pensar nisso.</p>
<p>- Não tanto como dizes. O garoto já vai fazer ttez anos.</p>
<p>- Dez anos? - interrogou Luísa, alarmada. Se ele ainda não há seis semanas que fez nove.</p>
<p>- Pois seja. Nove ou dez é a mesma coisa. Já não está em idade para ficar de braços cruzados. Na sua idade, já há muito que eu ganhava o pão que comia. E, no entanto, éramos apenas três ir mãos, e minha mãe não era nenhuma pobretona. Tinha trazido, quando se casara, umas territas menos más. - E, dizendo isto, o manhoso do velho olhava intencionalmente para Luísa, que continuou a trabalhar sem dizer palavra. - Já vês - continuou ele, dirigindo-se a Pedro - que não devemos fazer caso das pieguices das mulheres. Quando se tem dois braços, trabalha-se. Não é ali como o senhor Luís, que se faz de manto de seda para não trabalhar. Já lhe deste de comer durante muito tempo, agora ele que trabalhe.</p>
<p>- Mas o que pode o pobre rapaz fazer? Ele é tão fraco! Deixem-no tornar-se mais forte - volveu Luísa, inquieta.</p>
<p>- Ah Ah, quando for forte. Este é dos tais que, se o deixarem, há-de comer o pão que os pais ganham até aos vinte e cinco anos ou mais.</p>
<p>- Com efeito, não se perde nada em experimentar. Tu, eras uma rapariga fraca e guardavas vacas, aos doze anos.</p>
<p>- Ele não tem doze anos e além disso eu já não tinha mãe nessa altura.</p>
<p>- E ele tem mãe porventura? - retorquiu Pedro com certo azedume na voz. - Não sei para que tomas tanto a peito as coisas de Luís, se ele não é teu filho.</p>
<p>- O quê? Ele não é vosso filho? - exclamou o velho, estupefacto. - Olha que foste bem parvo em tomar conta do garoto. Bem; o mal está feito, agora há que remediá- lo. Toca a mandá-lo embora. Ele que vá trabalhar.</p>
<p>Luísa corou de aflição.</p>
<p>- Não, meu tio. Não o mandem embora. Ele é nosso filho pelo coração.</p>
<p>- Escuta, mulher - disse então Pedro Rigault.</p>
<p>- Repara que já temos feito muito por ele, é justo que trabalhe para nos aliviar.</p>
<p>- Por amor de Deus, cala-te, Pedro. Ah! se a pobre criança te ouve!</p>
<p>- E se ouvisse - gritou, propositadamente, o implicante velho. - Luís não é teu filho. É preciso que mais dia menos dia ele o venha a saber.</p>
<p>- Pedro prometeu que nunca se lhe diria nada. Tem que manter a sua palavra. De resto, se lhe diseEssemos que não era nosso filho, isso seria tirar todo o valor à obra que fizemos.</p>
<p>- E se o souber, que tem isso de mau? - volveu o marido. - Certamente que não pensas em rrpartir o pouco que temos com ele. Isso seria pre judicar os nossos filhos.</p>
<p>- Ah, meu pobre homem! Que mudado que estás desde que para aqui vieste!</p>
<p>- Queres dizer com isso que fui eu que o mudei? Pois bem, realmente assim é. Curei-o de muita ideia parva; senão, ficaria pobre como Job.</p>
<p>- Talvez fosse melhor para nós. O dinheiro não vale tudo na vida. Mas está bem. Pedro, diz-me o que pretendes fazer de Luís.</p>
<p>- Eu já pensei no destino a dar-lhe. Conheço uma caseira que tem precisão dum rapaz que lhe guarde o gado. Luís está nas condições.</p>
<p>- É longe?</p>
<p>- É em Vierval. Não fica muito longe daqui.</p>
<p>- Sim, quando o quiser ver, terei que andar uns vinte quilómetros.</p>
<p>Luísa compreendeu que nada havia a fazer. Com o coração amargurado, dispôs-se a ir-se deitar.</p>
<p>Ao passar pelo quarto dos filhos, debruçou-se sobre a cama de Luís. O pequeno estava acordado e tinha a face pálida e molhada de lágrimas. Ao sen tir junto dele o rosto da pobre mulher, abraçou-a e disse-lhe, entre soluços, mal contidos:</p>
<p>- Sei tudo. Sei que não sou teu filho.</p>
<p>- Cala-te, pelo amor de Deus! - disse a se nhora Rigault, tapando-lhe a boca com a mão. Tu és e serás sempre meu filho. Agora mais do que nunca.</p>
<p>- Ouvi tudo. Ouvi-te defender-me como uma verdadeira mãe; mas o pai - ah! quanto me cus tou ouvi-lo. Descanse que não lhe farei peso! Nunca mais comerei o seu pão. Vou-me embora e levo-te no coração. Ah! quanto me vai custar não te chamar mãe!</p>
<p>- Hás-de sempre dar-me esse doce nome. Não te tenho tratado como a um filho muito amado E teu pai, crê, gosta de ti, mas, mal aconselhado pelo tio Tomás, mostrou-se duro para contigo.</p>
<p>Amanhã se tratará de tudo. E até lá dorme e sê amável. Vais para casa dos Lourdet. Porta-te bem. Eu e teu pai iremos ver-te dentro em breve. Vá, responde-me. Faz a vontade à tua pobre mãe, sim?</p>
<p>- Sim, minha querida mãe - soluçou a criança, apoiando a fronte ao ombro de Luísa. és tão boa, tão meiga, que ninguém resiste a um pedido teu. Mas compreendes o meu desgosto. Tinha tanto orgulho em ser teu filho e agora sei que</p>
<p>não sou.</p>
<p>- Deus quis que soubesses a verdade. Sossega e crê que encontrarás sempre em mim o carinho da mãe.</p>
<p>Beijaram-se, misturaram as suas lágrimas, depois do que Luísa se foi deitar.</p>
<p>Enquanto Tiago e Germano dormiam, o pequeno pensava em tudo o que se tinha passado. Finalmente adormeceu, balbuciando com ternura a palavra mãe.</p>
<p>Mal rompeu a manhã, levantou-se, lavou-se e esperou que Luísa lhe aparecesse. A pobre mulher pouco dormira; viam-se-lhe vestígios de lágrimas e insónia nos olhos papudos e pisados. Quando Luís a viu, acabava ela de lhe preparar a roupa que ele havia de levar.</p>
<p>- Madrugaste muito, Luís. Agora escuta-me. Quando te despedires do tio, fá-lo com respeito. Sabes? Ele é velho e isso torna-o rabugento.</p>
<p>Luísa, acompanhada do pequeno, entrou na oficina do sapateiro.</p>
<p>- Aqui está o nosso homem pronto a deixar-nos, se assim o quiseres.</p>
<p>E enquanto dizia estas palavras, Luísa limpava com a ponta do avental uma lágrima que teimav em correr.</p>
<p>- Queres ir trabalhar para casa de Francisc Lourdet? - perguntou o sapateiro.</p>
<p>- Sim; mas desejava vir ver a mãe, o pai, todos enfim.</p>
<p>- Isso depende do modo como te portares. Se te portares bem, podes vir sempre que queiras; mas se te portares mal, não.</p>
<p>- Prometo-te, minha querida mãe - respon deu o pequeno, voltando-se para Luísa -, prometo-te que me vou portar muito bem.</p>
<p>- Sim, mas toma conta. Se não obedeceres batem-te.</p>
<p>- Não tenhas medo, Luís. Ninguém te há-de bater. Porque é que estás a meter medo à pobre criança? - inquiriu Luísa ao marido. - Não lhe basta o desgosto de nos deixar, ainda será preciso meter-lhe medo?</p>
<p>- Também juro que só me batiam uma vez.</p>
<p>- O que é que fazias? - perguntou Pedro cheio de curiosidade.</p>
<p>- Voltaria para nossa casa.</p>
<p>- Sim, dizes bem. Esta casa será sempre tua. Aqui estarei para te receber de braços abertos. Vamos, Pedro, deixa de abanar a cabeça. Não vês que enches de receio esta pobre criança? Ele veio despedir-se de ti; dizer-te adeus antes de partir e tu, em vez de o acolheres com bom modo, acabas por atormentá-lo. Vá, abraça-o, anda. Não faças sofrer os corações das crianças. Quando forem crescidas, lembrar- se-ão de tudo o que as magoou injustamente. E tu, Luís, promete a teu pai seres sempre bom.</p>
<p>O pequeno apresentou a cara ao pai que o beijou, não sem certa comoção.</p>
<p>- Não te quero mal, meu rapaz, nem quero fazer sofrer tua mãe. Mas bem vês. O velho Rigault tem mais experiência e é preciso fazer-lhe a vontade. Amanhã acompanho-te a casa de Francisco Lourdet.</p>
<p>- Está bem, Pedro! Amanhã irão cedinho para não apanharem muito sol.</p>
<p>A carta</p>
<p>E tudo se passou, como fora combinado. Às quatro da manhã todos estavam a pé. Luís, triste mas resignado, pretendia ocultar o desgosto da mãe; as irmãs choravam pelos cantos. Tiago mostrava-se acabrunhado; apenas Germano, mais falto de sensibilidade, se sentia à vontade e, por isso, tentava consolar os irmãos. Uma vez todos juntos na vasta cozinha, Luísa cortou um pedaço de pão que deu a Luís juntamente com uma boa chávena de leite.</p>
<p>- Come, meu filho. É a última refeição que te dou, antes da partida.</p>
<p>Luís começou a comer, misturando no leite as lágrimas que não conseguia deter.</p>
<p>Quando o pequeno, já preparado para sair, se despedia do pai e do tio Tomás, este não pôde deixar de o atormentar, com esta frase grosseira:</p>
<p>- Adeus, pequeno &lt;&lt;boa-vida&gt;&gt;. Espero que, para onde vais, percas esta alcunha.</p>
<p>Após as despedidas, todos se puseram em marcha. Luísa e os filhos iriam acompanhar o pequeno até à primeira volta da estrada. Germano levava o saco com a roupa do irmão; Catarina, a irmã mais nova, um cesto com cerejas para a merenda desse dia; Tiago dava-lhe o braço e do seu peito saíam, de momento a momento, fundos suspiros.</p>
<p>Todos guardavam o maior silêncio. Ao separarem-se, Luís atirou-se ao pescoço da mãe e ambos confundiram lágrimas e soluços.</p>
<p>- Adeus, meu querido filho; o último que chegou ao meu lar e o primeiro que parte. Adeus! Pensa em mim e tem coragem. Ó meu Deus! Vela por esta criança!</p>
<p>Os pequenos diziam com voz trémula:</p>
<p>- Adeus, Luís!</p>
<p>Luísa, finalmente, entregou ao filho uma carta para o recomendar a Francisco Lourdet.</p>
<p>Depois de beijar as irmãs e de, com grande esforço, se ter separado da mãe, Luís continuou melancolicamente o caminho.</p>
<p>Enchendo-se de coragem começou a andar muito depressa, seguido do irmão Germano, o único que o acompanhou. Cinco minutos andados voltou-se para trás e lá viu, junto à cruz, que marcava a volta da estrada, o vulto adorado da mãe.</p>
<p>- Mãe, mãe querida!</p>
<p>E, exausto, por tantas emoções sofridas, Luís caiu na estrada. Germano ergueu-o com o seu braço forte, e amparou-o durante uma boa parte do caminho. Após várias paragens, chegaram por fim a Vierval cerca do meio- dia. Na casa indicada, entregaram a carta à única pessoa que ali estava, uma senhora, vestida de musselina branca.</p>
<p>- A caseira não está cá, mas eu vou ler a carta e já lhes dou uma resposta.</p>
<p>A senhora começou a ler:</p>
<p>&lt;&lt;Minha querida Francisca Lourdet</p>
<p>&lt;&lt;Segundo a vontade de meu marido, envio-lhe o meu filho mais novo para o ter em sua casa. Como a senhora é uma boa mãe, peço-lhe que olhe por ele, como se fosse seu próprio filho. Demais ele é bastante fraco e por isso lhe peço toda a sua ternura. Não supõe quanto lhe custa deixar-nos. Ele é bastante dócil, inteligente e obediente. Creio que se hão-de dar bem e que nunca terá necessidade de o castigar.</p>
<p>&lt;&lt;Aqui está, minha querida senhora, tudo o que lhe tinha a dizer.</p>
<p>&lt;&lt;Queira desculpar-me e creia-me com muita amizade e reconhecimento.</p>
<p>Luísa Rigault. &gt;&gt;</p>
<p>- Luísa Rigault - exclamou a jovem senhora, depois de ler a carta.</p>
<p>- Sim, É o nome da minha querida mãe.</p>
<p>- É a ti que te mandam para cá?</p>
<p>- Sim, minha senhora, é a mim. O tio Tomás diz que é preciso trabalhar.</p>
<p>- Descansa que eu olharei por ti. Cresceste muito, sabes? És Tiago, não é verdade?</p>
<p>- Não, minha senhora. Chamo- me Luís. Tiago ficou em casa; mas a mim, não me querem lá. É que eu não sou filho de Luísa. Acharam-me nos campos, no meio do trigo e agora aqui estou entre pessoas desconhecidas, sem ter ninguém que goste de mim.</p>
<p>- Tens a tua mãe que gostará sempre de ti. Vê como ela te quer. Sabes ler? Então lê a carta que ela mandou.</p>
<p>Depois de a ler, Luís exclamou, cheio de contentamento :</p>
<p>- Como ela é boa!</p>
<p>- Agora, fica descansado que eu hei-de cuidar bem de ti, aqui. Eu sou uma amiga de tua mãe e hei-de ser também tua. Verás.</p>
<p>- Mas a senhora não é a caseira, pois não?</p>
<p>- Não! Aluguei esta quinta, que é minha, a Francisco Lourdet, que vai ser a partir de agora o teu patrão. Deixa que hei-de recomendar-te a ele e espero que te hão-de deixar ir, todos os domin gos, ver a tua mãe. Emprestar-te-ei um cavalo, para ires; queres?</p>
<p>O rapaz agarrou e beijou, agradecido, a mão es tendida da marquesa de Méligny, ao mesmo tempo que lhe dizia:</p>
<p>- Ah! muito obrigada, minha boa senhora! Minha mãe, quando souber o que se passou, há-de pedir a Deus por vós, e eu hei-de obedecer-vos como obedecia a minha mãe.</p>
<p>Quando Lourdet e a mulher vieram, a marquesa apresentou-lhes Luís, que ficou a guardar as ovelhas da quinta.</p>
<p>Acharam-no muito débil para poder guardar vacas.</p>
<p>No domingo</p>
<p>Os carneiros e as ovelhas são animais que precisam ir ao pasto todos os dias. Luís, que durante a semana se mostrava resignado, sentiu o coração apertar-se-lhe de dor, quando viu alguns empregados da quinta, todos endomingados para ir passar o dia com a família.</p>
<p>Assim sozinho na vasta planície onde apascentava o rebanho, ele seguia, de olhos cheios de lágrimas, os grupos que desfilavam ante si. Não tinha ali ninguém que verdadeiramente o amasse nem quem ele pudesse abraçar com ternura. Apenas o cão de guarda, parecendo adivinhar-lhe as mágoas, vinha lamber-lhe as mãos.</p>
<p>Nisto, um turbilhão de poeira envolveu-o por completo, e Luís pôde ver na estrada uma carruagem puxada por dois esplêndidos cavalos. O carro avançava rapidamente. Por fim, parou e dele saiu uma graciosa criança de catorze anos, que avançou para Luís e lhe disse:</p>
<p>- Sabes? Vamos a Lussan. Queres alguma coisa para a tua mãe?</p>
<p>- Para minha mãe - replicou, estupefacta, a criança, olhando cheia de espanto aquela linda menina, toda envolta numa nuvem de rendas de seda. - A senhora vai vê-la?</p>
<p>A encantadora criança sorriu ao ouvir tratá-la por senhora.</p>
<p>- Podes escrever-lhe. Eu levo-lhe a carta, se quiseres.</p>
<p>Entretanto, chegava a marquesa que se dirigiu nestes termos a Luís:</p>
<p>- Estás muito admirado, não é assim? Vou a Lussan levar notícias tuas à tua mãe.</p>
<p>- Ah! diga-lhe, minha senhora, que eu gosto muito dela e que também gosto muito da senhora.</p>
<p>- Anda, escreve-lhe uma palavra. E Cora entregou-lhe papel e lápis. Luís escreveu, beijou a carta e entregou-a à marquesa, dizendo ao mesmo tempo:</p>
<p>- Diga-lhe que me responda, sim?</p>
<p>- Descansa que eu própria te trarei a resposta.</p>
<p>Alguns instantes depois a carruagem afastava-se, levando dentro dela a marquesa e a filha. Luís ficou a contar os minutos até que soaram seis horas na torre da igreja, sem que a marquesa tivesse voltado.</p>
<p>&lt;&lt;Com certeza que me esqueceu. &gt;&gt;</p>
<p>- Aqui está a resposta à tua carta, meu querido irmão.</p>
<p>E Luís pôde ver, cheio de espanto, o pequeno Tiago acenando com um papel branco.</p>
<p>A marquesa trouxera-o na carruagem mas, como o garoto quisesse fazer uma surpresa ao irmão, a senhora de Méligny deixou-o apear-se à entrada do bosque.</p>
<p>Trazia, com a carta, um bom pedaço de bolo, cerejas e um bocado de peru assado que a marquesa lhe dera. Os dois irmãos jantaram sobre a erva do prado, conversando animadamente em assuntos de família. Tiago dormiu com o irmão e de manhãzinha partiu para casa.</p>
<p>Várias vezes o pequeno voltou não só com notícias de casa como com pequenos mimos que faziam sentir, a Luís, a presença da mãe.</p>
<p>A marquesa levava a sua bondade a trazer na carruagem, num ou noutro domingo, os três irmãos de Luís, o que dava lugar a uma verdadeira festa.</p>
<p>Os camponeses que viam a senhora de Méligny acompanhada de sua filha e destes pequenos rústicos sorriam satisfeitos, sabendo de antemão que a marquesa fazia uma obra de caridade.</p>
<p>Os filhos de Beatriz</p>
<p>Cora e Renato, educados pela marquesa, mostravam-se dignos duma tal mãe. Cora juntava à beleZa a mesma bondade que tornava tão querida a senhora de Méligny. Ia sempre com a mãe a todas as obras de caridade e, quando ela adoecia, Cora substituía-a perfeitamente. Habituada, desde muito criancinha, a estar em contacto com a pobreza, sentia um prazer infinito em espalhar o bem e o amor.</p>
<p>Não se vá agora supor que esta pequena criatura era isenta de defeitos. Tinha alguns que, embora não fossem graves, inquietavam a senhora de Méligny. Cora possuía uma sensibilidade exagerada, filha talvez do seu grande amor-próprio, paredes meias do orgulho.</p>
<p>Beatriz tentava corrigi-la, sem querer porém fazer pressão de modo a tirar-lhe a espontaneidade de acção, certa vivacidade e sobretudo o seu lindo optimismo que a fazia sorrir à vida. &lt;&lt;Como o riso vai bem à mocidade &gt;&gt;, pensava muita vez a senhora de Méligny.</p>
<p>Cora não possuía o dom de se dar inteiramente à caridade, como sua mãe, mas era boa, generosa e podia-se prever que, no dia em que a sua alma fosse experimentada pela dor, ela acharia forças suficientes para suportar com nobreza a sua cruz.</p>
<p>Renato era ainda uma criança de dez anos. Lindo como os anjos, melancólico e pensativo como eles. Se Cora se parecia com o pai, Renato tinha os traços delicados da mãe. E para ela ia tod a adoração da sua alminha sensível. Compreende-se quanta mágoa causaria à marquesa a entrada desta sensível criaturinha num colégio de Rolin.</p>
<p>Suponha-se também quanto custaria a Renato esta separação. O pobre pequeno não podia con formar-se com a ideia de estar dois meses sem ver a mãe. O que ele chorou durante os primeiros tempos.</p>
<p>Depois viu-se obrigado a esconder as lágrimas, tanto o faziam arreliar os camaradas com a sua troça inconsciente mas cruel.</p>
<p>Vieram as férias e o marquês partiu a ir buscar o filho. Beatriz não pôde acompanhá-lo porque Cora adoecera com uma febre ligeira, mas enquanto velava a filha, o seu coração esperava ansioso a chegada de Renato.</p>
<p>O incêndio</p>
<p>Mal o marquês partiu e a filha se restabeleceu, eis a senhora de Méligny a fazer loucuras de caridade; isto é, a extenuar-se de fadiga ao serviço dos pobres.</p>
<p>Certa noite em que morta de cansaço se dispunha a dormir, foi sobressaltada por gritos, correrias e pelo som lúgubre dos sinos da igreja a tocarem apressadamente.</p>
<p>Levantou-se, enfiou a bata e chamou a criada.</p>
<p>- Que aconteceu, Júlia?</p>
<p>- Ah, senhora marquesa! É Fogo E o pior é que a pobre gente não tem nenhum homem em casa. Estão todos a trabalhar no campo.</p>
<p>- Fogo? Então é preciso acudir-lhes, meu Deus! Chame os criados.</p>
<p>- Sim, minha senhora! João já correu para lá e levou com ele várias pessoas com baldes cheios de água.</p>
<p>Beatriz pôde ver do terraço para onde desceu a toda a pressa, as labaredas do incêndio a subirem para o céu.</p>
<p>- Mas, onde é o incêndio? - inquiriu a marquesa, pesquisando o horizonte, com os olhos inquietos, enquanto aos seus ouvidos chegavam ruídos confusos de gritos aflitivos. - Que pena eu ser apenas uma pobre mulher - lamentava a senhora de Méligny. - Mas que importa? Irei prestar-lhes o auxílio que puder. Tu, Júlia, ficas aqui com minha filha. Tranquiliza-a e não saias nunca de ao pé dela. Eu volto já.</p>
<p>E a marquesa partiu, sem querer escutar as ob servações da criada. Ei-la que chega ao lugar onde o incêndio prossegue a sua obra destruidora.</p>
<p>Esta casa branca e airosa, onde a senhora de Méligny reunia as criancinhas abandonadas, não era agora mais do que um montão de escombros lambidos pelas chamas. A um canto do jardim, as pobres criancinhas apertavam-se umas de encontro às outras, de olhos esgazeados a olhar os móveis que eram atirados pelas janelas, os vidros quebrados, as paredes que se desmoronavam.</p>
<p>Beatriz olhava apavorada o quadro sinistro, mas não deixava de encorajar todos os que procuravam apagar as chamas destruidoras. Aflita, perguntou às crianças se faltava alguma delas, e uma vozinha chorosa grita com desespero um nome:</p>
<p>- Remy! Remy!</p>
<p>- Remy? Mas onde está ele? - pergunta, alarmada, a senhora de Méligny.</p>
<p>- Ali - e a criança aponta a última janela do asilo. - Ah! minha senhora! Ele é tão pequenino!</p>
<p>- Mas quem é Remy? Digam-me depressa onde é que ele está.</p>
<p>Aquela multidão estava demasiadamente aflita para ouvir qualquer pergunta que se lhe fizesse.</p>
<p>- Digam-me se todas as crianças se salvaram</p>
<p>- perguntava, aflita, a senhora de Méligny.</p>
<p>- Parece que sim.</p>
<p>- Mas não - volveu a marquesa -, parece que há uma criança lá dentro.</p>
<p>E, consultando apenas a voz do coração, desprezando o perigo que a ameaçava, Beatriz precipita-se para a escada que conduz ao andar superior, na ânsia de salvar a pequenita criatura que deve estar ali, presa das chamas.</p>
<p>- Não vá, minha senhora; não vá! - era o grito que se ouvia de toda a parte.</p>
<p>- Não! não! É preciso que eu vá salvar essa criancinha. Não sou eu a sua mãe?</p>
<p>E, rapidamente, a marquesa, subiu os degraus da escadaria e assim, entre chamas, chegou ao primeiro andar. Todos os olhos estavam fixos no vulto que desaparecia num turbilhão de fumo.</p>
<p>Passaram-se segundos de horrível expectativa. Nisto a multidão vê com alegria a senhora de Méligny, transportando nos braços uma criança des maiada; mas no momento em que a marquesa coloca o pé no primeiro degrau da escada, ela vacila e quebra-se. Ao mesmo tempo, chamas altas envolvem todo o edifício. A marquesa pára, sem saber o que há- de fazer. Olha aflita para a criança.</p>
<p>- Atire-a! Atire-a! - é o grito que se ouve de todas aquelas bocas.</p>
<p>Foram buscar colchões, para receber a criança; a marquesa atira-a para o meio da multidão que a recebe cheia de comoção. Depois deste último esforço, a senhora de Méligny cai extenuada com os sentidos perdidos.</p>
<p>Foi sem dúvida um espectáculo cheio de beleza, o que sucedeu a esta cena de horror.</p>
<p>À luz débil do incêndio amortecido e ao clarão brando da aurora, seis homens carregavam nos seus braços vigorosos uma maca improvisada na qual repousava a senhora marquesa.</p>
<p>No rosto pálido havia uma calma celestial que impressionava.</p>
<p>Os Aldeãos formavam juntamente com os criados da marquesa um impressionante cortejo cheio de ternura e de respeito. Ao chegarem ao castelo, en tregaram a senhora de Méligny aos cuidados do pessoal feminino, que a levou em braços, e a colocou no vasto leito, onde a marquesa, mal entreabriu os olhos, disse estas palavras bem significa tivas :</p>
<p>- Olhem pelos meus filhos, pelos pequeninos do asilo.</p>
<p>Mas àquela hora já todos eles tinham encon trado abrigo nas melhores casas da região.</p>
<p>Remy, salvo pela marquesa, tinha ido para casa do regedor, onde o tratavam com o maior carinho.</p>
<p>A dádiva dos pobres</p>
<p>No dia seguinte, um velho camponês, seguido de grande número de habitantes de Morancê, foi ao castelo procurar a senhora de Méligny. A marquesa, embora fatigada, já estava a pé. Recebeu-os a todos, no salão, com aquele sorriso que a tornava tão querida.</p>
<p>- Senhora marquesa - começou o velho, enquanto virava e revirava, nas mãos calosas, o grande chapéu de feltro - ontem sucedeu uma grande desgraça, e poderia ser ainda muito maior, não fora a graça do bom Deus velar por vós. Depois disto, pensámos remediar o mal, associando-nos à obra a que a senhora marquesa tem dedicado grande parte da sua vida. Para isso, cada um de nós contribuiu com o que pôde, a fim de se construir uma nova casa onde se abriguem os seus protegidos, minha senhora.</p>
<p>E, ao acabar de dizer estas palavras, o velho entregou à marquesa uma bolsa bem recheada.</p>
<p>A senhora de Méligny levantou-se. Estava comovida até às lágrimas. Esta dádiva dos pobres para os mais pobres tocou-lhe novamente o coração.</p>
<p>- Obrigada, meus amigos - e a marquesa estendeu ao rude aldeão a mão fina que ele beijou com emoção e respeito. - Sim, aceito o vosso dinheiro e fico-vos muito reconhecida. Deus vos</p>
<p>há-de recompensar pela linda acção que acabais de fazer.</p>
<p>E a senhora de Méligny pousou a bolsa em cima</p>
<p>duma mesa e continuou:</p>
<p>- Tratemos agora do mais preciso. Antes de construir o novo lar dos pequenitos, é necessário acharmos uma casa onde eles se possam recolher.</p>
<p>- Cada um de nós pode ficar a tomar conta dum. Deixe-nos esse prazer.</p>
<p>A marquesa mais uma vez agradeceu a todos a sua boa cooperação e preparou-se para procurar uma casa própria para abrigo dos seus filhos.</p>
<p>Finalmente encontrou o que desejava: uma casa limpa, cómoda que pertencia a um camponês abastado. O bom homem não quis, de maneira nenhuma, receber o preço do aluguer.</p>
<p>- Não, minha senhora! Deus me livre de aceitar o quer que fosse. Quero ter também a minha parte nesta boa acção.</p>
<p>O exemplo de caridade infatigável, praticada pela senhora de Méligny, acordava em quase todos os corações o desejo de bem fazer.</p>
<p>E desde o dia em que o seu heroísmo tinha salvo a vida duma criança pobre, todos a olhavam como um anjo de bondade. E era ver a chuva de dádivas que caía no castelo a favor da grande obra a realizar: sacas de farinha, tulhas de azeite, vinho, roupas; tudo se amontoava e de tal modo, que a própria marquesa murmurava entre satisfeita e entristecida:</p>
<p>- Meu Deus! Mas então não me deixam nada para eu fazer? Como poderei agora exercer a caridade?</p>
<p>Os que a ouviam lamentar-se sorriam, pois já todos sabiam que a senhora marquesa se desfizera de algumas jóias para a fundação do novo asilo.</p>
<p>A dádiva dos ricos</p>
<p>Quinze dias após a tragédia do incêndio, chegou o marquês com Renato, que vinha passar as férias, e depor, no regaço da mãe, os louros colhidos na escola, pelos seus méritos de bom aluno.</p>
<p>A marquesa mandou a carruagem à estação e dirigiu-se, acompanhada de Cora completamente restabelecida, ao encontro do marido e do filho.</p>
<p>Quando o marquês avistou a mulher, mandou parar a carruagem e desceu seguido de Renato. Ao aproximar-se de Beatriz teve um movimento de es panto: na fronte via-se desenhada uma horrível cicatriz, ainda mal fechada.</p>
<p>- Mas que tens, minha querida? O que foi que te aconteceu?</p>
<p>- Meu querido pai. É uma história heróica; é uma cicatriz gloriosa, essa que ornamenta a fronte da mãezinha.</p>
<p>- Ai as loucuras da minha mulher! - volveu o marquês, tomando o braço da marquesa e afagando-lhe a mão com carinhosa ternura. - Será preciso vigiá-la como se faz a uma criança?</p>
<p>Uma vez chegados ao castelo, Cora contou, não sem uma certa eloquência que lhe vinha da alma, a heróica história de que sua mãe fora a heroína.</p>
<p>O marquês, comovido, beijou a mão da senhora de Méligny, ao mesmo tempo que lhe dizia:</p>
<p>- Minha querida mulher! Como hei-de agradecer a Deus o dom que me concedeu, dando-me uma santa esposa?</p>
<p>Renato, orgulhoso de sua mãe, apertava-a nos seus braços amigos.</p>
<p>À tarde, a família de Méligny visitou o asilo pro visório. O marquês, ao ver que as actuais instalações não davam a comodidade desejada aos peque ninos órfãos, disse dirigindo-se à mulher:</p>
<p>- Temos que mandar construir uma casa nas condições precisas.</p>
<p>- Ah! mas isso vai custar muito dinheiro.</p>
<p>- Que tem isso? Tencionava comprar uma parelha de cavalos ao conde de Guilbré. Ofereço-lhe o dinheiro que ia despender nesse capricho.</p>
<p>- Obrigada, meu amigo. No entanto, isso nã basta. É pouco para o que necessitamos.</p>
<p>- Mas como conseguiu, a minha querida, mandar construir a casa que ardeu?</p>
<p>- É que possuía outros recursos nessa época - respondeu simplesmente a marquesa.</p>
<p>Beatriz tinha em mente um projecto. Esboçou a seu marido, que o aprovou completamente. Para o executar foi-lhe preciso fazer duas viagens a Paris. Dentro em pouco, chegava ao castelo uma</p>
<p>quantidade enorme de caixas, contendo vários objectos artísticos e muito preciosos.</p>
<p>Tratava-se duma verdadeira lotaria. Dentro dum mês todos os bilhetes estavam vendidos e muitas moedas se vieram juntar às tantas cedidas pelo senhor marquês.</p>
<p>Como não fosse costume da senhora de Méligny associar os outros à sua caridade, todos acorreram, lisonjeados até em serem admitidos a concorrer, com o seu préstimo, a uma obra tão genrosa.</p>
<p>Uma noite, a imensa galeria Luís XV encheu-se de convidados e de luz. As preciosidades a rifar espalhavam-se sobre uma vasta mesa, onde, a um lado, um leve cestinho continha os números a sair.</p>
<p>Quando a elegante assistência se aquietou, entraram os pequeninos do asilo e, com eles, o herói do dia, o pequeno Remy, que de colo para colo, a todos contava no seu papaguear infantil o que se passara no sinistro dia do incêndio.</p>
<p>- Oh! que medo que eu tive! Só via chamas, fumo e depois mais nada; parece que morri; mas daí a pouco a senhora marquesa veio-me buscar e eu já não estava morto.</p>
<p>- Então foi a senhora de Méligny que te salvou? - perguntou a embaixatriz de Áustria.</p>
<p>- Sim, sim e até tem uma ferida na cabeça.</p>
<p>- Cora! É verdade que tua mãe se feriu e foi ela quem salvou, arriscando a vida, o pequenino Remy?</p>
<p>- Sim, minha senhora. Minha mãe não queria</p>
<p>de maneira alguma que se falasse do assunto. Proibira-o e todos se conformaram com a sua vontade.</p>
<p>Mas Deus quis que o facto fosse revelado pela boca desta criancinha.</p>
<p>- A senhora marquesa acha a caridade mais</p>
<p>perfeita quando praticada em silêncio - volveu o</p>
<p>médico assistente da família Méligny.</p>
<p>Por toda a galeria se espalhou, com rapidez, a</p>
<p>notícia.</p>
<p>- Ah! esta querida marquesa quer fazer monopólio da generosidade. Pois não se dirá que nós</p>
<p>damos apenas o nosso concurso, mediante um certo</p>
<p>interesse.</p>
<p>E pegando num livrinho de apontamentos, inscreveu nele o seu nome e adiante dele um valioso donativo. Depois, voltando-se para um fidalgo seu conhecido, perguntou-lhe:</p>
<p>- E o duque, já decidiu com quanto se vai inscrever?</p>
<p>Esta generosa inspiração teve um êxito extraordinário.</p>
<p>Dentro em pouco, a soma elevava-se a muitos</p>
<p>milhares e o asilo não só contava doravante com</p>
<p>o óbulo dos pobres, como podia contar também,</p>
<p>de futuro, com a generosidade dos ricos.</p>
<p>Beatriz depressa viu a obra começada. Ela própria vigiava os operários que edificavam o novo asilo. Todos se esforçavam para que tudo ficasse pronto antes da retirada da marquesa para Paris, mas foi completamente impossível dar-lhe tamanha satisfação. Foi com bastante pena que a senhora de Méligny deixou Morancé, sem ver os pequeninos instalados no seu novo lar.</p>
<p>O Natal de Luísa</p>
<p>Ao verem afastar-se a carruagem que conduzia para Paris a família de Méligny, todos os corações se apertaram.</p>
<p>O que chorou mais e mais sentiu a falta da marquesa foi o pequeno Luís Rigault.</p>
<p>Ficou-se muito tempo a olhar os cavalos que fugiam com a sua benfeitora.</p>
<p>Parecia-lhe que com ela se afastavam também os seus entes mais queridos: as irmãs e a mãe adorada.</p>
<p>&lt;&lt;Talvez nunca mais se lembrem de mim e quem sabe se voltará a Morancé. &gt;&gt;</p>
<p>Estas ideias enchiam de tristeza a alma de Luís. Nem já se importava do livro de botânica que, com tanto gosto, recebera das mãos da senhora de Mé Ggny. A única coisa que realmente o distraía eram os seus animais - o cão de guarda e as ovelhas. E se algum deles adoecia, com que cuidado e carinho o tratava! Gostava imenso dos cães e das ovelhas e tinha artes de se fazer amar por estes simpáticos animais.</p>
<p>Só a sua afeição por eles lhe atenuava a dor.</p>
<p>À noite, depois de contar as cabeças do gado que guardava, deitado ao lado de Roitelet, o seu cordeiro favorito, sabia-lhe bem falar com o cão, Mauricaud. E como ele parecia entendê-lo tão bem!</p>
<p>Passaram-se dois meses. Aproximava-se o Na tal, a festa mais bela de todo o ano cristão. Luís no entanto, via com tristeza aproximar-se esse dia e Pela primeira vez não abraçaria a sua boa mãe e não jantaria à mesa, com os seus. A meia-noite Luís, ao ouvir o som triste dos sinos a chamar os fiéis para a missa, caiu de joelhos no chão frio a pedir a Nosso Senhor que lhe desse resignação. Rezou, rezou e pediu com fervor que Deus poupasse à mãe desgostos e canseiras.</p>
<p>- Senhor, que seja eu só a sofrer por não estar junto dela.</p>
<p>Quando acabou as suas orações, apertou a si o bom Mauricaud, como quem aperta um amigo. O pobre pequeno precisava sentir junto de si u ser vivo que o amasse e a quem amasse também.</p>
<p>No dia de Natal deixaram-no ir à missa. O patrão, ainda que rude e brusco, não era mau homem. De resto, Lourdet gostava deste homenzinho, pronto sempre a trabalhar e a obedecer.</p>
<p>- Tu choraste, rapaz? Ah! parece-me que isso são saudades dos teus pais, não?</p>
<p>- Na verdade assim é, mas quando se não pode fazer o que se deseja, que remédio há senão contentarmo-nos.</p>
<p>- Bem! Vai à missa e quando voltares vem ter comigo.</p>
<p>A criança correu imediatamente para a igreja. De volta, o coração batia-lhe apressado. O que lhe quereria o patrão? E foi com uma certa emoção que entrou na vasta cozinha da herdade. Francisca Lourdet tinha nas mãos uma carta, que acabara de ler.</p>
<p>- Ora aqui está uma carta que me fala de ti. Ouve lá: não te sentes contente por a senhora marquesa se lembrar de ti?</p>
<p>- De mim?</p>
<p>- Ouve! Presta atenção ao que te vou ler:</p>
<p>&lt;&lt;Peço-te também que mandes Luís passar o Natal com ospais. Entrega-lhe, da minhaparte, este dinheiro Que te envio para ele comprar um herbário. Diz-lhe que não o esqueço, por ele ser obediente e trabalhador.</p>
<p>- Como vês, a senhora marquesa quer que vás passar o dia a Lussan. Vai e volta amanhã. Podes ir no meu cavalo e aqui está o dinheiro que a senhora marquesa te mandou.</p>
<p>- Oh, meu Deus, como me sinto feliz! - murmurou agradecido o pastorzito. - Muito obrigado.</p>
<p>Saiu, satisfeitíssimo, da cozinha. Ia a correr quando encontrou Mauricaud, que lhe saltou às pernas.</p>
<p>- Se tu soubesses como eu estou contente! Vou ver minha mãe e sou rico, muito rico. Nunca me vi com tanto dinheiro.</p>
<p>Enquanto falava, ia arreando o cavalo que montou dum salto. Mauricaud dava ao rabo, saltava, ladrava de satisfação e quando viu o cavalo partir, desatou a correr atrás do seu amigo.</p>
<p>Luís refreou o andamento do cavalo. O cão, com a língua pendente, mal o podia acompanhar. Acabavam de dar duas horas na igreja de Lussan, quando Luís atravessou a vila. Bem procurou, entre as pessoas que passavam, os rostos queridos da mãe e dos irmãos, mas não os viu. Chegou finalmente a casa. Desceu do cavalo, atou-o a uma argola de ferro, que pendia do muro, e bateu à porta. Ninguém lhe respondeu. Lá dentro reinava um profundo silêncio. Luís levantou a aldrava e entrou na cozinha, onde não se via viva alma. Supondo que todos tinham ido à missa, dispunha-se a sair quando ouviu rumor num dos quartos. Entrou. Perto da porta, entreaberta, Luís viu a mãe e Catarina. Luísa estava mais pálida do que habitualmente; lágrimas deslizavam-lhe pelas faces emagrecidas. Catarina tentava consolá-la, sem o conseguir. Ao barulho dos passos do rapaz, ambas voltaram a cabeça rapidamente. Ao vê-lo, os olhos de Luísa adquiriram um brilho maior; os braços apertaram o filho adoptivo, com ternura.</p>
<p>- Ah! como estás crescido e forte! Estes oito meses mudaram-te bastante.</p>
<p>- Mas, diz-me mãe, o que é que se passa cá em casa de extraordinário?</p>
<p>- Chegaste numa má ocasião - disse a pobre mulher, inclinando tristemente a cabeça. - Teu pai está muito mal. Agora está ele a descansar. Estou aqui pronta a acorrer à primeira chamada.</p>
<p>- Meu Deus! Mas o que é que ele tem?</p>
<p>- Parece que se trata duma febre tifóide. Há já dez dias que está doente.</p>
<p>- Dez dias?! Mas porque não me avisaram?</p>
<p>- Para que te havia de incomodar? De mais a mais não tinha ninguém para te mandar prevenir. Tiago passa a vida a ir buscar remédios; Germano anda a receber as contas que nos devem. Bem vês, todo o dinheiro é pouco nestes momentos.</p>
<p>Luís meteu a mão no bolso, para tirar as moedas que a marquesa lhe dera. Seria uma ajuda para aquela casa. Não pensara em aplicá-lo assim, não. Todo o caminho levara a pensar no que havia de comprar para a mãe.</p>
<p>De súbito, ouviu-se um gemido partir do quarto vizinho e imediatamente Luísa se lançou para lá.</p>
<p>Fora Rigault que o soltara. Luísa ajudou-o a erguer-se e deu-lhe uma poção a beber.</p>
<p>- Como vais, meu bom Pedro? - perguntou ela, docemente.</p>
<p>- Nada bem, minha querida mulher. Isto está no fim.</p>
<p>- Está caladinho! Não duvides da bondade de Deus. És novo, cheio de forças, Nosso Senhor há-de curar-te. O que é preciso é ter paciência. Sabes? Luís veio ver- nos. Deram-lhe licença lá na quinta. Queres vê-lo? Não imaginas como está crescido!</p>
<p>- Sim, que venha! Já sei que estão muito contentes com ele.</p>
<p>- Muito contentes. Entra Luís, teu pai quer</p>
<p>ver-te.</p>
<p>- Bom dia, meu pai.</p>
<p>Luís aproximou-se com timidez da cama do pai.</p>
<p>- Bom dia, filho. Ainda bem que vieste, eu. . E a voz de Rigault sumiu-se e a cabeça do pobre homem caiu pesadamente sobre a almofada.</p>
<p>Luísa suspirou profundamente. Olhou aflita para o marido, correndo para junto do leito. -Água, água. - gemia Rigault.</p>
<p>Catarina, enfiando a cabeça pela porta entreaberta, anunciou a chegada do senhor prior.</p>
<p>- Queres que o senhor Abade entre?</p>
<p>- Deixa-me em paz! Não quero ver ninguén!</p>
<p>O prior, porém, entrou. Luísa disse-lhe por entre lágrimas:</p>
<p>- Parece-me que está muito mal.</p>
<p>- Sossega, minha pobre filha. Creio que a n nha visita lhe há-de fazer muito bem.</p>
<p>O bondoso sacerdote sentou-se junto do leito do</p>
<p>sapateiro.</p>
<p>- Vamos lá a ver, meu caro Rigault, responde às minhas perguntas. Julgo que a visita dum sacerdote lhe dará prazer. Enganei-me?</p>
<p>- Meu bom Pedro, fala. Está aqui o nosso prior. Vem trazer-te o conforto moral. Por amor de teus filhos, por meu amor, fala!</p>
<p>- Estou muito mal - disse Rigault, suspirando e voltando-se para o lado onde estava o sacerdote. - Parece-me que já posso tratar das malas para a minha última morada.</p>
<p>- Ninguém sabe o dia da partida, meu amigo. Devemos estar prontos para abalar, mas sem nos lamentarmos. Demais, Pedro, está cercado de afectos e cuidados, e quantos os não têm. Deus deu-lhe uma santa mulher.</p>
<p>- Ah! eu sei muito bem quem é a minha boa Luísa. Não pensa noutra coisa senão no marido e nos filhos. Como lhe sou grato E como me vai custar deixá-la. Se eu me for, o meu tio Tomás há-de olhar por ela e pelos pequenos. Mas quem sabe lá? O velho tem umas ideias! Ah meu Deus! E saber que estes braços ainda há pouco trabalhavam tanto e agora para aqui estão inúteis.</p>
<p>- Os teus braços cumpriram o seu dever. Criaste cinco filhos. Olha que já é uma grande obra, principalmente quando um deles não te pertcia. Uma obra destas pede por ti a Deus.</p>
<p>E o bom cura, continuou durante mais algum tempo, a levantar a moral do doente, falando com aquela ternura peculiar nos sacerdotes. Com o olhar penetrante dos que estão habituados a olhar a morte, o sacerdote reconheceu que o pobre homem poucos dias teria de vida.</p>
<p>Durante este tempo, as crianças despreocupadas, como se é nesta idade, brincavam, satisfeitas por verem Luís entre elas. Mauricaud tomava parte nos folguedos e partilhava do pão e do queijo que os seus amigos comiam.</p>
<p>Luís falava do rebanho, da senhora de Méligny, i</p>
<p>da botânica que ele cultivava com amor e mostrava</p>
<p>com um sorriso de satisfação o dinheiro que a marquesa lhe mandara entregar.</p>
<p>Falaram muito da boa castelã, a bela e nobre</p>
<p>senhora que viera, muitas vezes no Verão, visitá-los, sem se importar de entrar na sua humilde casa.</p>
<p>Joana, a mais novita, só tomava parte na conversação quando se tratava da senhora de Méligny:</p>
<p>- Se a senhora marquesa estivesse cá, com certeza que curaria o pai. Ela é tão boa&#8230;</p>
<p>Ao cair da noite, chegou o tio Tomás.</p>
<p>- Então, temos por cá o &lt;&lt;boa-vida?&gt;&gt; Boa</p>
<p>noite, meu rapaz - disse o velho, bastante lisonjeado com a visita.</p>
<p>Luís correspondeu à grosseira saudação, e continuou a pôr a mesa para a ceia, enquanto os irmãos se ocupavam em tirar a sopa.</p>
<p>Luísa apareceu e, tirando do bolso do avental umas moedas, disse ao pequeno Tiago:</p>
<p>- Com a doença do pai, nem pude fazer-lha</p>
<p>um bolo. Toma, vai comprar um.</p>
<p>- Passamos bem sem ele, mãe.</p>
<p>- Vai, vai que eu quero festejar a visita de Luís.</p>
<p>Há tanto tempo que o não víamos!</p>
<p>- Não é preciso o seu dinheiro, mãe - volveu, também, o pequeno Luís. - Tenho aqui algumas moedas, que me deu a senhora marquesa. Anda, Tiago; vamos comprar ambos o bolo.</p>
<p>- Guarda o teu dinheiro, que te não quero privar dele.</p>
<p>- Oh mãe! Não sabe que o meu maior prazer seria poder gastar muito dinheiro consigo?</p>
<p>Luísa beijou, enternecidamente, a cabeça do filho e deixou-o partir.</p>
<p>Passado pouco tempo ei-lo de volta com um magnífico bolo-rei. Dentro havia um pequenino objecto de metal, que Luísa guardou, como lembrança daquela noite.</p>
<p>No outro dia de manhã Luís partiu, pedindo à mãe que o prevenisse de tudo quanto ocorresse. Enquanto se dirigia para a quinta os pensamentos sucediam-se; tinha vindo cheio de contentamento visitar a mãe, e fora encontrá-la com o coração amargurado, pela expectativa da morte do pai.</p>
<p>Ele não se enganara. Percebia bem que o fim de Pedro Rigault se aproximava.</p>
<p>Quando chegou à quinta ia de tal maneira desfigurado, que Lourdet não pôde deixar de lhe dizer:</p>
<p>- O que te aconteceu, meu rapaz?</p>
<p>Luís contou-lhe por entre lágrimas o estado do pai.</p>
<p>No fim da semana, certa manhã, entrou Tiago no estábulo onde Luís dormitava. Logo que abriu os olhos compreendeu, pelo ar aflito do irmão, o que se passara. As duas crianças choraram durante muito tempo, abraçadas uma à outra. Tiago passou o dia e a noite com o irmão, contando e recontando as cenas da morte do pai.</p>
<p>- Ele chamou-te, e disse que te abençoava.</p>
<p>De manhã, Tiago e Luís partiram para assistir ao enterro de Pedro Rigault.</p>
<p>Dois dias depois estavam de volta, com os traços de grande desgosto, impressos no rosto. No entanto, retomaram as suas obrigações e tudo voltou ao mesmo ram- ram habitual.</p>
<p>Só Mauricaud andava de cabeça baixa, intri gado com a atitude do seu amigo que já não brincava, nem conversava com ele, como outrora.</p>
<p>Os projectos de Luís</p>
<p>Depois da morte de Rigault, o tio tinha combinaado com a viúva que esta lhe tomasse conta da casa e tratasse da roupa, podendo habitar nela com os filhos.</p>
<p>Luísa acedeu de bom grado. Apesar de conhecer a rudez do velho, esperava atenuar-lhe a aspereza, à força de paciência e resignação, e assim obter um dote para os pobres órfãos.</p>
<p>Tio Tomás não tardou a abusar da sua submissão. Tratava-a pior do que a uma criada; ralhava-lhe por tudo e por nada, dando grandes socos sobre os móveis, quando lhe não executavam as ordens com a rapidez desejada.</p>
<p>Quantas vezes Luísa se escondia para chorar. Os filhos viam-lhe os olhos vermelhos, mas nunca lhe ouviram uma queixa. Um dia, o velho Tomás, num ataque de cólera, atirou-lhe um saleiro que lhe abriu uma brecha na cabeça. A viúva engoliu as lágrimas com a afronta. Como ela se sentia humilhada! Mas que havia de fazer? Onde ir buscar o pão para os filhos?</p>
<p>Luís ia muitas vezes vê- la. A criança sabia bem quanto a mãe sofria, mas nunca lhe ouvira uma queixa.</p>
<p>Um domingo em que chegou cedo, ouviu a voz colérica do tio Tomás, à qual respondia a voz fraca e queixosa da mãe. Escutou e ouviu o seguinte:</p>
<p>Ah, não! Você pensa que a minha casa é algum albergue? Não tem mais dinheiro? Que tenho eu com isso? Não estou disposto a sacrificar-me por vocês todos.</p>
<p>- O senhor ofende a minha pobre mãe. Abusa</p>
<p>da sua situação e isso não se faz - exclamou Luís, empurrando violentamente a porta.</p>
<p>- Cala-te, Luís - implorou Luísa.</p>
<p>- Ah! grande maroto! Com que então anda agora a escutar às portas? Espera que eu já te dou a curiosidade.</p>
<p>E com a mão ossuda e pesada, aplicou uma violenta bofetada no rapaz.</p>
<p>A boa viúva correu para o filho a defendê-lo de</p>
<p>novo ataque. O olhar, de ordinário tão meigo, brilhava de indignação.</p>
<p>- Miserável! Bater assim numa criança. Até</p>
<p>aqui suportei tudo, mas nunca suportarei que toquem nos meus filhos. Não, não ficarei nem mais</p>
<p>um minuto nesta casa.</p>
<p>- Vá-se embora, vá! E se morrer de fome, que</p>
<p>morra, que estoire para aí com os garotos.</p>
<p>E, desesperado, Tomás saiu, batendo com a porta.</p>
<p>Luísa, ajudada pelo filho, arrumou tudo quanto</p>
<p>era dela. Alugaram uma carrocinha, onde transportou os poucos móveis e roupas que tinha.</p>
<p>Finalmente partiram. Levava na algibeira algumas moedas, mas poucas, que apenas lhe chegariam para viver uns dois ou três dias.</p>
<p>Em Lussan, para onde se dirigiu, alugou um</p>
<p>quarto no casebre duma velhota que vivia sozinha;</p>
<p>Quando os pequenos Rigault, de volta do trabalho, foram para casa do velho Tio, ele fechou-lhes a porta na cara, dizendo-lhes que fossem procurar a mãe. Eles assim fizeram.</p>
<p>Apesar de ser bem miserável o tecto onde se abrigaram, os pobres pequenos riram e folgaram no novo lar, contentes por não ouvirem as rabugices do velho Tomás.</p>
<p>- Não te importes, mãe - dizia-lhe Germano.</p>
<p>- Deixa estar que trabalharemos para ti. Eu e Joana já podemos ganhar para nós e ajudar-te um pouco.</p>
<p>Tiago e Luís ganharão também; eles</p>
<p>não querem outra coisa. E tu, querida mãe, ficarás a cuidar da casa.</p>
<p>Luísa sorriu-lhes por entre lágrimas e abraçou os filhos, um a um, cheia de comoção. No entanto, ela bem sabia que ainda deviam</p>
<p>passar muitos anos, até que os filhos ganhassem o suficiente. Não queria, de modo nenhum, tirar-lhes a ilusão. Dentro de oito dias o que teriam para comer?</p>
<p>Luís era o único que vivia inquieto. Depois desta</p>
<p>cena sentou-se ao pé da mãe a conversar.</p>
<p>- Mãezinha! Já sei que não tens dinheiro.</p>
<p>- Deixa lá. Vou vender os meus móveis.</p>
<p>- E depois que farás, quando esse dinheiro se acabar? Ouve, mãe! Se tu quiseres Tiago irá comigo para a quinta. Sei que o meu patrão precisa dum pastor. Meu irmão é forte e verás que dentro de pouco tempo ganhará bem. O patrão há-de querer ensinar-lhe a arte de lavrar a terra, e Tiago virá</p>
<p>a ser um bom lavrador.</p>
<p>- E que pensas tu destes projectos de Luís, meu</p>
<p>filho?</p>
<p>Tiago respondeu prontamente à pergunta da</p>
<p>mãe:</p>
<p>- Mas por certo que sim, que quero ir com o Luís.</p>
<p>- Então vão os dois que eu ficarei com Catarina.</p>
<p>E nessa mesma noite os dois pequenos partiram.</p>
<p>Efectivamente Lourdet tinha-lhe pedido para</p>
<p>ver se Tiago queria trabalhar na quinta.</p>
<p>Acolheu-o de muito bom grado e permitiu que</p>
<p>o novo pastor ficasse junto do irmão, o que deu</p>
<p>a ambos um grande prazer.</p>
<p>No pequeno cérebro de Luís havia germinado uma ideia de difícil execução. No entanto tinha todo o empenho em a ver realizada.</p>
<p>De manhã foi ter com o patrão e disse-lhe:</p>
<p>- Sr. Lourdet, tenho uma coisa a pedir-lhe.</p>
<p>- Fala, meu rapaz!</p>
<p>- É que&#8230; sim, eu trouxe comigo meu irmão.</p>
<p>Eu queria pedir-lhe que o deixasse guardar o meu</p>
<p>rebanho e o dele. Gostava. sim. precisava que</p>
<p>me deixasse estar ausente uns dias por causa. por</p>
<p>causa dum negócio meu.</p>
<p>- Com que então tu também tens negócios? perguntou-lhe Lourdet, a rir.</p>
<p>- Sabe? É que minha mãe precisa de mim. Não</p>
<p>vê que depois da morte de meu pai ela não ficou</p>
<p>em boas circunstâncias e quer que&#8230;</p>
<p>- E quanto tempo estarás ausente?</p>
<p>- Apenas oito dias.</p>
<p>- Apenas, dizes tu. Tens muito que fazer!</p>
<p>- A mãe quer que eu vá a Paris ver umas pessoas conhecidas.</p>
<p>- Mas olha que ultimamente tens faltado muitos dias ao trabalho. O gado anda mais magro; não</p>
<p>tem quem olhe por ele!</p>
<p>- Ó meu bom patrão! Deixe-me ir e verá que</p>
<p>nunca mais lhe peço para sair.</p>
<p>- Pois sim, mas olha que deves estar de volta</p>
<p>na próxima quinta-feira.</p>
<p>- Muito obrigado patrão, muito obrigado.</p>
<p>Luís entrou no estábulo e enquanto fazia as suas</p>
<p>provisões para a viagem, ia contando ao irmão os</p>
<p>seus projectos, pedindo-lhe que guardasse o maior</p>
<p>segredo.</p>
<p>- Adeus, meu bom Tiago. Olha pelo rebanho; toma conta de Mauricaud e pede por mim a Nosso Senhor. Dentro em breve estarei de volta.</p>
<p>Luís partiu para Paris com o coração cheio de esperança. Iria ter com a senhora de Méligny. Contar-lhe-ia tudo o que ultimamente sucedera, e tinha a certeza que ela havia de ajudar a mãe.</p>
<p>A viagem de Luís</p>
<p>Luís tinha ainda algumas moedas que lhe ficaram do Natal. Como nunca havia saído da sua terra, não fazia ideia das dificuldades que ia encontrar.</p>
<p>Além disso não sabia onde morava a marquesa</p>
<p>mas, coitadito, na sua ingenuidade pensava:</p>
<p>Irei ter à casa mais bonita de Paris. É lá que ela mora, com certeza.</p>
<p>Estava um dia frio; muito frio mesmo. Corria , o mês de Fevereiro. Luís aconchegou-se no abafo de pele de ovelha, para se preservar do vento agreste que lhe cortava a pele do rosto. O pouco dinheiro que tinha, não lhe permitia</p>
<p>usar outro modo de locomoção a não ser o das pernas. A estrada que liga Tours a Paris estendia-se</p>
<p>interminavelmente longa, diante dos olhos do pequeno Luís. Caminhou um dia inteiro e não parou</p>
<p>senão uma única vez para comer uma parte do pão</p>
<p>da merenda e umas nozes.</p>
<p>Depois de beber a água do cantil, retomou a</p>
<p>marcha, parando apenas à noite numa terreola desconhecida, onde pediu albergue num palheiro.</p>
<p>No dia seguinte, informou-se junto do dono da</p>
<p>que lados ficava Paris.</p>
<p>- Pois realmente vais a Paris?</p>
<p>- Sim, senhor.</p>
<p>- Estás ainda muito longe. Daqui até lá vão</p>
<p>umas quarenta léguas bem contadas.</p>
<p>- E eu que me julgava já tão perto! Quanto</p>
<p>tempo levarei a lá chegar?</p>
<p>- Que diabo! Andando bem, cinco ou seis dias.</p>
<p>- Seis dias! Mas valha-me Deus! Daqui a seis</p>
<p>dias é sábado.</p>
<p>- Mas com que então está assim com tanta</p>
<p>pressa?</p>
<p>- Sim, estou; se soubesse!. .</p>
<p>- Então despacha-te! Toca andar!</p>
<p>A criança que pensava que lhe iam oferecer uma</p>
<p>boleia, deu um suspiro e pegando no cajado partiu apressado.</p>
<p>Não tinha dado dez passos, quando um cão se</p>
<p>lhe atirou ao peito e começou a lamber-lhe a cara.</p>
<p>Era Mauricaud, Mauricaud que, ao ver o amigo</p>
<p>partir, se lhe lançou no encalço, a cauda pendente,</p>
<p>a cabeça levantada, procurando no ar o cheiro que</p>
<p>o guiaria até ao pé de Luís.</p>
<p>- Meu pobre Mauricaud! És tu? - exclamou</p>
<p>admirado e contente o rapazito. - Não sabes o que</p>
<p>fizeste, meu bom amigo. Enfim, anda comigo e fica</p>
<p>sabendo que estou satisfeito em te ver.</p>
<p>Embora andando depressa e, vencendo com certo</p>
<p>esforço a fadiga, Luís havia já seis longos dias qui</p>
<p>caminhava sobre a terra gelada, deitando-se ora nos palheiros descobertos ora no pórtico duma igreja, sempre aconchegando a si o bom Mauricaud que</p>
<p>o aquecia com o seu bafo quente.</p>
<p>A esperança nunca o abandonara e era ela que, como um bálsamo, lhe fazia adormecer todas as mágoas, esquecer o frio, a fome, a lonjura do caminho e até a própria saudade dos seus.</p>
<p>Quando avistou o Arco do Triunfo, Luís perguntou, cheio de admiração:</p>
<p>- O que é aquilo?</p>
<p>- É a porta de Paris. i Nesse momento sentiu-se mais seguro e alegre.</p>
<p>- Enfim! Eis-me chegado ao meu destino, Deus seja louvado!</p>
<p>Ansiedade</p>
<p>Uma vez chegado a Paris, desceu os Campos</p>
<p>Elísios e pôs-se a olhar atentamente para as esplêndidas moradias, a ver, se dentre elas, podia reconhecer a da senhora de Méligny. Todas as casas lhe pareciam iguais.</p>
<p>Por fim, na Rua de Rivoli, viu ao lado de magníficos palácios um que lhe pareceu mais belo que os outros. Nos vastos jardins que o rodeavam, apinhava-se uma multidão de pessoas elegantes.</p>
<p>É aqui certamente que vive a minha benfeitora.</p>
<p>Luís entrou no jardim seguido de Mauricaud enlameado até ao focinho. Por um momento, o pequeno teve um sentimento de vergonha por se ter de apresentar diante da marquesa tão mal vestido e ainda para mais acompanhado de um cão tão porco. Quem sabe se a mãe àquela hora tremia de frio, cheia de fome e de mágoa por não ter nada que dar à pequenina Catarina. De mais Lourdet havia de estar furioso com ele. Já era sábado e ele tinha-lhe apenas dado licença até quinta- feira. Luís</p>
<p>encheu-se de coragem, foi direito à porta e dirigiu-se com muito bom modo ao soldado que estava</p>
<p>de guarda ao palácio:</p>
<p>- A senhora marquesa está?</p>
<p>- Qual marquesa? - perguntou, com espanto, o militar.</p>
<p>- Ora quem há-de ser! A senhora marquesa</p>
<p>que mora aqui no palácio.</p>
<p>- Pateta! - exclamou o soldado, enquanto ria</p>
<p>a bandeiras despregadas. - Mas isto são as Tulherias.</p>
<p>- Não sabia; mas talvez seja! Então onde encontrarei a senhora marquesa de Méligny? Diga-me, se faz favor.</p>
<p>- Não a conheço, meu rapaz. Sabes onde</p>
<p>mora?</p>
<p>- Não; mas sempre pensei que a encontrava</p>
<p>logo. Em Morancé todos conhecem o seu castelo.</p>
<p>Também é verdade que há só um e aqui há tantos!</p>
<p>- Pareces-me um grande palerma - replicou, a rir, o militar. - Como queres encontrar uma senhora, seja ela qual for, em Paris, sem saberes a sua direcção?</p>
<p>- É que esta senhora não é como as outras.</p>
<p>Toda a gente a conhece, não só na minha terra, como a dez léguas dali.</p>
<p>- Mas bem vês que em Paris não é a mesma</p>
<p>coisa. E é muito rica?</p>
<p>- Ah! sim, muito rica, muito nova e muito</p>
<p>linda.</p>
<p>- Vou dar-te um conselho: procura-a à porta dos teatros, dos hotéis afamados, das embaixadas e até mesmo aqui quando houver bailes. Pode ser que Deus ta faça encontrar, dentro dum ano talvez.</p>
<p>- Um ano! Mas o que é isso de embaixadas e teatros? Um teatro deve ser assim uma coisa parecida como o que vi em Vierval, mas a outra coisa.</p>
<p>- As embaixadas, são as casas dos embaixadores; quer dizer, os enviados dos reis de todos os países; os representantes dos reis.</p>
<p>- Mas o que hei-de fazer, meu Deus? - murmurou, baixinho, o pobre rapaz. - Se a procurar durante um mês que seja eu e minha mãe morreremos de fome. Como esta terra é grande! E como esta gente deve ser muito rica para não conhecer a minha benfeitora. Em Morancé todos a conhecem.</p>
<p>- Escuta! Fazes-me pena e quero ajudar-te. Vou perguntar a toda a gente se conhece essa senhora e, quem sabe?, é possível que o meu coronel a conheça. A senhora quê?</p>
<p>- A senhora marquesa de Méligny.</p>
<p>- Méligny. Bem, Volta cá amanhã que eu talvez já saiba alguma coisa.</p>
<p>- Muito obrigado!</p>
<p>Luís afastou-se, seguido de Mauricaud. Comprou meio pão, comeu uma parte e deu outra ao cão e, enquanto comia, lágrimas amargas corriam- lhe pelas faces. Se dentro de três dias não encontrasse a marquesa, morreria de fome. Quando via</p>
<p>uma bonita carruagem de vidros corridos por causa do frio, ia logo espreitar para dentro a ver se teria</p>
<p>a sorte de encontrar a marquesa. Fez isto umas pou cas de vezes, com risco de ser esmagado pelos trens que passavam.</p>
<p>À noite, viu todas as lojas iluminadas e contemplou com admiração a linha luminosa que ia desde a praça da Concórdia até à da Bastilha.</p>
<p>Este ingénuo rapaz que tinha tomado as Tulh rias pelo palácio da senhora de Méligny, estava disposto a ir bater à porta da Ópera, quando viu escrito Academia Imperial da Música. Então</p>
<p>parou.</p>
<p>- Com certeza que a minha senhora não vive aqui. É o mesmo. Vou esperá- la. Talvez esta casa seja um teatro.</p>
<p>Resolvido a esperar, Luís sentou-se nos degraus da grande escadaria, a olhar as carruagens e as senhoras que delas desciam, nos seus magníficos vestidos de noite.</p>
<p>Os olhos fascinados iam dum a outro destes, repletos de encanto. Mauricaud deitado a seus pés nãose mexia. Quando toda aquela gente entrou, I ficou ali durante duas horas vendo apenas as carruagens vazias e os cocheiros que esperavam a saída dos patrões. Ia levantar-se para estender os mebros dormentes, quando começou a ver pessoas que começavam a sair da Ópera. Era um fluxo de brilhantes e encantadoras senhoras e de elegantes cavalheiros e durante uns momentos houve um</p>
<p>barulho de vozes, risos, barulhos de carruagens, gritos</p>
<p>de cocheiros. Depois tudo voltou ao mesmo silêncio; a rua ficou deserta e a criança adormeceu num</p>
<p>sono cheio de inquietações e cuidados. Acabava de nascer o dia quando o pequeno despertou; abriu os olhos, esfregou-os com as mãos enregeladas pelo frio, levantou-se, bateu com os pés no chão para a circulação se fazer mais rapidamente e como tinha fome foi, seguido de Mauricaud que tremia de frio, comprar um pouco de pão para entreter o rato que lhe roía as entranhas.</p>
<p>Mais refeito, começou a caminhar para as Tulherias, mas perdeu-se no labirinto das ruas.</p>
<p>Na altura da Rua do Templo, perguntou a um</p>
<p>indivíduo que passava onde ficava as Tulherias.</p>
<p>Indicaram-lhe o trajecto mas quando ali chegou verificou com mágoa que o militar que o atendera na véspera já lá não estava.</p>
<p>O pequeno começava a perder a esperança. Tinha gasto o último dinheiro que possuía com a</p>
<p>compra do pão. E agora o que havia de fazer? Parecia-lhe que afinal o soldado tinha razão quando</p>
<p>lhe dissera que nem daqui a um ano encontraria a senhora de Méligny.</p>
<p>Nessa noite já não pôde dormir e, se não fora</p>
<p>o calor de Mauricaud, bem aconchegado no seu</p>
<p>colo, certamente teria morrido de frio.</p>
<p>Ao fim do terceiro dia voltou de novo às Tulherias. Era a sua última esperança, encontrar o soldado com quem falara no primeiro dia.</p>
<p>Pelas duas horas, começou a cair uma chuva ge lada e miudinha que trespassava de frio até aos ossos. Luís a tremer, sob as fracas vestes ensopadas, ia procurar abrigo no vão duma escada quando viu o tão desejado militar. Dirigiu-se imediatamente ao bom homem que, ao vê-lo, exclamou :</p>
<p>- Com que então estás cá de novo? Óptimo! Pois fica sabendo, meu rapaz, que já encontrei a tua marquesa. Perguntei por ela ao meu coronel mas esse não a conhecia, o que confesso, muito me admirou. Ele é um homem que conhece muita gente da alta. Mas, enfim, o caso é que me informei e já sei onde mora.</p>
<p>- Ah! o senhor sabe onde mora a senhora de Méligny?</p>
<p>- Sim, e nota que o soube duma maneira muito patusca. Diz-se: procura que acharás e assim foi. Perguntei ao meu coronel, ao meu capitão, a todos os meus superiores e ninguém a conhecia. Pois vê lá tu, meu amigo; foi preciso encontrar um simples soldado como eu, que tem um primo que é&#8230;</p>
<p>- Mas por amor de Deus! A morada?</p>
<p>- Ah, a morada? A morada é assim um nome de santo. Espera! Rua Grenelle S. Germain; Rua Grenelle Santo Honorato ou então, espera; Rua S. Guilherme. Que diabo! Mas eu sabia.</p>
<p>- E agora? - perguntou Luís, cheio de impa ciente inquietação.</p>
<p>- Olha, volta cá amanhã a esta mesma hora, que vou perguntar ao meu camarada.</p>
<p>- Precisava tanto de saber hoje - respondeu Luís, sem poder conter os soluços.</p>
<p>- Pois sim, mas que queres? Vem cá amanhã.</p>
<p>A criança partiu a procurar um banco onde se pudesse sentar. Estava transido de frio e de fome e a chuva continuava, impiedosa, a fustigar-lhe a carne. Mauricaud andava inquieto dum lado para o outro.</p>
<p>- Que queres, meu velho? Não tenho nada para te dar.</p>
<p>Luís foi sentar-se no lugar onde costumava dormir; tentou fazê-lo mas o sono não veio.</p>
<p>Como a noite lhe pareceu comprida! O dia seguinte surgiu carregado de nuvens; a neve começou a cair. Luís, com o cão apertado ao peito, tremia de frio. Às três horas levantou-se, sacudiu os flocos de neve e caminhou em direcção às Tulherias.</p>
<p>Mal o soldado avistou Luís, gritou-lhe logo:</p>
<p>- Que grande estúpido que eu sou! Não me lembrar duma morada tão simples: Rua de S. Domingos n. o 29.</p>
<p>No palácio da marquesa</p>
<p>Luís, apesar de toda a sua fraqueza, começou a correr na direcção que o soldado lhe indicou.</p>
<p>Atravessou uma ponte e errou muito tempo pelas ruas vizinhas, para se dirigir a casa da sua benfeitora. Finalmente encontrou-a mas, quando ia atingir o seu fim, cego pela neve e pela fraqueza, caiu junto do portão do palácio, sem forças sequer para levantar os batentes de bronze. Mauricaud, não menos fraco que o seu amigo, ficou-se estendido a seus pés, gemendo baixinho.</p>
<p>Luís sentiu uma deliciosa sensação de sono, apoderar-se dele. A neve continuava a cair, cobria-o com o seu lençol branco.</p>
<p>- Minha mãe! - balbuciou o pobre pequeno, num suspiro. E desmaiou.</p>
<p>Mais uns minutos e o infeliz teria encontrado a morte, onde fora em busca dum pouco de felicidade para os seus.</p>
<p>Nisto, a porta da cocheira do palácio abriu-se para deixar sair uma elegante carruagem de passeio. Lá dentro, os olhos duma criança viram o que ninguém tinha visto até então, e a sua boca abriu-se para exclamar quase num grito:</p>
<p>- Mãe! Não vês além, ao pé da nossa porta? Parece um vulto humano ali caído; repara!</p>
<p>- É verdade, minha filha - respondeu a marquesa, ao mesmo tempo que descia da carruagem para ver do que se tratava. - Meu Deus! É uma criança e um cão E como estão gelados!</p>
<p>Mauricaud começou a lamber as mãos da marquesa.</p>
<p>- Céus! Dir-se-ia que o animal me conhece. Cora! dá-me o teu frasco de sais.</p>
<p>Entretanto Luís abria os olhos. À luz baça das lanternas pareceu-lhe aquilo tudo um quadro celestial.</p>
<p>- Oh minha senhora! Que felicidade! Encontrei-a finalmente!</p>
<p>- A mim? Ah meu pobre Luís - exclamou a marquesa, ao reconhecer o pequeno pastor de Morancé.</p>
<p>A senhora de Méligny tirou o casaco de peles e cobriu com ele o corpo de Luís, que tremia como varas verdes.</p>
<p>- Entra; depois me contarás tudo. - E a marquesa, encaminhava o pequeno, encostando-o a si.</p>
<p>Mal fecharam a porta, ouviram um uivo sentido de dor. Era Mauricaud que chamava o seu amigo.</p>
<p>- É o meu pobre cão. Ah! senhora marquesa, por piedade, não o deixe lá fora!</p>
<p>- Sossega, que alguém cuidará do bom animal. Baptista! Toma conta desse cão e trata-o bem, como se fosse meu.</p>
<p>O criado olhava, estupefacto, a senhora marquesa, de vestido decotado, sem nenhum abafo e conduzindo, ela própria, aquele pequeno mendigo. E, ainda por cima, mandava-lhe cuidar daquele miserável cão. Enfim, ordens são ordens!</p>
<p>O criado achou que a melhor maneira de tratar um cão bem recomendado seria levá-lo para a co zinha, e dar-lhe de comer. E assim o fez.</p>
<p>No fim de alguns minutos, Luís, bem aconchegado num roupão de lã, sentia um calor suave que o reanimava, apesar da grande fraqueza em que se encontrava.</p>
<p>- Porque vieste a Paris? E o teu cão porque</p>
<p>veio contigo? - perguntou, cheia de natural curiosidade, a menina de Méligny.</p>
<p>- Eu não trouxe Mauricaud. Ele é que veio ter</p>
<p>comigo. - Foi para a procurar, minha senhora.</p>
<p>Há cinco dias que a procuro por toda a parte. Já</p>
<p>nem tinha esperanças de a encontrar!</p>
<p>- Mas que tens? - perguntou, cheia de ansiedade, a senhora de Méligny, tomando nas suas</p>
<p>mãos fidalgas as geladas mãos do pastor. - Estás</p>
<p>pálido e frio, muito frio. Que tens?</p>
<p>- Dói-me muito aqui. - E a criança apontava</p>
<p>o estômago que se contraía pela fraqueza.</p>
<p>- Tens fome? Não comeste ainda hoje?</p>
<p>- Nem ontem desde as oito horas da manhã.</p>
<p>A marquesa levantou-se, como que movida por uma mola e foi ela própria buscar-lhe uma chávena de caldo e um cálice de vinho de Málaga.</p>
<p>- Por agora basta. Não convém tomares grandes refeições duma vez. Vou mandar dar-te, durante a noite, mais um caldinho. Amanhã já poderás comer melhor. O que precisas é de dormir bem e descansar.</p>
<p>Luís, semiembriagado de felicidade, não sabia senão dizer a cada instante:</p>
<p>- Como a senhora é boa! E como eu fiz bem em vir ter consigo!</p>
<p>A marquesa e Cora indicaram-lhe um quarto bem quentinho, que lhe pareceu a antecâmara do Céu, tal era a profusão de azul que ali havia.</p>
<p>A sua alegria aumentou quando viu, deitado no tapete, o seu velho Mauricaud, bem limpo e bem comido a dormir regaladamente.</p>
<p>Luís dormiu dum só sono toda aquela noite. De manhã encontrou numa cadeira a roupa que lhe era precisa. Uma roupa nova, quente e macia. Deram nove horas. Nunca Luís se levantara tão tarde. Aquela noite bem dormida fora suficiente para lhe restaurar as forças, e Beatriz, ao entrar no quarto, ficou plenamente satisfeita com a aparência do pequeno.</p>
<p>- Vamos tomar o pequeno-almoço. Deves ter muito apetite esta manhã.</p>
<p>À mesa, colocaram-no perto do fogão e todos disputavam as honras de o servir, de o divertir, de</p>
<p>lhe fazer esquecer, enfim, as más horas que tinha</p>
<p>passado.</p>
<p>Mauricaud não foi abandonado. Nunca na sua</p>
<p>vida de cão de pastor sonhara que houvesse tão</p>
<p>bons petiscos. Ah! que belo pedaço de carne assada!&#8230;</p>
<p>No fim da refeição, Luís contou as causas que</p>
<p>o levaram a procurar o apoio da senhora marquesa.</p>
<p>A criança narrou, com tanta emoção, tudo</p>
<p>quanto se passara, que Cora e a marquesa tiveram, bastas vezes, de enxugar os olhos.</p>
<p>- Minha pobre mãe não tem nada. Quem sabe</p>
<p>mesmo como terão passado? Eu não podia vê-los</p>
<p>morrer de fome. Tinha comigo apenas um resto do</p>
<p>dinheiro que a senhora me mandara. Levei cinco</p>
<p>dias a procurá-la, mas Deus foi bom para mim, pois</p>
<p>encontrei a minha benfeitora.</p>
<p>- Pobre Luísa! Como terá ela passado estes</p>
<p>dias? Mas eu estou aqui para velar por ela. Fizeste</p>
<p>muito bem em vires ter comigo. Tua mãe há-de</p>
<p>agradecer-te tudo o que passaste por amor dela.</p>
<p>- Nunca lhe pagarei tudo o que lhe devo. Não</p>
<p>conheço ninguém tão bom como ela, a não ser a</p>
<p>senhora marquesa e a menina Cora.</p>
<p>Regresso</p>
<p>Entretanto Luísa vendera todos os móveis, ficando apenas com um leito para ela e para Catarina.</p>
<p>Com o pouco que recebeu, comprou uma cama para os filhos e o dinheiro que lhe sobrou, gastou-o dentro em breve em pão e nalgum fraco conduto. Luísa via-se seriamente atrapalhada. No armário restava-lhe apenas um pedaço de pão e esse guardava-o Luísa para Catarina, quando ela voltasse da modista.</p>
<p>Uma vendedeira de Amboise tinha-lhe confiado uma porção de fio para dobar, mas a pobre senhora Rigault não tivera ainda tempo para fazer aquele trabalho, que só lhe seria pago no momento da entrega. Luísa estava muito mudada. Os desgostos tinham-na desfigurado completamente. Os cabelos embranqueceram-lhe depressa e o rosto engelhara-se-lhe e perdera toda a cor. Lia-se-lhe no semblante a tristeza, o sofrimento e a ansiedade; só os olhos se mantinham com a mesma expressão doce e resignada. Apesar de todos os golpes do destino, esta</p>
<p>alma privilegiada não perdera a esperança. Esperava sempre alguma coisa do Céu. Deus não a havia de abandonar.</p>
<p>Catarina, quando veio à noite, foi direita à mãe a abraçá-la com toda a ternura. Mas ao sentir as mãos da mãe frias, duma frialdade que incomodava, não pôde deixar de dizer:</p>
<p>- Meu Deus! Como tu estás fria! Vai sentar- te. Deixa que eu acendo o lume para aquecer a sopa.</p>
<p>- Não vale a pena, minha querida - volveu Luísa. - Sinto-me bem. O pior é que não há sopa para ti e também não temos lenha.</p>
<p>- Não há lenha?</p>
<p>- Não tenho vagar nem dinheiro para a comprar.</p>
<p>-Mas&#8230;</p>
<p>- Aqui está este pedaço de pão - disse Luísa, colocando sobre a mesa um naco de broa. - Tens que te contentar com isto hoje. Nada mais há para te dar, minha querida.</p>
<p>Catarina pegou no pedaço de pão e devorou-o sem dizer sequer uma palavra. Só no fim reparou que a mãe não tinha comido.</p>
<p>- E tu, mãe, não comes nada?</p>
<p>- Não tenho vontade. Já comi, obrigada.</p>
<p>- Mãezinha! Diz-me a verdade. Já não há dinheiro em casa, pois não?</p>
<p>Luísa olhou para a filha com os olhos marejados de lágrimas.</p>
<p>- Nosso Senhor quer-nos experimentar. Reza-lhe para que Ele nos proteja. Talvez que Ele te oiça.</p>
<p>- Minha pobre mãe! - murmurou Catarina, envolvendo-a num grande abraço. - Não chores. Vou rogar a Nosso Senhor que nos ajude e Ele há-de ouvir-me com certeza.</p>
<p>E, dizendo isto, Catarina ajoelhou-se junto do leito e fez as suas orações. Depois deitou-se e dentro em pouco estava a dormir. Luísa chorava baixinho, enquanto velava o sono da filha.</p>
<p>No dia seguinte, Catarina levantou-se e foi para a modista em jejum. Voltou à noite, trazendo um pouco de pão e carne.</p>
<p>- Minha querida, minha querida filha! - disse Luísa, enquanto aconchegava ao peito a pequenita.</p>
<p>A senhora Rigault comeu a sua primeira esmola, regada de lágrimas. Mas nisto a porta abriu-se e Luís atirou-se para os braços da mãe, apertando-a muito a si.</p>
<p>- Mãe! Trago-te aqui a felicidade.</p>
<p>Um criado sustinha, à porta, uma lanterna. À luz fraca do lampião, Luísa pôde ver, não sem assombro, o seu pequeno Luís e a senhora marquesa que lhe sorria.</p>
<p>- A senhora de Méligny, aqui!</p>
<p>- Sim, sim, é a nossa boa e querida benfeitora! Eu é que fui buscá-la a Paris - exclamou Luís, exultando de alegria.</p>
<p>- Foste a Paris?</p>
<p>- Minha boa amiga! - disse a marquesa, acercando-se dela. - Como te deves sentir orgulhosa por teres um filho como Luís. Foi a Paris, sem dinheiro e nem supões o que ele sofreu até encontrar-me. Aqui tens, Luísa. Vai comer primeiro e depois conversamos.</p>
<p>A marquesa estendeu-lhe um cesto com provisões e obrigou-a a comer com os filhos. Foi um delírio de alegria a ceia daquela noite.</p>
<p>Depois de acabarem de comer, Luísa puxou para si o filho adoptivo e assim esteve, abraçada a ele, presa duma emoção que mal a deixava pronunciar qualquer palavra.</p>
<p>- Meu filho! Meu querido filho! Não sabia que tinhas por mim tão grande dedicação.</p>
<p>- E não havia de ter, mãe? Não foi por minha causa que tu sofreste e que vieste do cantinho onde vivias? Quis pagar-te um pouco do muito que te devia, pois sei bem que nunca poderei pagar-te tudo o que fizeste por mim.</p>
<p>- Agora, minha pobre Luísa, escuta o que te vou propor - interrompeu a marquesa. - Na minha quinta há uma granja que meu marido mandou construir para ali criar gado, criação de toda a espécie de raças seleccionadas e que se apuraram cada vez mais. Gostaria que te encarregasses da direcção desta parte da quinta. Vendias o leite, os ovos e em compensação fornecerias o castelo do que ele precisasse: leite, criação, queijos, manteiga, etc. Convém-te a minha proposta?</p>
<p>- Oh! minha querida senhora! - e isto foi tudo o que a pobre Luísa pôde dizer, entre soluços de emoção.</p>
<p>A felicidade, o espanto, o reconhecimento, cortaram-lhe a palavra.</p>
<p>Luís pegou nas mãos da marquesa, que beijou num transporte de gratidão. Por sua vez Luísa, vencendo a comoção, veio pegar nas mãos da sua fidalga amiga.</p>
<p>Beatriz levantou-se e abraçou comovida a boa mulher, que correspondeu ao abraço com um misto de respeito, timidez e ternura.</p>
<p>No Céu, os anjos deviam sorrir satisfeitos, ao contemplarem este quadro de tão tocante simplicidade.</p>
<p>A granja</p>
<p>Luísa Rigault tomou conta duma deliciosa casa, rusticamente mobilada, dentro da granja que ela dirigia.</p>
<p>Tiago encarregava-se do estábulo; Luís cultivava a horta e o jardim; Catarina trabalhava numa costureira de roupa branca, que morava na vizinhança da quinta; Germano continuava a exercer o ofício do pai e até já tinha feito para Cora um gentil par de pantufas que Luísa forrara de cetim azul. Os dias passavam deliciosamente num bom ambiente de família.</p>
<p>Após dias longos de sofrimento e amargura, Deus proporcionava-lhe enfim uma existência doce</p>
<p>e serena.</p>
<p>Quando, nas noites de Verão, se sentava na soleira da porta, invadia- lhe a alma um grande bem estar, ao ver as vacas recolherem ao estábulo, os pombos entrarem nos pombais, e galinhas, patos e perus recolherem-se às capoeiras, enquanto o riso dos filhos vinha pôr uma nota mais alegre no cenário que tanto a encantava.</p>
<p>Do seu coração, subia para Deus que tantas graças lhe dera, uma oração de agradecimento. Depois, ficava-se a rezar por aquela a quem devia tanta felicidade.</p>
<p>Durante as férias, muitas vezes se via entrar pelo pequeno jardim uma linda criança, a quem toda a gente da região chamava senhor conde, mas a quem os da granja tratavam apenas por menino Renato. Este belo rapaz gostava imenso de ajudar Luís nos arranjos da horta.</p>
<p>No dia de S. Luís, o pequeno conde nunca dei xava de trazer à senhora Rigault um ramo de rosas que ela aceitava com maior prazer do que qualquer objecto precioso.</p>
<p>Também ia logo depô-las aos pés da Virgem em homenagem sentida de boa católica.</p>
<p>Cora, mais velha que Renato, não frequentava a quinta com tanta assiduidade. Tinha muito que fazer; olhava pelos convites dos bailes, organizava as festas do castelo, acompanhava a mãe a fazer visitas de caridade e por isso, só uma vez por semana, se dava ao prazer de ir ver a família Rigault. À partida, Luísa colhia um grande ramo de jasmins e rosas, o que agradava sobremaneira à menina de Méligny.</p>
<p>Houve uma ocasião em que Cora passou quinze dias sem aparecer na granja.</p>
<p>Tiago ia todas as manhãs levar o leite e os ovos ao castelo e quando perguntava notícias da menina, diziam-lhe que ia bem de saúde.</p>
<p>Luísa suspirava quando o filho lhe levava aquela seca resposta.</p>
<p>- Esqueceu-nos. Não há dúvida que já nos esqueceu. Já não é uma criança e por isso não se sente bem entre nós.</p>
<p>Os dois casamentos</p>
<p>Certo domingo, quando Luísa escutava a leitura que lhe fazia Catarina, ouviu o som de muitas vozes e um frufru de saias de seda que se aproximava. Luísa corou de alegria ao avistar a marquesa acompanhada de Cora e dum elegante cavalheiro. Levantou-se e foi ao encontro dos visitantes.</p>
<p>Cora avançou para a senhora Rigault e estendeu-lhe a mão. Luísa ficou admirada ao ver a menina de Méligny, resplandecente duma nova beleza. Os olhos tinham maior brilho, as faces mais cor e os lábios sorriam de felicidade. Parecia que a ventura transbordava desta encantadora criaturinha.</p>
<p>A marquesa contemplava sorridente o gracioso rosto de sua filha.</p>
<p>- Vimos pedir-lhe do leite da quinta, minha boa Luísa - disse Beatriz, entrando e sentando-se numa cadeira. E continuou: - Depois irás mostrar-nos os estábulos e as capoeiras.</p>
<p>- Oh, sim e com muito prazer! Há que tempos que não temos a dita de os ver. Fiquei tão contente por saber que não fomos esquecidos!</p>
<p>- Não, Luísa, não os esquecemos - respondeu a marquesa -, andámos muito ocupadas com assuntos graves. Mas daqui para o futuro seremos mais constantes, não é assim, Cora?</p>
<p>Uma súbita vermelhidão cobriu as faces da menina de Méligny.</p>
<p>- Com certeza, minha mãe, desde o momento que Jorge goste tanto da granja como eu.</p>
<p>- Porque não havia de gostar? Bastaria ser uma coisa preferida por Cora para ter também a minha preferência. Vim hoje para visitar a granja e tomar conhecimento com a família Rigault, que conto já entre as pessoas amigas.</p>
<p>- Seus amigos? Nós? Ó meu Deus! Luísa, muito comovida, não acertava com o que havia de dizer. Por fim, exclamou:</p>
<p>- Mas, então, vai casar-se, menina Cora.</p>
<p>- Sim, minha boa Luísa. Caso-me mas nunca me esquecerei de si, nem de seus filhos. Levo todos aqueles a quem bem quero, dentro do coração.</p>
<p>Cora abraçou intencionalmente a mãe que a apertou ao peito com ternura e estendeu também a mão ao futuro genro que nela depôs um beijo respeitoso.</p>
<p>À hora da merenda beberam leite servido em ca necas rústicas mas de irrepreensível asseio; comeram morangos e deliciaram-se com bolos feitos à moda aldeã.</p>
<p>No fim de visitarem todas as dependências da granja e tecerem, com justiça, elogios à boa ordem e limpeza em que tudo se mantinha, despediram-se da família Rigault com aquela elegante simplicidade própria de corações fidalgos. Cora abraçou</p>
<p>Luísa e Jorge estendeu-lhe a mão.</p>
<p>- Até à vista e creia que não deixarei de vir por cá muitas vezes - disse por último o noivo de Cora.</p>
<p>A pobre Luísa estava encantada com a maneira tocante com que a trataram. Seguiu o grupo que se afastava não só com o olhar mas também com o coração agradecido. Depois, fitando a filha mais velha, foi pensando: Quem sabe se dentro de pouco tempo não estarei em idênticas circunstâncias e não terei, à minha volta, uns pequeninos atrás dos pintainhos&#8230; e dos bácoros.</p>
<p>No fim de Agosto realizou-se o casamento de Cora com Jorge de Astaing, rapaz fidalgo e amigo da família de Morancé.</p>
<p>Durante a cerimónia a duquesa de Morancé, avó de Cora, abençoava a neta, inclinando a cabeça branca sobre os louros cabelos da menina de Méligny; a marquesa limpava com a mão trémula os olhos embaciados pelas lágrimas e a um canto a boa camponesa, Luísa, cercada de seus filhos pedia a Nosso Senhor que cobrisse com as suas bençãos aquele casamento.</p>
<p>Não tardou dois meses, que a jovem marquesa de Astaing não viesse trazer um ramo de rosas brancas para o noivado de Joana Rigault. E não se passaram muitos anos que o sonho de Luísa não se realizasse. Pela quinta corriam atrás dos pintos duas encantadoras crianças; um rapazito de dois anos, filho dos marqueses de Astaing e um outro um pouco mais velho, neto da boa Luísa. O filho dos camponeses e o pequenino fidalgo brincavam muitas vezes juntos, alarmando a criação e revolucionando a quinta com as suas adoráveis traquinices.</p>
<p>Os dois soldados</p>
<p>Ao passo que havia, quer no palácio quer na granja, mais um hóspede também faltavam dois entes muito queridos.</p>
<p>Renato, corajoso como todos os seus, querendo perpetuar o glorioso nome de que era um dos representantes, alistou-se no heróico exército francês.</p>
<p>Assim que saiu de S. Ciro, depressa obteve o posto de tenente. Fez toda a guerra da Crimeia e em breve veio trazer à mãe a notícia de que tinha ganhado a cruz de honra e o posto de capitão.</p>
<p>Tiago, por seu lado, não se quedou nos trabalhos do campo; a sua robusta natureza pedia-lhe movimento e emoção; tinha apenas um sonho: defender a Pátria sempre que ela necessitasse do seu braço ou mesmo da sua vida. Alistou-se como soldado no mesmo regimento do seu querido amigo fidalgo.</p>
<p>Pode-se imaginar, se foi ou não uma grande alegria para ambas as famílias ouvirem bater, no mesmo dia e à mesma hora, às suas portas os garbosos e simpáticos rapazes - Renato e Tiago.</p>
<p>A marquesa achou o filho mais magro, mais queimado mas também com traços mais viris.</p>
<p>Os seus olhos ardiam de prazer ao abraçar os pais, a irmã e o sobrinho.</p>
<p>Ao ouvi-lo contar os episódios da heróica campanha da Crimeia, uma das glórias da história da França, ao vê-lo fremente ainda das horas vividas em combate, a marquesa não podia deixar de sentir-se orgulhosa do filho.</p>
<p>De tempos a tempos, Renato interrompia a sua narrativa para abraçar a mãe, mal acreditando ainda, após tantos perigos passados, em tamanha felicidade.</p>
<p>- Ó meu querido filho! Como eu tremo pelos perigos passados e como tremo por todos aqueles que ainda terás de correr! Como eu gostaria que nunca mais te ausentasses daqui.</p>
<p>- Não receies nada por mim. E que satisfação não será a tua quando me vires coronel?!</p>
<p>- E até lá? E depois, contentar-te-ás com esse posto? Decerto que hás-de querer atingir o posto de general.</p>
<p>- E mesmo o de marechal de França. Com a ajuda de Deus, gostaria de vir a ser como o meu bisavô, Renato Hugo de Méligny, o herói do exército francês, em tantos feitos gloriosos. Com certeza que meu pai não se oporá a que eu siga a carreira militar.</p>
<p>- Não, meu filho. É uma nobre ambição a tua e não sou eu que me oporei a isso. Nem tua mãe,</p>
<p>tão-pouco. O que ela naturalmente tem, é o receio de perder-te, sabendo-te preso de tantos perigos como os há sempre nas batalhas.</p>
<p>Apesar de todos os receios de Beatriz, receios que o filho em breve dissipou com a sua ruidosa alegria, o tempo passou-se no meio da maior felicidade. Pena foi que corresse tão rapidamente.</p>
<p>A marquesa, à parte a dor de ver partir o filho, vivia em maré de venturas. Tinha um marido que a adorava, filhos que a cercavam de cuidados, um neto que era o enlevo da sua vida e fortuna. Tudo isto eram motivos mais que suficientes para bendizer a Providência.</p>
<p>Também Luísa Rigault vivia feliz, rodeada pelos filhos e pelo neto que tanto lhe queriam. À excepção de Tiago, todos viviam com ela. Calcule-se, pois, a alegria imensa desta mãe quando pôde abraçar o filho ausente. Luís era agora jardineiro do castelo e sentia um orgulho enorme não só pelo irmão, mas pelo filho da marquesa, que nunca deixou de o estimar, passeando com ele, muitas vezes, nas ruas da vila.</p>
<p>Para se festejar condignamente a volta do filho amado, Luísa convidou um grupo de amigos a ir jantar com eles. À volta da grande mesa de cozinha da granja, onde alvejava uma toalha de linho, sobre a qual luziam talheres e loiça brilhando de limpeza, via-se aquela boa família e os seus amigos manifestarem sã alegria, por meio duma conversação animada e risos frescos e saudáveis.</p>
<p>De manhãzinha, Tiago foi com a mãe apresentar os seus cumprimentos à senhora de Méligny, por quem foi recebido com a maior cordialidade e simpatia.</p>
<p>- Veja, minha mãe - disse Renato dirigindo-se a ela, ao mesmo tempo que estendia a mão a Tiago. - Aqui está um corajoso rapaz! É mesmo mais resistente do que eu. Tem, a par duma grande coragem, uma resistência física maior do que a minha.</p>
<p>- O meu capitão foi um valente e eu que o diga. Corajoso e bom como poucos. Também todos o estimam no quartel.</p>
<p>Beatriz sorria de satisfação, a ouvir falar assim da coragem e da bondade do filho. O coração exultava-lhe de alegria.</p>
<p>Durante os seis meses de férias dos dois militares, as duas famílias encontraram-se muitas vezes na granja e aí merendavam o bom leite e os frescos queijos que Luísa preparava.</p>
<p>Naquele ano, a marquesa passou o Natal em Morancé. Só nos primeiros dias de Janeiro se ausentou para retomar a vida de sociedade, em Paris.</p>
<p>Luísa vivia agora como senhora absoluta dos domínios da marquesa, mas isto enchia-lhe o coração de amargurada saudade e só a ternura do neto, com quem habitualmente passeava, conseguia aligeirar-lhe a alma das suas mágoas.</p>
<p>Luísa gostava de ensinar o neto a repartir o pão não só com os pobres como também Com os animais, principalmente com os passaritos que, no Inverno, por ali andavam cheios de fome.</p>
<p>O mau tempo de chuvas e de frios foi passando. À volta de Luísa tudo prosperava. No domingo, à tarde, a nesa enchia-se de gente. Pelo seu trabalho e economias, Luísa, que tinha o sublime vício da caridade, podia dar a este ou àquele o que lhe sobrava. Também gastava prodigamente com o neto, trazendo-o sempre bem agasalhado nas suas vestes de bom menino.</p>
<p>Luís é que nunca aceitou nada da mãe. Bem pelo contrário; ele é que despendia parte do que ganhava, com presentes para ela.</p>
<p>Quando Luísa o repreendia por tais gastos, o rapaz respondia prontamente:</p>
<p>- Então, mãe?! Não te sacrificaste tanto por mim? Não é justo que eu queira trabalhar para ti? Deixa-me ter este prazer; não me queiras privar dele, pois sofreria muito com isso.</p>
<p>Luísa sorria contente e abraçava o filho com certa comoção.</p>
<p>Apesar da marquesa não deixar na região campo para se exercer a caridade, Luísa, seguindo os impulsos do seu generoso coração, sempre achava maneira de ser útil aos outros: dava conselhos a este; levava um caldo a certa velhinha doente; palavras amigas a uma alma inquieta e por toda a parte a graça dum sorriso e uma saudação amiga. - Sigo as pisadas da minha benfeitora, que sempre espalhou o bem com mãos pródigas; e nós</p>
<p>somos um exemplo bem vivo da sua imensa bondade.</p>
<p>Estas palavras, dizia-as Luísa aos seus, sempre que eles, receosos que ela dispendesse energias superiores às suas forças, lhe pretendiam refrear a caridade.</p>
<p>O tempo feliz passa sempre depressa e assim, os seis meses de férias voaram como um sonho.</p>
<p>No princípio de Abril, Tiago e Renato retomaram a vida militar.</p>
<p>- Mãe, não fiques em cuidado comigo. De resto, estamos em tempo de paz; nada tens que temer. E se houver guerra, eu saberei cumprir o meu dever; e juro-te que hei-de trazer-te a cruz de honra, para que possas orgulhar-te de teu filho.</p>
<p>- Se houver guerra, que Deus tal não permita, traz-me antes a tua presença. É essa que eu desejo e nada mais.</p>
<p>Primeira provação</p>
<p>Nesse ano a marquesa voltou muito triste para</p>
<p>o castelo. Pela primeira vez vinha sozinha. A filha</p>
<p>não a acompanhava.</p>
<p>O velho duque de Astaing morrera. Fora pois,</p>
<p>necessário, que o filho partisse para as Antilhas, a fim de tomar conta da enorme fortuna que o pai</p>
<p>lhe deixara. Cora acompanhara o marido e Deus</p>
<p>sabe quanto, com isto, sofrera o coração das duas</p>
<p>mulheres. Quantas lágrimas deslizaram pelas faces</p>
<p>de ambas e que soluços, estrangulados pela dor, se</p>
<p>não ouviram!</p>
<p>A senhora de Méligny ainda quis acompanhar</p>
<p>os filhos até ao Havre, mas sentiu-se tão fraca, que</p>
<p>não se atreveu a fazê-lo.</p>
<p>Quando viu afastar-se o barco, a marquesa</p>
<p>sentou-se numa pedra, enquanto as lágrimas corriam abundantemente pelas faces. O marquês, passado algum tempo, amparou a esposa com o carinho e a ternura que sempre lhe dedicara.</p>
<p>- Minha querida mulher! Não chores como se</p>
<p>Cora tivesse morrido. Ela é feliz e vai com o marido que tanto a estima. E vê, querida, que ainda nos fica Renato.</p>
<p>- Renato! Sem dúvida; mas também ele me causa tantos receios. Não se declarou a guerra e não é ele um oficial brioso? O que sucederá? Nem quero pensar nisso, sequer.</p>
<p>- Beatriz! Não tens direito de duvidar da bon dade de Deus.</p>
<p>- Sim, porque Nosso Senhor concedeu-me até hoje todas as venturas e ainda agora mesmo me deixa a amparar-me a força do teu braço amigo. Mas que queres? Tenho tanto medo!</p>
<p>- É a tua primeira provação, minha amiga. É preciso resignação e muita coragem.</p>
<p>Alguns dias após a partida de Cora, o jovem conde de Morancé veio despedir-se dos pais. O seu desgosto era bem recompensado pela alegria que lhe inundava a alma. Ia defender a pátria!</p>
<p>- Adeus, minha santa mãe, voltarei, afianço-te.</p>
<p>- Cala-te, por Deus! Não me lembres, com essas palavras, a possibilidade de te perder.</p>
<p>- Minha querida mãe! Mas onde está esse coração heróico que todos conhecemos? Culpas-me</p>
<p>por cumprir o meu dever? Não foste tu própria que me deste esse exemplo, mesmo quando foi necessário expores a vida?</p>
<p>A marquesa sorriu-se tristemente.</p>
<p>- Tens razão, meu filho. Parte a cumprir o teu</p>
<p>dever, mas deixa-me chorar. Não é natural que as</p>
<p>lágrimas que tenho na alma subam aos olhos? Se</p>
<p>eu te perdesse? Como havia de poder suportar tão</p>
<p>grande desgosto?</p>
<p>- Tem confiança em Deus e verás que Ele te</p>
<p>poupará uma tal dor.</p>
<p>- Meu filho Tu vais partir e Deus sabe quando</p>
<p>voltarás. Nesta hora, tão dolorosa para nós ambos, quero que te sintas orgulhoso de ti. Foste realmente</p>
<p>o filho que eu desejei, digno e bom como nenhum</p>
<p>outro.</p>
<p>O conde beijou com ardente ternura a boa senhora e disse-lhe com a voz trémula de emoção:</p>
<p>- Não sou digno dos teus elogios, mas agradeço-te quanto me disseste. As tuas palavras serão um esteio nas horas dolorosas e uma bela recompensa pelo pouco que tenho feito.</p>
<p>O marquês quebrou, propositadamente, esta</p>
<p>cena demasiadamente emotiva, dizendo:</p>
<p>- É tempo de nos pormos a caminho. Abraça</p>
<p>tua mãe e vamos. Acompanho-te até Tours.</p>
<p>- Eu irei até ao portão do jardim - replicou</p>
<p>Beatriz.</p>
<p>Durante os minutos que durou este triste cortejo, Beatriz sorria quase calma. Queria assim fazer esquecer os temores que há pouco a tinham assaltado.</p>
<p>Mas logo que o jovem marquês a abraçou pela</p>
<p>última vez e subiu para a carruagem, mal esta se</p>
<p>pôs em movimento, a marquesa deu livre curso às</p>
<p>suas lágrimas.</p>
<p>Ali ficou, durante muito tempo, agarrada às grades do portão, acompanhando, com o olhar desvairado, o caminho por onde seguira a carruagem. Foi acordada deste estado de espírito por um soluço que lhe fez voltar rapidamente a cabeça.</p>
<p>Era Luísa que também viera de acompanhar o filho, que partira para a guerra.</p>
<p>- Bem vejo que não sou eu a única a sofrer nesta hora de provação.</p>
<p>- Ah minha senhora! Minha senhora! Os nossos filhos partiram para a guerra.</p>
<p>As duas mulheres, lavadas em lágrimas, caíram nos braços uma da outra, confundindo as suas dores numa só. Não havia ali uma camponesa e uma fidalga, mas sim duas mães irmanadas pelo mesmo sofrimento.</p>
<p>- Vamos, minha senhora, é preciso termos co ragem - disse, por fim, Luísa, amparando a marquesa e conduzindo-a até ao palácio. - Ai, meu Deus! Sentimo-nos tão fortes com a presença de nossos filhos! E como nos sentimos fracas com a sua ausência!</p>
<p>- Vem comigo rezar por eles, minha boa Luísa. Deus há-de protegê-los, assim o espero.</p>
<p>Más notícias</p>
<p>No dia seguinte à batalha de Solferino, chegaram duas cartas a Morancé: uma para Luísa e outra para a senhora de Méligny.</p>
<p>A de Tiago rezava assim:</p>
<p>Minha boa mãe</p>
<p>Se ainda estou vivo é ao meu capitão que</p>
<p>devo a vida. O que te passo a contar é muito</p>
<p>lindo, mas também é muito triste.</p>
<p>Não vou contar-te a batalha. Osjornais terão dito, e muito melhor do que eu o faria, tudo</p>
<p>quanto se passou. De resto, quem vive na guerra</p>
<p>não dá conta dos pequenos pormenores, tão</p>
<p>preso está à própria acção da luta. Mas vamos</p>
<p>ao que importa. Num dos ataques a um reduto</p>
<p>austríaco em que eu tomava parte, atirei-me</p>
<p>com tantafúria a um inimigo que me atacava, que quebrei a espingarda, nessa luta de corpo a corpo.</p>
<p>Estaria nas mãos do austríaco se nãofosse</p>
<p>o socorro que me veio das mãos do meu capitão, mas, oh momento horrivel (nem me quero lembrar!). Uma bala, vinda não sei de onde, feriu, em pleno peito, o meu superior, o meu benfeitor, o meu amigo, o meu salvador. Teria caido por terra se eu não o tivesse amparado.</p>
<p>- Meu capitão Épreciso sairmos deste inferno. Vou levá-lo às costas até à ambulância. A principio não queria aceitar o meu oferecimento, mas depois não teve outro remédio. Sabes lá o que eu sofri ao ver o meu querido capitão quase morto, coberto de sangue, afronte banhada em suor. O que eu sofri! Extrairam finalmente aquela maldita bala, mas ainda corre &#8221; grande perigo. Porque é que Deus, salvando-me, não o salvou a ele ? Se alguém, na verdade, merecia ver de novo seu filho são e salvo, seria, sem dúvida, a senhora marquesa. Se ele voltar a Morancé (meu Deus, será possível que ele não volte?), a senhora de Méligny vai achá-lo muito mudado. Há dois dias que eu não o deixo, um momento que seja, o meu nobre capitão. O que eu tenho chorado. Trouxeram-lhe a</p>
<p>medalha de honra e ele teve ânimo de sorrir i quando lha puseram. Meu bom amigo Não a</p>
<p>trará por muito tempo, a não ser que Deus queirafazer um milagre. Tuprópria, mãe, não sabes como é bom e generoso o nosso capitão.</p>
<p>Todos lhe queremos muito bem e nos olhos de todos nós há lágrimas mal contidas. Mãe! mãe! nem quero pensar no que poderá suceder.</p>
<p>Adeus, minha querida mãe.</p>
<p>Pede a Nosso Senhor que salve o meu benfeitor.</p>
<p>&lt;Abraça, por mim, o Luís, o Germano e as minhas irmãs.</p>
<p>Beija-te o filho muito amigo e respeitoso Tiago Rigault.</p>
<p>A carta de Renato era mais curta. Eis o seu conteúdo:</p>
<p>Minha muito querida mãe</p>
<p>Dentro de pouco tempo, conto estar junto</p>
<p>de vós todos. Vão talvez achar-me um pouco</p>
<p>mudado. Fui ferido em Solferino; felizmente</p>
<p>nada de grave. No entanto, como sinto que sou</p>
<p>aqui um inútil, pedi para regressar a Morancé.</p>
<p>Creio que só aí reconquistarei a saúde. As tuas</p>
<p>mãos queridas, minha santa mãe, têm o segredo</p>
<p>de curar. Serão elas que me curarão, não é</p>
<p>assim ?</p>
<p>Um abraço a envolvê-los todos. Não se in quietem. Este ferimento é ainda umafelicidade, pois é ele que mefaz ir mais depressa para junto de vós.</p>
<p>Beijo-te, mãe E até breve.</p>
<p>- Ferido! O meu querido filho está ferido!</p>
<p>- repetia a marquesa ao entregar a carta ao marido.</p>
<p>- Então, Beatriz! Não te deves alarmar. Este</p>
<p>ferimento não é grave. É ele mesmo que o diz.</p>
<p>- Ah, meu amigo! Compreendes que Renato, mesmo que estivesse gravemente ferido, não mo mandaria dizer. De resto, vê-se bem pela letra que sofre muito. A sua mão deveria estar muito trémula quando escreveu estas curtas frases.</p>
<p>- Minha querida Beatriz! É preciso não desesperar e ter confiança, muita confiança em Deus que</p>
<p>tudo pode. Peço-te que te enchas de coragem e o</p>
<p>recebas com um rosto quanto possível calmo. Mostra-te o que tens sido sempre: o anjo bom do nosso</p>
<p>lar. Já não te peço que te mostres forte, por mim.</p>
<p>Sou homem, sei sofrer calado, mas não me tires a</p>
<p>coragem com o teu sofrimento. Amparemo-nos um</p>
<p>ao outro e mostremos a este corajoso rapaz, que</p>
<p>soube arriscar a sua vida, que também somos capazes de sofrer em silêncio.</p>
<p>Beatriz estendeu a mão ao marido, ao mesmo</p>
<p>tempo que lhe dizia:</p>
<p>- Está bem, meu bom amigo! Farei tudo por</p>
<p>ti, por Cora e pelo nosso querido Renato.</p>
<p>- Obrigada, Beatriz! Não sabes o bem que me</p>
<p>fazes. Vamos ver Luísa. Ela deve já ter recebido</p>
<p>notícias do filho.</p>
<p>E os dois dirigiram-se para a granja.</p>
<p>Ao entrar na vasta cozinha onde se encontrava</p>
<p>geralmente, a camponesa, viram-na debulhada em</p>
<p>lágrimas com um papel na mão que ela tentou esconder, quando os avistou.</p>
<p>Em presença da sua dor, Beatriz empalideceu.</p>
<p>- Mas o que há, Luísa? Tiveste notícias de Itália?</p>
<p>- Sim senhora marquesa. Tive boas notícias. Tiago está bom e teve subida de posto e o senhor Renato parece que deve chegar brevemente.</p>
<p>- Sim, mas ferido.</p>
<p>- E foi para salvar o meu filho.</p>
<p>- Para salvar o teu filho?</p>
<p>Luísa contou então o que Tiago lhe mandara dizer, tendo o cuidado de ocultar a gravidade do ferimento.</p>
<p>A marquesa ouvia-a quase sem respirar.</p>
<p>- O meu filho! Um tal ferimento deve trazer-te felicidade. Mas porque choras, Luísa? Teu filho mandou-te dizer que Renato está gravemente ferido? Diz a verdade.</p>
<p>- Não, minha senhora, não - exclamou, aflitivamente, a pobre Luísa. - É que o meu tio. sim&#8230; o tio Tomás está muito mal.</p>
<p>Luísa não sabia mentir e mesmo esta piedosa mentira a fez corar subitamente. A marquesa, porém, não reparou.</p>
<p>- Minha boa amiga. Trata-se do teu velho parente? E que idade tem ele?</p>
<p>- Setenta e sete anos muito fatigados.</p>
<p>- Com tal idade já é fácil ver-se morrer alguém. O que faz pena, muita pena é ver morrer os novos.</p>
<p>- O senhor Renato não diz o dia em que chega?</p>
<p>- Não; não me diz quando, mas sei que chega brevemente. Ah! como me vão parecer longos estes dias de espera! Adeus, minha boa Luísa. Hei- de voltar com ele e trazer- te notícias de Tiago. Por um acaso estranho e, como se o Céu não quisesse que Luísa tivesse mentido, o correio trouxe uma carta na qual o notário lhe dizia que o seu velho parente tinha morrido. Pedia-lhe também que fosse a Lussan tomar conta da herança.</p>
<p>- Ó meu Deus? Quem me havia de dizer uma coisa destas?. Poderei assim dar um dote à minha Catarina. Já que não te queres casar, encontrarás nesse dinheiro o amparo que te daria um marido. De resto, se modificares tua ideia e te casares, será o teu dote de casamento.</p>
<p>- Não, mãe. Nunca me casarei. Ficarei a viver sempre consigo.</p>
<p>- Sabe-se lá o futuro! No entanto, gostaria de te ver amparada. Quando eu morrer há-de custar-me muito deixar-te só. Bem. É preciso ir a Lussan. Tu ficarás a tomar conta da granja durante a minha ausência. Eu irei com Luís que sabe, melhor do que eu, as voltas a dar. Vai preveni-lo, Catarina.</p>
<p>Daí a momentos Luís estava na cozinha da granja.</p>
<p>A mãe mostrou-lhe a carta do notário e pediu- lhe que a acompanhasse.</p>
<p>- Estou sempre pronto a fazer o que quiseres.</p>
<p>- Vamos amanhã?</p>
<p>- Como queiras.</p>
<p>No dia seguinte, ambos subiram para a carrocita em que costumavam levar as suas provisões para vender no mercado; mas antes de se afastarem Luísa disse à filha:</p>
<p>- Catarina! Vai ter com o senhor Abade e</p>
<p>pede-lhe que mande rezar umas missas por alma do</p>
<p>pobre Tomás Rigault. Deus tenha compaixão da</p>
<p>sua alma e lhe perdoe, como eu lhe perdoo de todo</p>
<p>o coração, o mal que nos fez; felizmente, em parte</p>
<p>reparado, pelo que nos deixou agora.</p>
<p>Luísa vendeu a propriedade de Lussan, com os</p>
<p>terrenos adjacentes, e confiou ao notário a gerência da sua pequena fortuna.</p>
<p>Que sonhos se criaram na imaginação da humilde viúva Com aquele dinheiro poderia ajudar</p>
<p>o genro a desenvolver o seu comércio de sementes:</p>
<p>ver a sua Catarina bem casada; comprar umas terras ali perto para Luís cultivar flores (a sua grande</p>
<p>paixão), alindar e aumentar a lojita de Germano&#8230;</p>
<p>Que coisas, ela sonhava, a boa Luísa!</p>
<p>Passados três dias, a marquesa recebeu nos braços o seu querido Renato e cobriu-lhe de beijos a</p>
<p>fronte pálida.</p>
<p>Oh! mas que amargura sentiu, ao ver no rosto</p>
<p>tão amado os vincos dum grande sofrimento. Com</p>
<p>que tristeza ela contemplou o jovem conde. Quem</p>
<p>diria que aquele rapaz, outrora tão belo, tão cheio</p>
<p>de vida e ardor, era o mesmo que ali estava, magro, fraco, envelhecido&#8230;</p>
<p>Durante muito tempo apertou nas suas as mãos febris do filho.</p>
<p>- Meu querido, meu bom Renato! Como estás fatigado! Vem deitar-te.</p>
<p>- Não, mãe; deixa-me ter o prazer de estar junto de vós, nesta primeira noite. Deixa-me criar a ilusão de que tudo se passa como outrora.</p>
<p>O jovem conde soube tão bem disfarçar o seu mal físico, que a marquesa sentiu renascer a esperança.</p>
<p>- Tu sofres! - exclamou, pegando-lhe de novo na mão. - Vai deitar-te, meu amor.</p>
<p>- Oh, não, minha mãe! Sinto-me tão bem! Foi este sangue da boca, que me vieste limpar, que te assustou? Isto não tem importância. Se até me alivia, crê. Vamos visitar a pobre Luísa e levar-lhe uma carta do filho. Como deve ficar contente quando eu lha entregar!</p>
<p>- Não; hoje não. Vejo bem que tu não podes e que precisas descansar.</p>
<p>- Peço-te, mãe, faz-me esta vontade.</p>
<p>- Seja! Vamos, já que tanto o desejas. Renato sentia-se com poucas forças, mas esperava, com este passeio, dissipar os receios da mãe. A sua coragem moral suplantaria a sua fraqueza física. E levantando-se, o conde ofereceu, não sem uma certa galantaria fidalga, o braço à senhora de Méligny.</p>
<p>- Dê-me o braço, minha mãe. Que alegria podê-la sentir apoiada a mim!</p>
<p>Fazendo das fraquezas forças, atravessou com passo, relativamente firme, as áleas da quinta até chegar à granja.</p>
<p>As sombras dum começo de noite ocultavam um pouco a palidez e os traços cavados pela doença. No entanto, Luísa, ao vê-lo, mal pôde conter as lágrimas.</p>
<p>O conde abraçou com efusão a boa Luísa, falou-lhe de Tiago e só noite cerrada é que voltou para o palácio.</p>
<p>A marquesa quis cuidar ela própria do filho. Depois de enfiar uma bata, sentou-se à cabeceira, tentando fazê-lo adormecer.</p>
<p>- Não, minha mãe; não consinto que fiques aqui toda a noite. Isso de maneira nenhuma. Vamos! Faz-me a vontade! Vai deitar-te.</p>
<p>- Deixa-me ver-te adormecer.</p>
<p>Renato, como visse que toda a insistência seria inútil, calou-se.</p>
<p>O silêncio reinou, naquele quarto, durante muito tempo. O conde fazia todos os esforços possíveis para dormir, mas o sono fugia-lhe, porque o sofrimento era grande.</p>
<p>Passada uma hora, Renato voltou-se para a mãe e disse-lhe com uma calma impressionante:</p>
<p>- Sinto-me tão bem! Não posso dormir enquanto estiveres aqui. Vai descansar, para eu sossegar também.</p>
<p>Beatriz ainda tentou resistir, mas o filho tanto lhe pediu, que não teve remédio senão ceder.</p>
<p>Desespero</p>
<p>Mal chegou aos seus aposentos, a marquesa, fatigada por tantas emoções, atirou-se, mesmo vestida, para cima da cama. Dentro em pouco adormecia num sono agitado e inquieto. No entanto, quando acordou parecia-lhe que dormira muito.</p>
<p>Sobressaltada, correu imediatamente para o quarto do filho. Ali não se ouvia o mais pequeno barulho. Renato parecia dormir, tão imóvel estava; mas havia naquela imobilidade qualquer coisa de terrível.</p>
<p>A marquesa aproximou-se, a tremer, do leito de Renato; beijou-o; pegou-lhe na mão e, ao senti-la gelada, soltou um grito, meio abafado pela dor.</p>
<p>- O meu filho morreu!</p>
<p>E caiu de joelhos, aos pés da cama de Renato. O marquês chegou daí a instantes e fez tudo o que pôde para chamar à vida o infeliz rapaz. Em breve chegou o médico que declarou não haver nada a fazer. O conde sucumbira, devido a hemorragias internas, que tantas vezes sobrevêm após ferimentos graves.</p>
<p>O marquês, mal ouviu as palavras do médico correu para junto de sua mulher, apertou-a nos seus braços e ambos choraram a morte do filho tão amado.</p>
<p>Essa crise de lágrimas salvou, possivelmente, a vida da marquesa.</p>
<p>- Meu filho! Meu querido filho! Tão novo, Tão generoso e tão bom!</p>
<p>Estas e outras frases semelhantes saíram, por entre soluços, da boca da senhora de Méligny que, debruçada sobre o leito de morte, parecia não poder deixar de contemplar e de beijar aquele que ainda há pouco lhe falava e lhe sorria e que, agora, ali estava imobilizado pela morte.</p>
<p>O marquês, a um canto, soluçava, podendo ouvir-se de vez em quando estas simples palavras, ditas com um misto de ternura e desespero:</p>
<p>- Meu filho! Meu pobre filho!</p>
<p>Beatriz continuava a olhar e a beijar o rosto frio do conde de Méligny para quem a vida acabara tão cedo!</p>
<p>- Meu Deus, será possível que mo tivésseis le vado? Então eu nunca mais, nunca mais o verei?</p>
<p>E as lágrimas, lágrimas quentes como fogo, queimavam-lhe as faces devastadas pela dor.</p>
<p>Toda a noite ali ficou a pobre Mater Dolorosa, quase sem se aperceber do que se passava à sua volta.</p>
<p>Só tinha olhos para aquele filho que assim partira para uma interminável viagem. Mal deu mesmo conta da entrada do velho Abade, mal ouviu as orações de finados.</p>
<p>- Meu filho! Meu Renato!</p>
<p>No dia seguinte, aproximadamente à mesma</p>
<p>hora em que o conde falecera, o marquês e o cura</p>
<p>conseguiram afastá-la dali.</p>
<p>A criada de quarto ajudou a senhora de Méligny</p>
<p>a deitar-se num divã e o marquês sentou-se a velar</p>
<p>por ela, com a solicitude e o carinho, com que se</p>
<p>vela uma criança.</p>
<p>O senhor Abade pretendia incutir, com as suas</p>
<p>palavras, cheias do espírito de Deus, coragem</p>
<p>àquela pobre alma amarfanhada pela dor.</p>
<p>- É preciso ter resignação. Olhe que a senhora</p>
<p>marquesa tem sérios deveres a cumprir para com</p>
<p>o seu marido, para com a sua filha e para com os</p>
<p>pobres.</p>
<p>- Meu Renato! Meu querido filho! Ah! deixem-me abraçá-lo e vê-lo mais uma vez.</p>
<p>Galvanizada pela ideia de poder ver ainda o</p>
<p>rosto amado, a marquesa levantou-se e caminhou</p>
<p>num passo automático até ao quarto do filho.</p>
<p>O jovem conde repousava já no caixão. A marquesa levantou a mortalha e beijou-o perdidamente.</p>
<p>- Meu filho! Meu querido Renato!</p>
<p>Quebrada por tantas e tão fortes emoções, a</p>
<p>marquesa perdeu os sentidos.</p>
<p>Quando voltou a si, o portão de jazigo de família fechara-se já a guardar o corpo do jovem</p>
<p>conde.</p>
<p>O marquês não estava menos acabrunhado pela perda do filho do que a marquesa. Como homem, não manifestava tanto a sua dor, mas ela vivia profundamente recalcada no seu coração.</p>
<p>Vira desaparecer o último representante da sua raça, numa idade em que tudo havia ainda a esperar, e tinha que velar pela saúde da mulher. Que força moral lhe era precisa, santo Deus!</p>
<p>Nunca mais se pronunciou o nome de Renato. Para quê, se esse nome estava gravado a fogo nos seus corações torturados pela dor?</p>
<p>Um dia, a Beatriz deparou-se-lhe uma folha de papel, caída dum álbum, escrita pelas mãos ainda inábeis de Renato.</p>
<p>Mãe</p>
<p>&lt;Como é doce o teu nome e como eu te quero por tudo quanto tens feito por mim e pelos outros!</p>
<p>Quando era pequenino, salvaste-me a vida, velando por mim, dia e noite. Eu estava muito mal com uma febre que me devorava. Ficaste tãofraca, que adoeceste e estiveste quase a morrer por minha causa. Deixa estar, mãe, que, quando eu for homem, hei-de tornar-te tão feliz, que tu hás-de querer viver sempre.</p>
<p>- Ó meu amor! Como tu eras meu amigo! Porque não cumpriste o teu voto de criança? Meu Deus! Porque não o quiseste?</p>
<p>O marquês, que estava ali perto, pegou no papel que a marquesa lhe entregou, leu-o e, sem querer, as lágrimas saltaram-lhe, a quatro e quatro, dos olhos.</p>
<p>- Minha querida mulher! Minha grande amiga! Enchamo-nos de coragem e carreguemos ambos com a cruz, demasiadamente pesada para um só.</p>
<p>A senhora de Méligny encostou-se ao ombro do</p>
<p>marido a soluçar e a repetir o nome tão amado:</p>
<p>- Meu Renato! Meu pobre filho!</p>
<p>Ao fim de alguns dias, a marquesa acompanhada do marido, foi visitar o filho.</p>
<p>Por onde passava, recolhia olhares de compaixão. Todos a amavam, todos a lamentavam. Pela</p>
<p>primeira vez a que fora admirada, abençoada, a</p>
<p>que espalhara a mãos cheias o bem, a consoladora</p>
<p>dos aflitos, se via, por sua vez, olhada com piedade.</p>
<p>Uma vez no jazigo, a marquesa ficou-se durante</p>
<p>muito tempo de joelhos, diante do sarcófago que</p>
<p>continha os despojos de seu infeliz filho. O marquês, no fim de algum tempo, ajudou-a a erguer-se</p>
<p>e, em silêncio, atravessaram a vila e dirigiram-se</p>
<p>para o castelo.</p>
<p>Nesse mesmo dia, escreveu à filha, a pedir-lhe</p>
<p>que voltasse o mais rapidamente possível. Precisava</p>
<p>dela para a prender ainda à vida.</p>
<p>No mês de Dezembro, voltou para Paris. Claro</p>
<p>que os seus salões não se abriram senão para os íntimos.</p>
<p>Uma noite, já então mais resignada, pela graça da fé, a senhora de Méligny reparou nos estragos que o desgosto fizera no rosto do marido. Por aí viu quanto ele tinha sofrido, sempre calado por amor dela.</p>
<p>Desde esse momento sentiu um desejo imenso de corresponder a tão grande dedicação, com outra de igual valor.</p>
<p>A partir de então tentou sorrir, conversar sobre vários assuntos, que sabia distrairem e interessarem o marido; tornou-se menos melancólica e mais terna.</p>
<p>O senhor de Méligny compreendeu o sacrifício dessa digna atitude e exultou de contentamento, por Deus lhe haver dado por esposa aquela santa mulher.</p>
<p>Cora escreveu a anunciar a sua chegada no mês de Abril, mas esse mês passou-se e Cora não conseguiu chegar.</p>
<p>A marquesa retomou os seus passeios - a maior parte deles ao jazigo do filho. Ia quase sempre acompanhada pelo marquês, que via, com satisfação, as cores voltarem ao rosto ainda emagrecido da marquesa de Méligny.</p>
<p>No entanto, um mal secreto roía as entranhas desta pobre senhora, que bem sabia não tardar muito a ir ter com o bem amado filho. Por isso, desejava que a filha viesse o mais brevemente possível. Temia tanto não a tornar a ver. Não a voltar a abraçar.</p>
<p>À medida que os dias iam passando, mais se acentuava a sua fraqueza e maior era o desejo de tornar a ver a filha:</p>
<p>- Cora! Cora! Vem depressa</p>
<p>Um dia veio em que a pobre senhora não se pôde levantar.</p>
<p>- Meu amigo, meu bom Leopoldo. Deus tem-nos dado ultimamente uma bem grande cruz! Éramos dois a suportá-la. É possível que fiques agora sozinho com o peso duma maior. Mas, quando eu já não for deste mundo, que te sirva de consolação o saberes que me fizeste feliz durante trinta anos.</p>
<p>- Beatriz, minha querida mulher! Deus não há-de querer arrancar-te à minha ternura e à de nossa filha.</p>
<p>- Que pena tenho de não ver Cora! E que mágoa a de deixar-te! Mas assim é preciso. Faz hoje um ano que Renato morreu e ele chama-me lá do Céu, para onde foi. Desejo bem ir ter com ele e no entanto, Deus sabe, quanto me custa deixar-vos e, sobretudo, não poder abraçar a minha filha. Porque não veio ela?</p>
<p>Lágrimas quentes correram dos olhos febris da senhora de Méligny.</p>
<p>- Hás-de viver ainda muito tempo depois de ver a nossa filha.</p>
<p>Beatriz sacudiu a cabeça.</p>
<p>- Não, não tornarei a vê-la; a não ser que ela chegue ainda hoje. Leopoldo, manda chamar o senhor Abade. Quero preparar-me condignamente para a minha última viagem.</p>
<p>Alguns instantes depois, o bom sacerdote ouvia a confissão da piedosa senhora e ministrava-lhe a Santa Unção.</p>
<p>O rosto de Beatriz brilhava de esperança; nos seus olhos já não se viam nem a angústia, nem os cuidados da terra. Era uma alma a voar para Deus.</p>
<p>Últimos momentos</p>
<p>O quarto da marquesa estava tristemente iluminado por fraca luz espalhada pela lâmpada de alabastro.</p>
<p>A marquesa, confortada com os Santos Sacramentos, a alma apaziguada pela fé, fazia as suas últimas disposições.</p>
<p>Confiava à guarda do marido os pequeninos do</p>
<p>asilo, todos os seus pobres, todos que enfim sofressem e que precisassem de conforto moral ou físico.</p>
<p>Os criados, ajoelhados na sombra do quarto, choravam por aquela que fora para eles não uma patroa, mas sim uma amiga, uma santa protectora.</p>
<p>Começava a romper o dia quando alguém se</p>
<p>ajoelhou junto ao leito da marquesa, cujo olhar se</p>
<p>toldava já com as sombras da morte.</p>
<p>- Cora! Deus teve piedade de mim! Gostava</p>
<p>tanto de me despedir de ti!</p>
<p>A senhora de Astaing levantou-se, cerrou contra o peito a moribunda, que rendeu a alma a Deus enquanto dos seus lábios se escapava o último sopro de vida.</p>
<p>No mesmo dia, quase à mesma hora, Luísa, de olhos voltados para a janela aberta, via pela última vez o Sol a inundar de oiro os campos que tanto amara.</p>
<p>Luísa, após receber os sacramentos, preparava-se também para deixar este mundo onde, a par de muitas horas dolorosas, vivera alguns momentos bem felizes.</p>
<p>Esta humilde mas generosa criatura deixava jus tamente a vida quando ela lhe começava a sorrir. Que importava? Fruto do seu amor e dedicação ali ficavam os seus a usufruir todo o bem que Deus lhe concedera ultimamente.</p>
<p>- Deus seja louvado! Meus filhos, meus netos e os filhos dos meus netos ficam com algo de seu, terão com que viver, sem conhecerem os horrores da fome.</p>
<p>À volta do leito a família rezava, mal se con formando com o desaparecimento da que fora para eles uma verdadeira santa.</p>
<p>Também ela, com a marquesa, fazia as suas últimas disposições, que todos escutavam com o maior respeito.</p>
<p>Por fim, Luísa beijou, um a um, os filhos, levou aos lábios trémulos o crucifixo de madeira e lançou um olhar cheio de magoada tristeza sobre Luís que, por sua estranha sensibilidade, se mostrava o mais acabrunhado.</p>
<p>Sentia que ao perder a mãe perdia o elo que mais o prendia àquela família de adopção.</p>
<p>Luísa chamou-o para junto de si, recomendou- lhe Catarina, a filha mais nova, ao mesmo tempo que dizia :</p>
<p>- Fica-te Catarina. É um coração generoso e há- de amar-te como tu mereces ser amado, meu filho.</p>
<p>- Mãe! Descansa que ela será minha mulher. Assim o queira e hei-de fazê-la feliz, podes crer.</p>
<p>Ainda lhe recomendou, numa voz fraca, os outros irmãos e, com as mãos trementes, abençoou-os a todos.</p>
<p>- Recebei a minha bênção, meus filhos. Que Deus seja convosco e vos proteja a todos, em Sua divina graça.</p>
<p>Beijou mais uma vez o crucifixo, levantou os olhos ao Céu, deu um fraco suspiro e ficou-se, como uma santa.</p>
<p>A sua alma voara para os pés de Deus, a rogar- Lhe por todos os que amara na terra.</p>
<p>FIM</p>
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		<title>Chocolate à Chuva</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 16:23:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Historias Infantis</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Fizemos malas, desfizemos malas, vamos embora, não vamos embora, tira o mapa da gaveta, volta a pôr o mapa na gaveta, cuidado não te entales, contámos o dinheiro pela 146.a vez, a Rosa tolinha de todo a aumentar ainda mais a confusão agarrada às nossas pernas a gritar nneu tenho cinco réis como a Carochinha, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fizemos malas, desfizemos malas, vamos embora, não vamos embora, tira o mapa da gaveta, volta a pôr o mapa na gaveta, cuidado não te entales, contámos o dinheiro pela 146.a vez, a Rosa tolinha de todo a aumentar ainda mais a confusão agarrada às nossas pernas a gritar nneu tenho cinco réis como a Carochinha, e o meu pai com aquele ar de quem não está para achar graça nem à filha mais nova, quanto mais.</p>
<p>Não há dúvida: férias são uma rica invenção, sim senhora. Gasta-se mais dinheiro do que nos outros dias (diz o meu pai), cansamo-nos mais do que a trabalhar (diz a minha mãe), deixamos a <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/joao-que-chora-e-joao-que-ri" >casa</a> fechada e sozinha o que é um perigo (diz a minha avó), não vou dormir na minha caminha e com a minha almofada (diz a minha irmã), quando não zangamo-nos todos à partida (digo eu). Passámos por rios e riachos, montes, os vales, e o meu pai acaba por <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/dizer" >dizer</a> nnhá lá coisa mais linda que o Largo 5 de Outubronn, que foi onde ele nasceu, em Vila Flor às três e meia da tarde, e a minha mãe pronto, amua até dali a um quarto de hora, que é quanto duram os amuos dela. Durante esse quarto de hora, o meu pai aproveita para gabar</p>
<p>pela 486. a vez, as maravilhas do seu largo, da sua terra, da água das suas fontes, da cor dos ovos, do sabor das couves, e do som dos sinos.</p>
<p>Depois encavalita a Rosa num dos joelhos e pergunta:</p>
<p>- Rosinha, o que é que aconteceu no 5 de Outubro? E a minha irmã, muito bem mandada, responde:</p>
<p>- A República.. Mas engasga-se pelo meio da palavra, que é de máis para os três anos dela, e põe nnnnn onde eles não</p>
<p>existem e tira o nnl,n donde ele devia estar, e fica assim uma república um bocado às três pancadas, mas o suficiente para o meu pai estalar de contente:</p>
<p>- Rica menina!</p>
<p>Começa logo a assobiar o hino nacional, depois passa para o da restauração, e aí a minha mãe decide acabar o amuo, antes que venha também o da Maria da Fonte, que nisto de hinos patrióticos ninguém leva a palma ao meu pai.</p>
<p>Mas como eu ia dizendo, não há nada melhor que as férias. O ano passado tínhamos decidido ir até Espanha. Mais propriamente Sevilha e Granada. O meu pai foi buscar o atlas e mais o mapa que tem sempre no carro, e logo ali começamos a viajar com os dedos - o que, diga-se de passagem, é bastante mais económico e menos cansativo. E com um bocadinho de imaginação, sempre se vai conhecendo alguma coisa. Só não se mandam bilhetes-postais aos amigos.</p>
<p>- Estás a ver, a <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/gente" >gente</a> pode sair de <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-irm-do-inocente" >casa</a> cedinho.. (Cedinho é palavra que ele usa quando nos quer fazer levantar da cama às quatro da manhã.)</p>
<p>-. . . vai direito a Vila Real de Santo António, atravessa a fronteira em Ayamonte, segue por Huelva e num instantinho está em Sevilha. Olha aqui.</p>
<p>Íamos seguindo o mapa onde, em duas páginas seguidas, se estendia a Península Ibérica. Ali realmente era tudo um instantinho. Da fronteira a Sevilha era só uma distância igual a metade do meu indicador.</p>
<p>O meu pai, depois de breve paragem, metia de novo a primeira e arrancava, agora para Granada.</p>
<p>- Depois dávamos ainda um salto a Córdova, víamos a mesquita, ouvíamos as histórias do guia sobre o Manolete. . .</p>
<p>(Aqui eu interrompi para perguntar quem era o Manolete, ele explicou-me que <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/tinha" >tinha</a> sido um grande toureiro morto em plena praça pelo touro, e tornou a embalar:)</p>
<p>-. . . dávamos por lá uma volta e num instantinho estávamos em Granada.</p>
<p>Mania que as pessoas têm do nninstantinhon,. Quando não sabem medir o tempo e se querem convencer de que tudo é fácil e à medida dos seus desejos, lá lhes rebenta da boca o instantinho. Lembro-me que, no dia em que a Rosa nasceu, toda a <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/as-ferias" >gente</a> me jurou que ela ia crescer num instantinho.</p>
<p>Mas com instantinho ou sem ele, a ideia parecia ter pegado. Logo aí comecei a tentar aprender algumas palavras de espanhol, apesar de toda a gente <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-irm-do-inocente" >dizer</a> que espanhol é língua que todo o português já nasce a saber falar. O pior são as dificuldades que surgem quando é mesmo preciso falar. Por isso, como pessoa previdente que sou (ah! ah!) arranjei logo um daqueles livros de aprender línguas à pressa, e passado uma semana estava pronta a dizer inúmeras coisas úteis para a minha viagem, a saber:</p>
<p>- os chineses são amarelos;</p>
<p>- o vestido da minha amiga é mais comprido que ó</p>
<p>meu;</p>
<p>- o canivete do meu avô é de boa marca;</p>
<p>- os cavalos dormem de pé;</p>
<p>- desculpe, mas não acredito em fantasmas;</p>
<p>- o seu nariz tem uma verruga;</p>
<p>- prefiro tinto, obrigada.</p>
<p>E outras frases mais ou menos neste estilo. O que, com uns bons olés, pelo meio, davam todo o conhecimento necessário.</p>
<p>Pelo sim pelo não, apesar das suas notórias dificuldades com a república, achei que era meu dever de irmã mais velha dar algumas luzes da língua estrangeira à minha irmã. Depois de muito trabalho com ela, ao fim de uma tarde (digamos, de um instantinho) a Rosa sabia dizer:</p>
<p>- bruxa;</p>
<p>- barbeiro ;</p>
<p>- foguetão;</p>
<p>- polícia.</p>
<p>Resumindo: sabíamosn tudo. Podíamos passar a fronteira que a Espanha - olé! - era nossa.</p>
<p>Capítulo 2</p>
<p>Só que uma semana antes da partida a Rosa apareceu com varicela, e já não fomos. Por acaso ela já devia andar com varicela há bastante tempo, mas ninguém <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/as-ferias" >tinha</a> dado por isso. Lá que estava toda cheia de borbulhas, isso estava. Mas a gente olhava para ela e dizia:</p>
<p>- É do calor.</p>
<p>Como decerto teríamos dito nné do frio&#8221;, se estivéssemos no Inverno. Mas a uma dada altura a minha mãe lá achou que eram borbulhas a mais e levou-a a um médico de urgência, que o Dr. Cunha estava de férias. Depois de esperar quase duas horas numa salinha cheia de miúdos a berrar, fartos de ali estarem apertados ao colo das mães, a Rosa lá foi vista pelo médico. Em cinco minutos (aqui é que foi mesmo um instantinho), ele sossegou a minha mãe:</p>
<p>- Não se aflija, minha senhora. É um fungo. Ponha mercurocromo nas borbulhas e isso passa.</p>
<p>Se há coisa que eu não gosto nem um bocadinho é de dar parte de fraca. Por isso logo que a mãe contou a opinião do médico, peguei no meu dicionário nnn, nn que coisa seria essa de fungo. Abri, Fungo, s. m. (lat. fungu) planta criptogâmica sem clorofila. Cogumelos. Bolor. Fungão. Fruto angolense semelhante à ameixa. Induna moçambicana. Acto de fungar. Excrescência esponjosa, carnuda, da pele, principalmente em volta de uma chaga. Como ficasse mais ou menos na mesma, não tive outro remédio:</p>
<p>- Mãe, que coisa é essa que o médico disse que a Rosa tinha?</p>
<p>A minha mãe encolheu os ombros:</p>
<p>- Disse que eram borbulhas, olha a novidade. Isso também eu vejo e não foi preciso tirar curso de médica!</p>
<p>Por isso, assim que a minha mãe soube que o Dr. Cunha já tinha regressado, levou lá a Rosa, farta de médicos, ela que nunca gostou muito deles. Estávamos precisamente a uma semana da viagem. Quando a mãe voltou, vimos logo pela sua cara que a viagem ia ser apenas no atlas, dedo estendido, e an imaginaçãozinha a fazer de guia, soubesse ou não histórias do Manolete.</p>
<p>- A Rosa está com uma camada de varicela que o Dr. Cunha nem precisou de a olhar muito para descobrir. Só se espanta como ela anda bem-disposta e sem febre.</p>
<p>Na manhã seguinte, enquanto eu desfazia a mala que já tinha começado a fazer, a Rosa estava com 40 graus e a Espanha ficava cada vez mais longe.</p>
<p>Tão longe, que eu aprendi desde esse dia a não fazer projectos (nem malas) com antecedência. Só na véspera, e mesmo assim&#8230;</p>
<p>Tão longe, que ainda hoje lá está, no mesmo local, na mesma página do mapa, toda pintada de amarelo e verde, com uns risquinhos azuis pelo meio, que são os rios, afluentes, e subafluentes.</p>
<p>Tão longe e eu aqui, neste lote 12, 2. o frente, à espera de um dia entrar finalmente no carro ( nn muito cedinho&#8221; ), passar Vila Real de Santo António e chegar (nnnum instantinho&#8221;) a Sevilha, olé.</p>
<p>O meu pai garante:</p>
<p>- Desta vez é que não falha.</p>
<p>Eu vou dizendo que sim senhora, pois claro, havia lá de falhar. Para o fazer contente volto a tiràr o atlas lá do alto da prateleira do armário, volto a percorrer a viagem que os meus dedos fizeram o ano passado (muito viajados são estes meus dedos!) vou até pondo de lado a roupa que quero levar (nné melhor calças para a viagem, não é mãe?n,), economizo nos gelados e no chocolate para meter algum dinheiro ao bolso (nné sim, filha&#8221;), mas no fundo, bem lá no fundo, sei perfeitamente que dias antes da partida a Rosa há-de aparecer com sarampo, o pai com gripe asiática, a mãe com pneumonia, eu com uma perna partida.</p>
<p>Mas vou dizendo que sim senhora, que desta vez é que não falha. Depois sento-me aqui diante da janela do meu quarto, que dá para esta praceta que nunca mais há-de ter nome, por mais reuniões que se façam, por mais abaixo-assinados que se mandem para a junta de freguesia e para a câmara, e penso que a minha Espanha há-de sempre ser esta - a erva a crescer por entre latas de detergente vazias e amolgadas, os autocarros que passam em frente, as vizinhas que só se conhecem quando estendem roupa nas cordas ou dizem algumas palavras através das nanelas, agora abertas porque é Verão.</p>
<p>Às vezes quando penso nisto dá-me vontade de rir: viajar para Espanha (ou para outro qualquer estrangeiro), quando a gente não conhece nem o nosso bairro. Também, que haverá para conhecer neste bairro onde as pessoas só vêm para dormir, cansadas do trabalho e a ralhar com os filhos, que eu bem os ouço. De resto, por mais que eu queira evitar, ouço tudo o que se passa em casa dos meus vizinhos. Acho até que a minha vida está toda programada em função desses barulhos. Procuro adormecer nos breves intervalos em que o frigorífico da vizinha do 2º esquerdo está desligado, e assim que o vizinho do 3.o frente tenha atirado com os sapatos para o chão. Primeiro vem um, a seguir o outro. Alguns minutos depois (estará o vizinho a fazer as palavras cruzadas como o meu pai, ou a ler como a minha mãe?) ouço o leve rumor do interruptor que se apaga, sei que não tarda a começar a ressonar, é aproveitar então para dormir. Porque logo às seis e meia o vizinho de 2.o direito levanta-se e abre a água para o duche, e o contador da água fica do lado de lá da parede do meu quarto, de modo que cada vez que ele abre as torneiras a minha cabeça salta, como se algum interruptor estivesse colocado no meio dela, ou se a água fosse começar a sair pelos meus cabelos espalhados na almofada.</p>
<p>A minha mãe farta-se de resmungar com estes baruIhos. Diz que é tudo defeito da construção do prédio, que dantes não acontecia isto nas casas onde as pessoas moravam, nnsobretudo lá no Largo 5 de Outubronn, diz logo o meu pai, se a ouve.</p>
<p>Ao princípio, devo dizer que também me incomodavam um bocado, e sentia muitas saudades da casa antiga. Agora acho que já me habituei a eles. Como me habituei a esta praceta sem nome e sem graça.</p>
<p>Como me vou habituando à ideia de as viagens a Espanha (ou a outro qualquer estrangeiro) ficarem para sempre entre os meus dedos e os meus sonhos, nada mais.</p>
<p>Capítulo 3</p>
<p>Agora acho que sim, que devo ter batido a porta com muita força. Acho também que gritei mais do que era preciso, toda a gente me ouve quando falo. Acho que trepei a escada sem esperar pelo elevador e cheguei a casa a deitar os bofes pela boca (não esquecer de ir ao dicionário ver o que são bofes, adiante). Acho que entrei e não dei as boas-tardes a ninguém e talvez até tenha empurrado a Rosa que me veio esperar. Acho que não bebi o leite que a avó Elisa tinha já colocado num copo de vidro alto em cima da mesa da cozinha. Acho que até bati nas paredes do aquário do Zarolho, o que o põe doido, a nadar de um lado para o outro.</p>
<p>Agora acho isso tudo.</p>
<p>Mas naquela altura confesso que não pensei em mais nada senão no papelinho que trazia dentro do bolso das calças. Estendi-o à minha mãe, sem poder falar, que aquele 2.o andar aumentava de cada vez que a gente o trepava a pé, e minguava se a gente o engolia de elevador. A minha mãe olhou, voltou-o de um lado e doutro (coisa que ela faz sempre a todos os papéis, cartas ou postais que recebe) e não pareceu por aí além entusiasmada. Penso que até nem percebeu muito bem do que se tratava. Concordo que a minha caligrafia não era das mais cuidadas, concordo que o sujeito, o predicado e os complementos talvez não estivessem no lugar certo da frase, mas que diabo!, tinha a certeza de qualquer pessoa a poder entender.</p>
<p>Mesmo assim amuei:</p>
<p>- Posso ir, mãe? Posso? Posso? Posso? A professora de Trabalhos Manuais vai connosco. Posso, mãe, posso?</p>
<p>A minha mãe nsorriu:</p>
<p>- Tontinha que é a minha filha! Quanto mais cresce, menos juízo tem!</p>
<p>Pronto. Estava tudo bem. Enquanto a minha mãe me chamar tontinha, nada de mau me pode acontecer no mundo inteiro. Aquilo queria dizer que sim, era mais que evidente, mas nestas coisas não há como jogar mesmo pelo seguro :</p>
<p>- Posso, mãe? A gente não deve ir a Espanha. . . pelo menos para já. .</p>
<p>A minha mãe sorriu.</p>
<p>- Podes, não havias de poder porquê? Acho até que te vai fazer muito bem. Deviam era ser mais dias. Só um fim-de-semana não dá para nada. Mas mesmo assim vai ser bom para ti. E palavra que dava tudo para te ver a desembaraçares-te sozinha!</p>
<p>E riu, de uma maneira que não achei lá muito simpática. Se há coisa que me aborrece é que duvidem das minhas capacidades de independência. Às vezes até parece que as pessoas pensam que eu tenho a idade da Rosa.</p>
<p>- Vê lá se é preciso ires comigo para me dares o biberão ou me mudares as fraldinhas!</p>
<p>A minha mãe tornou a rir:</p>
<p>- Para isso não digo, mas para lhe coçar a cabecinha antes de adormecer, para lhe entalar a roupa da cama, ou para lhe arranjar um banho quente à noite com muita espuma, e por aí fora, por aí fora. . .</p>
<p>Não gosto nada que me lembrem os meus pontos fracos. Cada pessoa tem as suas fraquezas, ora essa. E depois a gente só ia acampar durante um fim-de-semana; bem podia passar sem esses requintes.</p>
<p>- Estava só a brincar!</p>
<p>Disse a minha mãe, ainda a rir. Depois perguntou:</p>
<p>- E quem vai armar as tendas, será que posso saber?</p>
<p>- Nós. Quero dizer, eu e as outras.</p>
<p>- Espero bem que as outras tenham um pouco mais de experiência do que tu, senão ainda vão mas é dormir todas ao relento que é um gosto. De resto, isso, como diz o teu pai, nné que é campismo a valer, a sério, no duro, o resto não passa de conversa fiada.</p>
<p>O meu pai é um adepto fervoroso do campismo. Se pudesse levar com ele o colchão de molas, a casa de banho com banheira, esquentador, águas frias e quentes, o sofá do escritório, a estante dos livros, o telefone e a televisão, acho mesmo que podia perfeitamente ir acampar a Sevilha. Ou até viver sempre num parque de campismo. Assim, não tem outra solução senão gabar as virtudes de tão salutar prática, enterrado no sofá a fazer as palavras cruzadas, e a fumar o seu cachimbo. Pelo sim pelo não (o progresso caminha tão depressa que não tarda a ser possível levar tudo isso para debaixo de uma tenda. . . ) o meu pai é sócio de um clube, tem as quotas em dia, e recebe pelo correio o boletim, que evidentemente nunca lê.</p>
<p>- Também não sou assim tão azelha! Se a gente seguir as instruções, não vai ser nada do outro mundo pôr a tenda de pé.</p>
<p>- Claro que não vai, mas garanto-te que ainda leva o seu tempo. Uma vez uns colegas meus foram acampar para França com tenda emprestada. Era assim uma tenda ultramoderna, insuflável, nem era preciso os tubos de armação nem nada, uma maravilha, diziam. Quando chegaram ao primeiro parque, já era noite, tiraram tudo para fora do carro e só então é que repararam que não tinham levado a bomba de encher. Ninguém tinha nenhuma lá naqueles sítios, as lojas estavam todas fechadas, não tiveram outra solução senão tornar a meter tudo dentro do carro e marchar para um hotel. Levaram o resto dos dias de loja em loja à procura da bomba que não havia em parte nenhuma. Ou eram grandes de mais, ou eram pequenas de mais. E a viagem que era para durar um mês, em França, acabou por durar uma semana só em Espanha; que em hotéis se tinha gasto entretanto o dinheiro todo.</p>
<p>- Não há dúvida que me estás a dar grande força e animação! Está descansada que a tenda da Cláudia é bem antiga, arma-se como todas as outras e não precisa de bomba nenhuma. E ela está mais que habituada a acampar, sabe bem como ela se monta. De resto, até foi dela que partiu a ideia. Ficámos logo todas a berrar de contentes, menos a Susana, claro, que não sabe se a mãe a deixa ir. Estás a ver a Susana toda de caracóis e vestidos finos a andar em tendas de campismo? Acho que ela daria tudo para ir connosco, sujar-se, arranhar as pernas, amolgar os joelhos, sei lá, mas com aquela mãe..</p>
<p>Olho para a minha mãe. Faço-lhe uma festa, e vou para o meu quarto começar a arranjar as coisas que preciso de levar para o acampamento deste fim de ano lectivo. E acho que ela tem razão: vão fazer-me falta as suas mãos a entalar-me, à noite, a roupa da cama. Mas que ninguém sonhe!</p>
<p>Capítulo 4</p>
<p>A professora chamou-nos de parte, já meio mundo tinha entrado para a camioneta.</p>
<p>- Vocês vão as duas no banco ao pé da Maria do Céu e eu queria pedir- lhes um favor. A mãe dela mandou-me um recado a dizer que a Céu tem andado um bocado adoentada, nada de importante, mas enjoa muito quando anda de automóvel e de camioneta. Eu bem sei que daqui a Almornos a viagem não é grande, mas se vocês a animassem, durante o caminho, talvez ela conseguisse não vomitar.</p>
<p>Na camioneta estava já tudo a postos para a partida. Quer dizer: todos encavalitados uns nos outros, o Ricardo a mandar aviõezinhos de papel à cabeça da Margarida, a Sofia a fazer bolinhas com o miolo do pão que ainda não acabara de comer, disparando-as depois com toda a pontaria que lhe era possível para o cabelo encrespado do Zé Pedro, enquanto a Teresa, mesmo ao lado dela, berrava em voz esganiçada e olho matreiro Josezito, já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar.</p>
<p>- Isso é comigo? Perguntava o Zé Pedro.</p>
<p>- Não. É com o leão do Marquês de Pombal!</p>
<p>Respondia ela, enquanto a Sofia mandava mais uma bolinha para dentro da cabeleira do Zé. A Maria do Céu mal se mexia, para ver, com certeza, se aguentava o caminho sem azar de nmaior.</p>
<p>Nem a deixámos respirar. Mal a camioneta arrancou começámos logo a animação, lembrada eu da prática adquirida nestes últimos anos com a Rosa, para quem também é preciso inventar milhentos jogos de automóvel para a distrairmos do vómito que, senão, chega inevitável.</p>
<p>- Começamos por adivinhas ou jogos de cabeça? Pergunto ao ouvido da Cláudia.</p>
<p>- Jogos de cabeça é capaz de não ser bom. Ela põe-se a pensar muito e então é que vem mesmo o enjoo. Não ouviste o que disse a setôra há bocado? O que é preciso é animá-la.</p>
<p>- Céu, diz lá se sabes esta adivinha:</p>
<p>À meia-noite se ergue o francês Sabe da hora</p>
<p>não sabe do mês. . . n</p>
<p>Logo meio mundo gritava em coro comigo:</p>
<p>usa esporas não é cavaleiro tem uma serra</p>
<p>não é carpinteiro cava no chão não acha dinheiro. . .</p>
<p>- Essa é velha que já tem barbas a chegar ao chão! E o Zé Pedro começou, lá do banco dele:</p>
<p>- Cócórócó ! Cócórócó ! Cócórócó !</p>
<p>Não me dei por achada.</p>
<p>- Mas esta é que vocês não sabem: Serve para se comer mas não se come assado nem cru, nem cozinhado. &#8221;</p>
<p>Sentei-me para trás, no meu lugar, com ar de quem dizia nnora tomann! Não descansei muito tempo em glória, porque logo a voz de Maria do Céu se fez ouvir:</p>
<p>- É o prato.</p>
<p>Senti-me rainha destronada, presidente da República deposto, primeiro- ministro despedido. Mas logo a Cláudia me ajudava (o que era preciso era animar a Maria do Céu !):</p>
<p>- Esta é que ninguém sabe, certeza, certezinha:</p>
<p>Indo eu por aqui abaixo à procura de freguês</p>
<p>levo em cima quem procuro levo dentro quem me fez.&#8221;</p>
<p>Ainda mal ela acabara de pronunciar a última palavra, já se ouvia a Maria do Céu:</p>
<p>- É a carta.</p>
<p>- Agora vais ver que não acertas! Disse o Ricardo. Ajeitou-se no assento, endireitou com a mão direita a gravata que a sua imaginação pendurara ao pescoço, e - atenção ó gentes, lá vai ! &#8221; - mandou :</p>
<p>HCorro a bom correr não me pára nada corro mais pelo mato do que pela estrada.n</p>
<p>E todos nós em coro, batendo palmas:</p>
<p>- Não adivinhas ! Não adivinhas ! Não adivinhas ! (Era preciso animar a Maria do Céu!)</p>
<p>Bastou pararmos o coro durante um segundo e já a ouvíamos, imperturbável, no seu lugar ao pé da janela:</p>
<p>- É o fogo.</p>
<p>Foi a vez do Miguel mostrar as habilidades:</p>
<p>- Ouçam só esta:</p>
<p>Digam lá minhas meninas o que é que isto vem a ser se me soltam estou perdido e o meu oficio é prender.nn</p>
<p>Antes de começarmos o coro e as palmas (era preciso animar a Maria do Céu!), logo ela respondeu:</p>
<p>- É o alfinete.</p>
<p>Um de nós ainda teve coragem para recomeçar:</p>
<p>- Esta agora é que tu não sabes mesmo!</p>
<p>- Acho difícil - disse a Maria do Céu, sempre muito direita no seu lugar, a olhar em frente como mandam as boas regras de quem não quer enjoar.</p>
<p>- Sempre que a gente vai de camioneta à terra, o meu pai leva o tempo todo a perguntar-me adivinhas, para ver se eu aguento a viagem sem vomitar, por isso acho difícil vocês encontrarem alguma que eu não saiba. Daqui à minha terra são quase quatro horas de viagem, já vêem. . .</p>
<p>Lá se iam as nossas boas intenções por água abaixo. Mas não podíamos ficar paradas. Era preciso animar a Maria do Céu. Tínhamos de passar ao ataque de outra forma.</p>
<p>- E provérbios? Quem é que sabe mais provérbios?</p>
<p>Trabalha e cria, terás alegria,</p>
<p>deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer</p>
<p>Quem boa cama fizer, nela se deitará; a palavras loucas, orelhas moucas; duro com duro, não faz bom muro; a galinha da minha vizinha, é sempre melhor que a minha.. . A Maria do Céu tomou fôlego e com ar divertido:</p>
<p>- Querem mais ?, perguntou:</p>
<p>Também ús provérbios não tinham funcionado. Já víamos tudo a andar à roda. Era como se de repente as adivinhas se misturassem com os provérbios e com os movimentos da camioneta e com a buzina nas curvas, tantas aquela estrada tinha. Era como se Santo Ambrósio e a galinha da minha vizinha andasse por ali entre as nossas pernas à procura de alfinetes e de cartas que levavam dentro não sei quem, e um francês levantado à meia-noite começasse a perguntar a todas em que mês estávamos, e sempre a buzina em todas as qurvas.</p>
<p>- Setôran, peça ao senhor que pare a camioneta num instantinho ! Gemeu a Cláudia e nós todos com ela.</p>
<p>Saímos com a cabeça tonta e o estômago ao pé da boca, enquanto a Maria do Céu continuava sentada no seu banco, a olhar em frente:</p>
<p>-. . . alfinetes, avelãs, agulhas, alcatruzes, Olhando-nos, sorridente , pelo vidro da janela.</p>
<p>Capítulo 5</p>
<p>Pela 648. a vez a Cláudia gritava:</p>
<p>- Vá lá, leiam isso como deve ser senão nunca mais saímos daqui!</p>
<p>Daquinn era a meia dúzia de metros que nos cabiam em sorte no parque para colocarmos a tenda, e que tinham tantas vezes apanhado com os tubos metálicos em cima, que já começavam a fazer buraquinhos como carreiros de formigas.</p>
<p>- A gente já te leu isto centenas de vezes! Aqui explica tudo, só não explica o que se há-de fazer contra a falta de jeito! Resmungava a Isabel que, desde que o acampamento ficara combinado na escola, sempre duvidara dos conhecimentos campistas da Cláudia.</p>
<p>E acrescentava, para a irritar ainda mais:</p>
<p>- Afinal, tanta coisa, tanta coisa, e vai-se a ver sabes tanto disto como qualquer de nós!</p>
<p>- O meu pai é que costumava armar a tenda e eu ajudava-o. Parecia-me tão fácil quando olhava para ele a encaixar esta tubaria toda! Mas agora. . .</p>
<p>- Agora - digo eu - também não há-de ser assim tão difícil, Santo Ambrósio! Este parque está cheio de barracas&#8230;</p>
<p>- Barracas é o que a gente está aqui a dar! Gritou a Isabel, saindo de ao pé de nós para se livrar (por uma unha negra) do tubo de pomada contra as formigas que era o que de mais à mão a Cláúdia encontrara para lhe atirar à cabeça. Para animar ainda mais este já assaz brilhante panorama, a Maria do Céu, fresca que nem uma alface (que nunca mais ninguém me falasse em animá-la!) e que ficava com mais duas numa tenda pequena ao ládo da nossa, achou por bem vir meter o nariz e fazer a pergunta sacramental:</p>
<p>- Então a tenda ainda não está armada?</p>
<p>A isto chamo eu perguntas oportunas. Como quando entro em casa, depois da escola, e a minha avó Elisa diz sempre, sempre, em 13 anos que eu levo desta vida, já chegaste?</p>
<p>Antes que a Cláudia deitasse mão de novo ao tubo da pomada das formigas, respondi:</p>
<p>- Está, claro que está armada. Mas como não tínhamos nada que fazer, decidimos desmanchar tudo outra vez para nos entretermos. Que é que pensas, somos capaz de ficar assim, monta-desmonta, monta-desmonta, o fim-de-semana todo. É divertido que nem imaginas!</p>
<p>- Pronto, pronto, não se irritem, só vinha saber se precisavam de ajuda! Como montámos a nossa tão depressa.</p>
<p>- Pudera! A vossa é uma canadianazita miserável, onde nem sei como vão caber as três deitadas! Esta é um palácio !</p>
<p>- Para meu gosto falta-lhe o salão de baile, os fogões de sala, e os azulejos do século XVIII, mas mesmo assim não está mal, não senhora!</p>
<p>E a Maria do Céu desandou a rir dali para fora. Acalmada a Cláudia, recomeçámos o trabalho.</p>
<p>- Vá, enfia lá esse tubo com jeitinho, como diz aqui no papel. Nada de forças. Muito jeito é que é preciso. Vá. . . Isso. . . Roda mais para a direita. . . Agora mais para a esquerda. . .</p>
<p>Depois de várias tentativas, depois de várias vezes termos entalado os dedos e gritado então as habituais bonitas palavras que nestas alturas sempre se gritam, a estrutura metálica ficou armada. Só faltava, realmente, o salão de baile, os fogões e os azulejos. Que é como quem diz: só faltava pôr a lona por cima. A lona era azul-escura, muito resistente, e, como vinha nas instruções</p>
<p>(que eu já sabia de cor, de trás para a frente e de frente</p>
<p>para trás) com tecto duplo para proteger da chuva. Quase</p>
<p>inconscientemente olho para o céu. Era só o que faltava</p>
<p>se agora viesse uma carga de água. Mas, como os livros</p>
<p>de História costumam dizer quando falam dos dias das revoluções (vitoriosas, é óbvio), nem uma nuvem toldava o céu. Respirei um pouco mais aliviada. Ao menos isso Santo Ambrósio! Pegámos na lona e atirámo-la por cima dos tubos já todos (finalmente) encaixados uns nos outros. Ou porque a força fosse de mais, ou porque o jeito fosse de menos a verdade é que de repente, sem a gente ter tempo de perceber o que estava a acontecer, fomos atacadas por um enorme monstro de muitos tubos que se desencaixavam e entrechocavam e batiam nas nossas cabeças e nas nossas pernas, e a gente queria sair dali para fora mas quanto mais esbracejávamos mais a lona se enrodilhava nos nossos braços e à volta do nosso corpo como aqueles polvos gigantescos que a gente vê nos filmes, só que aqui não havia o super- homem, nem a supermulher, nem o super-rato, nem super coisa nenhuma para nos salvar heroicamente, e de repente, agarro-me a uns fios macios e escorregadios, talvez sejam as cordas da nanela, uma saída possível, mas já a Cláudia berra: nnlarga-me os cabelos que me arrepelas!n, e logo então, para maior complicação, cai-nos também em cima o pano esbranquiçado do duplo tecto (convenhamos que se fosse de estuque tinha sido bem pior), e uma pasta esquisita, com cheiro a petróleo misturado com açúcar queimado, começa a espalhar-se pelos nossos dedos, pelos nossos braços, nn ai que lá se vai a minha pomada contra as formigas ! nn geme a Cláudia, e a gente não sabe se há-de começar a rir ou a chorar, o calor é muito e abafa-se dentro daquilo tudo, até que ouvimos a voz da professora de Trabalhos Manuais dizer, do lado de lá daquela montanha de lonas e tubos :</p>
<p>- Está aqui o Sr. Ernesto que vos vai dar uma ajudinha!</p>
<p>Desgrenhadas, besuntadas, encaloradas, lá saímos debaixo do nosso esplendoroso palácio em ruínas. Foi então que jurei, cá para mim, que o meu primeiro filho havia de se chamar Ernesto.</p>
<p>Capítulo 6</p>
<p>As mãos do Sr. Ernesto pareciam as daqueles ilusionistas qúando, de um momento para o outro, fazem saltar coelhos e pombas de dentro de sacos vazios e de cartolas. De vez em quando dava uma risadinha, abanava a cabeça e desabafava sabe-se lá para quem:</p>
<p>- Ai vida, vida ! Esquece muito a quem não sabe !</p>
<p>E lá ia martelando, enroscando, dando nós, alisando o chão, pondo algumas pedras para segurar melhor os cantos da tenda. Eu cá só pensava que era mal empregado tanto esforço para desmancharmos aquilo tudo dali a dois dias, mas nem me atrevia a abrir a boca. Era verdade que íamos dormir quatro ou cinco ali dentro, mas se a tenda da Cláudia em vez de ser este palácio fosse uma das tais nncanadianazitas;n talvez tudo tivesse sido bem mais fácil.</p>
<p>- Pobre e mal agradecida - havia certamente de dizer a minha avó Elisa se aqui estivesse e ouvisse as palavras que eu disse só para mim. Ri-me de pensar nisso. E no que diriam todos lá em casa se me vissem nestes assados. E como iriam os planos da viagem a Espanha. Bom, mas o importante era estar tudo resolvido: não íamos dormir ao relento, e de certeza que, depois da agilidade das mãos do Sr. Ernesto (Ai vida, vida, esquece muito a quem não sabe !,n ), nem com a maior das tempestades a tenda iria cair.</p>
<p>Já quase à noite chegou a Susana. Cheia de caracóis (devia ter saído há pouco das mãos do cabeleireiro), e com aquele ar triste que ela às vezes tem, um ar de quem gostaria de ser outra pessoa.</p>
<p>Hágente assim. Olha-se para elas e vê-se logo que elas gostariam de estar dentro doutra pele, ver as coisas por outros olhos, mexer nas coisas por outros dedos. Parece que estoiram na pele que é a sua. Ou que mirram dentro dela, o que, no fundo, é quase o mesmo.</p>
<p>Tirou um malão enorme de dentro do carro, nnse aquilo vai para dentro da nossa tenda, é menos uma que lá cabenn, pensei, mas logo me arrependi porque eu gosto muito da Susana e sei que, por vontade dela, teria vindo connosco logo de manhãzinha, com toda a sua bagagem dentro de um saco ou de uma mochila.</p>
<p>A mãe e o pai saíram de dentro do automóvel e estiveram tempos sem fim a bichanar com a professora de Trabalhos Manuais, olhando em redor com ar vagamente desconfiado. A professora só dizia que sim ou que não com a cabeça, e devia estar a pensar noutras coisas pelo seu ar ligeiramente divertido. Por fim, meteram-se no carro e foram-se embora</p>
<p>- não sem terem chamado a Susana de parte, e igualmente bichanado com ela um bom quarto de hora.</p>
<p>A mala da Susana estava já na nossa tenda, ali especada no meio, cheia de autocolantes coloridos de hotéis instalados em lugares que eu só conhecia do atlas.</p>
<p>- Podemos não ter salão de baile nem fogões de sala,. mas pelo menos jarrão chinês já há! Disse, a rir, a Cláudia, apontando para a mala tão despropositada no meio daquele chão coberto de mochilas meio desfeitas, onde os casacos de malha se misturavam com tubos de pasta para os dentes, chocolates, sacos-cama, sandálias, toalhas de banho, embalagens de leite e latas de conservas. A Susana não disse nada. Pegou na mala e arrastou-a até um canto da tenda.</p>
<p>- Pronto, fica aí, de pouco me há-de servir. Trago toneladas de coisas inúteis, e nada do que é preciso.</p>
<p>- Mas não foste tu que a arranjaste?</p>
<p>- Eu? Nem pensar! Ou melhor, tentei ser, mas a cada coisa que eu metia lá dentro a minha mãe dizia nnolha que ideia!nn, e puxava cá para fora. De maneira que acabei por desistir. Mas acho que, tirando a escova de dentes e uma muda de roupa, não vou precisar de nada do que lá vem. n</p>
<p>- Isso é que vais!</p>
<p>- De quê?</p>
<p>- Para já, vais precisar do fato de banho e da toalha, que a piscina amanhã de manhãzinha vai saber mesmo bem !</p>
<p>A Susana sorriu e abanou a cabeça.</p>
<p>- Vês? Vês como tenho razão? É claro que isso é exactamente das coisas que eu não trago naquela malorra.</p>
<p>- O quê? Não trazes fato de banho?</p>
<p>- Não. A minha mãe acha que, primeiro: a água das piscinas é uma porcaria e mesmo as que estão desinfectadas nunca estão tão desinfectadas como ela gosta; segundo, fui ontem ao cabeleireiro e estes lindos caracolinhos que tu vês têm que durar até terça-feira que é o dia de anos da minha tia Amélia; e terceiro, a minha mãe tem muito medo que eu prolongue de mais o tempo do banho e apanhe anginas. Pronto, aí tens o romance todo.</p>
<p>Fiquei sem saber o que dizer. A minha vontade foi</p>
<p>disparatar contra aquela louca família dela, emprestar-lhe o meu fato de banho, e dizer-lhe que não fizesse caso de tais ordens. Mas se a Susana parecia aceitar tudo aquilo sem uma queixa, qual era afinal o meu papel?</p>
<p>De repente parecia ouvir a voz da minha avó Elisa naqueles dias em que lhe dá para desfiar as tão nobres qualidades da gente do seu tempo:</p>
<p>- O mundo está todo às avessas! Já os filhos não obedecem aos pais, já não há respeito, já não há nada! É claro que se essa gente não andasse aí por cima a mexer na Lua, nas estrelas e sei lá em que mais, isto não andava assim como anda!</p>
<p>Parecia mesmo ouvi-la. Apesar de tudo o que a minha mãe lhe tenta explicar, apesar das coisas que eu também lhe vou dizendo (nnmeu Deus, se alguma vez a gente falava assim com os nossos pais ou com os nossos avós!&#8221;) ela não há-de mudar nunca. No fundo até é n engraçado. A gente ouve-a, dá-lhe um beijinho, acaba por dizer que sim senhora, este mundo é realmente povoado de monstros sem sentimentos, e cada um vai à n sua vida. Segundo ouvi há dias no telejornal, parece que se chama a isto coexistência pacífica.</p>
<p>Capítulo 7</p>
<p>- Mariana !</p>
<p>- Que é ?</p>
<p>- Estás acordada? (Pergunta oportuna. Mais uma. Das tais. nnJá chegaste?nn: a avó Elisa lá em casa.)</p>
<p>- Não! Estou a dormir, não vês? E tu estás a falar com o fantasma da minha trisavó, que morreu há 142 anos com uma navalha espetada nas costas pelo Assassino das Donzelas Melancólicas!</p>
<p>Resmunguei mais qualquer coisa e tornei a enrolar-me no meu saco- cama. Mas a Susana não desarmava às primeiras.</p>
<p>- Podíamos conversar um bocadinho.</p>
<p>- Conversar? Mas tu queres conversar a uma hora destas? É assim tão urgente, não pode ficar para amanhã, quer dizer, para daqui a bocado, que isto é quase manhã?</p>
<p>A Susana voltou-se para o outro lado, a cabeça escondida nos braços.</p>
<p>- Agora até parecias a minha mãe. Quando quero falar com ela, pergunta logo se é urgente, se não pode ficar para outra altura.</p>
<p>Nesse momento, confesso que comecei por dar razão à senhora. Ser acordada às três ou quatro da manhã para conversar não era coisa muito do meu agrado, que sempre fui bicho de muito dormir. Mas já que estava acordada, também não fazia mal nenhum tentar dar uma ajuda às insónias da Susana. Sentei-me, esfreguei os olhos. Ela continuava com a cabeça escondida nos braços, sem se mexer. Amaciei a voz.</p>
<p>- Vá, diz lá o que é que tu queres.</p>
<p>Mas a Susana parecia ter perdido subitamente o desejo de conversar. Cheguei a pensar que tivesse finalmente adormecido.</p>
<p>- Se queres conversar, conversa. Eu há bocado estava a brincar, desculpa.</p>
<p>Ouvi um suspiro mais fundo da Susana, e logo a seguir, mas sempre sem tirar a cabeça dos braços:</p>
<p>- Vocês gostam de mim?</p>
<p>- Nós? Nós, quem?</p>
<p>(Santo Ambrósio, as perguntas parvas que a gente faz quando é apanhada desprevenida!)</p>
<p>- Ora quem há-de ser. . . Vocês. Tu. A Cláudia, a Isabel, a Sofia, a Margarida, a Maria do Céu, os rapazes. A turma toda. Vocês.</p>
<p>- Claro que a gente gosta de ti. Mas o que é que te deu a uma hora destas?</p>
<p>A Susana virou-se finalmente para mim, encolheu os ombros.</p>
<p>- Sei lá. Às vezes penso coisas. Às vezes tenho vergonha.</p>
<p>- Vergonha de quê?</p>
<p>A Susana estava já sentada, as pernas cruzadas sobre o saco-cama de flores verdes e amarelas. Não olhava para mim, e brincava com a pulseira de ouro com o seu nome gravado, que nunca tirava nem sequer para dormir.</p>
<p>- Há bocado, por exemplo, quando cheguei. Tive tanta vergonha. Com aquela gente toda atrás de mim. E esta mala. E tantas recomendações à professora. Vocês todos para aí aos pinotes e eu ali especada a olhar.</p>
<p>- Mas foi muito bom teres vindo. A gente não te esperava.</p>
<p>A Susana sorriu e deu mais uma volta à pulseira.</p>
<p>- É. Eles fazem sempre assim, quando eu quero muito uma coisa. No dia em que cheguei a casa com aquele papel em que se perguntava se a gente podia ir ao acampamento da túrma, fizeram logo cara feia. Disparate, onde é que já se viu uma menina vir para aí, sozinha, durante um fim-de-semana. nnMas eu não vou sozinha&#8221;, disse eu, nnvou com mais 20 colegas e uma professora.n nnÉ a mesma coisa, disse a minha mãe. E desatou a contar milhentas histórias horrendas acontecidas a crianças conhecidas de conhecidas de amigas dela, sabes como é. Hoje, ao fim da manhã, com aquele ar condescendente de quem está sempre à espera que alguém lhe beije a mão, chamou-me ao quarto. nnA menina quer ir ao tal acampamento?&#8221; Aí, confesso, tive vontade nem sei de quê. Mas eu sou muito bem-educada, não é? Sou um poço de boa educação. Nunca levanto a voz, nunca contrario ninguém. Acho que disse apenas que já não podia ser, que vocês já tinham partido todos de manhãzinha, na camioneta, já deviam até ter chegado. Mas ela pareceu não ter ouvido nem uma das palavras que lhe disse. nnO seu pai e eu vamos lá levá-la no automóvel à tardinha, se quiser. E depois vamos lá buscá-la. Mas isto é uma vez sem exemplo. Para a outra já sabe que escusa de pedir, que a essas coisas o seu pai não gosta</p>
<p>que a menina vá. Ouvi tudo, acho que respirei fundo para ter coragem de abrir a boca e dizer n.não vou, não quero ir, vocês não entendem nada de nada, deixem-me em paznn. Mas só consegui dizer nnestá bem. Acho até que ainda agradeci.</p>
<p>Quis animar a Susana, que tinha o choro mesmo à beirinha dos olhos, até na escuridão da tenda se notava.</p>
<p>- Deixa lá. O que importa é estares aqui.</p>
<p>- Mas a alegria está já estragada.</p>
<p>- Não digas isso! Tens ainda o sábado e o domingo inteirinhos para te divertires connosco sem pensares neles !</p>
<p>- Estragaram tudo, Mariana! Eles estragam sempre tudo! Por que o que eu queria mesmo era ter vindo logo de manhã com vocês, rir junto com vocês, aborrecer-me junto com vocês, armar as tendas com vocês, e não ter assim este ar de visita de cerimónia que é recebida por favor, a quem se dá dormida durante dois dias até que a venham buscar para a sua jaula.</p>
<p>- Mas pelo menos agora, enquanto estiveres ao pé n de mim, não pensas nos domadores, está bem?</p>
<p>Consegui que a Susana risse.</p>
<p>n - Esse é que é o mal. É que estou sempre a pensar n neles. Acho que, mil anos que eu viva, nunca me hei-de libertar deles. Mesmo que a jaula se abrisse, esta leoa que</p>
<p>aqui vês ficava muito quietinha a um canto, e não fugia. Olha, sabes, às vezes sinto-me assim como aqueles robots que a gente vê nos filmes, sozinhos mas sempre comandados a distância. . .</p>
<p>Uma espécie de grunhido saiu, de repente, de um dos cantos da tenda:</p>
<p>Olha o robot é prò menino e prà menina ô ô. nn</p>
<p>Era uma voz misturada de bocejos, o ressonar de</p>
<p>quem acorda ou se vira na cama, e logo a seguir:</p>
<p>n Vocês não têm outra hora para falarem de robots, não , E se nos deixassem dormir que ainda a noite é uma menina!</p>
<p>Esperámos uns segundos, muito caladas. A Cláudia não tornou a protestar, devia ter engolido o seu rock de estimação e voltado a adormecer. E a Isabel nem se tinha mexido no saco. Robots não eram exactamente o seu forte.</p>
<p>- É melhor a gente continuar a conversa amanhã, está bem?</p>
<p>Disse eu, baixinho, por causa das outras.</p>
<p>A Susana voltou a deitar-se, de novo com a cabeça enfiada nos braços. Mas eu sabia que ela não dormia.</p>
<p>- Mariana !</p>
<p>- Que é ?</p>
<p>- Não contes nada disto a mais ninguém, não? A nenhuma delas.</p>
<p>As palavras tiveram dificuldade em sair. A gente tem sempre segredo de qualquer coisa que se acaba</p>
<p>de contar. Cheguei a ter medo que ela estivesse arrependida de tudo o que me tinha dito. Às vezes acontece. E eu não queria. Porque gostava muito da Susana e queria que ela o soubesse. Mas como dizer a uma pessoa que se gosta dela? Parece tão fácil, e no entanto as palavras ficam sempre entaladas na garganta, e a gente acaba sempre por não dizer nada. Se há coisa que eu nunca entendi é porque é tão simples dizer nnnão gosto de tin, e tão difícil dizer o gosto de ti&#8221; . No fundo é só questão de uma palavra, uma simples palavrinha de três letras que se põe ou se tira.</p>
<p>- Susana !</p>
<p>- Que é?</p>
<p>- Diz à leoa que estenda uma das patas através das grades da jaula.</p>
<p>Adormecemos de mãos dadas.</p>
<p>Capítulo 8</p>
<p>Ia precisamente a lançar-me no meu 793.a mergulho (quem tiver muita dificuldade em ler este número assim escrito, pode ler nnmergulho n.o 793&#8243; que eu não me importo) quando me lembrei da Susana, ali vestida dos pés à cabeça, sem poder experimentar as delícias daquela piscina tão azulinha. Eu trazia outro fato de banho na mochila, podia emprestar-lho. Mas:</p>
<p>- e se os caracóis se estragassem?</p>
<p>- e se ela tivesse mesmo anginas?</p>
<p>- e se ela apanhasse um tifo?</p>
<p>- e se ela morresse afogada?</p>
<p>Tudo seria então por culpa minha. De resto, ela havia de saber o que fazer. Não podiam ser sempre os outros a decidir por ela. Bem bastava lá em casa. Estendi-me na</p>
<p>toalha, ao sol. Gostava de estar assim, sem fazer nada, a apanhar o calor do sol no corpo, e a pensar em coisas. Coisas que apareciam e desapareciam na minha cabeça. Como de manhã, quando acordava.</p>
<p>- Não entendo por que é que esta rapariga põe o despertador para tão cedo!</p>
<p>Costuma dizer a minha mãe, todas as manhãs. Já lhe expliquei, mas acho que ela não entendeu muito bem. Por muito inteligentes que sejam as nossas mães, também não podemos exigir que entendam logo à primeira aquilo que a gente lhes explica.</p>
<p>- Preciso de meia hora de repouso antes de me levantar, mãe!</p>
<p>- De repouso? Mas o que estiveste tu a fazer durante a noite toda? A dançar a valsa?</p>
<p>- Durante a noite estive a dormir, nesta meia hora estou a repousar, são coisas muito diferentes. n Diferentes assim: acordar e ficar quieta, dentro da cama, a pensar em pessoas, em coisas, em lugares, a inventar histórias, a pensar no que aconteceria se&#8230;</p>
<p>a imaginar-me pessoa importante a sair de casa de óculos escuros para não ser reconhecida pelos milhares de admiradores sempre à minha porta, nnD. Mariana, um autógran fo n &#8220;, nn Excelência, um sorriso para a câmara! nn, coisas</p>
<p>assim. Só depois disso acordo a sério. É claro que a essa hora já a Rosa está mais que acordada, preocupadíssima em vestir as suas muitas filhas, ou a desenhar mais umas flores matinais na sua parede. Confidência por confidência, se a Susana estivesse agora aqui ao meu lado havia de lhe dizer: nnTenho umas saudades da minha irmã que parece que não a vejo há meses! Mas não digas nada às oùtras!nn Saudades da <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/rita" >Rita</a>, também, amiga como se irmã fosse.</p>
<p>Começo a sentir um leve formigueiro pelas pernas e pelos braços. O sol bate-me nas pálpebras fechadas e através delas parece-me ver dançar todas as cores do arco-íris à volta dos nmeus olhos. Começo a sentir uma moleza a espalhar-se pelo corpo e tenho medo de adormecer ao sol. Li um dia numa revista que isso é muito perigoso. Levanto-me de um salto e digo para a Cláudia e para o Zé Pedro, estendidos ao meu lado:</p>
<p>- Quem é que quer vir comigo à procura de espiões? Começam a rir e deixam-se ficar no mesmo lugar.</p>
<p>- Querem ou não querem? Se não querem, vou eu sozinha e não se fala mais nisso. Mas depois não se queixem se não apanharem medalhas de ouro pelos serviços relevantes prestados à pátria!</p>
<p>O Zé Pedro tocou com o indicador na testa e disse:</p>
<p>- Foi do sol, com certeza. Chamem aí o 115! Mas eu já ia embalada a todo o gás.</p>
<p>- Quais: 115 ou 116 ! Estou a falar verdade ! Isto está tudo cheio, cheio! Está tudo sobrelotado de espiões. Basta ver a cara deles. Olha aquele tipo ali a ler o jornal? Está visto que é espião porque, regra n.o 1: todos os espiões se escondem por detrás de jornais. Aquele acolá a dar o nó no sapato? Está visto que é espião porque, regra n.o 2: todos os espiões se curvam sempre para apertarem os sapatos e melhor ouvirem o que dizem quem por eles passa. Aquela senhora ali, a tentar enganar-nos com o seu ar de dona de casa a limpar as pedras aos cantos da tenda? Está mais que visto que é espia, porque, regra n.o 3: todos os espiões e espias, é claro) sabem que o melhor sítio para esconder mensagens secretas é precisamente entre as pedras. Como vêem, meus senhores e minhas senhoras, só assim à vista desarmada já se notam três. Imaginem a quantidade que não deve haver neste parque todo! E sabemos lá a soldo de que potências estarão!</p>
<p>Entretanto, pelo meio de todo o meu discurso, e</p>
<p>apesar dos olhos ainda estarem meio piscos do sol, dou pela Isabel muito atarefada à procura de qualquer coisa ndentro da tenda. Procuro fazer-me desentendida e continuo a entusiasmar a multidão,vinda de todos os cantos para me aplaudir,obrigada,obrigada!</p>
<p>- Sim,hoje em dia devemos estar sempre atentos a tudo! O inimigo espreita-nos! Não sei onde, mas espreita!</p>
<p>- Deve ser ali pela racha do muro - bichanou o</p>
<p>Miguel ao ouvido do Zé Pedro,mas não tão baixinho que</p>
<p>eu não o ouvisse.</p>
<p>Mas como os grandes oradores são imunes aos apartes</p>
<p>dos pobres mortais,deitei-lhes apenas aquele ar de superioridade que tinha aprendido com todos os primeiros-ministros que têm passado pelo telejornal,e continuei:</p>
<p>- Já lá perguntava,e muito bem,a Leopoldina</p>
<p>criada da minha madrinha,quando passava pelo quartel-general e olhava as guaritas sem soldados: nnMinha</p>
<p>senhora,minha senhora! E se o inimigo atacasse agora?!nn</p>
<p>Uma gargalhada da multidão fez-me travar.Ao meu</p>
<p>n lado a Teresa,que tem muito tento na língua,reprovou-me baixinho:</p>
<p>- Não é criada que se diz,é empregada doméstica!</p>
<p>Omeu furor foi ao rubro.Não há nada que mais me</p>
<p>irrite do que sentir ao vivo a estupidez dos mortais.</p>
<p>- Qual empregada doméstica,qual carapuça! A Leopoldina trabalhava de manhã à noite, não tinha domingos</p>
<p>nem feriados,ganhava uma miséria,não descontava para</p>
<p>a caixa,nunca teve férias - queres mais criada do que isto?</p>
<p>A Isabel tinha já saído da tenda com um grande cartão</p>
<p>debaixo do braço e ar bastante comprometido,olhando</p>
<p>em volta.</p>
<p>Comecei a notar que entre a multidão havia já quem</p>
<p>dispersasse e se preparasse para deixar de me ouvir e optar por mais um mergulho na piscina. Não podia ser.A segurança do mundo ocidentaln quero dizer,de Almornos,estava em jogo.Como nesta história de comícios há sempre um arzinho</p>
<p>de rock para animar,ainda pensei socorrer-me da Cláudia.</p>
<p>n - Manda lá uma cantiga, anda!</p>
<p>Ela não se fez rogada e saltou logo para o meu lado:</p>
<p>Olha o robot é prò menino e prà menina ô</p>
<p>Foi o desastre. A multidão mandou às urtigas a segurança do mundo ocidental, quero dizer, de Almornos, e desatou cada um a berrar para seu lado o que muito bem (ou muito mal) lhe vinha à cabeça.</p>
<p>- É prò menino e prà menina, cada cor seu paladar!</p>
<p>- Há fruta ó chicolate!</p>
<p>- Vai um tirinho, ó freguês?</p>
<p>- Ó louro, dá cá o pé !</p>
<p>- Chico Fininho ! U U !</p>
<p>Até que veio o Sr. Ernesto perguntar se por acaso não teria caído alguma tenda e não estivéssemos todos a precisar, mais uma vez, da sua ajuda.</p>
<p>Assim acabou a rebelião de Almornos.</p>
<p>Capítulo 9</p>
<p>Depois de duas voltas completas ao parque (o Zé Pedro já dizia que a gente parecia um toureiro às voltas ao Campo Pequeno para chamar a atenção dos empresários), tínhamos o inventário completo.</p>
<p>A saber:</p>
<p>-11 espiões em fato de banho escondidos por detrás da Bola;</p>
<p>- 3 espiões com súbitos problemas nos atacadores dos ténis;</p>
<p>- 7 espiões a dizer nnaquilo do Alves é mesmo lesão ou é fita do tipo para não jogar?&#8221;, o que obviamente se notava ser mensagem em código;</p>
<p>- 8 espias disfarçando bilhetinhos secretos entre as molas com que penduravam a roupa na corda;</p>
<p>- 4espias às voltas com o rádio de pilhas,decerto</p>
<p>tentando comunicar com o exterior;</p>
<p>- 8 espiões de barbas (um dos disfarces mais</p>
<p>característicos);</p>
<p>- 5 espiões de bigode (idem);</p>
<p>-10 espiões de óculos escuros (aspas).</p>
<p>Isto para não falarmos do Sr.Ernesto,dando uma</p>
<p>ajudinha aqui e ali,arrematando sempre as conversas com</p>
<p>nnai vida,vida,esquece muito a quem não sabe, o que</p>
<p>provava à saciedade tratar-se de agente duplo.</p>
<p>A Susana acabara por entrar também na brincadeira.</p>
<p>Os seus caracóis sacudiam todos de cada vez que ela ria,</p>
<p>ou seja, de cada vez que algum de nós descobria mais</p>
<p>algum espião,todos geralmente estendidos em cadeiras</p>
<p>de lona ou à beira da piscina.</p>
<p>- Estou cá com uma pena das espias,que vocês nem</p>
<p>imaginam! Disse ela,apontando para uma ruazinha toda cheia de tendas muito floridas e bem arranjadas.</p>
<p>n - Olhem para aquilo.Passam o tempo todo a coser a</p>
<p>roupa,a lavar a louça,a arrumar a tenda,a pôr água nas</p>
<p>plantas,a varrer o chão,a fazer a comida - mas afinal</p>
<p>que descanso é o delas? É como se estivessem em casa.</p>
<p>OMiguel começou a rir.O Miguel começava sempre</p>
<p>por rir muito antes de contar alguma coisa engraçada.</p>
<p>Ria,ria,ria até às lágrimas de tal maneira que às vezes</p>
<p>a gente também começava a rir sem saber ainda que coisa</p>
<p>assim tão divertida ia sair da boca dele.Depois de muito</p>
<p>rir lá vieram as palavras:</p>
<p>- O meu pai contou-me que uma vez,já há muitos</p>
<p>anos,num acampamento no Algarve,apareceu um casal</p>
<p>(dois espiões,é verdade !,já me esquecia) todo muito</p>
<p>bem aperaltado,com uma caravana que mandava ventarolas, que trazia com eles criada fardada e de crista na cabeça! Acho que durante todos os dias que durou o acampamento nunca a pobre se conseguiu desfardar para apanhar um pinguinho de sol que fosse. E ali a trabalhar no duro como se estivesse em casa. E eles sempre: Ó Clotilde ponha a mesa ! Ó Clotilde olhe o almoço ! Ó Clotilde vá buscar água ! &#8221; E à hora das refeições, lá vinha a pobre Clotilde de crista na cabeça que até parecia mascarada.</p>
<p>- Uma coisa te garanto - disse o Zé Pedro - a darem tanto nas vistas não eram espiões de certeza!</p>
<p>- Isso é que a gente nunca sabe! Não viste aquele filme a a Ágente, em que o criminoso era o próprio polícia e nunca pôde estar descansado!</p>
<p>Eu ouvia aquilo tudo e, bem cá para mim, ria mais que o Miguel. Ao princípio todos me tinham chamado maluquinha (nndepressa o 115 para ela!&#8221;) e agora todos estavam de tal modo entranhados no jogo que já se viam exímios caçadores de espiões num mundo superpovoado deles.</p>
<p>- Por acaso, aqui onde me vêem, eu é que já fui mesmo espia a sério! Disse então, num fiozinho de voz, a Sofia.</p>
<p>A Sofia raramente falava de si. Virámo-nos todos para ela. Ao n mesmo tempo. Até parecíamos aqueles estrangeiros nas camionetas de turismo, virando a cabeça sempre ao mesmo tempo para a direita e sempre ao mesmo tempo para a esquerda, conforme as indicações da guia.</p>
<p>- Tu?</p>
<p>- Eu, sim. Ou se não foi espia foi assim uma coisa</p>
<p>parecida com isso. Há muitos anos.</p>
<p>- E eu fui rei do Burundi! - O Miguel, rindo.</p>
<p>- E eu presidente da República de Surinão ! - a Teresa.</p>
<p>- E eu ontem eleita Miss Almornos! - a Cláudia.</p>
<p>A Sofia estava quase a amuar. Parecia a Rosa quando fazia beicinho. Ou a <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-irm-do-inocente" >Rita</a>, quando chove.</p>
<p>- Vocês não acreditam mas é verdade! Foi para aí há</p>
<p>uns 12anos ou coisa assim.A minha mãe é que costuma</p>
<p>contar.Ela e o meu pai tinham que ir entregar uns papéis</p>
<p>importantes e uns jornais a casa de umas pessoas,e</p>
<p>estavam com medo que a polícia os apanhasse.</p>
<p>- A polícia? - admirou-se o João,que até ali não</p>
<p>abrira boca.</p>
<p>- Claro,isto foi muito antes do 25de Abril,seu</p>
<p>burro !</p>
<p>- Pronto,pronto,não é preciso ofender!</p>
<p>Mas a Sofia já continuava.</p>
<p>- A polícia já uma vez lhes tinha mandado parar o</p>
<p>carro para o revistar,de maneira que não podiam arriscar-se a ir nele.Mas como também já lá tinham ido a casa</p>
<p>fazer uma busca de manhãzinha,não podiam lá ter esses</p>
<p>papéis e nos jornais por muito mais tempo.Então,não</p>
<p>tiveram outra solução: meteram aquilo tudo debaixo do</p>
<p>colchão do meu carrho de bebé,puseram-me a mim por</p>
<p>cima,e lá foram comigo rua fora,como se me levassem</p>
<p>calmamente a passear até casa de amigos.A mãe conta</p>
<p>que eu ia muito divertida,que palrei e cantei pelo caminho todo.Eu,que costumava adormecer assim que saía à</p>
<p>rua no carrho,naquela manhã fui o tempo todo acordada.O caminho tinha múitas pedras,diz a minha mãe,e o</p>
<p>carrho às vezes dava alguns solavancos.Mas eu fui e</p>
<p>vim sempre bem-disposta.</p>
<p>- Grande espia,sim senhora,deu-te cedo a vocação!</p>
<p>- exclamou a Cláudia.</p>
<p>n Estalou a risada.A Sofia estava feliz.Já tinha contado a sua aventura.Não sei porquê,tenho cá uma sensação de que todos teriam acreditado mais depressa na louca história de aquele parque estar infestado de espiões do que na história da Sofia.Porque,na maior parte dos casos,acreditar na verdade é bem mais difícil do que acreditar no fingido.</p>
<p>Capítulo 10</p>
<p>Mais duas voltas ao parque e os espiões ficaram todos descobertos. De humor variável, a Susana estava outra vez com ar de quem quer mudar de pele. Os domadores deviam andar de chicote por dentro da sua cabeça. nnSusana, faça uma vénia ao respeitável público! nnSusana uma voltinha só nas patas traseiras ! &#8220;, nn Susana, agora só nas patas da frente ! n, nn Susana, levante-se!, nn Susana deite-se ! &#8220;.</p>
<p>Susana, leoazinha domesticada ao canto da jaula, mais bem mandada do que a Rosa quando diz nna Repúblican, sem direito a sujar-se, sem direito a aprender as coisas por si própria, sem direito a ser como nós todas, a partir a cabeça, a arranhar os joelhos, a ter birras e amuos, nem que sejam de um quarto de hora como os da minha mãe.</p>
<p>Dou por mim a rir sozinha.Acho que é a isto que a</p>
<p>mãe da Rita chama uma criança muito bem-educadann.</p>
<p>E não posso deixar de pensar no que aconteceria se os</p>
<p>nfilhos também falassem dos pais como bem ou mal-educados.Estou aqui a ouvir o que diria a Susana:</p>
<p>nnTenho os pais mais bem-educados do mundo.Nunca</p>
<p>levantam a voz,batem-me às vezes mas é claro que é</p>
<p>para meu bem, dão-me vestidos novos todos os meses,</p>
<p>levam-me ao cabeleireiro uma vez por semana, escolhem</p>
<p>por mim os amigos, os livros, as horas da refeição e de</p>
<p>deitar, ensinam-me as palavras certas e tiram do meu</p>
<p>vocabulário as outras todas para eu nunca ser tentada a</p>
<p>usá-las, convidam dezenas de pessoas importantes para o</p>
<p>dia dos meus anos, mesmo que eu não as conheça, mas</p>
<p>eles é que sabem por que é que elas são importantes e o</p>
<p>n que fazem em nossa casa olhando-me,dando-me parabéns e prendas caras; encharcando-me a cara de beijos.</p>
<p>cuspidos por amabilidade,que a amizade ficou lá fora no</p>
<p>bengaleiro,pendurada com os abafos,as carteiras,os</p>
<p>n chapéus.</p>
<p>- Estás muito pensativa! - disse a Susana,sentando-se ao meu lado.</p>
<p>- Tu também não pareces lámuito eufórica! - digo.</p>
<p>Eu coloco a euforia e seus derivados entre as minhas palavras preferidas. É Verdade que eufórica já não é tão bonita, rima com fantasmagórica, que não é lá grande coisa, mas adiante.</p>
<p>- Não,estás enganada.Até me sinto muito bem.Só</p>
<p>n n n tenho é pena de isto estar a acabar.Um fim-de-semana</p>
<p>é bem pouco tempo.</p>
<p>- Melhor que nada.</p>
<p>A Susana sacudiu a cabeça (ai os caracóis,Santo</p>
<p>n Ambrósio!) e deu uma risadinha:</p>
<p>- A facilidade com que tu te contentas com as coisas</p>
<p>que tens ! Eu cá estou sempre a querer mais do que tenho.</p>
<p>Pelo menos é o que diz o meu pai e por isso me castiga.</p>
<p>- Não é nada disso! - refilo eu. - Há muitas coisas com que eu não me contento. Olha, se tivesse que obedecer assim a ordens como as que te dão, de certeza que não ficava tão quietinha como tu, não!</p>
<p>- E que queres tu que eu faça? Que grite, que esperneie, que não almoce nem jante?</p>
<p>- Ora. Há muitas maneiras de fazer as pessoas entenderem o que a gente quer. Fala com eles. Para que é que tens boca?</p>
<p>Uma gargalhada da Susana:</p>
<p>- Falar com eles? Tens cada uma! Há sempre coisas muito mais importantes do que eu, e eles têm o tempo todo tomado. Acho que a única vez que eu consegui falar a sério com a minha mãe foi no dia em que fiz a prova de avaliação da 4.a classe. E ainda agora não sei como consegui coragem para isso.</p>
<p>- E que coisa difícil tinhas tu para lhe dizeres?</p>
<p>- Que não queria mais explicadores. Mais nenhum. Que estava farta deles. Até aqui. Que me apetecia matá-los a todos.</p>
<p>Rimos as duas, com a ideia dos não sei quantos explicadores da Susana alinhadinhos junto de uma parede à espera do pelotão de fuzilamento, pum ! pum !</p>
<p>- Tu sabes lá o que é a gente não ter um minuto livre desde que chega da escola! Vinha um e era uma hora de ditados e de textos para ver se eu melhorava a caligrafia que aquilo era uma vergonha. Logo a seguir vinha outro e era mais outra hora de tabuada e contas, na lengalenga do cinco-vezes-um-cinco, cinco-vezes-dois-dez e por aí fora, nporque (dizia ele) eu ainda sou dos que acreditam nos métodos antigos de ensinar aritmética e não me venham para cá com modernices. E vinha mais outro e eram os animais e os montes e as criptogâmicas e as fanerogâmicas, coisa que a gente na aula nunca deu nnmas saber mais do que é preciso nunca fez mal a ninguém&#8221;, dizia ele. E mais as aulas de ballet, e mais as lições de piano com a D.Joaquina que adormecia a meio dos exercícios, e mais as aulas de Inglês, que a minha mãe era de opinião que eu não devia ir para o ciclo sem saber já mais do que os outros.Sabes lá o que é.passar os dias sempre a olhar para o relógio,sempre à espera que a campainha da porta batesse e eles chegassem.</p>
<p>- Mas não chegaste a matá-los,pois não?</p>
<p>A Susana riu,agora a começar a entrar de verdade na</p>
<p>pele que era sua e nela a sentir-se bem.</p>
<p>- A minha mãe teve uma grande conversa com</p>
<p>meu pai no escritório (que eles nunca falam de coisas</p>
<p>importantes à minha frente,à minha frente só discutem&#8230;) e depois lá me veio dizer que tinham decidido que eu ficasse só com o professor de Inglês e as aulas de ballet e de piano.Bem preferia ir para a natação em vez</p>
<p>de ir para o ballet,mas estás a ver a minha mãe quando</p>
<p>pensa em piscinas, crédo,t&#8217;arrenego,abrenúncio! Mesmo</p>
<p>assim men sinto bem mais livre,podes crer!</p>
<p>O Sol tinha quase desaparecido. E nós as duas ali a querérmos aproveitar todos os minutos,todos os segundos de qualquer coisa que talvez não voltasse a aconteceer tão cedo.Porque não era só o acampamento,a brincadeira, as férias a chegar,as tolices boas que se gritam m correria, a piscina- os gelados,o sol,os espiões.</p>
<p>Era estarmos ali as duas juntas.Com palavras que</p>
<p>talvez não disséssemos a mais ninguém,vindas cá de</p>
<p>dentro,muito cá de dentro donde a gente nem sequer</p>
<p>&#8220;sonha que existam palavras.</p>
<p>Era sermos amigas,assim,tanto.</p>
<p>Era a estranha sensação de quase nos ouvirmos,uma</p>
<p>à outra,a crescer.</p>
<p>Capítulo 11</p>
<p>A professora tinha dito: de manhãzinha quero tudo a</p>
<p>postos para a partida.</p>
<p>De manhãzinha.Sorrio a pensar no meu pai,e espero</p>
<p>com toda a força do meu pequenino coração que ninguém</p>
<p>me vá arrancar do saco-cama às quatro da manhã para nos</p>
<p>metermos dentro da camioneta,desta vez - ó gentes,</p>
<p>vos juro! - sem a obrigação de animar a Maria do Céu!</p>
<p>Aproveito para dar mais uma voltinha antes de chegar</p>
<p>à tenda e fazer as minhas arrumações.Como sempre a</p>
<p>Isabel continuava muito atarefada em qualquer espinhosa</p>
<p>missão que nenhuma de nós,olhando para ela,ainda</p>
<p>tinha sido capaz de deslindar.Entrava e saía,tirava um</p>
<p>livro da mala,voltava a pôr o livro na mala,desaparecia</p>
<p>por longos momentos: A gente olhava,sorria,e achava</p>
<p>que o melhor era deixá-la sossegada.A Isabel às vezes tinha destas coisas.</p>
<p>Tínhamos nós acabado de meter tudo (aquele pouco que se chamava tudo) nas mochilas,tinha a Susana já remexido a mala de alto a baixo para dar impressão de ter usado aquelas coisas todas,quando chega a Isabel com um enorme cartaz de letras garrafais de várias cores. Era assim uma coisa bem folclórica,palavra que era,e por meio de alfinetes,cordas e cordinhas,lá o pendurou à entrada da nossa tenda.</p>
<p>Com ar feliz sentou-se ao nosso lado.</p>
<p>- Pronto,já está.</p>
<p>Oquê,a gente não fazia ideia nenhuma. Sabíamos apenas que,o que quer que fosse,pronto,já estava! A Cláudia,a preparar-se para se enfiar no saco-cama,</p>
<p>desatou a rir:</p>
<p>- Agora que a gente se vai embora é que te deu para embelezar o palácio? Será,por exemplo,algum daqueles dizeres de azulejo de fino gosto,nnbem-vindo seja quem</p>
<p>vier por bem, nnsemeia e cria,terás alegria,n ou qualqer</p>
<p>outro assim no género?</p>
<p>A Isabel pareceu ofendida.Ela com tanto trabalhinho</p>
<p>para aquilo.Encolheu os ombros.</p>
<p>- Vai lá fora ver.</p>
<p>- Era o que faltava! Vou é já para a minha rica</p>
<p>n caminha que amanhã a alvorada promete ser cedo.</p>
<p>- Eu vou lá ver - disse a Susana,para não desanimar</p>
<p>a Isabel,que já se considerava a pessoa mais infeliz do mundo e de Almornos.Mas logo voltou,caracóis</p>
<p>a abanar.</p>
<p>- Desculpa lá mas não percebo nada.</p>
<p>Aí a minha curiosidade aguçou-se.Dei um pulo fora da tenda.Um grande cartaz,à porta.</p>
<p>A Isabel tinha vindo comigo,feliz com a sua obra.</p>
<p>E repetia:</p>
<p>- Pronto,já está.</p>
<p>Assim como alguém que tivesse livrado o mundo de</p>
<p>alguma catástrofe iminente.Não me contive:</p>
<p>- Mas pronto já está o quê?</p>
<p>- Então não vês o que aí está escrito? É um aviso.</p>
<p>Assim como às vezes se vê no cinema&#8230;</p>
<p>(A Isabel via filmes de mais,televisão de mais.)</p>
<p>-&#8230;eles assim olham para aqui,e percebem que a</p>
<p>gente já os topou.Deste lado é para os que sabem ler a</p>
<p>nsua língua própria; para os que não souberem,volta-se o</p>
<p>cartaz do outro lado.</p>
<p>A Isabel continuava,feliz:</p>
<p>- Foi num filme que eu vi.Ou na televisão,não me</p>
<p>lembro.Acho que era qualquer coisa contra os americanos ou contra os ingleses,não sei bem,e o meu pai</p>
<p>disse-me que aquilo era assim uma espécie de fórmula</p>
<p>mágica contra o mau-olhado.Acho mesmo que é a</p>
<p>n tradução deles para nnvai daqui para fora!&#8221;,nnt&#8217;arrenego</p>
<p>Satanás&#8221;,e outras coisas assim que a minha avó costuma</p>
<p>dizer quando alguma coisa lhe corre mal.Achei que</p>
<p>ficava lindo ali fora da nossa tenda.</p>
<p>nn Realmente a imaginação da Isabel não tinha limites.</p>
<p>Aquilo até parecia daquelas histórias que a Rosa costuma</p>
<p>inventar, que fazem o Sr. Guerreiro, nosso vizinho,</p>
<p>abanar a cabeça e dizer nnhá-de ir longe esta criança!,n.! Por aquele caminho, a Isabel também devia ir longe, devia.</p>
<p>n - Mas por que razão puseste tu aquilo tudo ao contrário?</p>
<p>n - Oh ignorância abençoada! Em que terra vives tu?</p>
<p>&#8221; Pois não sabes que os espiões falam uns com os outros</p>
<p>sempre em código? Ora é com as letras de trás para a</p>
<p>frente, ora é juntando metades de palavras diferentes, ora</p>
<p>é metendo sílabas estranhas pelo meio da frase. . .</p>
<p>Não resisto e dou uma gargalhada que deve ter acordado tudo quanto era espião naqueles lugares mais próximos.</p>
<p>n n- Quete tonpontapa tupu mepe saíspis tepe!</p>
<p>- Quê?</p>
<p>Os olhos espantados da Isabel.</p>
<p>n - Que tontatu me saiste!</p>
<p>- Cada vez percebo menos!</p>
<p>- Etsías em ut atnot euq !</p>
<p>A Isabel ia mesmo para começar mais um amuo que</p>
<p>eu bem o vi mesmo ali a rebentar-lhe da veia da testa que</p>
<p>começa logo a inchar e a ficar azul-escura.</p>
<p>- Estás a desconversar.</p>
<p>- Não estou nada! Estou a falar essas línguas todas n;</p>
<p>que tu dizes que os espiões falam! Traduzindo para português - que é a que tu falas - aqui fica o recado:</p>
<p>que tonta tu me saíste!</p>
<p>Íamos finalmente entrar na tenda quando ouvimos a</p>
<p>voz do Sr. Ernesto:</p>
<p>- As meninas querem uma ajudinha amanhã para</p>
<p>desfazer esta coisa?</p>
<p>in Esta coisa era evidentemente o belo palácio de lona</p>
<p>azul da Cláudia, nossa mansão por aquele fim-de-semana.</p>
<p>Antes de esperar pela nossa resposta, continuou:</p>
<p>- As meninas com tanto trabalho a alindar isto, para já levantarem ferro amanhã de manhã!</p>
<p>E apontando para o cartaz:</p>
<p>- Essa coisa ali em estrangeiro que é que quer dizer?</p>
<p>Olhámos uma para a outra. Pelos vistos o Sr. Ernesto não sabia ler espião. Nem de trás para a frente, nem de frente para trás. Ou então disfarçava muito bem. Devia ser isso.</p>
<p>- É uma espécie de saudação para os outros campisn tas - disse eu, meio encabulada. A Isabel metia-me em cada uma.</p>
<p>- Ah! A menina levou um tempão a fazer isso, que eu às vezes via-a. Pena ficar pronto mesmo no dia em que se vão embora. Isso faz-me lembrar. . .</p>
<p>Deù uma risadinha:</p>
<p>- Uma vez engracei com uma rapariga lá na minha terra. E então pensei em escrever-lhe uma carta. Fui lá à venda para comprar papel e envelope e caneta e selo e o mais que era preciso. Mas levei tanto tempo a escolher isso tudo (porque uns vinham e diziam que era melhor papel todo branco, porque depois vinham outros e diziam que o que se usava na cidade era papel creme, e ainda vinham outros que diziam que papel com desenhos de flores é que era fino), e depois levei tanto tempo em casa a pensar no que havia de lhe dizer, nas palavras que havia de escrever, e depois levei tanto tempo a pensar se havia ou não havia de pôr a carta no correio - que olhe. .</p>
<p>Deu um estalinho com os dedos, e calou-se.</p>
<p>- O que é que aconteceu? - perguntámos.</p>
<p>Tornou à sua risadinha habitual.</p>
<p>- Quando me decidi finalmente a pôr a carta no correio já ela namorava outro! É assim como este cartaz.</p>
<p>Quando fica pronto, já não serve para nada. Se tivesse chegado um dia antes..</p>
<p>- Que é que acontecia?</p>
<p>nnn - Nada.Foi o que a tal rapariga me disse,no dia em</p>
<p>que recebeu a minha carta.</p>
<p>nDe dentro da tenda as vozes da Cláudia e da Susana:</p>
<p>- Mas vocês vão ficar de vigia a noite toda?</p>
<p>Momentos depois estávamos já todas enroladas nos</p>
<p>nossos sacos-cama.Antes de adormecer pareceu-me ouvir</p>
<p>os passos de algum espião que vinha tirar o cartaz dali ; danossa tenda e uma voz de rapariga dizendo,muito ao</p>
<p>longe, se tivesse chegado um dia antes&#8221;.</p>
<p>Capítulo 12</p>
<p>A Rosa veio a correr agarrar-se às minhas pernas com uma urgência louca de me contar o que tinha acontecido:</p>
<p>- O lobo comeu todos, todos, todos !</p>
<p>Desembaracei-me da mochila o melhor que pude, deixei escorregar a asa do saco-cama que trazia enfiada no pulso, atirei para um canto a toalha de banho que, por mais esforços que eu tivesse feito, não coubera dentro da mochila, e caí no sofá da sala. Estava em casa!</p>
<p>- E depois eles disseram, põe a patinha por baixo da porta, e estava toda cheia de farinha.</p>
<p>A Rosa já tinha embalado a todo o gás, não havia quem a parasse.</p>
<p>- Onde está a mãe? - pergunto.</p>
<p>- A mãe foi ao bosque.</p>
<p>- Ao bosque? Qual bosque?</p>
<p>- Foi à procura dos outros cabritinhos,porque ela</p>
<p>não sabe que está um no relógio,e vai pôr muitas pedras</p>
<p>na barriga dele,e é bem feita.</p>
<p>- Dele,quem?</p>
<p>- Do lobo.O lobo comeu todos,todos,todos !</p>
<p>Esta devia ser a última história que a minha avó Elisa</p>
<p>lhe contou,com certeza.</p>
<p>- Onde está a mãe? - pergunto à minha avó.</p>
<p>- Foi a casa da Rita,acho que não demora.A gente</p>
<p>não pensava que tu vinhas tão cedo.Devem ter saído de</p>
<p>lá de madrugada,com certeza.</p>
<p>- Não foi tão cedinho como o pai gosta,mas despachámos a desmontagem daquilo num rápido.</p>
<p>Num instantinho,penso.Num instantinho aqui tomado quase com todo o seu rigor de palavra.</p>
<p>Começo a contar todas as nossas aventuras à minha</p>
<p>avó, que pelo meio ia desfiando também o boletim de</p>
<p>n notícias lá de casa e arredores.Os rapazes do 3.o frente</p>
<p>tinham despejado um timteiro de timta azul em cima da</p>
<p>roupa estendida na corda da nossa janela. O 38 tinha</p>
<p>mudado de trajecto e já não parava à nossa porta.</p>
<p>O supermercado estava em greve.O Zarolho parecia</p>
<p>adoentado,com umas pintas esbranquiçadas pelo corpo.</p>
<p>Ia começar novo folhetim na rádio.O Sr.Guerreiro</p>
<p>consertara o esquentador avariado.Era como se um fIm-de-semana se tivesse transformado,de repente em meses e meses de separação,e tudo se tivesse conjugado para acontecer durante esse tempo.Estava mesmo à espera que a uma qualquer altura da conversa a minha avó olhasse para mim e dissesse: Como cresceste nestes dias! Mas a minha avó, terminado o relatório,deu meia volta e ficou toda ocupada a tirar o fio do feijão-verde, primeiro de um lado,depois do outro,parti-lo ao meio, tudo como mandam os bons livros de culinária,acho eu.</p>
<p>nnEntretanto a Rosa cantava uma daquelas cantigas do</p>
<p>seu vastíssimo reportório, que podiam durar horas se ela</p>
<p>estivesse para aí calhada, fazendo voz fininha de cada vez</p>
<p>que o cabritinho entrava na história.</p>
<p>- A gente sempre vai a Espanha,avó?</p>
<p>- A Rosa vai.A Rosa quer ir.A Rosa já sabe o n n</p>
<p>espanhol todo.Há lá muitos bosques com muitos lobos! !</p>
<p>A minha avó acabou de meter o feijão-verde para n</p>
<p>dentro da panela de água a ferver,encolheu os ombros nn</p>
<p>e não pareceu muito certa.</p>
<p>- O teu pai diz&#8230; n</p>
<p>.que desta vez é que não falha,eu sei,estou</p>
<p>farta den o ouvir.Mas qualquer dia têm eles as férias no</p>
<p>fim e ainda cá estamos dentro de casa a pensar se vamos n</p>
<p>ou não.</p>
<p>- Queres um conselho? Vai-te habituando à ideia de &#8220;que já tiveste as tuas férias neste fim-de-semana,e não n</p>
<p>contes muito com viagens,que os tempos não vão para</p>
<p>isso.Nem os tempos,nem as pessoas,nem nada. Parece</p>
<p>que anda tudo doido neste mundo.</p>
<p>Decididamente a minha avó estava em dia-não.Se ali</p>
<p>continuasse a conversar com ela não tardariam a vir ná</p>
<p>baila os astronautas e todos os horrores que por causa n</p>
<p>deles se fazem por cima das nossas inocentes cabeças. n</p>
<p>Vou até ao meu quarto,abro a janela debruçada para</p>
<p>esta paisagem de detritos,pedras e pó que se levanta à</p>
<p>mínima aragem e por onde já não passa o 38.Não vejo</p>
<p>ninguém nas outras janelas.Separadas por paredes e n</p>
<p>portas,devem todos estar a ter,a esta mesma hora,os</p>
<p>mesmos gestos,quem sabe se as mesmas palavras e os n</p>
<p>mesmos desejos.Separados por paredes e por portas, n</p>
<p>quantas pessoas não estarão,neste mesmo momento desistindo de sonhos - chamem-se eles Espanha,mar, ou simplesmente descanso - porque os tempos não vão para isso.Nem sequer para sonhos. (Gostava que a minha mãe já cá estivesse.Coisa</p>
<p>estranha ir assim para casa da Rita logo de manhã,</p>
<p>sabendo que eu chegava hoje. De resto,para falar verdade, não me parecia que a casa da Rita (que é como quem</p>
<p>diz,a mãe da Rita,que a casa,coitada,não tem culpa</p>
<p>nenhuma) fosse assim o lugar onde mais me apetecesse</p>
<p>passar a minha primeira manhã de férias. Mas as mães</p>
<p>são bichos estranhos,e embora eu sinta que compreendo</p>
<p>a minha muito bem,ainda há um pormenor ou outro que</p>
<p>me escapa.Às vezes penso que os meus pais hão-de ser</p>
<p>muito felizes por terem uma filha que os compreende tão</p>
<p>bem e lhes faz todas as vontades.</p>
<p>nOuço a voz da minha mãe a chamar-me da praceta.</p>
<p>A Rita vem com ela e diz-me adeus.Corro pela escada ao</p>
<p>seu encontro enquanto,no patamar,a Rosa avisa o</p>
<p>Mundo:</p>
<p>- Mostra a tua patinha! Porque pode ser o lobo e ele</p>
<p>come todos,todos,n todos.</p>
<p>Capítulo 13</p>
<p>Olhava-se para ela e via-se: as coisas não iam bem. Que coisas, eu não sabia ao certo. Mas coisas importantes com certeza, que a Rita não era pessoa para grandes ataques de tristeza. Nem mesmo quando os pais se zangavam com ela: nnlá estou habituada, tanto se me dá, como se me deu, costumava ela dizer então, mesmo que eu soubesse que, lá no fundo, não era tanto assim. Mas mesmo nessas alturas a Rita tentava disfarçar e ria. Fechava as mãos com força e abria muito os olhos -o</p>
<p>seu truque de resistir ao choro.</p>
<p>Agora não ria. Encaixara-se no meio das almofadas da minha cama e nem perguntou como tinha corrido o acampamento.</p>
<p>- Que é que tu tens?</p>
<p>- Nada.</p>
<p>- Nada não, que eu não sou cega.Tenho até muito bons olhos.</p>
<p>- Não sejas parva!</p>
<p>- Pronto,pronto,se não me queres cá,já podias ter</p>
<p>dito.Adeuzinho,até qualquer dia!</p>
<p>- Não é nada disso.Fica aí o tempo que quiseres.</p>
<p>n E se não quiseres dizer nada,não digas.Só queria ajudar.</p>
<p>- Claro,claro.Toda a gente quer sempre ajudar.Até</p>
<p>n eles se querem ajudar um ao outro.Acho mesmo que nunca tanta gente se quis ajudar ao mesmo tempo como</p>
<p>agora !</p>
<p>A coisa estava mesmo feia embora eu continuasse</p>
<p>sem entender nada. Fazer perguntas não ajudava. Continuei a arrumar as coisas que tirava de dentro da mochila,olhando-a de vez em quando. Olha a menina pequenina com a sua filhinha querida ao colo&#8221;,costumava a Rita troçar,quando às vezes</p>
<p>nnn entrava no meu quarto e me via a brincar com a velha Zica.</p>
<p>Pelos vistos,agora era ela a menina pequena,despenteando a Zica com quantos dedos tinha nas mãos.E a</p>
<p>sumaúma toda a cair do corpo dela,pobrezinha da minha</p>
<p>boneca velha,de cara preta e de corpo afinal tão branco</p>
<p>todo ali a espalhar-se no chão.</p>
<p>E agora,só para mim eu confesso: acho que fui muito</p>
<p>n cruel.Porque enquanto a Rita olhava para o tecto pensando sabe-se lá em quê,eu só pensava no trabalho que iria</p>
<p>ter,logo que ela saísse,a apanhar toda aquela sumaúma</p>
<p>do chão.E eu não queria pensar isso,palavra.Queria</p>
<p>n n chegar ao pé da Rita e fazer-lhe festas,e dizer-lhe como</p>
<p>era amiga dela,e como havia de entender a razão da sua</p>
<p>tristeza. Mas só olhava para a sumaúma, e só pensava no trabalho que iria ter depois a apanhá-la. Ainda tentei, juro que tentei, fazer-lhe uma festa na cabeça, mas acabei por retirar a mão quase a poisar nos seus cabelos. A dificuldade de dizer, dizer apenas: nngosto de ti&#8221;. Uma quase vergonha das palavras a nascer-me na garganta sem eu saber porquê. E se ela se risse de mim?</p>
<p>Vou começando a falar de coisas sem importância: a tenda, a piscina, as ruas de Almornos tão direitinhas e tão enfeitadas que mais pareciam as de uma pequena aldeia a sério, a nossa caça aos espiões, o cartaz da Isabel, o Sr. Ernesto. Ela parecia não ouvir nem uma palavra, cravando as mãos cada vez com mais força no corpo da Zica. Tanta sumaúma no chão.</p>
<p>Vou explodir, não posso mais, eu sei.</p>
<p>- Mas afinal o que é que tu tens?</p>
<p>- Um dia a mais que ontem, e um a menos que amanhã.</p>
<p>- Não sejas chata, Rita! Sou tua amiga, que diabo!</p>
<p>- Claro que és minha amiga! Toda a gente é minha amiga! Zica, és minha amiga, não és? Olha ela a dizer que sim com a cabeça. Rosa, és amiga, não és?</p>
<p>E logo a minha irmã, sempre por ali a cirandar:</p>
<p>- És. E sabes onde é que está escondido o cabritinho, sabes?</p>
<p>Mas a Rita estava pouco interessada em histórias de cabritinhos.</p>
<p>- Vês? A Rosa também é minha amiga. Toda a gente é minha amiga!</p>
<p>- Quero lá saber de toda a gente! Eu sou. É isso que me interessa.</p>
<p>- Eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são.</p>
<p>Todos, todos meus amigos. Tão bom ter tantos amigos ! Ainda não encontrei ninguém que não fosse meu amigo. O meu pai mal pára em casa, quase nem fala e quando fala é para ralhar - mas é muito meu amigo. A minha mãe grita o dia todo - mas é muito minha amiga, e a Filipa é minha amiga, a Rosa é minha amiga,esta boneca de odre é minha amiga,até o Zarolho,se pudesse falar, diria que é meu amigo. Só o que é chato no</p>
<p>meio de tudo,é que eu é que não sou minha amiga.Até pessoas</p>
<p>que eu nunca tinha visto,ou com quem nunca tinha</p>
<p>falado mais do que nnbom dia&#8221; ou nnboa tarde&#8221; de repente</p>
<p>chegam-se ao pé de mim para me dizerem que são minhas</p>
<p>amigas,oh ! tão minhas amigas,e como ficariam felizes</p>
<p>n oh ! tão felizes,se eu confiasse nelas.</p>
<p>Por breves momentos passou pelos meus olhos o cartaz laboriosamente retratado pela Isabel na tenda,mas desta vez com outra inscrição. Mas foi um segundo apenas.Logo</p>
<p>os meus olhos voltaram a cair no monte cada vez maior</p>
<p>de sumaúma,e na minha pobre Zica meio esventrada. Como</p>
<p>se de repente a Rita tivesse descoberto nela o seu</p>
<p>público n.o 1.</p>
<p>n Tentei pensar nas coisas que eu gosto que me façam n</p>
<p>ou digam quando estou aborrecida.Gosto que a minha mãe</p>
<p>me sente no colo (onde eu já não caibo) como se eu fosse da idade da Rosa.Gosto que o meu pai largue as palavras cruzadas do jornal e,em vez de se esforçar por descobrir</p>
<p>quem era,com sete letras,a cortesã grega mulher de</p>
<p>Péricles,se esforce em me contar mais histórias de quando</p>
<p>ele era pequeno - nem que seja para me falar, pela 587.</p>
<p>vez,do Largo 5de Outubro em Vila Flor.Gosto que a minha avó Elisa me arranje pão quente com queijo a derreter-se.Gosto de comer chocolate quando chove e me sinto a pessoa mais infeliz do mundo. Gosto de pegar na Rosa ao colo e chamar-lhe nnmeu bichinho-de-contann, meu porquinho-da-índian,</p>
<p>e coisas assim que a fazem rir muito sem perceber nada,e arreliam a minha avó Elisa: se já se viu,chamar nomes à criança!&#8221;.</p>
<p>E às vezes gosto de pensar na avó Lídia, a escorregar já da minha memória. E na tia Magda, morta entre as suas estrelícias e à espera dos amigos que sempre lhe faltaram. E na casa velha.</p>
<p>E gosto às vezes que me deixem em paz. Agora reparo que nunca devia ter perguntado à Rita o que é que ela tinha. Porque se os amigos são para ajudar, às vezes a maior ajuda é fingir que não se dá por nada, ficar calado, à espera. Chego perto dela, faço-lhe uma festa quase a medo no braço, sorrio e digo:</p>
<p>- Não sais daqui sem me ajudares a apanhar toda essa sumaúma, já te aviso!</p>
<p>A Rita olhou à sua volta como se de repente tivesse acordado sabe- se lá de que sonho ou pesadelo e, pela primeira vez naquela tarde, riu a valer: n</p>
<p>- Vai lá buscar o aspirador, anda! Isto limpa-se num instante !</p>
<p>Apesar da gargalhada da Rita, ainda consegui ouvir a minha mãe dizer à avó Elisa que nnaquilo por lá não ia n nada bem&#8221;.</p>
<p>Capítulo 14</p>
<p>De um dia para o outro uma pessoa chega e descobre que a vida é qualquer coisa mais do que dias que se sucedem a outros dias, nas mesmas quatro paredes, com as mesmas pessoas e as mesmas palavras.</p>
<p>Acho que foi isto mais ou menos que eu entendi de tudo. Era difícil entender. Faltava com certeza qualquer coisa mais. Faltava com certeza uma grande razão para que tudo acontecesse dessa maneira. Ninguém se cansa se não tiver um motivo. Ninguém pode um dia dizer nn adeus, vou- me embora&#8221; porque descobriu que podia ser bem mais divertido viver noutro lugar. Mas acho que foi isto que eu entendi, quando a mãe me contou o que se passava, dias depois. A Rosa andava lá entretida na pintura da sua parede, cada vez mais parecida com o arco-íris.</p>
<p>- Os pais da Rita vão-se separar.</p>
<p>Não consegui encontrar nada para dizer.Que poderia</p>
<p>eu dizer? Mas senti que tanto a minha mãe como a minha</p>
<p>n avó estavam à espera das minhas palavras.Que palavras, não sei. Olharam para mim e eu olhei para elas</p>
<p>E continuei sem dizer nada.Senti-me maldisposta. Parecia naqueles jogos de cadeia,que ficam interrompidos se</p>
<p>algum dos participantes não diz em tempo a palavra certa.</p>
<p>Acho que a gente deve sempre pensar em coisas</p>
<p>n importantes e sérias nestas alturas.Mas eu não podia</p>
<p>impedir-me de pensar em coisas idiotas,tão idiotas,e</p>
<p>sabia,a sumaúma espalhada no chão do meu quarto e que</p>
<p>mesmo com o aspirador tanto custara a sair.Os pais da</p>
<p>n Rita iam separar-se e eu só pensava no chão sujo do meu</p>
<p>n quarto.A Rita tinha de viver só com um deles -</p>
<p>nn explicara a minha mãe. À espera de qualquer palavra que</p>
<p>saísse da minha boca.Mas eu ficara de repente longe de</p>
<p>n tudo.Que palavras importantes e sérias eu gostaria de ter</p>
<p>n n dito.De ter pensado,ao menos.Mas nem isso.Só me</p>
<p>nn lembrava do que a gente tinha rido à procura dos espiões</p>
<p>em Almornos.A soldo de que potências estariam os pais</p>
<p>da Rita? Qual seria o seu disfarce? Qual o código entre</p>
<p>eles utilizado?</p>
<p>Acho que se a tia Magda fosse viva tinha agora toda a</p>
<p>razão do mundo para me chamar insensível,como ela</p>
<p>tantas vezes repetia.Devo ser mesmo insensível.Porque</p>
<p>os pais da Rita vão separar-se e eu estou aqui a ouvir tudo isso e a lembrar-me do chão sujo do meu quarto,e das</p>
<p>brincadeiras que me encheram o fim-de-semana.</p>
<p>De repente,sabe-se lá porquê,lembro-me também do</p>
<p>primeiro dia em que fui à escola,Outubro mal começara .</p>
<p>chovia tanto. A minha mãe tinha-me dado um chocolate</p>
<p>sem se importar com o mal que aquilo fazia aos dentes,</p>
<p>como sempre me dizia.Acho que passei a manhã da aula com o chocolate esborrachado no vidro,a olhar a chuva lá por fora,</p>
<p>todos os que pelas ruas andavam tão felizes,sem terem</p>
<p>de ir à escola.Nunca fui capaz de esquecer esse dia,a</p>
<p>chuva,a minha vontade de chorar,o bibe,o chocolate</p>
<p>esmagado na minha mão.</p>
<p>Não sei como me lembro disto agora.Só sei que</p>
<p>quero lembrar-me de outras coisas,ser</p>
<p>capaz de dizer o que a minha mãe espera que eu diga</p>
<p>olhando-me entre as palavras - e acabo sempre por fugir</p>
<p>nas coisas tontas que,no fundo,eu sinto que me impedem</p>
<p>de chorar diante de toda a gente.Abro os olhos com</p>
<p>muita força (assim a Rita me ensinou um dia),como</p>
<p>o chão do meu quarto está sujo da sumaúma,como foi</p>
<p>divertido caçarmos tanto espião em Almornos,levava um</p>
<p>bibe de barcos no primeiro dia em que fui à escola.</p>
<p>No fundo todas as palavras me pareciam inúteis.</p>
<p>não me vénham perguntar nnporQuê?&#8221;,de nada valia suspirar</p>
<p>de nada valia dizer e agora n&#8221;.</p>
<p>Era um assunto tão importante e tão grande e não iria caber em</p>
<p>nenhuma palavra que eu descobrisse.</p>
<p>O cheiro do detergente no lava-louça começou a sentir-se.</p>
<p>Havia de dizer à avó Elisa que comprasse</p>
<p>para aí 487marcas diferentes no supermercado. Todos prometem para a nossa cozinha, para a nossa louça, para a nossa vida, um paraíso de felicidade! Como se não bastasse a sumaúma. Os pais da Rita iam separar-se, e eu só pensava no detergente, que cheirava insuportavelmente a alfazema misturada com gordura e restos de comida. Gostava tanto do meu bibe de barcos.O chocolate tinha amêndoas pelo meio,e era bom tê-lo bem apertado na mão enquanto olhava a chuva lá</p>
<p>por fora e a minha mãe não chegava. n</p>
<p>- Talvez fosse bom falares com a Rita - diz a minha mãe,cansada decerto de esperar pelas minhas</p>
<p>palavras.</p>
<p>- Ela há dias quando cá esteve não me disse nada.</p>
<p>- Não são assim coisas muito fáceis de dizer.Mas</p>
<p>talvez fosse melhor fazeres-lhe agora mais companhia. &#8221; Ela deve estar rodeada de pessoas horrorosas, daquelas</p>
<p>que parecem alimentar-se com os males alheios. Tu és das poucas amigas verdadeiras que ela tem. Vai ter com ela. Olha que os amigos são para as ocasiões.</p>
<p>Os amigos são para as ocasiões. De pequenino se torce o pepino. Grão a grão enche a galinha o papo. Como a gente se tinha divertido com os provérbios e as adivinhas para animar a Maria do Céu. E como o Sr. Ernesto tinha levantado aquela tenda em menos de um ai. E como era azul a água da piscina. E como cheiravam bem todas aquelas ruazinhas cheias de flores e pinheiros.</p>
<p>- Podias lá passar a tarde.</p>
<p>E a gente olhava desconfiada para os espiões que liam n A Bola e falavam da lesão do Alves, e para as espias que ouviam os folhetins à hora do almoço e penduravam a roupa lavada durante a manhã.</p>
<p>- Ou então telefona-lhe e pergunta-lhe se ela não n quer antes vir cá.</p>
<p>As saudades que eu tenho do meu bibe de barcos.</p>
<p>Capítulo 15</p>
<p>Pela primeira vez na minha vida foi forçado o meu sorriso para a Rita quando ela veio abrir a porta. Até agora eu entrava em casa dela como na minha, sabia-lhe os cantos e os cheiros, espalhava pelo chão do quarto dela as cadernetas de cromos, e aquele era também o meu país. Agora a Rita era uma pessoa que eu não conhecia, aquela casa transformara-se num qualquer estrangeiro que nem sequer vinha marcado no meu atlas, e as cadernetas de cromos tinham ficado arrumadas num tempo que me parecia quase nem ter existido. nnNão faças dramann, tinha dito a minha mãe, nntambém não vai ser o fim do mundo!nn</p>
<p>Aí é que a minha mãe se enganava. Não seria talvez o fim do mundo inteiro, mas seria de certeza o fim de um mundo, pequenino e sem importância, concordo, mas que</p>
<p>tinha sido o nosso.O meu e o da Rita. Já nada seria igual.Pior ou melhor,mas igual nunca mais.</p>
<p>Como nada foi igual depois do meu primeiro dia de</p>
<p>escola.Também aí um mundo pequenino e sem importância tinha deixado de ser momdo.Acho que,no fundo,toda a nossa vida</p>
<p>se passa em pequeninos mundos que vão desaparecendo à</p>
<p>medida que a gente cresce e deixa de caber nas saias e</p>
<p>nos sonhos.E por cada mundo que a gente perde (ou</p>
<p>mata?) a gente aumenta um centímetro,e começa a</p>
<p>entender as coisas de outra maneira e sente-se mais forte</p>
<p>&#8221; apesar de tudo.Até o meu mundo de Almornos,povoado</p>
<p>de espiões,se tinha perdido já.</p>
<p>Por mais que eu tentasse,a conversa não vinha.</p>
<p>A Rita já sabia que eu sabia.E eu sabia que a Rita já</p>
<p>n sabia que eu sabia.Isto é assim um bocado complicado,</p>
<p>mas não há outra melhor maneira de o dizer,por mais</p>
<p>dicionários que se consultem.</p>
<p>- O pior de tudo é que eles até parece que andam</p>
<p>mais felizes !</p>
<p>Começo a pensar que a Rita enlouqueceu.Ou então</p>
<p>que eu entrei no quarto dela a meio de qualquer misteriosa conversa com alguém invisível.</p>
<p>- O pior de tudo? - exclamo,espantada.</p>
<p>- Não é bem isso que eu quero dizer - ela dá uma</p>
<p>risadinha,recosta-se melhor na almofada,teria decerto</p>
<p>mais uma vez esventrado a Zica se estivesse em minha</p>
<p>casa:</p>
<p>- É assim: no fundo eu acho que gostava de me</p>
<p>sentir mais vítima,mais desgraçada do que sinto.Para</p>
<p>poder barafustar mais.Para poder vingar-me um pouco</p>
<p>nas pessoas daquilo que está a acontecer.Gostava de</p>
<p>poder dizer que não suporto esta casa,que eles não se</p>
<p>conseguem aturar,que embirram comigo dia e noite,que</p>
<p>me ralham,que saem e batem com as portas,que se</p>
<p>insultam à minha frente e nas minhas costas,que não</p>
<p>querem saber de mim para nada.Acho que era isto.Mas</p>
<p>a verdade é que eles até estão mais calmos. Quase nem</p>
<p>parecem os mesmos. Acho que até nem discutem tanto.</p>
<p>Eu estou aqui sem saber o que pensar. Porque eu gosto</p>
<p>dos dois e queria viver aqui nesta casa com os dois, mas</p>
<p>ao mesmo tempo é tão bom viver numa casa onde</p>
<p>ninguém discute, onde ninguém se zanga por tudo e por</p>
<p>nada, onde não é o fim do mundo se eu deixar um livro</p>
<p>ou um caderno desarrumado.</p>
<p>- Não,não é o fim do mundo.</p>
<p>- O quê?</p>
<p>- Foi isso que a minha mãe disse.Que não ia ser o</p>
<p>fim do mundo.</p>
<p>- Mas as pessoas estão à espera que eu sofra muito.</p>
<p>As pessoas estão sempre à espera que a gente sofra muito</p>
<p>para elas nos consolarem e a gente dizer a todos que bom</p>
<p>coração elas têm.Não imaginas a quantidade de primos e</p>
<p>primas que nestes últimos dias têm telefonado ou aparecido cá em casa para me darem beijinhos,e fazerem</p>
<p>festinhas,e dizerem coitadinha&#8221;,e jurarem milhentas</p>
<p>vezes o seu enooooorme amor por mim! Até já há quem</p>
<p>se ofereça para me levar de férias para a praia,para o nnn</p>
<p>campo,para a serra,para o estrangeiro, tudo para ver se</p>
<p>eu esqueço, como elas dizem.Mas esquecer o quê,</p>
<p>Santo Deus? Até parece que alguém morreu ou vai morrer</p>
<p>amanhã! É por isso que me sinto mal.Às vezes penso que n</p>
<p>estou a cometer uma falta muito grande e que por isso n</p>
<p>alguém vai castigar-me.Só que não sei ao certo que falta</p>
<p>é essa,que coisa assim tão ruim estou eu a fazer.</p>
<p>- A tia Magda,se fosse viva,chamava-te insensível.</p>
<p>- Deve ser isso,deve.</p>
<p>De repente deu um salto e pôs-se de pé.</p>
<p>- Sabes uma coisa?</p>
<p>Começo a pensar em 785coisas trágicas que lhe</p>
<p>possam ter passado pela cabeça.A Rita é capaz de tudo.</p>
<p>Mas ela não me deu tempo para grandes pensamentos.</p>
<p>Agarrou-me na mão:</p>
<p>- Vamos ao frigorífico que estou a morrer de fome!</p>
<p>Parece que quanto mais preocupada ando,mais como.</p>
<p>&#8221; Outra coisa que as pessoas não entendem.nnCoitadinha da Rita!&#8221; dizem.Pois a coitadinha da Rita,nestes dias</p>
<p>todos de aborrecimento,já engordou dois quilos!</p>
<p>Voltámos para o quarto com um tabuleiro cheio de</p>
<p>fatias de pão com manteiga e duas canecas de café com leite, que fome era maleita terrivelmente contagiosa.</p>
<p>Oleite escaldava e a manteiga tinha um leve sabor a</p>
<p>ranço.Ou seja: nunca tínhamos comido nada tão bom na</p>
<p>nossa vida.As coisas estavam a voltar aos seus lugares: a Rita era de novo a Rita que eu conhecia,perita em</p>
<p>assobios e truques para não dar parte de fraca.E aquela casa não tardaria a ser habitável,apesar de diferente.Ia ser difícil,ia custar-lhe um pouco da sua alegria,mas não ia ser impossível.</p>
<p>- A tua mãe tem razão - ouço a Rita,entre duas</p>
<p>fatias de pão trincadas.- Isto não vai ser o fim do</p>
<p>n mundo.</p>
<p>Parou,esteve silenciosa por momentos,olhando para</p>
<p>ninguém e para nada,e por fim acrescentou:</p>
<p>- Mas também não sei o que isto vai ser.</p>
<p>Os olhos brilhavam muito.</p>
<p>- Tenho medo,Mariana.</p>
<p>Disse,baixinho.</p>
<p>Capítulo 16</p>
<p>Pela 649.a vez o atlas saltou da prateleira para as mãos do meu pai, nndesta vez é que não falha&#8221;. A Rosa encarrapitou-se num dos braços do sofá, olhando muito compenetrada para o livro, seguindo os dedos do meu pai a viajar por aquelas linhas incompreensíveis.</p>
<p>Para dizer a verdade, eu já não acredito muito naquela viagem a Espanha, e por isso fiquei no meu lugar. Acho que até começo já mesmo a duvidar da existência de Espanha. Para além disso, outras questões enchem a minha cabeça. Mas o meu pai é homem de ideias fixas. Quer dizer: insiste sempre em fazer as coisas mesmo quando tem a certeza de não poder fazê-las nunca. E como os filhos se inventaram para dar força e coragem aos pais, a minha irmã lá ia cumprindo à risca esse preceito de</p>
<p>amor filial.Às vezes,no entanto,a curiosidade era maior</p>
<p>que tudo o mais.</p>
<p>- Onde é que estão os lobos,pai?</p>
<p>nnn - Lobos? Quais lobos?</p>
<p>- Os lobos da Espanha.</p>
<p>- Sei lá! Devem estar nas serras e no jardim zoológico,onde é que tu querias que eles estivessem?</p>
<p>- Na casa deles.Os lobos não têm casa? Nem</p>
<p>n caminhas?</p>
<p>Quando a minha irmã ia começar a sua inquietação</p>
<p>pelos lobos desvalidos - ela quer sempre todos com</p>
<p>casa,cama e roupa lavada - o telefone tocou e a minha</p>
<p>n mãe chamou-me.</p>
<p>- É para ti:</p>
<p>Não gosto de falar ao telefone.Nunca sei o que hei-de</p>
<p>dizer,faz-me aflição.conversar com uma pessoa sem lhe ver</p>
<p>a cara. Para grande irritação da minha avó, costúmo pegar</p>
<p>no telefóne e andar com ele de um lado para outro do</p>
<p>n corredor, até onde o fio chega,enquanto o telefonema dura.</p>
<p>- Lá começa o baile! - costuma ela resmungar</p>
<p>nessas alturas.</p>
<p>n Mas eu é que não sei estar parada na conversa.</p>
<p>Por isso peguei no telefone e atirei o habitual nnestá?&#8221;</p>
<p>nn preparando-me para o passeio, enquanto a Rosa continuava</p>
<p>n na sua lengalenga dos lobos.Os cabritinhos decerto não</p>
<p>tardariam.</p>
<p>Não reconheço a voz ao telefone.No entanto a voz</p>
<p>sabe o meu nome.Tudo seria bem mais fácil se a gente</p>
<p>olhasse para o bocal e por lá visse a cara de quem nos</p>
<p>telefona,um sistema que eu hei-de inventar um dia se tiver tempo e se entretanto ainda não tiver sido inventado por</p>
<p>outra pessoa qualquer.É claro que depois acabam-se as</p>
<p>partidas pelo telefone,como aquela que eu costumo fazer</p>
<p>sempre no Carnaval,telefonando para o Sr.Zwyer a</p>
<p>perguntar se não tem vergonha de ser o último da lista</p>
<p>telefónica.Mas as vantagens,penso eu,são bem maiores.</p>
<p>O telefonema não acabava nunca. A voz tinha-se</p>
<p>transformado na mãe da Maria do Céu, e as palavras</p>
<p>misturavam-se umas nas outras, e as frases galopavam</p>
<p>umas por cima das outras, e eu andava quilómetros para</p>
<p>cá e para lá no corredor, sem esperança de terminar breve</p>
<p>o bailarico.</p>
<p>-. . . Porque a mim ninguém me tira da ideia que foi</p>
<p>daquelas porcarias que se vendem à porta lá do liceu, que</p>
<p>aquilo não tem vigilância nenhuma e se fosse só a mulher dos bolos bem estaríamos,o pior é o resto, que os</p>
<p>bolos é como o outro,se não levarem dinheiro não os</p>
<p>compram,mas o médico disse que foi coisa que ela</p>
<p>comeu e também falou em alfaces mal lavadas,mas</p>
<p>alfaces é que não pode ser porque a minha Ceuzinha não</p>
<p>gosta de alfaces,desde pequena que não consigo que ela</p>
<p>coma alfaces,ó mãezinha que eu vomiton ó mãezinha</p>
<p>que eu vomito !,e é que vomita mesmo,que lá nisso sai a</p>
<p>mim,meto os dedos à boca e sai tudo,não é como o meu</p>
<p>Cristóvão que é um martírio para vomitar,mesmo que</p>
<p>esteja muito aflito aquilo não lhe sai nada,mas a minha</p>
<p>Ceuzinha sempre foi cá mais do meu lado,até nas febres</p>
<p>- que o médico diz que isto dá sempre febres altas,e eu até estou com medo porque ela em se apegando à nfebre nn</p>
<p>nunca mais a larga,nem que seja uma simples constipação ela este ano por acaso ainda não teve nada</p>
<p>grave,o diabo seja cego,surdo e mudo,e o médico diz</p>
<p>que isto tem é que ser muito bem tratado e com muito</p>
<p>cuidado senão é que se torna mesmo coisa grave,e para</p>
<p>ali está na cama quase sem se poder mexer,ela até é que</p>
<p>me disse para lhe telefonar. liga para esta , o mãezinhann,disse ela minha colega e diz-lhe que estou doente&#8221;</p>
<p>que eu até nem queria,sabe,porque isto é assim mesmo</p>
<p>as pessoas às vezes podem pensar - que a gente está a</p>
<p>telefonar para pedir alguma coisa.</p>
<p>Tentei uma brecha naquela impene</p>
<p>trável muralha de</p>
<p>palavras,já cansada de andar para cá e para lá no corredor, enquanto a minha mãe, da sala, perguntava, pela 756.a vez, quem era.</p>
<p>- Posso ir vê-la?</p>
<p>De novo a muralha desabando sobre os meus ouvidos, a minha cabeça a andar à roda, uma espécie de enjoo a subir por mim acima como se eu fosse a Maria do Céu diante de um prato a transbordar de alface.</p>
<p>- Claro que pode vir cá vê-la mas pelo amor de Deus não pense que lhe telefonei para a obrigar a fazer visitas à minha Ceuzinha, que o médico até disse que descanso, descanso é que ela precisava agora, e muito cuidado na alimentação, claro, só cozidos e grelhados, e ela então que é um castigo para comer, minha Nossa Senhora, torce o nariz a tudo, o meu Cristóvão diz que fui eu que a habituei mal desde pequena, mas o que havia eu de fazer se ela tinha dias de me ficar só com uma caneca de leite ou uma banana, tudo recusava, tudo punha de lado, estou mesmo a ver o que vai ser agora, ela que detesta peixe grelhado, isto para ser franca, ela detesta peixe de qualquer maneira e eu cá, para falar verdade, também não engraço muito, mas o médico manda, o que é quen eu hei-de fazer, ela já está tão magra que vai ficar pele e osso com certeza, como quando foi da escarlatina, andava ela ainda na primária, estava a ver que me chumbava a quarta, mas não, lá se safou, que a minha Ceuzinha não é assim de se apegar muito aos livros, mas é esperta, não é lá por ser minha filha, claro, que isto até nem me fica bem ser eu a dizer mas as verdades são para se dizer, não é?, já o meu Cristóvão é diferente, mais agarrado aos livros mas com mais dificuldades, que isto eu nunca vi dois irmãos tão diferentes como estes, como do dia para a noite, mas são muito amigos e não podem estar muito tempo longe um do outro, e até foi ele que insistiu comigo para levar a minha Ceuzinha ao médico, porque a gente ia dizendo que aquilo era má disposição, era ela que enjoava de carro ou de camioneta, isto a miudagem de hoje parece que tem mais olhinhos que os mais velhos parece que já nasce ensinada,o pior é quando lhe dá para a asneira,isso é que é pior,que eu,o diabo seja cego,</p>
<p>surdo e mudo, não tenho tido razão de queixa, a minha</p>
<p>Ceuzinha é uma rapariga cheia de juizinho, que o meu</p>
<p>Cristóvão também não é homem para se ficar se visse a</p>
<p>filha sair dos eixos, que ele logo a avisou, nntu tem-me</p>
<p>tento nessa cabeçann, disse ele, nnà primeira levas um</p>
<p>ensaio que te fica de emendann, mas ela nunca teve nada</p>
<p>que lhe pudesse apontar, não senhora, e o meu Cristóvão</p>
<p>também é rapaz atinado, e ainda não me perdeu ano</p>
<p>nenhum que o meu Cristóvão também logo lhe disse</p>
<p>nné perderes um ano se queres ver o que te acontece, vais</p>
<p>logo trabalhar&#8221;,e ia mesmo,que o meu Cristóvão não</p>
<p>é homem para se ficar só em promessas,muito bom pai, muito bom marido,mas quando lhe sobe a mostarda ao nn</p>
<p>nariz nem queira saber&#8230;</p>
<p>Eu,na verdade,não queria mesmo saber,nem sabia</p>
<p>já quase quem era nem onde estava,nem quem diabo n</p>
<p>seria o meu Cristóvão e quantos seriam eles,e que faziam ali naquela conversa,ou onde estava eu no meio daquele</p>
<p>furacão de palavras.Até que a minha mãe veio em meu</p>
<p>socorro e tirou-me o telefone da mão:</p>
<p>- Está? Sou a mãe da Mariana&#8230; n</p>
<p>Sentei-me,mais morta que viva,ao lado da minha</p>
<p>irmã.Os cabritinhos também já tinham chegado.Acho</p>
<p>mesmo que eram os únicos que faltavam para a loucura</p>
<p>ficar completa.</p>
<p>Agarrada ao telefone,a minha mãe ia dizendo que</p>
<p>sim e que não com a cabeça.</p>
<p>Capítulo 17</p>
<p>Subimos uma escáda que parecia não acabar, forrada daquele cheiro a bafio e a gatos que têm todas as escadas velhas. Como a da escola antiga. Os degraus rangiam à nossa passagem, ouvia-se o barulho de telefonias e de água nos canos, algumas vozes, o choro de uma criança.</p>
<p>- Tens mesmo a certeza que ela mora no último andar?</p>
<p>Perguntava a Rita, que já costuma achar o meu 2. o</p>
<p>andar um quase arranha-céus.</p>
<p>- Vá lá, é só mexer as pernas mais um bocadinho! ,n Inconvenientes de quem toda a vida morou num rés-do-chão, minha filha!</p>
<p>Mas ela não parecia conformada.</p>
<p>- Sempre ouvi dizer que era obrigatório haver elevadores em prédios com mais de três andares!</p>
<p>- Pois ouviste, mas este é tão velho que quando foi</p>
<p>construído ainda não se tinham inventado os elevadores.</p>
<p>Estás hoje com muito espírito. Além do mais, ainda gostava de saber o que faço eu aqui contigo, a trepar esta escada pré-histórica e malcheirosa, para visitar uma pessoa que eu nem conheço!</p>
<p>- Não conheces, ficas a conhecer. E de resto eu estou farta de te falar na Maria do Céu. Ainda quando foi do acampamento te falei nela.</p>
<p>A Rita deu um leve suspiro e subiu mais três degraus.</p>
<p>- Não andarás tu também a querer distrair-me, para ver se eu esqueço, como eles dizem?</p>
<p>Talvez, no fundo, isso fosse verdade. Como diria a mãe da Maria do Céu, a Rita não será assim de se apegar muito aos livros mas é muito esperta.</p>
<p>Não exactamente para esquecer. Não era isso. Acho que ela não vai poder esquecer, ninguém esquece assim de um momento para o outro. Mas talvez para a fazer sair de casa um pouco, para a fazer ver outras caras, saber de outros problemas que não apenas os seus. Mas confesso que não fui capaz de lhe explicar. n</p>
<p>- Ora, não sejas tola! Pedi- te que viesses comigo só porque acho mais divertido vir contigo do que sozinha. n Mas se não quiseres, é só dizeres. Desces a escada e voltas para casa. Isto é um país livre, lá diz o meu pai. n</p>
<p>Mas a Rita pareceu não ter ouvido, ocupada que estava em olhar para cima a contar quantos lanços ainda faltavam.</p>
<p>Estávamos precisamente no 3.o andar quando me lembrei que não deveria ter falado no meu pai. Quandon cheguei ao 4.o pensei que afinal talvez não tivesse feito diferença, a Rita não podia ficar a vida inteira protegidan das pessoas e das palavras que elas pudessem dizer, por muito que ao princípio doessem. De resto, como ela própria tinha dito, não morrera ninguém. O pai continuava a existir, tal como a mãe, só que em sítios diferentes.</p>
<p>n E ela, às vezes, longe de um deles, como por força</p>
<p>mandavam as leis. Acho que era isso que doía mais, que</p>
<p>tornava tudo mais difícil. Isso: a vida dividida entre duas</p>
<p>pessoas de quem se gosta.</p>
<p>Quando decidi deixar de pensar no assunto estávamos</p>
<p>finalmente a chegar ao 5.o andar e a tocar à campainha da</p>
<p>porta. Tenho a certeza que não tocámos muito, mas de</p>
<p>dentro logo houve quem refilasse, a voz misturando-se</p>
<p>com um sonolento arrastar de chinelas.</p>
<p>- Lá vai,lá vai,têm o dedo colado ao botão,ou</p>
<p>quê? n</p>
<p>A porta abriu-se e uma mulher dentro de uma bata às</p>
<p>flores,que em tempos teriam sido esverdeadas mas agora</p>
<p>eram apenas manchas entre muitas outras manchas,olhou-nos de testa franzida.</p>
<p>- Somos amigas da Maria do Céu.</p>
<p>Ofranzido desapareceu-lhe da testa,acho até que</p>
<p>tentou o que devia ser o seu mais acolhedor sorriso.</p>
<p>As nódoas da bata é que,evidentemente,não podiam</p>
<p>desaparecer também.Acho mesmo que não iriam desaparecer nunca mais.</p>
<p>- Entrem,entrem.Desculpem eu não ter vindo logo, n</p>
<p>mas estava no tanque a lavar uma roupa e não ouvi a</p>
<p>campainha. n n</p>
<p>Uma voz de rapaz saiu de dentro de um dos quartos.</p>
<p>- Não ouviu a campainha ou pensou que era a</p>
<p>D.Judite para vossemecê lhe pagar o que deve?</p>
<p>Se não estivéssemos ali,tenho a certeza que ela teria nn</p>
<p>entrado pelo quarto adentro,a fúria espalhada pelos olhos. Mas limitou-se a gritar: nn</p>
<p>- Seu malcriado ! Tem alguma coisa a ver com a minha vida,tem? Se você trabalhasse,em vez de andar por aí à boa vida! n</p>
<p>ri.</p>
<p>E para nós, como se fosse forçoso dar-nos uma explicação:</p>
<p>- As meninas desculpem, sim? É o que fazem os miminhos que a mãe lhe dá. Tudo desculpa ao menino, tudo esconde do pai, e o resultado está à vista. O quarto da Ceuzinha é ali, podem entrar, acho que ela está acordada.</p>
<p>Quis perguntar-lhe se a Maria do Céu podia comer bolachas (a minha mãe insistira em que eu lhe trouxesse uma caixa) mas ela já tinha desaparecido, decerto direita á ao tanque, só que eu não sabia onde era o tanque, e à minha frente havia apenas um corredor escuro e a cheirar n a fritos, tendo por passadeira um oleado que já devia ter conhecido melhores dias.</p>
<p>n A Maria do Céu estava encolhida entre os lençóis e n quase da mesma cor que eles. Ainda há uns dias parecia n tão feliz e contente, na caça aos espiões de Almornos, aguentando a viagem de camioneta para lá e para cá sem um enjoo, e agora ali estava, num divã encostado à parede, num quarto onde bem pouco mais havia.</p>
<p>Lembrei-me de repente do Sr. Guerreiro, aqui há tempos em conversa com a minha avó, no banco da cozinha.</p>
<p>- É o que lhe digo, Sra. D. Elisa, a gente queixa-se, mas olha em volta e descobre logo meia dúzia de pessoas bem mais aflitas que nós. Se me doem os ouvidos, ao vizinho de baixo é capaz de doer os ouvidos e a garganta,</p>
<p>se parto um braço, o vizinho de cima é bem capaz de ter partido os dois, e por aí fora. Bem dizia o nosso imortal épico: nn Oh ! Caminho da vida nunca certo ! &#8221;</p>
<p>Mesmo sem a ajuda do nosso imortal épico (Camões para os amigos) o Sr. Guerreiro era capaz de ter razão. E já nem era bem na doença da Maria do Céu que eu n estava a pensar. Essa havia de passar, com certeza.</p>
<p>O médico assim o dissera, a mãe o garantira naquela</p>
<p>infernal conversa ao telefone. Era outra coisa. Uma outra</p>
<p>espécie de doença que caía daquelas paredes, daquele quarto tão desolado, daquele corredor escuro, daquela bata, daquelas vozes. Uma doença que não passava. Dei por mim a perguntar a mim mesma: a Maria do Céu é pobre? Mas pobre é não ter dinheiro para comer, para calçar sapatos, é andar esfarrapado ou com remendos. Pelo menos era o que eu pensava. E a Maria do Céu sempre andara calçada, e no intervalo das 11 comia pão com marmelada que trazia de casa todas as manhãs. Haveria várias maneiras de ser pobre, tal como havia</p>
<p>- os pais da Rita assim lho tinham garantido - várias maneiras de amar as pessoas? Tal como havia - eu o sabia por experiência própria - várias maneiras de afastar o medo: o chocolate esborrachado na mão, olhando a chuva, no primeiro dia de escola, por exemplo.</p>
<p>Mas já a Maria do Céu, tentando um sorriso, perguntava entre os lençóis tão esbranquiçados como o seu rosto:</p>
<p>- Sabes se já saíram as notas?</p>
<p>Capítulo 18</p>
<p>Sentei-me à beira da cama.</p>
<p>- Acho que não, a setôra&#8221; de Trabalhos Manuais lá em Almornos disse que só no fim do mês; não te lembras? Mas devemos ter passado todas. Pelo menos foi o que a directora de turma disse há dias na reunião de pais.</p>
<p>- A minha mãe nunca pode ir anessas reuniões, está sempre a trabalhar a essa hora. E o meu pai, quando está em casa diz que isso é assunto de mulheres e também não vai. Por isso nunca sei nada do que lá se passa.</p>
<p>Ri-me para a alegrar um pouco.</p>
<p>- Deixa lá que, por aquilo que a minha mãe me diz, também não acontece nada de especial. Todos os anos os pais se queixam de Que a escola não tem condições nenhumas, e todos os anos a escola continua sem condições nenhumas. .</p>
<p>Entretanto a Rita, em pé ao meu lado, não dizia palavra. Com aquela pressa toda em saber das notas, a Maria do Céu nem tinha dado por ela.</p>
<p>É a Rita, somos amigas desde o jardim de Infância e morávamos na mesma rua e tudo. Ela não queria vir porque não te conhecia, mas tu não te importas, pois não?</p>
<p>- Quem me dera ter aqui sempre gente a fazer-me companhia! Ainda bem que vocês vieram!</p>
<p>No quarto não havia uma cadeira, um banco sequer. nn Cheguei-me mais para a parede, para a Rita também se</p>
<p>poder sentar no divã. A Maria do Céu reparou e o seu rosto ficou ligeiramente corado.</p>
<p>- Espera aí que eu já peço uma cadeira.</p>
<p>Erguendo-se na cama, gritou:</p>
<p>- Menina Dulcineia, é capaz de trazer a cadeira de Quarto da minha mãe, se faz favor!</p>
<p>Do tanque, a outra respondeu:</p>
<p>- Lá vai lá vai, que eu não tenho quatro mãos!</p>
<p>Pelos vistos a menina Dulcineia resmungava sempre.</p>
<p>Minutos depois empurrava a porta do</p>
<p>Quarto e, sem mais palavras, metia a cadeira lá dentro voltando a desaparecer pelo corredor.</p>
<p>- Julgava que era a tua mãe - disse eu.</p>
<p>A Maria do Céu sorriu e abanou a cabeça.</p>
<p>- A minha mãe só chega lá para a noite. Esta é a nossa hóspede. Quando eu nasci já ela cá morava. Isto é</p>
<p>uma casa velha e todas as casas velhas são muito grandes. Para que queríamos nós uma casa com tantas divisões? Depois da minha avó morrer a menina Dulcineia veio</p>
<p>viver para o quarto dela.</p>
<p>A Rita deu uma gargalhadinha e comentou em voz baixa:</p>
<p>- Dulcineia! Raio de nome mais esquisito!</p>
<p>A Maria do Céu também riu.</p>
<p>- Ela conta uma história muito complicada sobre</p>
<p>isso. Diz que houve em tempos um fidalgo espanhol</p>
<p>chamado D.Quixote que se julgava cavaleiro da Idade</p>
<p>Média e que inventava uma data de aventuras e perigos.</p>
<p>Pelo meio disso tudo encontrou também uma apaixonada</p>
<p>que baptizou de Dulcineia,único nome que ele achava</p>
<p>digno de princesa.Ela conta que o pai era muito dado a</p>
<p>romances,e por isso quando ela nasceu decidiu pôr-lhe</p>
<p>esse nome.</p>
<p>- Linda obra ! Disse a Rita,ainda rindo.</p>
<p>- Mas o pior de tudo&#8230;</p>
<p>E aí a Maria do Céu baixou muito a voz,até quase se</p>
<p>tornar num murmúrio,olhando pela porta,não fosse ela</p>
<p>nandar ali por perto.</p>
<p>- O pior de tudo é que o meu irmão já leu esse livro e anda sempre a meter-se com ela,a garantir-lhe que</p>
<p>Dulcineia foi um nome inventado pelo tal D.Quixote,e nnn</p>
<p>que o nome mesmo a sério da senhora era Aldonça!</p>
<p>Quando ele lhe chama Aldonça ela fica pior que uma nn</p>
<p>fúria! É como se lhe estivessem a chamar a mais feia de</p>
<p>todas as asneiras! Mas o meu irmão ri-se e não lhe liga.</p>
<p>Aqueles dois parecem o gato e o rato.Mas também ainda</p>
<p>é o que anima um bocado esta casa. nn</p>
<p>- Vais ter que ficar muito tempo na cama?</p>
<p>A Maria do Céu encolheu os ombros.</p>
<p>- Não sei,acho que sim.</p>
<p>E de repente,sem que nada parecesse justificá-lo, n</p>
<p>a Maria do Céu enfia a cabeça na almofada e desata</p>
<p>a chorar.</p>
<p>É nestas ocasiões que eu sinto que para bem pouco</p>
<p>nos servem as mãos.É nestas ocasiões que elas se</p>
<p>transformam nas nnextremidades dos braços&#8221;,como costuma aparecer nas palavras cruzadas que o meu pai faz.</p>
<p>Inúteis, elas pesam,pesam,com toneladas em cada dedo</p>
<p>ao fim dos nossos braços. Quero levantá-las, fazer qualquer coisa, mas elas são dois corpos diferentes no meu</p>
<p>n corpo,e não se mexem por mais que eu queira.Para</p>
<p>n minha grande surpresa ouço a voz da Rita,tentando</p>
<p>nn animar a Maria do Céu (nné preciso animar a Maria do</p>
<p>Céu! tudo isso acontecera há séculos).</p>
<p>- Deixa lá,olha que não é o fim do mundo!</p>
<p>Tive vagamente a impressão de que aquelas palavras</p>
<p>estavam ali deslocadas,pertenciam a outro local,a outra</p>
<p>gente.A outra anedota,como costuma dizer a Susana</p>
<p>quando acorda bem-disposta na sua pele.Santo Ambrósio !,a Maria do Céu lavada em lágrimas e eu aqui,a</p>
<p>lembrar-me destas coisas! Insensível,diria,mais uma</p>
<p>n n vez,a tia Magda.</p>
<p>n - Não é o fim do mundo,não é.</p>
<p>n n n Continuava a Rita numa espécie de cantilena para</p>
<p>n n adormecer meninos sem sono.Como eu com a Rosa,</p>
<p>quando há trovoada lá por fora e ambas finjimos não ter</p>
<p>medo nenhum,olha que ideia.</p>
<p>- A gente há-de vir cá ver-te muitas vezes,deixa lá.</p>
<p>n Nem vais ter tempo para te aborreceres.</p>
<p>Garantia a Rita,com uma sabedoria de irmã mais</p>
<p>velha que só agora eu descobria nela.A Maria do Céu</p>
<p>continuava a chorar baixinho,como se tivesse medo de</p>
<p>acordar alguém.Mas a Rita não desarmava.</p>
<p>- Contamos-te tudo o que se vai passando lá por</p>
<p>fora,trazemos-te as notícias fresquinhas,inventamos</p>
<p>jogos&#8230;</p>
<p>- Tudo menos adivinhas e provérbios!</p>
<p>Grito eu,de repente.A Maria do Céu conseguiu então n</p>
<p>sorrir no meio de tanta lágrima a ensopar a almofada.</p>
<p>- Acho que esses foram os dias mais felizes da</p>
<p>minha vida. Disse ela,mas logo a Rita a interrompeu.</p>
<p>- Não digas isso.</p>
<p>Estava de repente muito séria,a Rita.</p>
<p>- Porquê?</p>
<p>Ochoro da Maria do Céu transformara-se subitamente</p>
<p>em espanto,daquele mesmo a sério,que faz arredondar</p>
<p>os olhos e abrir a boca.</p>
<p>- Porque o dia mais feliz da nossa vida é sempre amanhã.</p>
<p>Naquela altura não entendi o que a Rita queria dizer</p>
<p>com aquilo.Pareceu-me até daquelas frases um pouco</p>
<p>npomposas que a professora de Português às vezes nos</p>
<p>dava como temas de textos,quando queria ver-nos aflitas</p>
<p>e ela tão descansadinha em seu lugar de mestra.Aqui</p>
<p>para nós, acho que mesmo agora ainda não entendi muito</p>
<p>bem,ainda a acho até um pouco ridícula,embora qualquer coisa confusa me faça sentir que eram,a seu modo,</p>
<p>palavras certas.A Maria do Céu também não entendeu.</p>
<p>A Rita olhava para as tábuas do chão,muito séria.</p>
<p>- O meu pai é que costuma dizer isso - murmurou nn</p>
<p>ela.</p>
<p>E durante o resto da tarde não disse mais nenhuma</p>
<p>palavra.</p>
<p>Capítulo 19</p>
<p>Todas as coisas têm um coração por dentro. Isto pensava eu quando era pequena e tocava nos objectos e lhes sentia a pulsação. Bastava a ponta dos meus dedos sobre a mesa, e logo o coração da mesa respondia, batendo pausadamente ao ritmo do meu. Quando acordava era como se as coisas, todas as coisas, acordassem comigo. E eu pensava então que o coração descansava enquanto a gente dormia. Se não, para que servia a gente adormecer? Se não, quando descansaria o nosso pobre coração? Eu tinha então uma noção bastante estranha do coração e da vida. E quando mais tarde entendi (ou me explicaram) que não era dos objectos que vinha a pulsação mas da ponta dos meus próprios dedos, passei a olhar as coisas de maneira diferente.</p>
<p>Mas aqui que ninguém nos ouve,ainda não estou</p>
<p>n n muito certa de que os objectos não tenham coração.</p>
<p>De vez em quando ainda gosto de tocar com a ponta dos</p>
<p>dedos na parede do aquário do Zarolho.segundo li num livro sobre peixes, qualquer pequenino barulho feito na parede exterior do aquário é sentido pelo peixe como um enorme estrondo- e eu não quero assustar o Zarolho,sempre ali tão pacífico, tão indiferente a tudo, nesse Atlântico que lhe coube em sorte.</p>
<p>Passava os dedos bem ao de leve na superfície lisa de</p>
<p>vidro e deixava-os correr de uma extremidade à outra do</p>
<p>aquário.O Zarolho seguia-os como se estivesse hipnotizado, ou como se os meus dedos fossem a luz de algun farol a prometer bom porto. Ou quem sabe como se o meu coração passasse dos meus dedos ao vidro,do vidro à água,e da água ao seu próprio minúsculo coração de peixe.</p>
<p>nn Mas tinha eu chegado de visitar a Maria do Céu</p>
<p>n quando reparei que as folhinhas verdes e cor-de-rosa com</p>
<p>que se alimentava estavam todas à tona da água,como se</p>
<p>ele nem desse por elas.Ele,que as devorava assim que</p>
<p>a gente as deitava para dentro do aquário.Nesse dia</p>
<p>deixou de seguir os meus dedos e o corpo estava todo</p>
<p>cheio de pintas brancas.Tentei achar graça:</p>
<p>- O Zarolho está a mudar de pele.</p>
<p>- O que ele está é doente - disse o meú pai,do</p>
<p>fundo do sofá.</p>
<p>- Chama-se o Sr.Guerreiro - acudiu logo a minha</p>
<p>avó Elisa,para quem o nosso vizinho é a sumidade</p>
<p>máxima,sobretudo desde o dia em que lhe deu uma</p>
<p>receita especial (olhe que tem segredo,Sra.D.Elisa)</p>
<p>de uma açorda de coentros.</p>
<p>- Cá por mim parece-me melhor levá-lo ao veterinário - tornou o meu pai.</p>
<p>- Qual veterinário! - protestou a minha avó - como se percebesse muito de peixes de aquário. Talvez se referisse a tubarões e baleias, cachalotes. De facto, eu não percebia lá muito bem.</p>
<p>- Se a Sra.D.Elisa quiser,eu posso levar o bichinho ao médico, não me custa nada.Arranja-se um saco</p>
<p>de plástico com água e ele vai lá dentro.</p>
<p>O sorriso da minha avó foi assim rasgado,de orelha</p>
<p>n orelha.Como se costuma dizer nos livros de histórias:</p>
<p>Não havia palavras para o descrever. E é que não havia, por mais dicionários que se abrissem e fechassem.</p>
<p>Mas quem veio pôr ordem naquilo tudo foi a minha mãe:</p>
<p>- Veterinário Para Quê? Leva-se ao Sr.Ling e ele lá</p>
<p>saberá o que é preciso fazer.</p>
<p>O Sr.Ling é um chinês que mora na nossa antiga rua,</p>
<p>cheia de aquários por todos os lados.Foi aí</p>
<p>que a minha mãe comprou o Zarolho,o aquário. O Sr.Lin, mesmo que seja preciso dizer que não, ele abana a cabeça a dizer que sim. E sorri sempre.</p>
<p>Capítulo 20</p>
<p>o Sr.Ling,mal olhou para o Zarolho,e logo avisou n</p>
<p>que ele precisava ficar de quarentena.Arregalei os olhos.</p>
<p>Quarentena era quando havia epidemias a bordo e os</p>
<p>barcos tinham de ficar ao largo,sem poder acostar.Pelo nnn</p>
<p>menos era isto que eu pensava.Nas histórias de aventuras</p>
<p>que eu já tinha lido,às vezes aconteciam coisas dessas.</p>
<p>o Sr.Ling deve ter percebido a minha estranheza. Sorriu</p>
<p>ainda mais,se possível,e lá me explicou que os peixes,</p>
<p>quando adoecem,devem ser levados à pessoa que os</p>
<p>vendeu,que trata de os isolar,pois eles podem ter algum</p>
<p>parasita ou coisa parecida.E além disso vai-se tratando</p>
<p>o peixe com os remédios que forem precisos.</p>
<p>- Menina não se assuste.Qualentena não dula muito.Daqui a 15dias passa pol cá e ele já vai pala casa.</p>
<p>O Sr.Ling tinha muita dificuldade em dizer os nnrrn,n</p>
<p>o que sempre me dava uma certa vontade de rir.Mas</p>
<p>como não o queria ofender,lá consegui manter-me séria;</p>
<p>n pensando com muita força no Zarolho.Que,no aquário</p>
<p>de quarentena do Sr.Ling,passou a ter uma etiqueta de</p>
<p>identificação que lhe dava o nome de Cassius Auratus,</p>
<p>coisa que,de repente,me fez sentir pessoa importante.</p>
<p>Ter em casa um Cassius Auratus era quase como ter o</p>
<p>descendente de algum imperador romano.</p>
<p>Mas o Sr.Ling queria saber todos os sintomas da</p>
<p>doença,antes de pôr o Zarolho de quarentena.E foi um</p>
<p>desfiar de perguntas (difíceis às vezes de entender,</p>
<p>n porque o Sr.Ling só sabia dizer frases curtas),que eu</p>
<p>comecei a pensar que é bem mais perigoso ser peixe que</p>
<p>pessoa.Se ele se deitava de barriga para o ar,se ele se</p>
<p>&#8221; atirava den encontrò às paredes do aquário,se a pele</p>
<p>estava mais pálida,se havia escamas salientes no corpo,</p>
<p>se tínhamos notado algum tumor,se as barbatanas pareciam feridas ou encolhidas,e um nunca mais acabar de</p>
<p>sintomas. A tudo a minha mãe ia dizendo que não, e</p>
<p>sempre o Sr.Ling arranjava novas perguntas,e dizia que</p>
<p>sim com a cabeça.</p>
<p>- Se o Sr.Ling reparar bem nele,há-de notar umas</p>
<p>manchas brancas no corpo e nas barbatanas.Deve ser por</p>
<p>isso que ele perdeu o apetite - disse a minha mãe,para</p>
<p>poupar ao Sr.Ling o esforço de descobrir mais 8941</p>
<p>sintomas que o Zarolho poderia apresentar.</p>
<p>o Sr.Ling voltou a examinar o peixe,agora com</p>
<p>n muito cuidado,abanando a cabeça.</p>
<p>- Pois é.Nada de glave,nada de glave.Uns glamas</p>
<p>de sal. Vai fical bom num instante.</p>
<p>Comecei a ficar alarmada apesar do sorriso perpétuo</p>
<p>do Sr.Ling.Que iam fazer ao Zarolho? Pô-lo em sal,</p>
<p>como eu via a minha avó Elisa fazer ao peixe que a gente</p>
<p>comia à refeição? Já imaginava o pobre do meu Cassius</p>
<p>Auratus todo esventrado em cima da tábua de madeira,e</p>
<p>as mãos da minha avó por cima, salgando-o, como o</p>
<p>Sr.Ling,sorrindo,ordenara.</p>
<p>Perguntei a medo:</p>
<p>- Para que é preciso o sal?</p>
<p>- É o tlatamento.Pala este vílus.Nada de glave,</p>
<p>nada de glave. Só que o peixe fica muito ilitado da pele</p>
<p>n com este vílus. Pala matal vílus. O sal. Nada de glave,</p>
<p>n nnnada de glave.</p>
<p>n E junto à etiqueta que o baptizava de Cassius Auratus, o Zarolho passou a ter outra que lhe dava por</p>
<p>n companhia um tal Cyclochaeta, que eu não fazia a mínima ideia de quem seria.</p>
<p>- Isto é o nome da doença que ele tem? - perguntei,já a antever o brilharete que iria fazer junto da Rita, da Susana,ou da Maria do Céu,quando lhes contasse que</p>
<p>o Zarolho estava com cyclochaeta.</p>
<p>O Sr.Ling sorriu mais uma vez:</p>
<p>- O vílus.Nome dele.Nada de glave,nada de glave.Tlatamento simples.Água mudada todos os dias esemple mais sal dentlo do aquálio.Depois diminui. Depois muda pala outlo aquálio.Depois está bom.Nada de glave.Nada de glave.</p>
<p>O Zarolho não pareceu muito incomodado por ali</p>
<p>ficar de quarentena,longe de nós,entre dezenas e dezenas de aquários cheios de parentes seus.Sobretudo parentes ricos,que nasceram em águas tropicais e requerem</p>
<p>uma data de cuidados especiais,e tubos e mais tubinhos !</p>
<p>Mas cá por mim,prefiro que o Zarolho se chame n n</p>
<p>Cassius Auratus,mesmo que seja um vulgarzinho peixinho vermelho, de água fria, uma espécie que, segundo me lembro de ter lido nos meus cromos nnMaravilhosos da Naturezann, já era conhecido no século Xv, em rios da China. Talvez por isso o Sr. Ling perceba tanto de peixe. Quem sabe se não terá sido um seu antepassado o primeiro a pegar num antepassado do Zarolho e a domesticá-lo dentro de um vaso de vidro?</p>
<p>O Sr. Ling ainda fez mais umas perguntas à minha mãe, enquanto eu olhava, fascinada, para aquele universo de peixes. Sorriu muito para mim (Hnada de glave, nada de glave&#8221;), abanou mais uma vez com a cabeça, E ficou na sua cave, com centenas de minúsculos corações de peixe batendo juntamente com o seu.</p>
<p>Capítulo 21</p>
<p>O dia de hoje amanheceu fusco, com as vizinhas</p>
<p>todas aflitas a tirar a roupa da corda nnporque vinha aí</p>
<p>decerto uma chuvada&#8221;, nas palavras entendidas de uma</p>
<p>delas. Chuvada, o que se chama mesmo chuvada, não</p>
<p>veio,mas parou de cair aquela chuvinha miúda de Verão!</p>
<p>chuva de molha-parvos&#8221;,como lhe chama a minha avó n</p>
<p>Elisa,perita em questões atmosféricas.Quando entrou</p>
<p>logo de manhã,houve por bem avisar:</p>
<p>- Isto hoje vai ficar o dia todo assim.Está pegado. n</p>
<p>Acertou.Ficou realmente o dia todo assim. Às vezes a minha avó Elisa não acerta,é claro.Olha para</p>
<p>as nuvens e diz nnvem aí água&#8221;,e só para a arreliar daí</p>
<p>a pouco rebenta o mais esplendoroso sol do universo.</p>
<p>Mas desses dias a gente faz que não se lembra e vai</p>
<p>sempre confiando nos boletins meteorológicos da minha n n avó.</p>
<p>Hoje, para lá da chuva, a Rosa estava insuportável. n A Sra. Ricardina adoecera e a mulher a-dias que a viera</p>
<p>substituir, ignorante das regras estabelecidas no que diz respeito à parede da Rosa, tinha pegado num esfregão e no mais eficaz dos detergentes e limpara aquilo tudo de uma vez. Não bastara os pobres dos cabritinhos terem sido comidos pelo lobo, viera ainda o esfregão mais o detergente (ao menos este não cheirava a alfazema misturada com gordura) para os engolir de vez. n Quando a minha irmã olhou para a parede, impecavelmente branca, a catástrofe desabou. Ainda tentei mandar as culpas todas para cima do lobo, os lobos têm sempre a culpa de tudo, nnfoi ele, Rosinha, foi ele que passou por aqui e comeu tudo, mas a minha irmã não se deixava ir na conversa:</p>
<p>- Não foi nada o lobo, foi ela! Gritava a Rosa, apontando a mulher que, diga-se de passagem, não se mostrava muito preocupada com a chacina que provocara, cantarolando na cozinha:</p>
<p>nnTenho um amor em Viana, ó ai tenho outro em Ponte de Lima. . . &#8221;</p>
<p>- Não foi nada ela, Rosinha! O lobo aborreceu-se de estar ali na parede e antes de se ir embora comeu tudo.</p>
<p>- Não comeu nada! O lobo já não estava lá! A Rosa tirou ele ontem!</p>
<p>- nnTirou-o.n, nnTirou-o&#8221; é que se diz, não é nntirou ele&#8221;.</p>
<p>Mas a minha irmã não estava virada para lições de gramática.</p>
<p>- Tirou ele sim senhora! A Rosa é que sabe! Tu não sabes! O lobo foi para a Espanha e os cabritinhos ficaram sozinhos e fugiram. E encontraram a mãe, que se chamava Dulcineia. Mas Dulcineia é um nome feio, não achas?</p>
<p>- nNão é nada feio,é até muito bonito ! Se calhar</p>
<p>gostavas mais de Aldonça !</p>
<p>- Gostavas pois !</p>
<p>Agora já não era só a gramática.Agora era uma</p>
<p>n questão de apuramento de gostos. É verdade que não se</p>
<p>discutem,mas educam-se&#8221; dizia sempre a tia Magda,</p>
<p>dedo indicador bem estendido entre as suas estrelícias</p>
<p>É um nome muito bonito.E depois ela encontrouno lobo</p>
<p>que andava perdido lá em Espanha e estava muito triste</p>
<p>porque queria voltar para a tua parede e não sabia o</p>
<p>n caminho.Então a princesa Dulcineia teve muita pena dele</p>
<p>n e prometeu que ia estudar a geografia toda para descobrir</p>
<p>nn em que país ficava a tua parede.Então estudaram muito</p>
<p>COm todos os livros que havia no palácio,mas não</p>
<p>COnseguiram saber nada.Até que chegou o mágico da</p>
<p>n n - Como chamava-se? - Ernesto.Era um mágico que sabia tudo,menos escrever cartas.Quer dizer: as cartas que ele escrevia nunca chegavam,ou chegavam sempre quando já não n</p>
<p>n n eram precisas.Mas fora isso,tudo o mágico Ernesto</p>
<p>n sabia.E então desCobriu que o lobo só seria capaz de</p>
<p>encontrar o caminho para a tua parede se tu quisesses.</p>
<p>A Rosa abriu muito os olhos.Eu já não sabia o que n</p>
<p>mais inventar naquela história toda.Quando um dia for</p>
<p>presidente da República hei-de mandar cá para fora uma</p>
<p>lei que dê às irmãs mais velhas direito a 13.o mês de subsídio de férias,condecoração no 10de Junho e no 25 de Abril,reforma na velhice.</p>
<p>- A Rosa quer.Quer os cabritinhos todos na parede.</p>
<p>Mais o lobo.</p>
<p>- Por isso tu agora vais pegar nos teus lápis e voltas</p>
<p>a desenhar tudo outra vez,com muitas cores,muitas</p>
<p>flores&#8230;</p>
<p>- Muitas caminhas. . .</p>
<p>-. . e muitos relógios para eles se esconderem. Foi isso que disse o mágico Ernesto à princesa Dulcineia. Os cabritinhos só conseguem encontrar o caminho se tu os voltares a desenhar na tua parede. Senão, coitadinhos deles, põem-se a andar, atravessam montes e vales, entram em cidades e aldeias, vasculham todas as casas, e em nenhuma parede se encontram desenhados! E vão ficando muito tristes, muito cansados, muito fartos de viajar, muito magrinhos. Até que um dia encontram a parede onde tu os voltaste a desenhar, ficam muito felizes, e saltam todos para dentro dela. E vai ser uma grande festa!</p>
<p>- Com chupa-chupas, chocolate, e papa de aveia?</p>
<p>- Com tudo o que tu quiseres!</p>
<p>- E ela não mata tudo?</p>
<p>Insensível ao drama da Rosa, à fantástica odisseia dos cabritinhos por terras de Espanha, e ao meu tormento em acabar a história, a mulher- a-dias parecia ter sete mãos em cada braço, vinte dedos em cada mão, tal o desembaraço com que se mexia. E decerto um realejo também, misturado com as cordas vocais.</p>
<p>nn. . . tenho outro em Barcelos, ó ai, e outro inda mais acima !. . . n</p>
<p>Rio-me diante dos temores da minha irmã.</p>
<p>- Não, ela não os mata.</p>
<p>Estive quase a dizer-lhe: nnquando muito, vai encontrá-los pelo caminhonn. Mas contive-me. A geografia da minha irmã ainda não lhe dava para perceber que, pelo andar que a cantiga levava, mais duas estrofes e a nossa empregada entrava, triunfalmente, em terras de Espanha, ó ai !</p>
<p>Capítulo 22</p>
<p>Acordar em férias. Em férias mesmo a sério. Abrir os olhos e, em ar de vingança, deixar o despertador tocar, tocar, até se acabar a corda, virar-me depois para o outro lado, olhar a cama vazia da Rosa, que há muito anda a tratar da vida pelo corredor, pela sua parede, pela casa, pelo mundo inteiro.</p>
<p>Dizer nnfériasnn, e saborear cada sílaba, cada letra como se mastigasse devagar uma maçã, fazendo durar o mais possível o seu sabor na boca. Uma maçã bem vermelha, como a que a madrasta da Branca de Neve lhe ofereceu, esta no entanto, se possível, sem veneno e sem bichos por dentro.</p>
<p>Dizer nnférias&#8221; e pensar que é bom estar em casa e a casa ser assim como é, sem escadas velhas com cheiro</p>
<p>a gatos, sem nódoas de gordura a escorrer das paredes. Para ser perfeita, bastava só que os barulhos fossem</p>
<p>outros, e não estas vozes das mães ralhando com os filhos de manhã à noite, e eles gritando nn não me bata mais ! &#8220;, tantas vezes que a gente tem de fechar janelas e ouvidos para não chorar também. Pelos filhos. Pelas mães. Por todas as raivas juntas que rebentam cá por dentro. Como naquele dia em que a Rita me falou de comboios.</p>
<p>- São muito úteis os comboios.</p>
<p>Comecei a rir. Ela parecia aqueles trechos que a gente tinha nos livros da escola. nnOs comboios são muito úteis à humanidade. Encurtam as distâncias, transportam as pessoas, os alimentos, os animáis, fazem o longe parecer perto.nn Havia um mesmo assim no meu livro de Português do ano passado. Só que em vez de nnalimentosnn dizia nnvíveres, que é palavra com que eu embirro particular mente, e até me custa a dizer, com aquele nnr&#8221; pelo meio a atrapalhar-me a língua. Santo Ambrósio!, pensar eu que uma bela maçã vermelha, um chocolate de amêndoas, uma fatia de queijo, um bife com ovo estrelado, podem, de repente, ser transformados em nnvíveres&#8221;! Ainda por cima, nnvíveres&#8221; é palavra que não rima com mais nenhuma, o que é logo um defeito à partida. Acho que as palavras são assim um bocado como as pessoas: se não rimam, se arrebitam o nariz (neste caso o nnr&#8221;. . . ) e vão por aí sozinhas sem se juntarem a ninguém - não servem para nada.</p>
<p>Mas a Rita fez de conta que não me tinha visto rir e continuou, imperturbável.</p>
<p>- Gosto muito de comboios.</p>
<p>Tentei ser agradável.</p>
<p>- Eu também. Só é pena que andem sempre atrasados e tão sujos.</p>
<p>Mas ela falava a sério. Nestes últimos tempos a Rita falava sempre a sério. Encolheu os ombros e olhou-me como se eu fosse da idade da Rosa e ela minha mãe ou avó.</p>
<p>- Tu não percebes nada. Não é nada disso. Do que eu gosto é do barulho dos comboios.</p>
<p>Pegou na minha mão e contou, baixo, como se fosse um segredo partilhado apenas comigo.</p>
<p>- Foi uma coisa que eu vi num filme. Havia uma rapariga e um rapaz, e estavam muito tristes os dois, já não me lembro porquê. Só sei que estavam muito tristes, e rebentavam se não gritassem. Mas se eles gritassem em casa, vinha logo toda a gente a correr, a querer saber tudo, a querer ajudar. E as pessoas não podiam entender porque é que eles estavam tristes, e não podiam ajudar nada, claro. Por isso eles tinham de gritar longe das pessoas, para que elas não ouvissem. Mas as pessoas estavam em toda a parte. E tinham ouvidos bem apurados. E eles sentiam-se cada vez mais tristes. Então tiveram uma ideia: ncorreram para debaixo de uma ponte por onde passava um comboio que apitava sempre muito. E quando o comboio passou eles aproveitaram e gritaram, gritaram tudo quanto tinhám para gritar, e o grito misturou-se com o apito do comboio, e ninguém deu por nada. E eles voltaram para casa de mão dada, e muito menos tristes.</p>
<p>- E casaram?</p>
<p>- Sei lá se casaram! Do filme só me lembro disso: do apito do comboio a levar-lhes o grito. É por isso que eu gosto muito de comboios. Só é pena que ao pé de minha casa não passe nenhum. Garanto-te que às vezes nfazia-me bem arranjo!</p>
<p>Lembro-me que estávamos as duas a passear na praceta diante da minha casa. Praceta ainda sem nome, cheia de ervas e embalagens velhas de detergentes.</p>
<p>Disse-lhe:</p>
<p>- Podias seguir o exemplo do barbeiro que cortou npela primeira vez o cabelo ao príncipe com orelhas de burro: fazias aqui uma cova na terra, e gritavas lá para dentro. Talvez ninguém ouvisse, a terra havia de abafar o som.</p>
<p>A Rita deu um pontapé distraído ao que em tempos</p>
<p>nn deveria ter sido um pneu e era agora apenas um bocado</p>
<p>de borracha preta.</p>
<p>- E se a história se repetisse, tal qual Se da cova</p>
<p>n nascesse um canavial a contar aos quatro ventos que eu</p>
<p>tinha gritado lá para dentro? Desculpa lá,mas acho o</p>
<p>comboio mais seguro&#8230;</p>
<p>Dou mais uma volta na cama.Férias é isto.A gente n</p>
<p>ter tempo para se lembrar das coisas,e até entendê-las melhor.Ontem fui à escola ver as pautas.Passámos</p>
<p>todas,como já se esperava.Por isso é que esta manhã n</p>
<p>tem um sabor diferente.Por isso é que não fiz caso do</p>
<p>despertador.Por isso é que nem dei pela saída do meu</p>
<p>pai; Por isso é que dou mais uma volta na cama,ouvindo</p>
<p>a avó Elisa meter a chave à porta e falar à minha irmã</p>
<p>que deve andar a cirandar pela cozinha.</p>
<p>Por isso é que digo nnfériasnn como se trincasse,devagarinho,a melhor maçã do mundo.</p>
<p>Capítulo 23</p>
<p>Levávamos as mãos cheias de embrulhos: as latas de n</p>
<p>bolachas para a Maria do Céu,que iríamos visitar logo</p>
<p>a seguir ao almoço,os pacotes de leite que a avó Elisa</p>
<p>tinha pedido,mais uns lápis de cera para a Rosa,que já</p>
<p>tinha esgotado os seus em 5879cabritinhos desenhados</p>
<p>de novo na parede. n</p>
<p>A porta de casa da Rita estava aberta,como se</p>
<p>alguém tivesse mesmo acabado de entrar ou fosse já</p>
<p>sair.Mas não se via ninguém.Enfiámos direitas para a</p>
<p>cozinha onde largámos os embrulhos todos em cima da</p>
<p>mesa.</p>
<p>nnA sala tinha a porta fechada,mas havia gente dentro</p>
<p>a conversar.Pelo menos ouviam-se vozes.</p>
<p>- Lá estão eles - murmurou a Rita.</p>
<p>Eles eram, com certeza, o pai e a mãe. Peguei de n nn n novo nos meus embrulhos e disse-lhe:</p>
<p>- Obrigada pela companhia, mas já é tarde. Apanho aqui o autocarro e vou-me embora. Se quiseres ir comigo ver a Maria do Céu, vai lá ter a casa depois do almoço. E a seguir passamos por casa do Sr. Ling para saber</p>
<p>como vai a quarentena do Zarolho.</p>
<p>Ela pareceu não ter ouvido nem uma palavra das que eu dissera. Acho que se eu não estivesse ali, ela teria ido escutar à porta da sala. Mas a gente às vezes tem certa vergonha de fazer disparates diante dos amigos. Nunca me lembro de ver os meus pais fecharem uma porta para conversarem. Pensando bem, acho que nunca me lembro</p>
<p>de ver uma porta fechada em minha casa. A não ser a da rua, claro - e é quando o meu pai, distraído de nascença, não se esquece das chaves penduradas do lado de fora, como tantas vezes acontece. A Rita pegou na minha mão e pediu:</p>
<p>- Não te vás embora.</p>
<p>Foi nessa altura que a porta da sala se abriu e a mãe da Rita saiu. Quando nos viu, paradas no meio da cozinha, pareceu admirada. Quase garantia que não gostou muito de me ver, embora não tivesse dito nada. A mãe da Rita é muito bem-educada. Olhou- me apenas, e depois à Rita, e outra vez a mim, acabando por dizer:</p>
<p>- Vieram cedo.</p>
<p>Só por dizer. Via-se bem que ela nem devia fazer sequer ideia que horas eram. Talvez até tivesse o relógio parado no pulso. Mas era preciso dizer alguma coisa. É sempre preciso dizer alguma coisa, porque ficar calado torna tudo mais difícil. A gente começa sem saber o que há-de fazer às mãos, para onde há-de olhar, se deve sorrir ou compor cara triste. É terrível o silêncio. E então diz-se qualquer coisa. nnVieram cedo, por exemplo. Se tivesse dito nnvieram tarden, tinha sido exactamente o mesmo. Lembro-me de ter ouvido o Pedro dizer, lá na outra escola,que as palavras só serviam para duas coisas: para dizer verdades,ou para dizer mentiras.Mas o Pedro não tinha razão.Os professores nem sempre podem ter a razão toda.Para muito mais serviam as palavras. Para não dizer nada,como agora.Nem mentira,nem verdade:</p>
<p>nada. Tentei ainda sair à pressa.</p>
<p>- Eu já estava para me ir embora&#8230;</p>
<p>- Tu ficas.</p>
<p>A voz da Rita tinha uma segurança que eu não</p>
<p>conhecia.Aquilo era mesmo uma ordem..Coisas terríveis nnn</p>
<p>me poderiam suceder se lhe desobedecesse,como sempre</p>
<p>acontece nas histórias.</p>
<p>Entretanto também o pai da Rita saía da sala.Olhou-nos e acenou apenas.Foi a mãe que voltou a falar. nnn</p>
<p>- O teu pai quer conversar contigo.</p>
<p>- Agora?</p>
<p>- Agora.</p>
<p>A Rita segurou na minha mão com mais força,e eu</p>
<p>senti-a húmida.</p>
<p>- Anda,vamos lá então. n</p>
<p>A mãe franziu ligeiramente as sobrancelhas.Decididamente não lhe agradava muito que eu estivesse ali. n</p>
<p>- É contigo que o teu pai quer falar,Rita.Não é n</p>
<p>com a Mariana - foi o máximo que a sua boa educação</p>
<p>n lhe permitiu dizer.</p>
<p>Mas a Rita fez que não ouviu,repetindo apenas para n</p>
<p>mim:</p>
<p>- Vamos lá. n</p>
<p>Oescritório estava,como sempre,impecavelmente</p>
<p>arrumado.Nem um papel no chão,nem vestígios de</p>
<p>cinza nos muitos cinzeiros dos móveis,nem sequer uma</p>
<p>folha caída das rosas que havia nas jarras. Uma corda à</p>
<p>volta, e era uma sala de palácio real em dia de visita</p>
<p>pública.O pai da Rita estava sentado no sofá,e nem</p>
<p>olhou para nós quando entrámos.</p>
<p>Capítulo 24</p>
<p>- Tenho medo. Dissera-me há dias a Rita. Agora, olhando-a, não sei se o medo lhe passou de repente ou se o disfarça tão bem que nem mesmo eu sou capaz de o descobrir dentro dela. Neste momento, quando o relógio da sala (o enorme relógio encostado à parede, onde poderia bem ter-se escondido o cabritinho da história da minha irmã) avisa que faltam vinte minutos para o meio-dia, o medo parece ter passado todo para a cara do pai da Rita. Que olhou finalmente para nós, não mostrando importar-se muito com a minha presença. Acho até que nem deve ter dado por mim. Por momentos senti-me um pouco como a visita que ninguém convidara, o espectador entrado sem bilhete. Mas não podia voltar atrás: a Rita segurava a minha</p>
<p>mão cada vez com mais força. Como eù segurava o chocolate,no primeiro dia da escola.</p>
<p>- O carro está lá em baixo - dise ele,olhando para</p>
<p>as mãos.A gente sabia que ele queria dizer muitas coisas,</p>
<p>mas só olhava para as mãos, como se as tivesse subitamente descoberto vazias.</p>
<p>- O que eu quero dizer é que&#8230;</p>
<p>Tornou a parar.Ouviam-se,de repente,todos os</p>
<p>barulhos da casa.A água nas torneiras,os minutos a</p>
<p>correr no enorme relógio,o próprio ranger da madeira.</p>
<p>A Rita também olhava para as mãos do pai e não dizia</p>
<p>nada. Ele arranjou coragem para continuar:</p>
<p>- Estava à espera que tu chegasses.Já lá fui pondo</p>
<p>umas coisas,mas ainda falta muito.A tua mãe disse que</p>
<p>não devias demorar.</p>
<p>Falava aos soluços,como se cada palavra lhe ferisse</p>
<p>a boca,lhe arranhasse a garganta.</p>
<p>- É claro que levo só o que é mais preciso para os</p>
<p>primeiros dias,venho depois buscar o resto.Mas mesmo</p>
<p>assim&#8230;</p>
<p>Interrompeu para acender um cigarro,vagarosamente,</p>
<p>como se de repente tivesse para si o tempo todo do</p>
<p>mundo. Afastou,distraído,uma mosca pousada no</p>
<p>mármore da mesa,olhando finalmente para a Rita,em</p>
<p>pé,à sua frente.</p>
<p>-&#8230;mesmo assim ainda falta levar muita coisa para</p>
<p>baixo.</p>
<p>A mão da Rita estava húmida.E muito fria.Como se</p>
<p>lá fora estivesse Inverno.Ou cá dentro.</p>
<p>- Não fumes tanto - disse ela.</p>
<p>Ele sorriu:</p>
<p>- Ora.Quero lá saber do fumo.</p>
<p>- Porquê? Deixou de fazer mal,assim de um dia</p>
<p>para o outro?</p>
<p>Ele tornou a sorrir,e voltou a olhar para as mãos:</p>
<p>- Toma bem conta da tua mãe.Tem paciência para</p>
<p>ela.Faz-lhe uma festa de vez em quando.</p>
<p>Tive vontade de rir.Subitamente vontade de dar uma</p>
<p>grande gargalhada e perguntar quando é que ela tinha tido</p>
<p>tempo para fazer festas à Rita.Ou ele.Mas achei que o</p>
<p>caso já era suficientemente complicado para a Rita,por</p>
<p>isso decidi continuar calada,junto dela,a sua mão na</p>
<p>n minha,húmida cada vez mais.</p>
<p>E o silêncio de novo.A mosca voltara a pousar na</p>
<p>esquina da mesa,só que desta vez o pai da Rita pareceu</p>
<p>nem a ver.Pelo menos não se deu ao trabalho de a</p>
<p>enxotar:</p>
<p>- Eu sei que tudo isto é difícil de entender e de</p>
<p>aceitar.Mas as pessoas não se podem amarrar umas às</p>
<p>outras contra sua vontade.As pessoas às vezes gastam-se,</p>
<p>como as coisas.É a vida que nem sempre corre como a</p>
<p>gente quer.É o trabalho que às vezes nos ocupa o tempo</p>
<p>todo e não nos deixa olhar para os outros.Depois quando</p>
<p>n finalmente paramos um pouco e temos mais tempo para</p>
<p>n olharmos para eles,já é tarde: já nós mudámos muito e</p>
<p>eles também,é como se fôssemos pessoas completamente</p>
<p>diferentes,estranhos quase.Então descobrimos que temos de mudar de vida,porque é impossível vivermos ao</p>
<p>lado de estranhos.A culpa não foi nossa.Nem foi deles.</p>
<p>Ele tinha uma voz muito cansada, parecia ter arrastado grandes pesos até àquela sala e de súbito tê-los</p>
<p>deixado cair a todos ao mesmo tempo à sua frente. Ia</p>
<p>falando com a Rita mas acho que,lá no fundo,nem era</p>
<p>bem para ela que falava.</p>
<p>- Agora olho para ti e vejo que cresceste.Que</p>
<p>cresceste muito.Que cresceste enquanto todas as manhãs</p>
<p>eu saía de casa às oito para o escritório,e voltava do</p>
<p>escritório todas as noites,cansado e sem olhos para nada,</p>
<p>nem para ti.Foi durante esse tempo que foste crescendo</p>
<p>e eu não dei por nada.</p>
<p>Deu uma pequena gargalhada sem nenhum riso lá</p>
<p>dentro.Para onde teria ido,subitamente,o riso do pai da nn</p>
<p>Rita? Sem dar por isso acendeu novo cigarro,e nem se</p>
<p>importou com o bocado de cinza caída no chão,mesmo</p>
<p>em cima da alcatifa daquela sala que sempre me habituara</p>
<p>a considerar museu.Daquela sala onde nunca tinha vivido</p>
<p>ninguém.Daquela sala por onde as pessoas só passavam ao de leve,sem deixar rasto nem cheiro.Talvez</p>
<p>- pensava eu agora - por falta de tempo.A Rita olhou nn</p>
<p>para o cigarro nos dedos do pai mas desta vez não disse</p>
<p>nada. n</p>
<p>- Acho que comigo e com a tua mãe foi sobretudo</p>
<p>isso que aconteceu.Deixámos de ter tempo de olhar um</p>
<p>para o outro.Ela não gostava que eu falasse do escritório, nn eu não gostava que ela falasse dos vestidos e das vizinhas.E um dia entendemos que,para lá disso,nada mais</p>
<p>tínhamos a dizer um ao outro.E quando fingíamos que nnn</p>
<p>tínhamos,vinham as discussões,as zaragatas,tu sabes.</p>
<p>Se tivéssemos tido tempo,talvez eu pudesse falar de</p>
<p>outras coisas além do que sucedia ou não sucedia no</p>
<p>escritório,talvez ela pudesse falar de outras coisas além n</p>
<p>do comprimento das saias ou da gripe da vizinha do lado. n Talvez.</p>
<p>Levantou-se do sofá.</p>
<p>- Bom,eu não quero agora estar aqui a fazer</p>
<p>discursos&#8230; n</p>
<p>E sorrindo para a Rita:</p>
<p>- Também não vamos agora ficar aqui a fazer drama</p>
<p>disto.Ninguém morreu,que diabo! n</p>
<p>- Ninguém morreu por enquanto.Mas se tu continuas a fumar assim,não te dou muitos anos de vida!</p>
<p>gracejou a Rita,o choro à beira dos olhos mais uma vez</p>
<p>transformado em sorriso,amor talvez.E sem lhe dar</p>
<p>tempo a mais palavras:</p>
<p>- O que é que é preciso levar para baixo? Aproveita que a Mariana também dá uma ajuda.</p>
<p>n Ele pareceu respirar aliviado. Ou talvez esse fosse o seu truque de espantar o medo e as lágrimas.</p>
<p>&#8221; - No sábado vamos almoçar os dois, está bem? Olhou para mim e logo emendou:</p>
<p>- Os três, quero dizer. Vão escolhendo o restaurante. Quero um lugar bonito para levar a minha filha, que está uma mulher. n</p>
<p>(Que cresceu enquanto ias e voltavas do emprego, n enquanto te esquecias de olhar para ela, enquanto tudo se transformava sem que tu desses por isso.)</p>
<p>- E depois hás-de ajudar-me a mobilar a casa nova. Sobretudo o teu quarto, para lá dormires sempre que te apetecer.</p>
<p>A Ritan voltara a npegar na minha mão, e fazia esforços para continuar a sorrir:</p>
<p>- E tu também, claro - disse ele para mim. - A casa é pequena mas ainda dá para vocês as duas.</p>
<p>Íamos já a sair da sala quando ele se voltou de repente, e deu um beijo à Rita, despenteando-lhe um pouco o cabelo.</p>
<p>- Tens razão. Que seria de mim se não tivesse uma filha como tu?</p>
<p>Foram palavras ditas quase a correr, num fio de voz n que se sumia pela garganta abaixo. Como se receasse envergonhar-se delas logo depois de as ter dito.</p>
<p>A Rita correu para o corredor, levando-me consigo. Foi a primeira vez que vi o pai da Rita dar-lhe um beijo.</p>
<p>Capítulo 25</p>
<p>Lembro-me,era assim um pouco como agora.</p>
<p>A chuva do lado de lá dos vidros,só que era Inverno ou</p>
<p>quase,e eu sentia-me no fim do mundo.A minha</p>
<p>mãe tinha-me abandonado ali,naquela casa escura</p>
<p>num 3.o andar,naquilo que me tinham dito ser nna escolann.Eu não sabia o que era a escola.Acho que nessa</p>
<p>altura eu não sabia muita coisa.Como a Rosa também</p>
<p>ainda não deve saber.E como a Rita está a aprender agora.</p>
<p>Mas a escola sempre me tinha cheirado a erva húmimida, a corredores claros,a pássàros nas árvores,a príncipes encantados.Lembro-me que a minha avó Lídia me</p>
<p>costumava dizer: nnquando fores para a escola é que vai n ser bom&#8221;.E para mim a escola passara a ser qualquer</p>
<p>coisa de muito parecido com o palácio da Branca de Neve, ou com a casa misteriosa de algum duende por onde se entrasse de olhos fechados e se saísse a saber tudo o que havia para saber neste mundo e nos outros todos.</p>
<p>Mas agora a escola cheirava a degraus de madeira velha, uma porta que rangia, sem duendes nem príncipes, e crianças lamurientas dentro dela.</p>
<p>Lembro-me de ter visto chegar uma rapariga que rapidamente tranquilizou a minha mãe:</p>
<p>- Esteja descansada que ela acaba por se habituar. Ao princípio é sempre assim.</p>
<p>E voltando-se para mim:</p>
<p>- Sou a Amélia.</p>
<p>A minha mãe sorriu e ainda me fez uma festa no cabelo. Eu tinha ido na véspera ao cabeleireiro, pela primeira vez na minha vida, para entrar de cabelo cortado para a escola, nncomo uma menina bonitann, dissera a avó Lídia. Logo aí eu começara a sentir que qualquer coisa não estava bem, e que a escola não podia ser assim coisa muito boa se, para lá entrar, era preciso suportar a cabeleireira, as suas tesouras arrepelando-me, o cheiro enjoativo da sala, o calor quase sufocante, e o meu cabelo caído no chão, em monte. A Gata Borralheira não cortara o cabelo para ir ao baile: Nem a Branca de Neve quando entrara na casinha dos anões.</p>
<p>O que seria afinal de contas a escola? Ouvi a voz da minha mãe:</p>
<p>- Ela cá fica, então. Sorrindo, mas não para mim.</p>
<p>A escada cheirava ao corredor da casa da tia Magda (bafio, saberia muito mais tarde), e lá por fora chovia manso. Agarrei-me com força à saia da minha mãe, Que continuava a sorrir, mas não para mim. A outra disse:</p>
<p>- Entre.</p>
<p>Mas a minha mãe abanou a cabeça.</p>
<p>- É melhor não entrar.Pode ser pior.</p>
<p>Havia,portanto,alguma coisa ainda pior do que aquilo</p>
<p>para chegar.A minha mãe empurrou-me devagar e disse:</p>
<p>- Vá,agora a menina vai ficar aqui,com outros</p>
<p>meninos,a brincar,a fazer jogos,e depois a mãe vem cá</p>
<p>buscá-la,está bem?</p>
<p>Parece ainda que me estou a ouvir:</p>
<p>- A mãe também fica a brincar aqui.</p>
<p>Lembro-me de ouvir rir a minha mãe,sorrindo depois</p>
<p>mais uma vez para a outra,em frente da porta.</p>
<p>- Não,a mãe não pode ficar aqui a brincar.A mãe</p>
<p>vai trabalhar e depois vem cá buscar a menina.</p>
<p>E logo a outra,tentando ser simpática:</p>
<p>- A Mariana vem comigo.Há ali tantos brinquedos!</p>
<p>E muitos amigos para brincar. n</p>
<p>Brinquedos também eu tinha em casa.Podia lá ter n</p>
<p>ficado,como nos outros dias.Entretanto a outra dizia</p>
<p>muito baixinho para a minha mãe:</p>
<p>- Entre só um bocadinho,talvez seja melhor.</p>
<p>Acabou por entrar,a minha mão sempre agarrada à</p>
<p>sua,para uma sala pequena,uma mesa,quatro cadeiras,</p>
<p>um armário,uma janela,e lá fora a chuva.A minha mãe</p>
<p>tirou um chocolate de dentro da mala e deu-mo,sorrindo</p>
<p>então para mim.</p>
<p>- Toma.E agora vai com a Amélia para o pé dos</p>
<p>outros meninos.</p>
<p>Não havia outro remédio.Dei a mão à que - pelos vistos - se chamava-Amélia e lá fui por aquela imensidão n</p>
<p>de corredor até uma sala ao fundo,cheia de cubos de</p>
<p>plástico e almofadas pelo chão,brinquedos de madeira</p>
<p>e lata em cima de uma mesa.</p>
<p>- Esta é a Mariana.</p>
<p>Disse a que pelos-vistos-se-chamava-Amélia.Os outros não pareceram muito entusiasmados com a minha</p>
<p>presença,e continuaram a fazer o que estavam a fazer</p>
<p>quando eu entrara.Virando-se para mim,ela disse:</p>
<p>- Esta é a Sara,esta é a Rita,esta é a Vanda,</p>
<p>este é o Gil, este é o Pedro António..</p>
<p>E a lengalenga foi continuando enquanto eu,apertando bem o chocolate na mão,pensava se a minha mãe ainda estaria lá por dentro à minha espera, ou se teria já desaparecido. Entretanto, a que pelos-vistos-se-chamava-Amélia sentou-se no chão ao pé de nós e disse:</p>
<p>- Quando estiver bom tempo vamos até ao parque andar de baloiço. Mas hoje está a chover e não podemos sair. Por isso vamos todos aprender uma cantiga.</p>
<p>Já eu estava de pé,no meio deles:</p>
<p>- A menina quer ver.</p>
<p>- Quer ver o quê?</p>
<p>- Chover.</p>
<p>n Fui até à janela, esborrachando o nariz contra o vidro.</p>
<p>Havia muitos carros,alguns apitavam tanto que até se</p>
<p>ouvia dentro da sala,e as pessoas estavam todas com</p>
<p>muita pressa.Algumas nem se viam bem.Só duas pernas debaixo de um guarda-chuva. Mas não vi a minha mãe no meio delas. Encostei a boca ao vidro e ficou uma</p>
<p>grande rodela baça à frente da minha cara.Fiz um risco</p>
<p>com o indicador.</p>
<p>Mas eu tinha o chocolate na mão e o</p>
<p>dedo estava sujo,e o vidro ficou cheio de manchas</p>
<p>castanhas.Um deles disse logo:</p>
<p>- Ela sujou a janela,ela é porca.</p>
<p>Mas a que pelos-vistos-se-chamava-Amélia pareceu não ligar muito e só perguntou:</p>
<p>- Não comes o teu chocolate?</p>
<p>E logo a seguir:</p>
<p>- Não queres vir aprender uma cantiga?</p>
<p>Queria lá saber de cantigas.Queria era gritar.Saber n</p>
<p>onde estava a minha mãe.Ao fundo do corredor,na sala</p>
<p>onde n tinha deixado? A atravessar a rua,do lado de lá do</p>
<p>vidro Dentro do automóvel a tocar a buzina? Em casa? n</p>
<p>No escritório? Nas escadas que cheiravam ao corredor da casa da tia Magda?</p>
<p>nnO pretinho Barnabé tiro liro tiro liro</p>
<p>o pretinho Barnabé tiro liro lé.&#8221;</p>
<p>Cantavam eles todos, sentados de roda sobre as almofadas espalhadas pelo chão. Batiam palmas às vezes. Um</p>
<p>deles estava ranhoso e limpava o nariz à manga do bibe. n u Porco, disse eu, vingando-me, mas acho que ele não</p>
<p>ouviu.Não me apetecia cantar,e não podia bater palmas</p>
<p>por causa do chocolate que apertava na mão.Mas era</p>
<p>bom que eles cantassem.Que eles cantassem todos bem</p>
<p>alto.Podia ser que - a minha mãe ouvisse e viesse ter</p>
<p>connosco.A minha mãe cantava melhor que eles todos.</p>
<p>Melhor até que a que pelos-vistos-se-chamava-Amélia.</p>
<p>A dançar partiu um pé</p>
<p>tiro liro</p>
<p>tiro liro li</p>
<p>a dançar partiu um pé</p>
<p>tiro liro lé.</p>
<p>E em casa a avó Lídia ria muito,ria como ninguém</p>
<p>era capaz de rir,e contava muitas histórias,e nada de</p>
<p>mau me podia acontecer enquanto estivesse ao lado dela.</p>
<p>Só que ela também não estava ali comigo.</p>
<p>nnDança agora num pé só tiro liro tiro liro</p>
<p>dança agora num pé só tiro liro ló.</p>
<p>Levantei-me e comecei a dar voltas num pé só, mas desequilibrei-me e acabei por cair no chão, logo num sítio</p>
<p>onde não havia nenhuma almofada. Eles começaram a rir e nem mesmo assim a minha mãe se comoveu porque</p>
<p>não apareceu sequer à porta a perguntar o que tinha sucedido. A que pelos-vistos-se-chamava- Amélia também não pareceu muito preocupada.</p>
<p>- Vê lá se queres partir um pé como o pretinho Barnabé.</p>
<p>Os outros começaram outra vez a rir, e eu pensei que eles eram todos feios e maus, e haviam um dia de ter</p>
<p>orelhas de burro como o príncipe da história que a avó Lídia me tinha contado.</p>
<p>Depois disso não me lembro de mais nada. Só que, no final de muitas, muitas horas (apenas quatro, soube-o muito mais tarde) a minha mãe veio buscar-me e levou-me para casa. E a casa estava nesse dia muito mais clara, e havia flores nas jarras, e o corredor cheirava a maçãs, e o riso da avó Lídia era mais alegre que nos outros dias, n e a chuva era muito mais bonita e mansa nos vidros do meu quarto do que nos vidros da escola. E o chocolate estava todo esmagado na minha mão e era bom.</p>
<p>Não sei por que me lembro agora deste meu primeiro dia de escola. Não sei por que me lembrei dele assim, com todos os pormenores, durante todo o tempo que o pai da Rita falou com ela na sala. Mas sei que, por muitas vezes, me senti como que transformada em chocolate; esmagado com força na mão da Rita.</p>
<p>Capítulo 26</p>
<p>Quando o meu pai chegou a casa a assobiar (e não era sequer um hino patriótico) pensei as coisas mais desvairadas: 13 no totobola, a sorte grande na lotaria, a praceta já com nome decente, aumento de ordenado ao fim do mês, algum torneio de palavras cruzadas que o tivesse consagrado campeão do mundo, sei lá. Fechou a porta com estrondo (o que arrelia a minha avó Elisa quase tanto como vê-lo beber pelo pires o café entornado na chávena) e até falou com o Zarolho, regressado nesse dia da cave do Sr. Ling:</p>
<p>- Olá, seu olho vivo! Já nadou muito hoje? Ou éim pressão minha ou vossemecê engordou. Assim à vista desarmada quase jurava que era um tubarão a nadar no aquário. Pelos vistos, o chinês tratou bem de si !</p>
<p>Até a minha avó veio ao corredor,admirada com o discurso:</p>
<p>- Viste passarinho novo, ou quê? É apenas um peixinho vermelho. Agora passa o tempo todo a nadar. Se calhar o cinês deu-lhe chau-chau. E lá foi até ao escritório, rindo muito das suas próprias graças. Passados uns momentos chamou-nos para uma reunião geral. Pelo menos, foi o que pensei. No escritório a mesa dele estava cheia do que seriam papéis,mapas, Por baixo de montanhas de folhetos, cartazes.</p>
<p>Olhávamos todos para ele, sem dizer palavra. O meu pai, com ar sorridente, olhou-nos e declarou:</p>
<p>- Para a semana é que é.</p>
<p>Como todas tivéssemos ficado caladas, à espera de ouvir o resto do discurso, acrescentou, ofendido:</p>
<p>- Então é assim que vocês reagem? Traz um homem esta grande notícia para casa e tudo o que ouve são todos calados a olhar para ele? Já não digo</p>
<p>que aplaudissem, mas pelo menos umas pancadinhas nas costas, que diabo!</p>
<p>Não é todos os dias que se ouve uma notícia destas.</p>
<p>Aí a minha mãe não se conteve.Com o ar mais calmo</p>
<p>que conseguiu arranjar,perguntou apenas:</p>
<p>- Mas que notícia?</p>
<p>mesn nmeunnpai deu um piparote na papelada em cima da mesa e gritou eufórico:</p>
<p>- Para a semana partimos para Espanha!</p>
<p>E logo a seguir, como se estivesse ligado a um disco</p>
<p>que alguém tivesse posto subitamente a girar:</p>
<p>- Já aqui tenho tudo: itinerários,passeios programados,distâncias,orçamentos de gasolina,etc.,etc.Uma</p>
<p>semanita fora daqui ninguém nos tira,olarila!</p>
<p>Sem dar tempo a nenhuma de nós dizer fosse o que</p>
<p>fosse,abriu um dos folhetos e começou a explicar,muito</p>
<p>compenetrado do seu papel de cicerone:</p>
<p>- Saída de Lisboa às 7da manhã&#8230;</p>
<p>(Cedinho,pensei eu.) n</p>
<p>-de seguida para a auto-estrada do Norte,recta</p>
<p>do Cabo,Pegões&#8230;</p>
<p>- Morre tanta gente nessa estrada! - sussurrou a</p>
<p>avó Elisa.</p>
<p>- Ó senhora,cale-se lá com isso agora! - protestou</p>
<p>a minha mãe.</p>
<p>- Vendas Novas,Montemor-o-Novo&#8230;</p>
<p>- Já chegámos à Espanha? - bichanou a Rosa ao</p>
<p>meu ouvido.</p>
<p>- Não.Quando chegarmos,eu aviso-te - sosseguei-a.</p>
<p>- É por causa dos lobos - disse ela.</p>
<p>- Está bem - disse eu.</p>
<p>-..Arraiolos&#8230;</p>
<p>- São tão bonitas as carpetes,bem gostava de ter</p>
<p>uma - desabafou a minha avó.</p>
<p>-.Estremoz,Elvas,Caia,formalidades de fronteira,Badajoz&#8230;</p>
<p>- Já chegámos - disse eu para a Rosa.</p>
<p>- Hum,hum - respondeu ela,continuando a lamber os dedos.</p>
<p>.Zafra,paragem para almoçar&#8230;</p>
<p>- Só agora? - espantou-se a minha avó,a quem as</p>
<p>viagens dão sempre muita fome.</p>
<p>..e daí directamente para Córdova,Baena,e</p>
<p>finalmente Granada !</p>
<p>Apeteceu-me dizer nnolé ! &#8220;, perguntar pelo Manolete, mas contive-me. Entretanto o meu pai, sem o menor sinal de cansaço, ia visitando o Palácio do Alhambra, os Jardins do Generalissimo, e quando demos por ele tinha chegado a Sevilha. Aí o caso fiou mais fino, que é como quem diz, o discurso saiu bastante mais apurado. Espetou o dedo, aclarou a voz, e atirou:</p>
<p>- Quarta cidade espanhola e primeira das oito capitais andaluzas, Sevilha transmite- nos ainda hoje, através da etnografia e do folclore, as raízes dos vários povos que aqui viveram, nomeadamente o povo árabe. A sua catedral, a mais ampla de toda a Espanha, construída sobre fundações da velha mesquita..</p>
<p>- Poupa-nos! - gemeu então a minha mãe, que não aguentava mais tanto viajar. Se fosse a Maria do Céu, acho que já tinha vomitado para cima de nós no meio de tanta curva e contracurva.</p>
<p>O meu pai começou a rir, mas logo retomou o ar grave de cicerone encartado.</p>
<p>- Calma, minha senhora! Calma, que já só falta o circuito panorâmico da cidade, com a indispensável visita à Giralda, ao Parque, áo cemitério de S. Fernando..</p>
<p>- Então a gente vai a Espanha para ver cemitérios? Já não bastam as desgraças que temos por cá? - protestou de novo a minha avó. - Mortos é o que não falta no Alto de São João.</p>
<p>- Mas estes são mortos ilustres, mãe ! São grandes toureiros, por exemplo.</p>
<p>- Eu até nem gosto de touradas, calha bem! A única vez que fui a uma tourada, o pobre do touro morreu de congestão no meio da praça, coitadinho!</p>
<p>- Pronto, está bem, se não quiser ir ver o cemitério não vá, mas olhe que está lá enterrado o Joselito!</p>
<p>- Joselito só conheço um miúdo que cantava na rádio já há uma data de anos.</p>
<p>- Não é esse, claro. Este que eu digo foi um grande toureiro.</p>
<p>A minha avó encolheu os ombros e decidiu não pôr mais entraves ao circuito panorâmico da cidade, que ela decerto antevia já a abarrotar de toureiros em traje-de-luces por todas as esquinas.</p>
<p>Mas o meu pai já tinha entendido que os seus dotes de cicerone estavam a ser ali imperdoavelmente desperdiçados diante de uma multidão de quatro incrédulas, para quem a Espanha não devia ter outro encanto para lá do flamenco e das castanholas. Fechou livros e folhetos assim com aquele ar que ele arranja sempre quando, nas palavras cruzadas, lhe escapa a palavra exacta, com duas letras, para nntratamento dado na China a certas pessoasnn, ou para, com quatro, nngorgulho tropical&#8221;. Acendeu calmamente o cachimbo e rematou:</p>
<p>- Está decidido. Desta é que Espanha não nos escapa.</p>
<p>A Rosa saltou de contente, não porque entendesse muito bem o que se passava, ou porque estivesse em ânsias por conhecer a Espanha, mas apenas porque ela acha que deve sempre ficar muito contente quando as conversas acabam. Deu três corridas pelo quarto, conversou com os seus cabritinhos naquela linguagem que só eles entendem e, à conta de Espanha, comeu mais meia dúzia de colheres de doce de ameixa.</p>
<p>Todas nós ficámos muito contentes. Como costuma dizer o Sr. Guerreiro quando vem cá arranjar alguma torneira ou algum cano e aquilo não lhe sai logo à primeira como ele quer, a Espanha parecia nnter enguiço no corpo &#8220;.</p>
<p>Senti pena de deixar a Rita, numa altura em que eu sanbia que ela havia de gostar que eu estivesse junto dela. Mas nem por um momento me passou pela cabeça falar nisso ao meu pai. Então é que havia enguiço, com certeza. Comecei apenas a pensar na melhor maneira de lhe dizer que iria estar longe por algum tempo. É claro que eu não tinha culpa nenhuma. n Mas, por mais que eu tentasse convencer-me disso, sentia-me assim como se eu fosse a Rosa, apanhada a comer compota às escondidas.</p>
<p>Capítulo 27</p>
<p>Tínhamos descido a rua devagar, como só se desce uma rua quando se está de férias e se pode saborear bem as pedras, as pessoas que se cruzam connosco, o cheiro diferente das esquinas, os nomes nas placas, o rio no fim de tudo.</p>
<p>Tínhamos descido a avenida, tranquilamente. Depois da chuva que tinha caído, havia agora uma luz boa, talvez a querer fazér-nos acreditar que, embora não parecendo, se estava mesmo no Verão, segundo o calendário.</p>
<p>A Susana parava em todas as montras da Baixa, sonhando com grandes festas, vestidos a arrastar, talvez até com sapatinhos de cristal como os da Gata Borralheira que, infelizmente, até nem eram de cristal mas de cabedal. Cabedalzinho puro, tal qual as nossas botas de Inverno.</p>
<p>Tive um bocadinho de raiva da Susana, que assim me</p>
<p>estava a estragar o prazer da viagem há tanto tempo sonhada, fosse longe ou perto. Raiva de tudo o que ela já tinha visto, de todos os países por onde já tinha andado, de todas as pessoas que já conhecia, das línguas estranhas que já ouvira falar a seu lado. E raiva também dos caracóis, que abanavam sempre que ela ria. Sabia que não tinha razão nenhuma para sentir raiva, mas parecia que quanto mais o sabia, tanto mais ela crescia cá por dentro. Mas decidi fazer-me forte:</p>
<p>- Quantos países conheces tu?</p>
<p>Ela encolheu os ombros:</p>
<p>- Se queres que te diga, nem sei. Muitos.</p>
<p>Voltou a rir (ai aqueles caracóis, Santo Ambrósio!) e disse:</p>
<p>- Conhecer, é uma maneira de dizer. . . Conhecer, o que se chama conhecer, acho que nem Portugal conheço: O meu pai pensa que o simples facto de pisar a terra de uma cidade é o suficiente para ficar a conhecê- la. O ano passado, durante as férias, num só dia fomos à Bélgica e à Holanda. Como aquilo era tudo perto, não valia a pena perdermos mais tempo. Foi o que o meu pai disse. E a minha mãe concordou, claro, que também de nada lhe servia não concordar. Lembro-me que bebemos um café a escaldar numa praça de Bruxelas, o meu pai olhou em volta, tornou a entrar no carro e disse para o motorista: n nseguimos caminho,n. nnEntão e a Bélgica?&#8221;, perguntei. O meu pai voltou-se para a minha mãe e disse:</p>
<p>- Está visto.</p>
<p>A minha mãe encostou a cabeça para trás no banco do carro e disse:</p>
<p>- Mais um país que ficámos a conhecer!</p>
<p>E o automóvel arrancou. É assim que a gente viaja. E depois, quando chegamos a casa, dizemos às tias, às primas e aos amigos que conhecemos a Bélgica, a Holanda, a Suíça, a França, sei lá que mais. E até mostramos postais ilustrados e os carimbos no passaporte. Por isso para mim a Bélgica é uma praça cinzenta num céu enevoado, com um café amargo a escorregar-me pela garganta abaixo. Connosco as viagens são sempre assim. E cheias de discussões, claro, porque a minha mãe quer sempre comprar mais um vestido, mais uma carteira, mais uns sapatos, e o meu pai grita que ela o quer arruinar, e que se julga que casou com o Banco de Portugal está muito enganada.</p>
<p>De repente dou comigo a pensar se a Susana será mais feliz do que a Rita, só por viver com o pai e a mãe na mesma casa. Mas logo começo a pensar noutra coisa, e sorrio com todas estas viagens da Susana. Não me parecia nada que o pai dela se entusiasmasse com o programa que o meu pai traçara para a nossa. Se, através dele, iríamos ficar a conhecer Espanha, isso eu também não sabia. Acho que nem estava lá muito certa que o fosse. Mas que iria ser bem mais divertido, disso não duvidava um instante. Tinha sido bem tola com as minhas raivas, mas que diabo, uma rapariga não é de pau!</p>
<p>E aqueles caracóis da Susana, Santo Ambrósio!, é que tinham tido a culpa. A culpa toda.</p>
<p>Capítulo 28</p>
<p>Estávamos os três no restaurante, olhando-nos, ainda sem palavras. Era isto que a Rita temia. Era por isso que eu ali estava. E no entanto que podia eu fazer? Enquanto vamos olhando para a ementa (que aqui se chama, em letras douradas sobre couro castanho, menu), vem-me de repente à ideia que nunca antes o pai da Rita nos tinha convidado para almoçar fora. Lá estás tu a imaginar coisas, diria a minha avó Elisa se aos seus ouvidos chegasse o que eu agora penso. Claro. Devo ser eu que estou a imaginar coisas. De resto o importante é estarmos aqui os três, neste restaurante onde todos falam em voz baixa. E os empregados nos tratam como se tivéssemos 50 anos. Quase receio que até me chamem madame, como em certos lugares fazem com a minha mãe, o que a deixa furiosa.</p>
<p>Olho a ementa. Espalha-se por duas enormes folhas</p>
<p>nnn de papel a fingir pergaminho, dando os mais estranhos nomes ao que vulgarmente se chama bife com batatas</p>
<p>fritas.</p>
<p>Quando a Rita me recordara o almoço de sábado,eu</p>
<p>tinha dito que não.Que fosse só ela.Que o pai havia de</p>
<p>gostar mais.Tinha-me convidado porque era pessoa bem-educada; só por isso.Ela respondeu com argumentos</p>
<p>nn estúpidos,eu respondi com argumentos estúpidos,e lá</p>
<p>ficámos a um canto do meu quarto,amuadas.Eu sabia</p>
<p>que ela queria dizer outra coisa para lá das palavras tolas.</p>
<p>E ela também sabia.Nestes últimos tempos eu sentia que estávamos as duas a fugir às palavras certas.E se isso</p>
<p>continuasse por mais tempo eu tinha a certeza de perder a Rita.Ela havia de se transformar naquelas amigas que</p>
<p>enchem as festas da Susana,que dão beijos na cara por tudo e por nada,mandam prendas caras no dia de anos</p>
<p>cartões de Boas-Festas no Natal e na Páscoa.Amigas</p>
<p>envelhecendo com o rosto e a voz da tia Magda,murchando entre estrelícias.</p>
<p>- Estás com medo? - perguntei de repente,eu</p>
<p>própria espantada com as minhas palavras e sem sequer as entender muito bem.</p>
<p>- Não - disse a Rita -,medo de quê? O meu pai</p>
<p>não me come.Pode ter muitos defeitos,mas ainda não</p>
<p>chegou a antropófago.Não tenho medo nenhum.</p>
<p>- Ninguém nos vai matar,pois não?</p>
<p>- O quê ?</p>
<p>- Nada,não faças caso.Era uma coisa que costumava dizer a minha avó Lídia para me dar coragem.</p>
<p>A Rita sorriu.Sentou-se e levantou-se do sofá não sei quantas vezes (a Zica estava,felizmente,bem longe das</p>
<p>suas mãos),chamou gatafunhos aos cabritinhos desenhados pela Rosa na parede,o que,evidentemente,pôs a</p>
<p>minha irmã roxa de fúria,e até implicou com o pobre do Zarolho,pacificamente a nadar no seu decímetro cúbico</p>
<p>de mar, completamente ignorante do seu nome de imperador romano.</p>
<p>Acabou por voltar a sentar-se ao pé de mim.</p>
<p>- Tens razão. Estou cheia de medo. Não sei o que lhe hei-de dizer, não sei o que lhe hei-de responder. . .</p>
<p>- Responder a quê? Tu ainda nem sabes se ele te vai perguntar alguma coisa!</p>
<p>- Claro que vai. Há-de querer saber como vão as coisas em casa, como vai a mãe, o que é que a gente diz e faz, onde é que a gente tem ido, quem nós temos visto ou não temos visto, quem nos escreveu, quem nos telefonou, quem adoeceu, quem ficou bom de repente, quem nasceu, quem morreu, eu sei lá. E eu hei-de ficar parada a olhar para ele enquanto ele fala. Sempre tem sido assim.</p>
<p>- Se sempre tèm sido assim, é da maneira que ele já não vai estranhar. n</p>
<p>- Pois é, mas eu sei que eles agora querem que eu seja diferente. Querem que eu fale, que eu conte coisas. Eu tenho tentado, tu sabes que tenho, mas às vezes custa. E quando não consigo, olham para mim com ar compungido e é muito pior. Já no outro dia com a minha mãe foi a mesma coisa. Eu não me apetecia falar. Não era por nada, era só porque não me apetecia. Nunca fui de grandes falas, tu sabes. E eles também sabem. De resto não estavam sempre a meter-me pelos ouvidos dentro que uma menina bem-educada só fala quando falam com ela? Só responde quando alguém lhe pergunta alguma coisa? E sobretudo não me ensinaram eles que uma menina bem-educada não se deve meter em conversas de adulto? Será que, de um dia para o outro, me tornei adulto? Não me apetecia falar, era só isso. Pois a minha mãe levou a tarde inteira a lastimar-se que eu agora andava triste e a chorar pelos cantos por causa da separação deles, e que eu já não gostava dela, e mais isto e mais aquilo.</p>
<p>Sorriu, assim como quem toma fôlego.</p>
<p>- Olha, acabei por ser eu a consolá-la.</p>
<p>[i Tornou a levantar-se do sofá.Esborrachou o nariz no</p>
<p>vidro da janela,e olhou lá para fora.</p>
<p>- Esta rua nunca mais tem nome. Ainda um dia vão</p>
<p>acabar por lhe dar o teu,vais ver.</p>
<p>Lá estava ela,de novo,a fugir às palavras.Mas não</p>
<p>n por muito tempo,desta vez.</p>
<p>- Vais comigo amanhã,está bem? Duas já aguentamos melhor.</p>
<p>Ainda disse que não mais algumas vezes.Não muitas</p>
<p>mas algumas.Ela insistia sempre.</p>
<p>E agora estamos aqui os três,no restaurante afinal</p>
<p>escolhido pelo pai da Rita,com a ementa (que aqui se</p>
<p>chama,em letras douradas,menu) diante de nós, enquanto,solícito,o empregado espera,de papel e esferográfica na mão,que a gente escolha o que vai comer.Apetecia-me encomendar meia dúzia de palavras certas daquelas n</p>
<p>exactas palavras que um pai quer ouvir da sua filha e que uma filha quer ouvir de seu pai.Apetecia-me pedir ao</p>
<p>n empregado que trouxesse para a nossa mesa uma travessa</p>
<p>Inteira daquelas festas que quase sempre se fazem a</p>
<p>medo,não vá o outro pensar que estamos a ser tolinhos.</p>
<p>Mas essas coisas não constam da ementa,mesmo que</p>
<p>se chame menu e tenha letras douradas e papel a fmgir ao pergaminho.E uma capa de cabedal castanho,como as</p>
<p>lombadas dos livros nas bibliotecas.Ou como os sapatos da Gata Borralheira.</p>
<p>Entretanto o pai da Rita já tinha escolhido o que</p>
<p>queria para si.O empregado escrevia tudo no papel.</p>
<p>- E o que vai ser para as meninas?</p>
<p>Respirei fundo: não nos tinha chamado madame.</p>
<p>A Rita encolheu os ombros:</p>
<p>- Para mim pode ser a mesma coisa.E para ti?</p>
<p>- Também.</p>
<p>Respondi,esperando que eles não tivessem percebido que eu não tinha ouvido nada do que tinham dito.</p>
<p>Esperando, sobretudo, que não tivessem tido a ideia de terem pedido fígado, que é coisa que eu não posso ver à minha frente.</p>
<p>Capítnlo 29</p>
<p>- Esse bife não está cru?</p>
<p>- Não. Gosto dele assim, mal passado. Parece que a carne crua é boa, tem muitas vitaminas. Já li isso não sei onde.</p>
<p>- Parece que sim, parece que faz bem, desde que não seja carne de porco, claro, por causa dos germes.</p>
<p>- Pois é.</p>
<p>- Eu, quando era miúdo, também gostava de comer carne crua. Mas mesmo crua. Aproveitava quando ninguém via, e lá metia o seu bocado à boca. E também gostava de bacalhau cru.</p>
<p>- Eu nem cozido, quanto mais cru!</p>
<p>- Não gostas de bacalhau?</p>
<p>- Nem vê-lo, nem cheirá-lo!</p>
<p>- Tem graça, nunca tinha dado por isso. Sempre me pareceu que comias de tudo, que gostavas de tudo.</p>
<p>nn - A mãe obriga-me. Mas gostar não gosto. Acho que gostar, gostar mesmo a sério, só de bife com ovo estrelado e batatas fritas. n</p>
<p>- Não se pode dizer que sejas muito original. . . n n</p>
<p>- Pois não. n</p>
<p>- Sais à tua mãe. Quando íamos a um restaurante n escolhia sempre o mesmo prato. Mesmo que eu insistisse</p>
<p>nunca mudava. Como está ela?</p>
<p>- Acho que está bem. Foi ontem comigo aos saldos. Comprou-me umas calças.</p>
<p>- São essas que trazes hoje?</p>
<p>- São.</p>
<p>- Gosto delas. São da cor dos teus olhos.</p>
<p>- Os meus olhos são verdes, pai.</p>
<p>- Verdes? Deixa cá ver. São esverdeados, são. Ia jurar que eram castanhos como os meus. Desde o dia em que nasceste que toda a gente diz que és o meu retrato, tal qual.</p>
<p>- Menos nos olhos. Nos olhos saio à mãe, dizem.</p>
<p>- Tens mesmo a certeza que esse bife não está cru de n mais?</p>
<p>- Tenho.</p>
<p>- É que se podia pedir ao empregado e ele levava lá dentro à cozinha para passar melhor. Não custa nada.</p>
<p>- Eu sei, pai. Mas não quero, gosto dele assim.</p>
<p>- Tu é que sabes.</p>
<p>- E também comprei uma blusa.</p>
<p>- Quando?</p>
<p>- Ontem, nos saldos. A mãe diz que agora só nos saldos é que se pode comprar roupa. Sobretudo para mim que estou a crescer e tudo deixa de me servir num instante. Aqui para nós, acho que a mãe não gosta lá muito dos saldos. Diz que é uma grande confusão, uma grande aldrabice, e que depois anda toda a gente vestida de igual.</p>
<p>- Lá que é uma grande confusão,é,tens de concordar.</p>
<p>- A quem o dizes.Ontem,quando escolhia estas</p>
<p>calças,estava eu a puxar só uma perna e outra senhora a</p>
<p>puxar pela outra, se elas não fossem resistentes</p>
<p>tinham-se rasgado logo ali ao meio que nem o menino do n</p>
<p>Salomão.</p>
<p>- Esse não se chegou a rasgar ao meio,coitado.</p>
<p>- As minhas calças também não,como se prova.</p>
<p>Mas aquela gente parecia toda louca.E se visses os</p>
<p>embrulhos que levavam à saída.Era como se quisessem</p>
<p>levar a loja inteira.Ou como se tivessem medo que as</p>
<p>coisas acabassem de vez,de um momento para o outro.</p>
<p>- E é que acabam mesmo.Os saldos não se fizeram</p>
<p>para outra coisa. É preciso vender tudo.Até o que não</p>
<p>presta.Sobretudo o que não presta.Nesta sociedade nada</p>
<p>se pode perder.Ném mesmo o que não presta.E as</p>
<p>pessoas acábam por comprar tudo.</p>
<p>- Estás a dizer-me que as minhas calças não prestam? n</p>
<p>- As tuas calças são lindas, porque tu tens a cabeça no lugar e não compras o que primeiro te cai nas mãos.</p>
<p>- A mãe também ajudou. Sobretudo a escolher a blusa. Vesti para aí uma dúzia antes de acertar com o tamanho e a cor que eu queria.</p>
<p>- É boa agora para o Verão. Que eu cá nem me lembro que estamos no Verão, com este tempo. Se me dissessem que era Outono ou Inverno, não me custava nada a acreditar.</p>
<p>- A avó da Mariana diz que o tempo anda todo mudado por causa dos astronautas que andam a mexer na Lua.</p>
<p>- Desculpa lá, mas esse bife está cru de todo. Tens mesmo a certeza de que não o queres mandar passar mais?</p>
<p>- Não quero, pai, está muito bem, tal qual como eu</p>
<p>gosto. Se não tenho assim muito apetite é porque estamos no Verão e eu tenho sempre pouca fome durante o calor.</p>
<p>- E tu chamas a isto calor? Ainda tenho três cobertores de lã na cama. E só não ponho saco de água quent porque ele rebentou há dois ou três dias e ainda não tiv ocasião de comprar outro.</p>
<p>- Uma vez o meu saco de água quente tambén rebentou na minha cama e molhou tudo, e quase me queimava. O que eu chorei.</p>
<p>- Quando foi isso?</p>
<p>- Sei lá, era eu pequena. Mas nunca me esqueci.</p>
<p>- O pior é que a roupa da cama fica toda encharcada, tem de ser mudada, é uma complicação.</p>
<p>- O pior é que a mãe ralhou comigo e não tinha razão nenhuma.</p>
<p>- Devia estar aborrecida com outra qualquer coisa.</p>
<p>- Pois devia. Mas eu não tinha culpa e ela sabia.</p>
<p>- Se calhar é por isso que tu ainda hoje te lembras disso.</p>
<p>- Se calhar é, não sei. Se calhar é só porque eu tenho excelente memória.</p>
<p>- Achas que daqui a muitos anos também te vais lembrar deste almoço, desse bife meio cru, destas tolices todas que dizemos um ao outro?</p>
<p>- Acho que sim.</p>
<p>- Porquê? n</p>
<p>- Porque é a primeira vez que estou contigo numn restaurante sem a mãe.</p>
<p>- E isso é assim tão mau para nunca mais te esqueceres?</p>
<p>- A gente não se lembra só de coisas más. Estar aqui contigo é muito bom. Mesmo que só se digam tolices.</p>
<p>- Mesmo que o bife esteja cru?</p>
<p>- O bife está óptimo! Ou melhor: estava.</p>
<p>- Queres doce?</p>
<p>- Não. Só uma maçã.</p>
<p>- Bem vermelha, como a tua blusa.</p>
<p>- Não gostas da minha blusa?</p>
<p>- É linda a tua blusa, são lindas as tuas sandálias, é lindo o teu saco.</p>
<p>- Chega, chega, também não é preciso exagerares!</p>
<p>- Não estou a exagerar. Estás linda. Acho que nunca tinha reparado que eras tão bonita.</p>
<p>- Nem que os meus olhos eram verdes.</p>
<p>- Nem que os teus olhos eram verdes.</p>
<p>- Como os da mãe.</p>
<p>- Como os da mãe.</p>
<p>Capítulo 30</p>
<p>Os astronautas, claro, e por que não? Eles ou outros, já que é tão confortável encontrar, para tudo, um culpado. Para a avó Elisa os astronautas, pois claro. Andam lá por cima e baralham tudo, diz ela. Fácil, fácil. Estica-se muito o indicador (no longe da escola velha, a voz da Amélia: nnnão se aponta que é feio,n - para quem? Para mim? Para o Gil, sempre ranhoso? Para a Vanda, que me puxava os cabelos? Para o Pedro António, que trazia sempre um lacinho vermelho na gola do bibe? Para a Rita, então ainda ignorante de dias difíceis? Tanto faz. Lembro-me, é só isso) e diz-se: foram eles. Os astronautas ou outros quaisquer.</p>
<p>Para o Zarolho, por exemplo, o culpado de tudo deve ser o cyclochaeta. Culpado dos seus pontos brancos pelo</p>
<p>corpo inteiro espalhados.Para mim, há dias, os culpados tinham sido os caracóis da Susana. Para o pai da Rita o culpado de tudo é o tempo.Tenho raiva. Do novo trajecto do 38.Desta praceta ainda sem nome.</p>
<p>Nada foi por acaso, que bom! Tudo aconteceu por culpa dos astronautas.</p>
<p>Olho para a Maria do Céu,deitada neste divã estreito</p>
<p>e penso que,afinal de contas,deve haver com certeza</p>
<p>outro culpado para lá do tempo.Porque não é justo que</p>
<p>ela esteja aqui nesta casa desconfortável, suja e velha,</p>
<p>onde as pessoas ralham e têm nódoas nos fatos e devem</p>
<p>dinheiro,e passam a vida a trabalhar em coisas de que não gostam.ela devia estar numa casa alegre</p>
<p>e com janelas por onde o sol entrasse logo de manhã.</p>
<p>Todas estas coisas parecem muito complicadas.</p>
<p>Às vezes começon a pensar em tudo isto e não consigo entender, mas penso que quando for mais velha é possível que nada disto tenha importância. Mas neste momento são coisas muito importantes. E nunca hei-de esquecer isso,por muito velha que seja, por muitos dentes de ouro que tenha, por muitas fitinhas de veludo que use ao pescoço, por muito insignificante que tudo isto então me pareça.</p>
<p>- Estás hoje muito calada - diz a Maria do Céu.</p>
<p>- Estava a pensar.</p>
<p>- A pensar em quê?</p>
<p>n - Ora, em tanta coisa.</p>
<p>(Em ti, por exemplo, e nesta casa, e na menina Dulcineia lá dentro debruçada sobre o tanque - poderia ter dito, mas não disse.)</p>
<p>- Quando eu estou assim muito calada a minha mãe diz que estou a pensar na morte da bezerra - riu a Maria do Céu.</p>
<p>- A minha avó Elisa costuma dizer que a pensar morreu um burro. Anda tudo por lá perto, já vês. A gente pensa em coisas muito profundas, muito importantes, e a nossa família só se recorda de animais. Ora são os burros ora são as bezerras. Como dizia a minha tia Magda, este mundo está cheio de gente ingrata!</p>
<p>A Maria do Céu riu com vontade, até parecia a Rosa quando era muito pequenina e eu lhe chamava nntontinhann e ela ria, ria até quase se engasgar.</p>
<p>Ouço o barulho de uma chave que se mete à porta.</p>
<p>- É a minha mãe - disse a Maria do Céu, parando subitamente de rir e tentando sentar-se melhor na cama.</p>
<p>A mãe da Maria do Céu entrou no quarto, ainda de casaco vestido e com um saco de plástico na mão. Parecia muito mais velha do que deveria ser. Parecia quase a minha avó Elisa. Ou aquelas mães que, na escola do ciclo, apareciam sempre no primeiro dia de aulas, e gritavam muito, e barafustavam, e ficavam com as caras vermelhas do calor e das tareias prometidas aos filhos. Penso na minha mãe e sei que ela não há-de envelhecer nunca. Pelo menos assim, como estas outras mães que eu conheço e que aos 30 anos parecem ter 60. Penso na</p>
<p>minha mãe e sei que ela há-de ter sempre a idade que eu quiser que ela tenha, e isso é bom.</p>
<p>- A menina desculpe, não repare nesta desarrumação, que isto é assim mesmo, quando uma pessoa trabalha fora de casa não pode deitar mão a tudo. Que eu bem tento, claro, mas com dois homens em casa o que é que se espera, não é? Este chão está a precisar de ser encerado, os vidros não vêem água há que meses, mas eu não tenho quatro braços nem dinheiro para pagar a uma mulher-a-dias, e a gente não pode exigir nada da nossa hóspede que refila logo que não é nossa criada e tem razão. . .</p>
<p>Ia falando, falando sempre, tal qual como acontecera ao telefone, olhando para todos os lados, andando para cá e para lá no quarto, sempre de casaco vestido e sem largar o saco de plástico. As pessoas que pedem desculpa por tudo e por nada irritam-me sempre um bocado. Além do mais eu não percebia por que razão a mãe da Maria do Céu havia de me pedir desculpa. Eu não percebia por que é que a mãe da Maria do Céu havia de pensar que eu me ofendia tanto por ver (não tinha visto sequer) que o chão e as janelas estavam sujos. .</p>
<p>De repente comecei a pensar que aquela era a maneira de a mãe da Maria do Céu dizer que também ela não era culpada de nada. Nem do chão sem cera. Nem dos vidros sem água há semanas. Nem da casa desarrumada. Nem da filha doente. Nem das nódoas da bata da menina Dulcineia.</p>
<p>-. . . a menina não repare, que a gente anda o dia todo numa lida e depois quando chega a casa já não dá vontade de fazer mais nada senão descansar um pouco os pés e o corpo. É jantar, ver um bocado de televisão e pronto. Que eu cá, ainda no outro dia dizia ao meu Cristóvão que a televisão é a única distracção que tenho. Isto porque ele estava a mandar vir comigo, a dizer que em vez de estar para ali refastelada melhor seria se fosse tratar das camisas dele, que uma delas estava sem botão &#8221; há três dias, que isto os homens são uns egoístas, ele para ali sentadinho mas aqui a escrava é que tem de fazer o trabalho todo. Por isso é que eu lhe disse que ao menos não me tirasse a televisão. Já que a gente nunca tem dinheiro para um cinema, para um passeio, ao menos a televisão. nnPara ver essas porcarias bem melhor seria ires dormirnn, foi o que ele me respondeu. Porcarias ou não, quero ver. É claro que acabo sempre por adormecer diante do televisor, mas isso também é do cansaço.</p>
<p>E logo de repente, no mesmo tom, como se tudo se encadeasse perfeitamente:</p>
<p>- Tomaste os remédios todos, Ceuzinha? Ai que ralação, minha Nossa Senhora, só me faltava agora mais esta doença em casa. Não há nada que nãon me aconteça, até parece que alguém me rogou alguma praga. Que a gente não acredita nestas coisas, mas às vezes parece que anda tudo doido, que ninguém se entende, que todas as coisas más nos caem em cima assim de um dia para o outro.</p>
<p>Acabou por sair do quarto tal como tinha entrado, casaco vestido, saco de plástico na mão, barafustando contra tudo e contra todos, enquanto a Maria do Céu olhava para ela sem dizer nada. E quem poderia dizer alguma coisa no meio de tal avalanche de palavras?</p>
<p>- E se a gente fosse jogar às palavras? - propus eu, não porque isso me apetecesse por aí além mas porque era preciso dizer alguma coisa e aquilo foi o que consegui encontrar naquele momento. Mas a Maria do Céu deitou-se de novo para baixo, puxou a roupa quase até ao pescoço e disse:</p>
<p>- Desculpa, mas não me apetece jogar. Dói-me um bocado a cabeça.</p>
<p>Pela casa começava já a espalhar-se um cheiro a fritos que enjoava. Um cheiro que bem se podia juntar aos astronautas, ao cyclochaeta, ao tempo, na longa lista dos culpados de tanta coisa má.</p>
<p>Capítulo 31</p>
<p>Depois do almoço no restaurante não voltara a falar com a Rita. Eu mal tinha aberto a boca, e de resto não era para conversar que tinha ido com ela. Assistira à conversa entre os dois, e mais uma vez sentira que a Rita tinha crescido muito; que a Rita estava, como o pai dela dizia, uma mulher. Às vezes pensava em mim ao pé dela e achava que só ela tinha crescido, que eu continuava na mesma, capaz de achar graça e de me divertir com brincadeiras que decerto a ela já nada diziam. Não via a Rita, ali tão segura de si a conversar com o pai, a correr atrás de imaginários espiões, ou a rir à gargalhada no meio de tendas que se armam e desarmam sobre as nossas cabeças.</p>
<p>De um dia para o outro, a Rita tinha aprendido muita</p>
<p>coisa, tinha descoberto o exacto sentido de muitas palavras,de gestos novos.Sempre a tinha conhecido com medo do pai.A minha avó Elisanchamava-lhe respeito, mas não era de respeito que se tratava.Era medo,só isso.</p>
<p>Medo que ele ralhasse,medo que ele não concordasse,</p>
<p>medo que ele lhe desse uma bofetada,medo que ele</p>
<p>gritasse.Agora,de um dia para o outro,a Rita tinha</p>
<p>perdido o medo todo.A Rita - eu via - tinha descoberto que não valia de nada ter medo.E isso tornara-a,aos</p>
<p>meus olhos,numa mulher a sério.</p>
<p>Quis dizer-lhe isso mal a vi entrar em minha casa</p>
<p>alguns dias depois.Mas é sempre difícil a gente dizer</p>
<p>essas coisas.Ela parecia bem-disposta.Olhou para o</p>
<p>aquário:</p>
<p>- O Zarolho já está mesmo bom de todo? Já agora</p>
<p>podias ter aproveitado e mandado pôr um olho de vidro.</p>
<p>Sempre ficáva mais estético.</p>
<p>- Mais respeitinho,ouviu? Olhe que está a falar de</p>
<p>um Cassius Auratus,e não de um peixe qualquer!</p>
<p>- A falar de quê???! ! ! - disse ela,assim mesmo</p>
<p>com muitos pontos de interrogação e de exclamação na</p>
<p>fala.</p>
<p>- De um Cassius Auratus. É assim que ele se chama, fica sabendo. Deve descender de algum imperador romano, com certeza.</p>
<p>- Imperador ou não imperador, já está mesmo bom de todo?</p>
<p>- O Sr. Ling disse que sim.</p>
<p>- Ainda está para chegar o dia em que o Sr. Ling diga que não - exclamou a Rita, rindo para o Zarolho.</p>
<p>- Mas desta vez era sim mesmo de verdade. Sim com a cabeça e com a boca. Tivemos sorte. O Sr. Guerreiro diz que a maior parte das doenças dos peixes são mortais.</p>
<p>Mas a Rita já não estava interessada em histórias de peixes. Sentou-se no chão e agarrou-se a uma almofada. Antes isso que a Zica, pensei.</p>
<p>- O meu quarto tem as paredes pintadas de creme. n A cama é de ferro branco e tem uma colcha às flores e , muitas almofadas em cima.</p>
<p>n Olhei para ela um pouco admirada. De repente pareceram-me aquelas frases tolas do livro de ensinar espanhol à pressa que eu tinha lá em casa. Depois pensei que o quarto da Rita não era nada assim como ela estava a dizer. A cama era castanho-escura, tal como a cómoda e o guarda-fato, com uma colcha de renda que tinha custado não sei quantos contos de réis e por isso nem pensar em sentarmo-nos em cima dela. Pelo menos era sempre isso que a mãe dela dizia.</p>
<p>- É bonito o meu quarto. Já lá dormi esta noite. Compreendi então que tinha sido muito estúpida. Era mais que evidente que a Rita se referia ao quarto em casa do pai. Agora que ela tinha dois quartos, em duas casas diferentes.</p>
<p>- E dormiste bem? - perguntei. Era uma pergunta estúpida, eu sabia, mas não consegui dizer senão isso. Ela também percebeu. Riu-se:</p>
<p>- Não tive pesadelos, se é isso que queres saber. Também não tive sonhos especiais, é verdade. Mas dormi bem. Sabes. . Parou um pouco, a arranjar coragem para o resto das palavras.</p>
<p>- Acho que o meu pai está diferente. Isto pode parecer estúpido, não te rias do que vou dizer, mas é assim como se o meu pai tivesse crescido, sabes? A gente em criança faz muitos disparates porque não percebe bem as coisas e depois quando cresce é que entende os disparates que fez. Com ele é assim um bocado. Parece que deixou de ser criança e agora entende tudo de maneira diferente. É bom ter um pai crescido, sabes. Dá mais segurança à gente. Pode-se conversar sem medo que venha uma birra, um amuo. Lembras-te da Filipa?</p>
<p>A Filipa era uma das nossas amigas da escola primária que eu já não via desde esse tempo. Acenei com a cabeça, sem falar, pois claro que me lembrava da Filipa.</p>
<p>- Encontrei-a no outro dia. Os pais dela também se separaram. Mas disse-me ela que o pai saiu sem dizer nada a ninguém. Um dia ela chegou do liceu e o pai já não estava em casa. Tinha feito a mala de manhâzinha, e ala que se faz tarde, sem dar cavaco a ninguém. É por isso. . .</p>
<p>Mais uma paragem. E um silêncio de segundos que parecem minutos ou até horas intermináveis, e eu a dizer n de mim para mim, nncontinua, Rita, não tenhas medo das palavras, não as engulas, não as cales, não tenhas vergonha&#8221;, e ela depois:</p>
<p>- É por isso que eu digo que o meu pai cresceu. Porque ele também podia ter feito o mesmo que o pai da Filipa. Nada o impedia. Talvez até fosse mais fácil para ele: evitava as despedidas, as palavras, as justificações. E no entanto esperou por mim, falou comigo. Sabes uma coisa? Acho que só agora é que eu começo a sentir que é bom ter um pai. Por isso é que eu não suporto aquelas pessoas que olham para mim como se me tivesse acontecido a maior desgraça do mundo. De repente descubro que o meu pai é um homem bom, uma pessoa que se preocupa comigo, e as pessoas ficam com ar desolado e chamam-me coisas tolas. Mas como é que eu lhes explico isto, diz-me lá?</p>
<p>- E a tua mãe? - pergunto eu. Porque a Rita raramente falava da mãe nestes últimos tempos. Encolheu os ombros e sorriu:</p>
<p>- O mal da mãe é precisamente estar rodeada de gente dessa. Gente que passa a vida a meter-lhe pelos ouvidos dentro que ela é uma desgraçada, sem marido e com uma filha para criar. Como se o meu pai tivesse morrido e eu acabado de nascer. Ou como se a minha mãe não pudesse voltar a casar. Ao princípio isso fez-lhe muito mal. Agora está bastante melhor. Pelo menos, como ela diz, nnisto agora é um sossego de casa, acabaram-se as discussões e as portas a bater&#8221;. E têm ambos uma coisa boa: não mandam as culpas um para cima do outro. Porque a Filipa diz que a mãe passa o tempo a chamar nomes ao pai e vice-versa. Já imaginaste que inferno deve ser o dela?</p>
<p>Não imaginava, claro. Coisas dessas a gente imagina sempre ou de mais ou de menos, e nunca como elas são na realidade. Mas fiz que sim com a cabeça (até parecia o Sr. Ling, lá no seu mundo de peixes) para não desiludir a Rita.</p>
<p>- Já sabes como vais passar as férias? - perguntei depois. Ela abanou a cabeça.</p>
<p>- Não. Ainda ninguém falou nisso. Acho que vou mesmo ficar por cá. A praia aos fins-de-semana, e já não é mau.</p>
<p>Estava eu a encher-me de coragem para lhe dizer que dali a dias partia para Espanha, quando a Rosa entrou de repente no quarto, e se deitou no colo da Rita espreguiçando-se como se estivesse na mais bela das cadeiras de repouso:</p>
<p>- Tu também vais - sentenciou ela, dedo espetado para a cara da Rita.</p>
<p>- Eu também vou onde? - perguntou a Rita, divertida.</p>
<p>- A Espanha - disse a minha irmã.</p>
<p>A Rita deu uma gargalhada.</p>
<p>- A Espanha a uma hora destas? A Rosa está maluquinha da cabeça. E o que havia eu de ir fazer a Espanha?</p>
<p>- Ver os lobos.</p>
<p>- Para ver os lobos vou aqui ao Jardim Zoológico, que é mais barato.</p>
<p>- A Rosa também já lá foi.</p>
<p>E lá correu outra vez para o corredor, que estar mais que alguns segundos no mesmo lugar é coisa que a minha irmã não é capaz de fazer.</p>
<p>Foi precisamente com a entrada da Rosa no meu quarto e toda a sua conversa que me nasceu uma brilhante ideia. Não há dúvida que as irmãs mais novas são a maior invenção de todos os tempos.</p>
<p>Capítulo 32</p>
<p>A mãe disse logo que sim, mas que era preciso muito cuidado na maneira de lhe explicar as coisas, não fosse ela pensar que a gente tudo fazia por pena dela. E já agora que se esperasse pelo pai, para ele dar também a sua opinião, nnque isto, resmungou a avó Elisa, nntrês cabeças sempre pensam melhor que duasnn - tudo para eu ver como se sentia ofendida por eu não ter pedido também a sua opinião sobre o assunto. Tentei remediar o esquecimento.</p>
<p>- E o que é que tu achas, avó?</p>
<p>- Eu? Eu não acho nada. Nem sequer cinco réis a varrer a cozinha.</p>
<p>Não havia dúvida: estava muito ofendida. Acontecia sempre isso quando via as coisas decidirem-se lá em casa sem ela ter sido ouvida.Para arreliar o meu pai,dizia</p>
<p>então que isso da democracia era muito bonito,muito</p>
<p>bonito,mas para os outros,pois quando chegava a nossa</p>
<p>vez, era o que se via. O meu pai fazia que não ouvia.</p>
<p>metia-se nas suas palavras cruzadas,e ela acabava por</p>
<p>esquecer a ofensa. Pensei fazer o mesmo, mas depois</p>
<p>sempre me decidi a perguntar-lhe, mais uma vez, o que</p>
<p>pensava da minha ideia. Quis ficar amuada mais um</p>
<p>bocado,mas acabou por responder:</p>
<p>- Cá por mim, ela não incomoda. Desde que não vá</p>
<p>ao meu colo. . . Sim, porque uma viagem a Espanha não</p>
<p>é exactamente o mesmo que uma viagem à tabacaria da</p>
<p>esquina.</p>
<p>Quando o meu pai chegou (e antes que ele acendesse</p>
<p>o cachimbo e se metesse lá com os gorgulhos tropicais ou</p>
<p>com a cortesã grega mulher de Péricles) ficou decidido:</p>
<p>a Rita também iria connosco.</p>
<p>- Agora vê lá como lhe vais dizer - insistiu</p>
<p>a minha mãe.</p>
<p>- Tu é que podias falar com a mãe dela - arrisquei, nn</p>
<p>para ver se pegava.Não pegou. n</p>
<p>- A ideia foi tua,não foi? Então és tu que lhe deves</p>
<p>dizer.Não me digas que tens medo!</p>
<p>Logo a voz espevitada da minha irmã,sempre a cirandar pela casa toda. n</p>
<p>- A Rosa não tem medo.A Rosa fala tudo.A Rosa</p>
<p>já sabe tudo e vai a Espanha.</p>
<p>Fiz-lhe uma festa.Não era medo,claro,olha que</p>
<p>tolice,agora medo.Mas era assim um bicho esquisito a</p>
<p>morder-me o estômago como na véspera dos pontos no</p>
<p>liceu,ou na véspera do almoço com a Rita e o pai.Tinha</p>
<p>de pensar muito bem nas palavras,de medir muito bem o</p>
<p>tamanho de cada uma,e os exactos silêncios entre elas.</p>
<p>Um rigor quase científico,como nas experiências de</p>
<p>Ciências: nem uma gota a mais nem uma gota a menos.</p>
<p>Não queria que a Rita pensasse de mim o que pensava</p>
<p>das pessoas que a olhavam com ar desolado e a convidavam para tudo e para nada nnporque, coitadinha, ela tinha de esquecer. Em tempos normais bastaria um telefonema, meia dúzia de palavras, uma gargalhada pelo meio e tudo se combinava. E talvez ela até começasse a assobiar, coisa que há tanto tempo não faz. Mas agora, apesar de tudo, ainda não estávamos em tempos normais, ambas o sabíamos. Por muito forte que ela se mostrasse, por muito que tivesse subitamente crescido, ela podia ainda magoar-se com uma ou outra palavra mais desajeitada. E a rapidez com que elas às vezes me saltavam da boca, Santo Ambrósio !</p>
<p>Enfio-me no meu quarto a preparar o discurso. Tudo tinha de ser minuciosamente trabalhado. Abro o guarda-vestidos, ponho-me em frente do espelho.</p>
<p>- Queres ir a Espanha connosco, Rita? O pai diz que. .</p>
<p>Não. Acho que não devo falar-lhe em pai nem mãe. Tenho de dar outra volta a isto. Se fosse recado escrito, amarrotava agora a folha de papel, escolhia outra, começava tudo de novo. Assim:</p>
<p>- A gente tem um lugar a mais no carro, queres vir connosco?</p>
<p>Volto a parar. Lembro-me que a Rita não sabe ainda que vamos a Espanha e pode pensar que estou a convidá-la para a voltinha dos tristes até Cascais ou à Boca do Inferno. É preciso arranjar um discurso diferente e nisto não há como enfrentar os problemas bem de frente. Aclaro a voz, olho-me de novo ao espelho na pele da Rita:</p>
<p>- Segunda-feira vamos a Espanha, queres vir connosco?</p>
<p>De repente viro a cabeça e dou com os olhos esbugalhados da minha irmã sobre mim. A um canto do quarto, silenciosa como raramente, a Rosa devia pensar que eu enlouquecera.</p>
<p>- A Rita? - foi só o que conseguiu perguntar, no meio do seu espanto.</p>
<p>Começo a rir e pego nela ao colo, como quando ela tinha meses e cabia inteirinha nos meus braços.</p>
<p>- A Rita está em casa dela, e tu tens a irmã mais tontinha do universo.</p>
<p>A Rosa põe os braços à volta do meu pescoço e ri muito, muito, não porque eu tenha dito uma coisa extremamente engraçada mas apenas porque a palavra nntontinhann a faz rir sempre até às lágrimas.</p>
<p>- E agora gire para o pé da avó, que eu preciso de me concentrar no discurso - digo-lhe eu em voz falsamente grossa de pessoa falsamente importante.</p>
<p>Mas já não fui capaz de retomar o fio à meada. Olhava para o espelho e sentia-me tão ridícula que acabei por fechar a porta do guarda-vestidos e pensar que o melhor seria a inspiração do momento. Também a Rita tinha ensaiado comigo tanta coisa a dizer ao pai, e quando se encontrou diante dele soube encontrar exactamente as palavras necessárias. E nenhuma era das que ela tinha antes preparado.</p>
<p>Além disso estava escrito que eu não havia de ter sossego naquela tarde. Despachada a minha irmã, ouço a voz da minha avó, muito mansa, muito doce, isto é, a preparar terreno para me pedir alguma coisa, que eu bem a conheço há 13 anos.</p>
<p>- Marianinha. . .</p>
<p>- Já aprendeu com o Sr. Guerreiro, já? - digo eu para a arreliar. Não há nada que eu goste mais do que uma avó arreliada. Mas ela fez que não tinha ouvido nada.</p>
<p>- És capaz de dar um pulinho ao supermercado? Estende-me um bocado de papel com tudo escrito, não vá eu esquecer alguma coisa, entrega-me o porta-moedas, que já trazia na mão, e volta a entrar na cozinha, sem mesmo esperar pela minha resposta. Porque as avós também têm os seus truques.</p>
<p>Capítulo 33</p>
<p>Estico bem o braço para a prateleira das sopas de pacote, com cuidado não vá empurrar a prateleira de baixo com o cotovelo e fazer cair as caixas de bolachas, e os olhos vão-se perdendo pelas letras em cores berrantes, cada uma prometendo um universo de maravilha para as donas de casa e suas excelentíssimas famílias. Com jeito, muito jeito, tiro do meio delas uma embalagem de sopa de cenoura, mas logo ao lado prometem-me que, se eu levar duas de cebola, dão-me a terceira de graça, e eu até nem gosto de sopa de cebola mas como resistir à oferta e aos rótulos tão brilhantes e com uma cebola tão bem desenhada que a gente até chega a pensar que se enganou, e que é impossível não gostar de uma coisa tão bonita, com tantas cores, e de graça, esta cebola deve certamente ter um sabor diferente e não aquele de que eu não gosto.</p>
<p>n E depois das sopas,na prateleira em frente,50marcas</p>
<p>diferentes de detergentes informam que cada um deles é o</p>
<p>melhor para a minha roupa, que cada um deles foi</p>
<p>elaborado expressamente a pensar em mim,e eu fico tão</p>
<p>contente e tão agradecida só de imaginar aquelas pessoas</p>
<p>todas que fazem detergentes a pensarem na minha roupa,</p>
<p>nnn e a dizerem uns para os outros nncomo a camisola da</p>
<p>Mariana vai ficar mais macia lavada com este nosso</p>
<p>produto&#8221;,ou então nncomo os lençóis onde a Mariana</p>
<p>dorme vão ficar mais brancos com este nosso pónn,e os</p>
<p>n aurículos e ventrículos do meu coração ficam cheios de</p>
<p>gratidão por tanto trabalho por minha causa.Só que</p>
<p>dentre 50marcas,todas elas feitas a pensar em mim,fico</p>
<p>assim sem saber qual hei-de levar,todas elas comprovadas por científicos testes e pelos sorrisos de senhoras nas</p>
<p>fotografias das embalagens,decerto também a pensarem</p>
<p>em mim.</p>
<p>E depois dos detergentes há os purificadores do ar,</p>
<p>com cheiro a pinho,alfazema,rosas,flores campestres,e</p>
<p>alguns até têm nomes estrangeiros para mostrarem mais</p>
<p>eficácia,e há sempre pelo meio das latas uma que se</p>
<p>chama nngreen flower&#8221;,nngolden day&#8221;,ou nnmorning star&#8221;</p>
<p>ou qualquer coisa no género,e a gente pensa logo como</p>
<p>aquilo deve cheirar bem,deve cheirar melhor do que um</p>
<p>que promete apenas nnar puro&#8221; no rótulo,e nos dias de</p>
<p>hoje quem é que gosta de ar puro,com 84987marcas</p>
<p>diferentes a prometer,todas elas,cheiros diferentes?</p>
<p>E então a dona de casa curiosa,e que vai ao supermercado despenteada e com cheiro a lixívia nas mãos e não se</p>
<p>parece mesmo nada com as donas de casa tão bem</p>
<p>penteadas das embalagens dos produtos,quer mesmo</p>
<p>saber se tudo aquilo é verdade,e se a alfazema cheira</p>
<p>mesmo a alfazema,e a que coisa estranha irá cheirar o</p>
<p>nnmorning star&#8221;,e então abre o frasco e carrega ligeiramente tal como mandam as instruções,e logo se espalha</p>
<p>um vapor ligeiramente perfumado mas que, na maior parte dos casos, não é nada parecido como o que ela leva na ideia (ou no olfacto). Então volta a colocá-lo na prateleira, até que vem uma outra dona de casa e faz exactamente o mesmo, e outra, e mais outra ainda, e muitas outras, e quem comprar aquela embalagem já a leva meio vazia, de tanta experiência.</p>
<p>Olho o papel que a minha avó me deu: faltam ainda manteiga, alfaces, farinha. E diante da prateleira das alfaces uma dona de casa protesta, nnse já se viu uma coisa destas, uma alface custar 156 escudos, isto é o fim do mundo, até que outra tenta acalmá-la nnó senhora, não vê que isso é o preço do quilo?nn, mas ela não desarma não dá parte de fraca, nne mesmo que seja o quilo, já viu quanto pesa uma alface, já? Para aí uns 300 gramas! Agora faça-lhe a conta e veja se eu não tenho razão ! nn, e a outra abanou a cabeça mas ján não encontrou palavras para responder ao que via não ter resposta possível, ou então já estaria a sentir sobre si todos os sorrisos de todas as donas de casa de todas as embalagens, que nunca refilam com o preço das coisas, para quem tudo está sempre certo, mesmo que uma alface ou um quilo dela custe 156 escudos.</p>
<p>Entre as de sal, meio-sal, sem sal, de 250 ou de 125 gramas, dinamarquesa ou portuguesa, desta ou doutra marca, com mansas vaquinhas olhando-nos no papel azul e branco da embalagem, ou apenas letras coloridas, escolho um pacote de manteiga. Aqui, ao menos, nenhum rótulo jura que os pachorrentos animais pensaram no meu bem-estar, e só nele, enquanto produziam o leite.</p>
<p>Volto a conferir o papel, não vá faltar alguma coisa, e meto-me na bicha para pagar. As pessoas têm todas muita pressa, querem todas passar à frente desculpando-se com a frase sacramental nntenho só estas duas coisas para pagar, é um instantenn, e às vezes o truque resulta e elas lá vão passando à frente dos outros, que resmungam até</p>
<p>chegar a sua vez. E todos resmungam e refilam, menos a menina da caixa registadora, que entrou às 8 da manhã e só vai sair à noite, e que não faz outra coisa senão ver os preços, bater as teclas da máquina, ouvir o apito, dar o troco, sorrir, dizer Muito obrigada, como se aquele dinheiro fosse direitinho para o seu bolso em vez de ir para a gaveta da caixa registadora, que ela irá conferir ao fim do dia.</p>
<p>Lá fora cai de novo uma chuva mansa, neste Verão fosco e sem graça. De repente sinto saudades do meu fim-de-semana em Almornos, com a tenda a cair sobre a minha cabeça, e o riso que havia, e as brincadeiras e nós todos juntos. Deixo a chuva correr um pouco pela minha cabeça (não tenho caracóis para estragar) como quando era muito pequena e gostava de chapinhar nas poças de água quando chegava da escola. Apetece- me furiosamente um chocolate. Com amêndoas, se possível. Aqui está uma coisa que a Susana nunca faria. Porque comer chocolate engorda e faz borbulhas na cara,. e a mãe quere-a sempre impecável como boneca de porcelana, sem defeitos.</p>
<p>Entro no café, escolho o que me parece mais saboroso (e maior. . . ) e sinto-me bastante melhor, capaz de aguentar a chuva, o dia fosco, os aborrecimentos, as bichas no supermercado, o quilo de alfaces a 156 escudos, o saco de plástico a magoar-me os dedos, o passeio enlameado que leva até casa.</p>
<p>É então que vejo a Rita a correr ao meu encontro, sem chapéu de chuva nem nada, ela sempre tão cuidadosa com as possíveis gripes e constipações. A Rita a correr de verdade, como no tempo em que ainda não tinha crescido tanto, em que as palavras eram todas mais simples de dizer. Chegou ao pé de mim quase sem fôlego. Pensei em 8847 coisas diferentes que lhe poderiam ter acontecido (com a Rita nunca se sabe. . .) mas, pelo ar divertido com que me olhava, percebi que, pelo menos, coisa grave não era. Respirei fundo, dando outra dentada no chocolate, e aproveitando para mudar o saco de plástico para a outra mão. A Rita saltava à minha beira como se subitamente tivesse voltado aos 3 anos da Rosa, mas só conseguia dizer:</p>
<p>- Quero ! Quero ! Quero !</p>
<p>Capítulo 34</p>
<p>Eu não estava a perceber nada, mas pelo menos sentia-me satisfeita por ver a Rita tão contente. Há tanto tempo que ela não ria assim, com a boca inteira, o corpo todo, a alegria a transbordar-lhe da pele.</p>
<p>Agarrou-me pelos ombros e fez-me girar com ela (a Amélia, lá tão longe na memória: nno pretinho Barnabé, tiro-liro, tiro-liro, o pretinho Barnabé, tiro-liro-lé. . . nn).</p>
<p>- Larga-me, Rita ! Olha que eu deixo cair isto tudo !</p>
<p>- E eu ralada! - ria ela, continuando a sua dança. E de repente, como quem já não aguenta mais o peso de um segredo:</p>
<p>- Vou com vocês a Espanha!</p>
<p>A frase logo ali transformada em cantiga de roda,</p>
<p>comigo metida dentro dela, com saco de plástico e chocolate, e a chuva a cair sempre:</p>
<p>- Eu vou com vocês a Espanha giroflé, giroflá, eu vou com vocês a Espanha, giroflé, flé, flá!</p>
<p>Naquele momento uma vozinha cá dentro de mim agradeceu muito à minha mãe que afinal sempre se decidira socorrer a filha necessitada de ajuda. É dos livros: as mães refilam, dizem que não, que mais isto e mais aquilo, mas acabam sempre por se comover com os pedidos das filhas.</p>
<p>- Foi a minha mãe que te disse?</p>
<p>- A tua mãe? Eu nem vi a tua mãe!</p>
<p>O meu esquema começava a ficar, subitamente, alterado.</p>
<p>- Então quem foi?</p>
<p>- Ora quem havia de ser: o porta-voz lá de tua casa.</p>
<p>- Quem???</p>
<p>- A tua irmã.</p>
<p>A Rita parara finalmente de dançar na rua.</p>
<p>- Fui lá a tua casa e, mal a tua avó me abriu a porta, a Rosa atirou-se de encontro a mim, numa cantilena desenfreada: nna gente vai a Espanha e tu vais tambémnn isto repetido vezes sem conto, como se alguém lhe tivesse dado corda, e com uma história muito complicada pelo meio, acho que metia lobos e princesas e cabritinhos. E depois ficava muito séria, espetava assim o dedo na minha cara e dizia: nnao colo da avó é que não&#8221;. Isso é que eu não entendi lá muito bem, eu não costumo andar ao colo da tua avó para a Rosa estar tão aflita, mas tu já sabes como é a tua irmã quando começa com as histórias dela. Perguntei à tua avó o que era aquela excitação toda, e ela confirmou tudo. Menos aquela história de eu não ir ao colo dela, claro. Aí tens o romance todo!</p>
<p>Pronto. É assim que uma respeitável jovem de 13 anos, cheia de qualidades e de encanto, com o dom da palavra entre muitos outros, se vê, de um momento para</p>
<p>o outro, destronada por uma linguareira de 3 anos de</p>
<p>idade. Tinha eu já o meu discurso preparado, feito com</p>
<p>tOdo o rigor para não magoar a Rita, e sai-me tudo ao</p>
<p>contrário. Começo por me sentir ofendida nos meus brios</p>
<p>de irmã mais velha, mas acabo por fazer coro com o riso</p>
<p>da Rita. Como diria o Sr. Guerreiro se aqui estivesse agora nnrendo-me às circunstânciasn,. E as circunstâncias</p>
<p>- há que reconhecê-lo - são altamente favoráveis à Rosa, que fez bem melhor trabalho do que eu.</p>
<p>Crescer é bom mas tem certos inconvenientes, para lá de não cabermos nos vestidos que ficaram do Verão passado: começamos a complicar as coisas, começamos a ter medo das palavras, começamos a pensar mais na reacção dos outros. No fundo, devia ser a isto que a tia Magda chamava nnresponsabilidadenn, enchendo a boca toda com a palavra, que ela adorava entre todas as da língua portuguesa.</p>
<p>No entanto, tentei ainda fazer o papel de ofendida:</p>
<p>- A Rosa bem podia esperar que eu chegasse a casa para te dar a novidade. Mas aquela criança não pode estar calada muito tempo.</p>
<p>- Não te irrites, Marianinha! Não te irrites que ficas com rugas antes de tempo!</p>
<p>- Não me chames Marianinha!</p>
<p>- Pronto, pronto, eu retiro o nnMarianinhann! Mas não venhas para cá com esses ares ofendidos que isso comigo não pega. Não venhas com histórias que eu sei bem que tu estavas para aí aflita sem saberes como haverias de me fazer o convite, não fosse eu pensar que também tu estavas a enfileirar no meio de todos aqueles que andam à minha volta com ar de gatos-pingados procurando levar-me para aqui e para acolá para nnver se eu esqueço, com imensa pena nos olhos e nas palavras.</p>
<p>Aí fiquei danada. Se não estivesse a comer o meu chocolate com amêndoas acho que teria barafustado logo no meio da rua. Mas o chocolate acalma-me sempre as fúrias. Franzi as sobrancelhas. Ninguém - nem mesmo a Rosa - tinha o direito de dar com a língua nos dentes dessa maneira. Ergo para a Rita o meu mais furibundo olhar.</p>
<p>- Quem é que te disse isso?</p>
<p>Ela estalou a rir.</p>
<p>- Ninguém. Mas era fácil de adivinhar. .Se não, já me tinhas telefonado a contar tudo, como dantes.</p>
<p>Dantes. Nesse pequenino mundo em que ambas tínhamos vivido e que já desaparecera. Nesse pequeno mundo onde a Rosa ainda vive, e corre, e fala tudo o que tem a falar.</p>
<p>- Não é por pena - digo eu.</p>
<p>- Eu sei - diz a Rita.</p>
<p>- É porque é bom estarmos juntas. No restaurante com o teu pai, a fazer companhia à Maria do Céu naquela casa velha, aqui no meio da rua a apanhar chuva, a caminho de Espanha ou do fim do mundo. É bom. É bom sermos amigas. É bom estarmos ao pé uma da outra. Como tu dizias há dias, aguentamos melhor.</p>
<p>- Aguentamos tudo - diz a Rita.</p>
<p>A chuva escorre um pouco pelo nosso cabelo, pelo saco de plástico, em pequeninas gotas transparentes e frias. Esta chuva tranquila de Verão, que não cheira a nngolden day&#8221;, nem a nngreen flower&#8221;, nem a nnmorning star&#8221;, mas apenas a terra fresca aos nossos pés. Estendo à Rita o meu chocolate já meio comido:</p>
<p>- Toma. Dá uma trincadela, que isto aquece.</p>
<p>Caminhámos devagar até casa, o chocolate terminado mesmo à entrada da porta. Sacudimos as gotas de chuva do cabelo. Mesmo assim a minha avó começou logo a prever milhentas catástrofes mal nos viu entrar:</p>
<p>- Com esta chuva e vocês nem ao menos uma sombrinha levaram! É gripe certa, vão ver! Ao menos bebam alguma coisa quente.</p>
<p>A Rita tentou acalmá-la e mandar para bem longe os seus agoiros:</p>
<p>- Isto é chuva que não molha ninguém, até faz crescer o cabelo. E nós somos fortes, não há nada que entre connosco !</p>
<p>Passei o meu braço pelos ombros da Rita, sorrindo para ela:</p>
<p>- Nós aguentamos tudo - disse eu.</p>
<p>- Tudo - repetiu ela.</p>
<p>Fim</p>
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		<title>As Aventuras de Pequenu</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 16:22:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Historias Infantis</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos Infantis]]></category>

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		<category><![CDATA[grande]]></category>

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		<description><![CDATA[- Era uma vez um homenzinho, tão pequenino como o vosso dedo mindinho.
- Tão pequeno como o meu dedinho pequeno, tio?
-Ezactamente, do tamanho do teu dedinho pequeno.
- Meu Deus, como era pequenino, esse homenzinho! Entretanto, o meu olhar vagueia pela sala, em busca de inspiração. Ah! aproxima-se o Natal, por isso será mais fácil contar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Era uma vez um homenzinho, tão pequenino como o vosso dedo mindinho.</p>
<p>- Tão pequeno como o meu dedinho pequeno, tio?</p>
<p>-Ezactamente, do tamanho do teu dedinho pequeno.</p>
<p>- Meu Deus, como era pequenino, esse homenzinho! Entretanto, o meu olhar vagueia pela sala, em busca de inspiração. Ah! aproxima-se o Natal, por isso será mais fácil contar uma história do Pai Natal.</p>
<p>- Diz-me, tio, como se chama o homenzinho? Lentamente respondo:</p>
<p>- O homenzinho chama-se.</p>
<p>E procuro encontrar um nome: João pequeno; Polegarzinho, Dedito, Pequenino, <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/as-ferias" >Pequenu</a>.</p>
<p>Sim, senhor, <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/pequenu" >Pequenu</a>! Que boa ideia.</p>
<p>E foi assim, que já há alguns anos, nasceu Pequenu, e, desde então, tenho continuamente que contar histórias a seu respeito. Antes demais, é preciso que a história seja palpitante. O que as crianças preferem é que Pequenu se meta em sarilhos. Então meço cuidadosamente a minha</p>
<p>eloquência.</p>
<p>- E depois - gritam as vozes ansiosas.</p>
<p>Calo-me, e eles agitam-se. Recomeço então, falando pausadamente :</p>
<p>- Nessa altura entrou o <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/bigodes" >Bigodes</a> e.</p>
<p>- É o gato, não é ?</p>
<p>&#8211;Pois, já se sabe que é o gato!</p>
<p>-E ele irá ajudar o Pequenu?</p>
<p>- Isso ainda não sei -respondo com <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/grande" >grande</a> seriedade.</p>
<p>&#8211; Cala-te - interrompe o mais velho.</p>
<p>- Deixa o tio continuar -protesta outro.</p>
<p>Mas a ajuda chega sempre a tempo, e ouvem-se três suspiros de alívio, quando uma vez mais o pobre Pequenu se salva.</p>
<p>E foi assim que nasceram as minhas histórias do</p>
<p>Pequenu, e tenho tentado mantê-las sempre dentro do mesmo esp irito.</p>
<p>Os assuntos são escolhidos na vida quotidiana das crianças; fiz tudo para evitar dificuldades e palavras dificeis. Na leitura em voz alta, procurem imitar os ruidos.</p>
<p>Encontrarão muitas vezes nas minhas histórias as palavras e, então, ou, mas nunca os pronomes. Procuro designar os personagens pelos seus nomes, porque reparei que as crianças não os reconhecem por ele, ou ela.</p>
<p>Quantas vezes, depois de fer dito: E então ele disse. ouvi imediatamente : queres falar do Pequenu, não é, tio?</p>
<p>Ele ou Ela perdem o seu significado de pronome para uma criança que só conhece o nome.</p>
<p>É realmente muito agradável ler ou contar histórias, mas é preciso fazê-lo com seriedade e sobretudo, vagarosamente.</p>
<p>Contada ou lida, cada uma destas histórias deve durar aproximadamente quinze minutos.</p>
<p>PEQUENÚ</p>
<p>Todos diziam que estava um tempo horrível, e que nunca se tinha visto tanta chuva.</p>
<p>O céu estava cheio de grandes nuvens pretas; o vento soprava tão forte, que fazia ondas largas no rio.</p>
<p>- Bem - disseram todos ao mesmo tempo -, é melhor hoje não sairmos.</p>
<p>E as mães disseram aos seus filhinhos:</p>
<p>-Com este tempo, não se pode, nem pôr o</p>
<p>nariz fora da porta, ficavam todos molhados; é melhor brincarem dentro de casa.</p>
<p>Uma <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/as-ferias" >grande</a> folha, flutuava no rio; dançava sobre as ondas como uma rolha, e o vento empurrava-a para a frente. Sobre esta folha, estava sentado um minúsculo homenzinho com uma fatiota muito engraçada. um pequeno carapucinho azul, camisinha branca às pintas vermelhas, e calcinhas azuis. O homenzinho tinha uma barbicha branca e chamava-se Pequenu.</p>
<p>Mas, como é que o Pequenu podia estar sentado na folha do castanheiro sem cair?</p>
<p>Precisamente por ser tão pequenino: tão pequenino como o teu dedinho pequeno!</p>
<p>Mas, apesar disso, o Pequenu tinha muito medo de cair à água, e agarrava-se à folha com quanta força tinha.</p>
<p>- Ai - suspirava ele, - que horrível temporal! Estou todo encharcado! Que vai ser de mim? Há tanto tempo que já ando sacudido, em cima desta folha, e tenho tanta fome!</p>
<p>-Que é que tu julgas que se tinha passado? Porque é que o Pequenu andava a boiar, em cima desta folha?</p>
<p>Antes deste acidente, Pequenu morava numa grande floresta, num país muito longe.</p>
<p>Um dia que ele tinha trepado quase até ao cimo dum grande castanheiro, o vento começou a soprar com toda a força.</p>
<p>Uh uh uh - assobiava o vento nos ramos. Pequenu esteve quase a ir pelos ares, mas conseguiu agarrar-se com toda a força a uma grande folha do castanheiro.</p>
<p>Uh! uh! uh!-e o vento soprava cada vez mais forte. De repente, santo Deus, que aflição, o vento arrancou a folha de Pequenu e lá foi tudo pelos ares!</p>
<p>- Socorro, socorro, - gritava o pobre Pequenu, mas ninguém ouvia a sua vozinha, e o vento levava-o pelos ares, bem agarrado à folha.</p>
<p>E o Pequenu voava sobre as árvores e os campos, sobre as casas e as quintas, sobre as cidades e as aldeias, longe, sempre mais longe, empurrado por aquele horrível vento!</p>
<p>Como o pobre Pequenu ia cheio de medo! De repente, começou a chover. Com o peso das gotas de água, a folha do castanheiro começou a descer, a descer. Pequenu via o chão a aproximar-se, e também um grande rio; e agora o Pequenu tinha mais medo que nunca. Fechou os olhos, aperto-us com muita força, e ploc, a folha caiu na água.</p>
<p>Mas o Pequenu não tinha largado a folha, e por isso agora flutuava no rio como um barquinho.</p>
<p>Numa volta do rio, Pequenu viu árvores em terra; a folha do castanheiro bateu na margem, e o Pequenu apressou-se a trepar para terra firme. Depois, sentou-se um bocadinho! Como estava cansado, pobre Pequenu!</p>
<p>Mas, que lhe havia ainda de acontecer? Pequenu viu chegarem-se a ele duas grandes patas vermelhas, sobre a erva verde; e depois, de repente, um bico muito comprido chegou mesmo ao pé dele.</p>
<p>- Atenção, atenção Dona Cegonha, -gritou Pequenu</p>
<p>- Quem me chama?-exclamou a Cegonha.</p>
<p>-Sou eu, o Pequenu.</p>
<p>A cegonha olhou muito admirada para aquele homenzinho tão pequenino.</p>
<p>- Homenzinho, donde vieste ?</p>
<p>- Venho de muito, muito longe, Dona Cegonha.</p>
<p>-E para onde queres ir, homenzinho?</p>
<p>- Sei lá, sei lá : bem gostava de voltar para a minha floresta, mas é tão longe, suspirou o Pequenu.</p>
<p>-Bem, mesmo aqui pertinho há outra floresta grande, posso lá levar-te, se quiseres.</p>
<p>- Oh, sim, se faz favor, Dona Cegonha - disse o Pequenu.</p>
<p>E a cegonha pegou no Pequenu com o bico e partiu a toda a pressa; flap, flap, cantavam as suas asas, levando o Pequenu.</p>
<p>Chegaram depressa a uma grande floresta. O ninho da cegonha era em cima duma árvore muito grande, mesmo lá em cima.</p>
<p>Clac, clac, clac, ouviu-se logo que chegaram. Era o Papá Cegonha que vinha saber notícias.</p>
<p>- Este é o Pequenu - disse a Mamã Cegonha. - Vem de muito longe.</p>
<p>Mas o Pequenu que estava todo molhado começou a tremer de frio.</p>
<p>-Anda sentar-te debaixo das minhas asas</p>
<p>- disse a Mamã Cegonha. - Num instante estarás seco e bem quentinho.</p>
<p>E o Pequenu não esperou que a Cegonha o chamasse outra vez. Passou a noite no ninho das cegonhas.</p>
<p>E foi assim que o Pequenu, o nosso homenzinho pequeno, chegou à floresta perto da cidade onde havia de viver tantas aventuras.</p>
<p>E, as aventuras começaram logo na manhã seguinte.</p>
<p>- Pequenu - disse o Papá Cegonha -, a minha mulher e eu vamos fazer uma viagem, talvez seja melhor pôr-mos-te lá em baixo.</p>
<p>-Então está bem, se faz favor.</p>
<p>E o Papá Cegonha, com muito jeitinho, pegou no Pequenu e pousou-o em terra. Depois disse-lhe :</p>
<p>-Adeus Pequenu, espero que encontres depressa uma linda casinha.</p>
<p>-Obrigado, Papá Cegonha, e boa viagem. E o Pequenu entrou na floresta à procura duma casinha.</p>
<p>PEQUENÚ E O NINHO DAS TOUPEIRAS</p>
<p>Quando o Papá Cegonha o pousou em terra, Pequenu começou a andar na floresta. Como as árvores eram grandes! E o Pequenu dizia para consigo: Se ao menos eu encontrasse uma casinha para morar; o mais pequenino buraquinho já servia!</p>
<p>Mas o que seria aquele montinho que o Pequenu viu entre as ervinhas? E o Pequenu decidiu trepar para cima dele para ver melhor o que se passava à volta.</p>
<p>Mas, mesmo no momento em que chegou ao alto do montinho, o ninho das toupeiras, (pois o montinho era mesmo um ninho de</p>
<p>toupeiras) caiu de repente, e o Pequenu caiu lá dentro, com a terra toda em cima dele.</p>
<p>Mas que terrível susto; a terra cobria-lhe o corpo todo e até a cabeça; e estava escuro como à noite.</p>
<p>- Oh - suspirou Pequenu - só pergunto se algum dia conseguirei sair daqui.</p>
<p>E o pobre Pequenu ficou muito tempo enterrado; só podia mexer a cabeça e os braços.</p>
<p>-Mas como é possível que eu ainda respire ? - perguntava o Pequenu e com muito cuidado tentou arrastar-se.</p>
<p>Em breve Podia arrastar-se; passado um bocadinho conseguiu mesmo ter-se em pé. Mas continuava sempre muito escuro.</p>
<p>De repente que viu ele? Lá longe, muito longe, avistou uma luzinha que parecia avançar para ele. Ao princípio Pequenu não fez a mais pequena ideia do que podia ser aquela luzinha. Mas, de repente, compreendeu que era um pirilampo, que se aproximou de Pequenu, e depois parou.</p>
<p>- Que fazes aqui, homenzinho ? - perguntou o pirilampo-quem és tu ?</p>
<p>E agora imagina que o Pequenu era</p>
<p>velho, tão velho que já nem sabia quantos anos tinha; e, como era tão velho, compreendia a linguagem de todos os animais e sabia falar-lhes.</p>
<p>- Chamo-me Pequenu - explicou ele -, e caí aqui dentro.</p>
<p>-E eu chamo-me Luzinhas e estou contente por te poder ajudar; só tens que me seguir e eu levo-te a casa da família Remexida das toupeiras, que moram um pouco mais longe, no fim deste túnel.</p>
<p>- Obrigada, Luzinhas, - disse o Pequenu.</p>
<p>Luzinhas passou adiante para mostrar o caminho e iluminar a galeria escura, cavada pela Senhora Remexida.</p>
<p>- Pequenu-disse o Luzinhas-, sabes que são todos cegos na família Remexida?</p>
<p>- Que tristeza - exclamou o Pequenu.</p>
<p>- Bem, não é assim tão triste, porque quando se mora toda a vida debaixo da terra, nos túneis escuros, não é preciso ver; mas as toupeiras têm os ouvidos apurados e isso substitui os olhos.</p>
<p>E o Pequenu não demorou a dar conta disso, pois, ao fim dalguns minutos, ouviu-se uma voz grossa do fundo do túnel, dizendo estas palavras :</p>
<p>-Quem anda no meu túnel?</p>
<p>- É o Pequenu - respondeu Luzinhas. - Caiu no teu túnel.</p>
<p>Um pouco mais tarde, Pequenu viu uma grande caverna, no fundo do túnel, e descobriu toda a família Remexida: Papá, Mamã, e oito meninos.</p>
<p>Pequenu apressou-se a contar-lhes a sua história e pediu que lhe mostrassem o caminho para sair.</p>
<p>O Senhor Remexido prometeu-lhe, mas quis primeiro mostrar-lhe a casa.</p>
<p>E foram todos em fila, primeiro o Senhor Remexido, depois o Pequenu e Luzinhas, seguidos da Senhora Remexida e dos oito meninos.</p>
<p>A primeira sala, era a sala de jantar, onde a Senhora Remexida instalou a sua família para comer; e ficou junto dos meninos para os vigiar. Se algum se não portava bem, apanhava uma palmada no nariz.</p>
<p>O seu marido continuou a visita com o Pequenu e Luzinhas; e chegaram a uma grande caverna, depois de terem atravessado um túnel a subir.</p>
<p>- E o quarto de dormir - explicou o Senhor Remexido - as crianças dormem todas do lado direito, e nós do lado esquerdo.</p>
<p>Passaram para outra cave e o Senhor Remexido disse :</p>
<p>- Aqui é que nos instalamos depois do nosso trabalho; juntamos os meninos e contamos- lhes histórias, antes de se deitarem.</p>
<p>- Como é bonito - disse o Pequenu. E não saem nunca ao ar livre?</p>
<p>-Quase nunca; aqui, debaixo da terra, temos tudo o que nos faz falta : a nossa comida e uma quantidade de coisas boas. Mas, vou levar-te lá para fora, se quiseres.</p>
<p>Pequenu seguiu o Senhor Remexido ao longo dos túneis escuros que não acabavam mais. Enfim, lá ao longe, viu a luz.</p>
<p>- Já sinto a saída perto, - disse o Senhor Remexido - mas, de repente, ficou quieto.</p>
<p>- Que se passa ? - perguntou o Pequenu. Chut Escutem!</p>
<p>Então o Pequenu ouviu:</p>
<p>- béu béu béu. Imediatamente Luzinhas apagou a lâmpada.</p>
<p>Béu béu béu</p>
<p>- O que é ? - perguntou o Pequenu.</p>
<p>- É o cão do guarda - segredou o Senhor Remexido - o guarda não gosta de nós por causa dos ninhos que fazemos.</p>
<p>Béu béu béu</p>
<p>E o Pequenu viu uma grande pata a meter-se no túnel e depois um focinho de cão.</p>
<p>-Depressa-gritou o Senhor Remexido-, agarra-te ao meu rabo, e tu, Luzinhas, trepa para as minhas costas.</p>
<p>E o Senhor Remexido correu a toda a velocidade para o fundo da galeria. E o Pequenu também corria agarrado à cauda do Senhor Remexido. Estava tudo escuro, mas, felizmente, Luzinhas acendeu logo a lâmpada.</p>
<p>Passaram por muitos túneis até o Senhor Remexido parar.</p>
<p>-Ah-suspirou ele-, cá estamos noutra saída que o cão não conhece.</p>
<p>E o Pequenu viu uma abertura redonda por onde entrava o sol.</p>
<p>Disse adeus ao Senhor Remexido e a Luzinhas e saiu do túnel escuro.</p>
<p>-Ai!-suspirou Pequenu mal chegou ao ar livre. - Que bom estar outra vez cá fora nesta linda floresta.</p>
<p>PEQUENU ENCONTRA UMA CASA</p>
<p>Pequenu estava na grande floresta, pertinho duma árvore e pensava: Preciso mesmo de encontrar uma casa, mas antes de mais nada, tenho que procurar de comer, pois tenho muita fome.</p>
<p>E viu umas lindas flores azuis que nasciam pertinho dali; pondo-se em bicos de pés chegava mesmo à altura de espreitar lá para dentro. Lá no fundo havia uma gotinha amarela, muito apetitosa e que cheirava muito bem.</p>
<p>- Oh - disse Pequenu -, mel!</p>
<p>Pegou na gota na palma da mão, e lambeu-a.</p>
<p>- Que bom que é - gritou Pequenu. Muito obrigado, querida flor, por me teres guardado este rico mel.</p>
<p>Correu para outra flor e começou a comer. Mas, de repente, que ouviu?</p>
<p>Zum zum zum E, neste mesmo instante, uma enorme abelha pousou sobre uma flor, mesmo ao pé do Pequenu, e deitou-lhe um olhar furioso.</p>
<p>E o Pequenu ficou muito admirado.</p>
<p>- Porque comeste o meu mel? - perguntou a abelha furiosa.</p>
<p>-Tinha tanta fome, Dona Abelha, foi por isso que comi um bocadinho de mel.</p>
<p>- Pois bem, vai-te já embora - disse a abelha, cada vez mais furiosa-, senão pico-te e dói-te muito.</p>
<p>Mas, neste mesmo instante, uma coisa branca caiu sobre a abelha.</p>
<p>Assustado, Pequenu escondeu-se debaixo da raiz de uma árvore.</p>
<p>Sabes o que tinha acontecido? Um rapazinho tinha-se aproximado muito devagar, em bicos de pés, com uma rede na ponta dum pau, e pousou-a de repente sobre a abelha, prendendo-a.</p>
<p>Zum zum zum - Estou presa. Zum, zum, deixem-me sair. - Socorro, socorro - gritava a pobre abelha.</p>
<p>O rapazinho sentou-se na erva e disse:</p>
<p>-Pois bem, abelhinha, vou-te meter na minha lata, e levar-te para casa.</p>
<p>Pequenu ouviu a pobre abelha queixar-se, muito infeliz por estar presa dentro da rede.</p>
<p>Debaixo da raiz, Pequenu viu o rapazinho levantar-se para ir buscar a lata.</p>
<p>Então, tão depressa como pôde, Pequenu trepou até à rede e levantou-a num canto.</p>
<p>-Depressa, depressa- murmurou-, sai daí.</p>
<p>A abelha apressou-se, mas o rapazinho voltou logo.</p>
<p>- Ail-gemeu a abelha-, ainda não posso voar, porque a rede magoou-me nas asas.</p>
<p>-Espera, vou-te agarrar por uma pata, disse o Pequenu, e vou arrastar-te até ao meu esconderijo.</p>
<p>Conseguiram abrigarse antes do rapazinho dar conta que a abelha desaparecera.</p>
<p>Pequenu e a abelha ficaram quietinhos,</p>
<p>enquanto o rapazinho por ali andou, mas quando ele foi embora, a abelha perguntou :</p>
<p>- Quem és tu ?</p>
<p>- Sou o Pequenu. E venho de muito longe.</p>
<p>- Eu sou a Gotademel e quero agradecer-te muito por me teres salvo; agora podes comer o mel que quiseres.</p>
<p>- És muito simpática, Gotademel - respondeu Pequenu. - Não me poderás indicar uma casinha para eu morar?</p>
<p>- Não, infelizmente não - disse Gotademel. A nossa colmeia é muito grande, mas tenho tantos irmãos e irmãs que, de certeza, já não há lugar para ti. Mas tenho uma ideia. Pode-se perguntar ao esquilo, ao Caudafarta se ele sabe dalguma casa.</p>
<p>E Gotademel, partiu, nesse mesmo instante.</p>
<p>-Bem, agora preciso de esperar pela Gotademel e pelo Caudafarta.</p>
<p>E o Pequenu instalou-se confortavelmente, na erva, e não tardou a adormecer.</p>
<p>Psch, psch, psch. Caudafarta, com a sua linda cauda castanha e bem farta, e o focinhito pontiagudo, saltava de ramo em ramo.</p>
<p>Zum, zum, zum, e a Gotademel acompanhava-o.</p>
<p>- E então, onde está esse Pequenu ?perguntou Caudafarta.</p>
<p>- Deve estar ao pé desta árvore, - respondeu Gotademel.</p>
<p>Caudafarta, inspeccionou tudo, do alto do ramo.</p>
<p>- Lá está ele - gritou Gotademel. - Vejo um carapucinho azul, além, na erva.</p>
<p>Então, Caudafarta também o viu.</p>
<p>- Espera um bocadinho - disse o esquilo.</p>
<p>Com uma dentada arrancou um ramito e deixou-o cair.</p>
<p>Bing! O raminho caiu mesmo em cima do bonezinho do Pequenu que acordou de repente e se levantou muito depressa para olhar à sua volta, muito aflito.</p>
<p>Gotademel começou a rir.</p>
<p>- Ah ah ah Já acordaste, Pequenu ?</p>
<p>- Ainda bem que és tu, Gotademel, disse Pequenu. Pensei que alguma árvore me caía em cima. Diz-me: sempre me arranjaste a casinha?</p>
<p>- Sim - exclamou a abelha -, e se soubesses como é linda!</p>
<p>-Psch, psch, psch o esquilo aos saltinhos descia da árvore.</p>
<p>-Bom dia Pequenu. Chamo-me Caudafarta e encontrei-te um lindo buraquinho numa árvore. Tens lá muito que comer e podes lá morar até ao fim da vida.</p>
<p>E o Pequenu achou que o esquilo era tão amoroso, que lhe deu um grande beijo na ponta do nariz.</p>
<p>COMO O PEQUENU FOI MORAR</p>
<p>PARA A CASA GRANDE</p>
<p>Pequenu abriu a boca e bocejou muito tempo.</p>
<p>- Oh como eu dormi bem - exclamou. E agora vou lavar os dentes.</p>
<p>Do bolso das calças tirou uma minúscula escova de dentes, tão pequenina que quase se não via.</p>
<p>- Amanhã - prometeu Pequenu -, partirei em exploração.</p>
<p>Mas que se está a passar mesmo neste momento?</p>
<p>Quatro homens muito grandes, aproximaram-se</p>
<p>com um machado ao ombro, e começaram a deitar abaixo a árvore onde morava o Pequenu.</p>
<p>Bum bum bum Que barulho os machados faziam!</p>
<p>- Meu Deus - suspirou Pequenu -, que me irá acontecer?</p>
<p>Com muito cuidado olhou para fora do buraquinho. Que medo teve dos lenhadores a deitarem abaixo a sua árvore! E nem sequer podia fugir!</p>
<p>- Meu Deus, meu Deus, que vai ser de mim E ouviu-se então um barulho terrível: Craque! craque! craque! Pequenu tapou os ouvidos com as mãos, e com o susto até deixou cair a escova de dentes. De repente, a árvore caiu com grande ruído. Pequenu caiu, de pernas para o ar, dentro da sua casinha, e bum, deu com o nariz contra a parede.</p>
<p>E ouviu os homens dizerem :</p>
<p>Bem, agora pomos a árvore no camião e levamo-la para a cidade.</p>
<p>Bum, badabum, badabum &#8220;, lá ia o camião aos saltos pelos caminhos da floresta. Pequenu agarrava-se à árvore, e, de vez em quando, suspirava!</p>
<p>- Só gostava de saber para onde vou, só queria saber para onde me levam.</p>
<p>Olhou para fora do buraco e que viu? Filas de grandes casas!</p>
<p>Já era noite, mas o Pequenu não se importava, pois a escuridão não deixava que os quatro lenhadores o vissem.</p>
<p>Resolveu sair do seu buraco para ver melhor, mas então aconteceu uma coisa horrível: a roda do camião bateu numa grande pedra; Pequenu saltou do seu buraco e caiu à rua.</p>
<p>Meu Deus, que medo ele tinha, pobre Pequenu! Lá estava ele sozinho naquela grande rua, com casas tão grandes, tão assustadoras!</p>
<p>Flic, floc, flic, floc Mas que é isto ? Enormes gotas de chuva caíam em cima do Pequenu.</p>
<p>Chovia cada vez mais e era noite escura. O pobre Pequenu já estava todo molhado. Uma enorme gota de chuva caía da beira do seu lindo carapuço; os sapatinhos estavam encharcados e a camisinha também. Pequenu foi a correr abrigar-se debaixo do respiradouro duma cave, e então começou a chorar.</p>
<p>Grandes lágrimas corriam devagar pela sua carinha.</p>
<p>- Homenzinho, porque choras?-gritou de repente uma voz fininha.</p>
<p>Pequenu olhou para toda a parte, até encontrar um lindo ratinho cinzento.</p>
<p>-Cortaram as árvores onde eu morava; lá na floresta - explicou a soluçar.</p>
<p>- Quem és tu ? - perguntou o ratinho.</p>
<p>-Chamo-me Pequenu - respondeu Pequenu com uma voz trémula, e agora não tenho casa.</p>
<p>-Pois bem, Pequenu, gostavas de morar na nossa casa? Chamo-me Cinzentinho e moro além, na Casa Grande, com os meus</p>
<p>quatro irmãos: Olhodeconta, Comilão, Fuçopreto e Finório.</p>
<p>-Oh! sim, com muito gosto-aceitou o Pequenu.</p>
<p>-Então trepa para as minhas costas e agarra-te bem às minhas orelhas - aconselhou Cinzentinho.</p>
<p>Pequenu trepou para as costas do ratinho e lá vão os dois aos saltinhos.</p>
<p>Como o rato corria depressa! Pequenu tinha que se agarrar com força para não cair e tinha tonturas.</p>
<p>Cinzentinho enfiou-se pelo buraquinho da porta, e pronto, cá estão eles na Casa Grande.</p>
<p>Enfiaram por um grande corredor, passaram por outro buraquinho e chegaram a um amoroso quartinho, onde quatro ratinhos muito curiosos olhavam para o Pequenu.</p>
<p>Pequenu olhou por uma frestinha da parede, e sabes o que viu?</p>
<p>Uma Mãe, um Pai, um Menino e uma Menina sentados à mesa.</p>
<p>No buraquinho dos <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/tag/ratos" >ratos</a>, estava tão bem, tão quentinho e não chovia!</p>
<p>- Pequenu - perguntaram os <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/a-irm-do-inocente" >ratos</a> -, queres viver connosco?</p>
<p>-Oh, sim, gostava muito, mas estou todo molhado e tenho tanto frio!</p>
<p>Então os cinco ratinhos deitaram-se logo à volta dele.</p>
<p>Pequenu não demorou a aquecer e a dormir.</p>
<p>E foi assim que o nosso Pequenu foi morar para a Casa Grande.</p>
<p>O buraquinho de ratos onde o Pequenu estava instalado era mesmo por trás do armário da sala de jantar.</p>
<p>-Está-se bem aqui, não está, Pequenu?</p>
<p>-perguntou um dos ratos.</p>
<p>- Está, está - respondeu o Pequenu com a sua vozita muito fina. Gostava muito de olhar para dentro da casa, parece-me que agora não está lá ninguém.</p>
<p>Com muito cuidado Pequenu passou a cabeça pelo buraco, entre os pés do armário, e deu uma olhadela pela sala, que, afinal, não</p>
<p>estava absolutamente vazia: o Rapazinho, sentado à mesa, brincava com animais de madeira.</p>
<p>-Venham ver - chamou o Pequenu virando-se para os ratos - o Rapazinho tem uma linda colecção de animais em cima da mesa: uma vaca, um cavalo, um elefante com uma grande tromba, e muitos outros.</p>
<p>Quando o Rapazinho tinha todos os animais em fila, dava uma pancadinha no primeiro, e zumba, caíam uns por cima dos outros.</p>
<p>Pequenu e os ratos tiveram tanta vontade de rir que o Pequenu teve que meter o carapucinho na boca para o Rapazinho não ouvir as gargalhadas.</p>
<p>Mas, de repente, parou de rir porque o lindo elefante caiu ao chão.</p>
<p>Quando se levantou para o apanhar o Rapazinho pôs-lhe um pé em cima. Pequenu esteve quase a gritar: atenção Rapazinho, vais partir o teu elefante! Mas não se atreveu porque o Rapazinho descobria logo o buraco dos ratos. E, o que tinha de acontecer, aconteceu. O pé do Rapazinho fez força na tromba do elefante, e craque, a tromba quebrou-se.</p>
<p>Aflitíssimo, Pequenu cobriu a boquinha com a mão. O Rapazinho baixou-se para apanhar o elefante, mas, quando o viu quebrado começou a chorar.</p>
<p>Pequenu teve tanta pena do Rapazinho que se lhe arrasaram os olhos de lágrimas.</p>
<p>Mas a Mãe entrou neste mesmo instante e, quando viu o elefante quebrado, ficou muito aborrecida, e ajudou o Menino a arrumar os bichos numa caixa.</p>
<p>À noite, quando todos estavam a dormir, Pequenu disse aos ratos:</p>
<p>- Vamos fazer uma coisa : colamos a tromba do elefante, e amanhã o Rapazinho fica todo contente.</p>
<p>Saíram todos do buraco e treparam para</p>
<p>a mesa.</p>
<p>O Pequenu e os cinco ratos precisaram de toda a sua força para abrirem a caixa. Então o Cinzentinho perguntou:</p>
<p>- como vamos fazer, Pequenu?</p>
<p>-Com toda a certeza há cola no armário - disse o Pequenu. - Vão procurá-la.</p>
<p>Aos saltinhos os ratos correram para o</p>
<p>armário.</p>
<p>O Pequenu tirou o elefante e a tromba da caixa, e os ratos trouxeram a cola para cima da mesa.</p>
<p>Pequenu meteu o rabito do Comilão no frasco da cola, e esfregou-o na tromba do elefante, e o Cinzentinho ajudou a pó-la no lugar.</p>
<p>- Pronto, Agora vamos depressa arrumar a cola, são horas de nos deitarmos. E tu - disse o Pequenu ao elefante- não te mexas até de manhã, e ficarás com a tromba como nova.</p>
<p>Mas que se está a passar agora? O Pequenu queria ir-se embora e não podia. Uma gotinha de cola caíra em cima da mesa, o Pequenu pós-lhe o pé em cima, e agora estava colado à mesa.</p>
<p>- Cinzentinho, Olhodeconta, Comilão,</p>
<p>Fuçopreto, Finório -gritou Pequenu -, venham ajudar-me.</p>
<p>Mas, mesmo neste instante, abriu-se a porta, e quem havia de entrar? <a title="" href="http://www.historiasinfantis.eu/anita-e-o-pardalito" >Bigodes</a>, o gato.</p>
<p>Já se sabe que os ratos, corre que corre, fugiram logo.</p>
<p>- Olá Pequenu - miou Bigodes - que estás a fazer em cima da mesa?</p>
<p>- Bem - respondeu o Pequenu -, estou a ver a caixa dos bichos de madeira.</p>
<p>- Pequenu, acaso não viste ratos por aqui ?</p>
<p>- Não - respondeu o Pequenu que sabia muito bem o que o gato queria fazer aos ratos.</p>
<p>-Mas o que eu vi, Bigodes, foi um prato de leite na cozinha.</p>
<p>-Miau, miau-miou o gato-, vou já ver isso. E foi-se embora a toda a pressa.</p>
<p>-Depressa, depressa, Cinzentinho, Olho- deconta, Comilão, Fuçopreto, Finório - gritou Pequenu-, depressa, venham ajudar-me.</p>
<p>Os ratinhos vieram a toda a pressa. Pequenu atou os rabinhos todos à volta da cinta e gritou:</p>
<p>- Um, dois, três!, Os ratos puxaram todos ao mesmo tempo e a cola desprendeu.</p>
<p>Corre que corre, todos se apressaram a entrar para o buraquinho, mesmo no momento em que o Bigodes entrava. Não vendo ninguém na sala disse:</p>
<p>olha, com certeza o Pequenu foi deitar-se.</p>
<p>Na manhã seguinte, o Pequenu ouviu o Rapazinho dizer alegremente.</p>
<p>- Mãe, Mãe, olha! Compuseram o elefante! Como seria?</p>
<p>A Mãe apressou-se a vir ver e disse:</p>
<p>- Com certeza foram as fadas.</p>
<p>E o Rapazinho gritou o mais forte que pôde.</p>
<p>Muito obrigado, lindas fadas.</p>
<p>E o Pequenu ficou muito satisfeito por o Rapazinho estar outra vez tão contente.</p>
<p>À entrada do seu buraquinho, Pequenu observava a grande sala.</p>
<p>Já há muito tempo que estava a ver em cima da mesa, uma maravilhosa árvore de Natal, com velinhas de cor, bolas, estrelas, grinaldas e fios prateados.</p>
<p>A sala estava vazia e o Pequenu disse com a sua vozinha fina:</p>
<p>-Cinzentinho, queres vir comigo ver esta linda árvore?</p>
<p>Cinzentinho achou que era uma boa ideia; pós o Pequenu às costas, e corre que corre lá foram para dentro da sala.</p>
<p>Primeiro saltaram para uma cadeira, e depois para a mesa.</p>
<p>Pequenu juntou as mãozinhas e disse:</p>
<p>-Meu Deus, que linda é! Cinzentinho, e se trepássemos até ao cimo da árvore? Lá de cima víamos tudo.</p>
<p>E treparam ambos. E o Pequenu dizia sem parar :</p>
<p>- Olha que linda bola vermelha! Oh que lindos fios prateados. E estas velinhas, não achas que são lindas? Olha! Olha que maravilhoso avião, parece mesmo de prata.</p>
<p>-Eu do que gosto mais são dos fios prateados - respondeu Cinzentinho -, que, de ramo em ramo, seguia as grinaldas.</p>
<p>- Tem cuidado - gritou o Pequenu assustado-, podes cair.</p>
<p>Mas o Cinzentinho riu-se porque era muito ágil. E chegaram ao cimo da árvore de Natal onde brilhava uma linda estrela de prata.</p>
<p>Mas, de repente, que havia de acon tecer?</p>
<p>A porta abriu-se e o Pai entrou! E o Pequenu ficou tão assustado que quase caiu ao chão.</p>
<p>-Cinzentinho, Cinzentinho, que vamos fazer?- murmurou ele.</p>
<p>Depressa, Pequenu, esconde-te atrás da vela.</p>
<p>E o Cinzentinho, enfiou-se dentro duma bola de algodão; escondido atrás da</p>
<p>sua vela, Pequenu viu o Pai acender um fósforo e principiar a acender as velinhas todas.</p>
<p>Pequenu, quietinho como um rato, olhava para ele. Quando a árvore estava toda iluminada, o Pai, chamou a Mãe e os Meninos para a verem.</p>
<p>- Ai meu Deus - suspirou o Pequenu.</p>
<p>Como hei-de escapar? É impossível e eles vão apanhar-me.</p>
<p>Já começava a ter muito calor porque as velinhas aqueciam muito à sua volta.</p>
<p>-Cinzentinho-chamou em voz baixa-, se soubesses que calor tenho.</p>
<p>Dentro da sua bola de algodão, o ratinho respondeu sufocado:</p>
<p>a mim também me falta o ar!</p>
<p>-Que arrependido estou de ter feito esta subida - suspirou Pequenu.</p>
<p>E, através da árvore, deitou uma olhadela a ver o que os Meninos estavam a fazer.</p>
<p>Sentada ao piano, a Mãe tocava lindas canções de Natal; os Meninos e o Pai cantavam.</p>
<p>Pequenu ficou tão encantado que até se esqueceu do calor das velas. Mas a que estava mais pertinho dele começou a inclinar-se, e gotas de cera bem quente começaram a cair no carapucinho, e uma caiu-lhe mesmo na ponta do nariz.</p>
<p>- Ai ai ai - gritou com a dor -, e, largando as mãozinhas, caiu de ramo em ramo.</p>
<p>Felizmente, viu o aviãozinho prateado pertinho dele.</p>
<p>Ging! Caiu dentro do avião e na queda quebrou o fio que o prendia à árvore.</p>
<p>Assustado Pequenu cobriu os olhos com as mãozinhas.</p>
<p>Com a velocidade o vento desgrenhava- lhe os cabelos; afastou dois dedos para ver o que se passava, e então, que viu? O avião</p>
<p>voava pela sala levando o seu passageiro!</p>
<p>Passou por cima duma mesa cheia de presentes, depois por cima duma cadeira, depois dum banco, e, por fim, aterrou no chão.</p>
<p>O Pequenu nem se atrevia a olhar; mas ouviu uma voz que o chamava:</p>
<p>Anda depressa Pequenu, anda depressa!</p>
<p>Com muito cuidado olhou e viu que o avião pousara ao pé do buraco dos ratos.</p>
<p>Dum salto estava no chão e correu para o buraquinho com quanta pressa tinha.</p>
<p>Mal acabava de entrar quando ouviu um dos Meninos dizer:</p>
<p>- Olha, minha Mãe, o aviãozinho caiu!</p>
<p>A Mãe apanhou-o e pó-lo outra vez na árvore.</p>
<p>Mas o Cinzentinho? Onde estaria o Cinzentinho? E o Pequenu e os quatro ratinhos estavam numa aflição.</p>
<p>- Meu Deus, meu Deus - suspirava o Pequenu -, que vai ser do pobre Cinzentinho?</p>
<p>Os ratinhos e o Pequenu juntaram-se à volta do buraco para verem melhor e observarem a árvore de Natal. De vez em quando, viam Cinzentinho tirar a ponta do focinho e metê-la outra vez para dentro, muito depressa.</p>
<p>Os Meninos estavam muito contentes com as prendas de Natal. Mas, neste</p>
<p>momento, deram nove horas, que era a hora de ir para a cama.</p>
<p>O Pai, apagou as velas, e pronto, acabou a festa.</p>
<p>Pequenu e os ratos estavam calados e aflitos porque o Cinzentinho ainda não tinha voltado. De repente, uma coisa branca entrou pelo buraco dentro e assustou todos os habitantes.</p>
<p>- Vai-te embora - diziam eles - correndo para todos os lados.</p>
<p>Mas a coisa branca falou com a voz do Cinzentinho:</p>
<p>Sou eu!</p>
<p>E realmente era o Cinzentinho todo branco por causa do algodão. Muito contentes puzeram-se a dançar numa roda à volta do companheiro.</p>
<p>Os quatro irmãos de Cinzentinho escovaram-no com os seus rabos, e o Pequenu ajudou-os com a sua escovinha de fato.</p>
<p>E, depois, todos muito cansados, foram-se deitar.</p>
<p>Pequenu, dentro do buraco dos ratos, observava o que se passava na sala. E o que ele via era muito interessante.</p>
<p>O Pai, a Mãe e os dois Meninos tinham vestido os fatos mais bonitos e a mesa estava cheia de coisas boas. Havia muitas qualidades de bolos, bolinhos, biscoitos e muitas sanduíches, e, como é natural, um bolo de Natal.</p>
<p>Cheio de curiosidade, Pequenu colava a sua carinha no buraco dos ratos para ver melhor.</p>
<p>Mas, neste momento, tocaram à porta da rua.</p>
<p>O Pai, a Mãe e os Meninos, saíram para</p>
<p>a entrada, e o Pequenu ouviu um barulho</p>
<p>de vozes excitadas. Até dava saltinhos com</p>
<p>tanta curiosidade.</p>
<p>Então a porta abriu-se e entrou um</p>
<p>grupo de meninos e meninas com fatinhos</p>
<p>muito bonitos.</p>
<p>Os Meninos cá de casa convidaram os</p>
<p>amiguinhos, pensou Pequenu.</p>
<p>E era verdade.</p>
<p>Brincaram às escondidas, à cabra-cega, às estátuas, às rodinhas, etc.</p>
<p>Pequenu olhava e dava palmas com muita alegria.</p>
<p>Depois de tanta brincadeira os Meninos sentaram-se à mesa para o lanche; puseram na cabeça chapéus de papel e tocavam assobios. Mas que grande barulheira! Depois do lanche todos se instalaram à</p>
<p>volta do fogão e cantaram lindas canções de Natal.</p>
<p>Mas, de repente, ouviu-se lá fora um alegre carrilhão, e os Meninos interromperam as canções para escutarem; então a porta abriu-se devagarinho e um homem muito velhinho, com uma comprida barba branca, entrou na sala. Tinha um enorme casaco comprido vermelho, e um capuz também vermelho, com pele branca à volta; e aos ombros trazia um grande saco.</p>
<p>Pequenu achou-o muito simpático.</p>
<p>Boa tarde, Pai Natal, disse o Pai apertando-lhe a mão.</p>
<p>Todos os Meninos se levantaram para o cumprimentarem, e o Pequenu compreendeu então que se encontrava em frente do Pai Natal.</p>
<p>O Pai Natal sentou-se num sofá, perto</p>
<p>do fogão e fez uma pergunta muito importante :</p>
<p>-Todos os Meninos se portaram bem?</p>
<p>-Portaram, portaram, Pai Natal-disse a Mãe;-todos se portaram muito bem.</p>
<p>O Pai Natal então voltou-se para uma Menina e perguntou-lhe:</p>
<p>- És capaz de recitar uma coisa bonita?</p>
<p>Então a menina recitou uma poesia muito linda, e o Pequenu achou tão bonito que até as lágrimas lhe chegaram aos olhos.</p>
<p>Logo que a menina se calou, Pequenu aplaudiu com quanta força tinha. Felizmente as suas mãos eram tão pequeninas que ninguém o ouviu, e, ainda bem, senão encontravam o buraco dos ratinhos.</p>
<p>O Pai Natal começou a contar aos Meninos a sua viagem na neve, dentro dum trenó puxado por renas.</p>
<p>Maravilhado com a história, Pequenu saiu do buraco, e deslizando por baixo das cadeiras chegou ao pé do Pai Natal; trepou por uma prega do casaco e acabou por chegar à barba do velhinho. Mas ainda não estava satisfeito e então instalou-se mesmo na barba branca!</p>
<p>Muito bem agarrado à linda barba, estava mesmo num bom sítio para ver os meninos a cantarem.</p>
<p>Nenhum deles tinha medo do Pai Natal e cada um cantava a sua canção, para depois ter um presente.</p>
<p>Mas, nesta altura, sabes o que aconteceu ?</p>
<p>No momento preciso em que o Pequenu ia voltar para o seu buraquinho de ratos, o Pai Natal levantou-se. Pequenu agarrou-se com força e sentiu-se levado pelos ares.</p>
<p>As suas mãozinhas pegaram-se com toda a força à barba branca, e o coraçãozinho batia com muita força.</p>
<p>Felizmente a grande barba escondia-o, e os meninos, a Mãe e o Pai não o viam.</p>
<p>O Pai Natal disse adeus a todos, e quando saiu da Casa Grande, ainda levava o Pequenu escondido dentro da barba.</p>
<p>Muitíssimo assustado, Pequenu gritou com a sua vozinha aguda:</p>
<p>Pai Natal, Pai Natal, por favor não podes parar um momento?</p>
<p>- O quê? Parece-me ouvir uma voz!</p>
<p>- exclamou o Pai Natal -, e precisamente uma vozita que eu conheço muito bem.</p>
<p>-Pois é, Pai Natal, sou eu, o Pequenu; trepei para as tuas barbas às escondidas, e agora queria muito que me levasses para trás.</p>
<p>O Pai Natal olhou para as barbas e arrancou de lá o Pequenu, segurando-o na palma da mão.</p>
<p>Querido Pai Natal, por favor sê amável e leva-me para o meu buraquinho de ratos.</p>
<p>O Pai Natal começou a rir e disse:</p>
<p>- Está bem, acho que é melhor levar-te já.</p>
<p>E o Pai Natal trepou para o telhado da casa grande e desceu pela chaminé; então pós o Pequenu no chão com muito jeitinho, mesmo ao pé do buraco dos ratos.</p>
<p>E sabes o que ele fez ainda?</p>
<p>Deu ao Pequenu duas fatias de bolo, uma para ele, outra para os ratinhos, e o Pequenu não acabava mais de agradecer ao Pai Natal, porque estava muito contente.</p>
<p>E, como deves calcular, fizeram uma grande festa no buraquinho dos ratos, e o Pequenu e os ratinhos regalaram-se com o bolo.</p>
<p>Sempre aos saltitos, Cinzentinho entrou no buraco dos ratos e foi esbarrar com o Pequenu.</p>
<p>Pequenu caiu de pernas para o ar e bateu</p>
<p>com a cabeça na parede.</p>
<p>- Mas então que é isso ? - protestou o</p>
<p>Pequenu -, isso são maneiras? Fizeste-me cair! O Cinzentinho, porém, nem pensou em</p>
<p>pedir desculpa. Nervosíssimo gritou :</p>
<p>- Olha, põe a mão no meu nariz! Vês, está gelado. Sabes que está a nevar? E os Meninos</p>
<p>estão a fazer um enorme homem de neve.</p>
<p>- Oh! Como eu gostava de ver isso!</p>
<p>E o Pequenu olhou para todos os lados e saiu do buraquinho.</p>
<p>Como não havia ninguém na sala, correu com toda a pressa, até uma cadeira, e trepou por ela acima, agarrando-se a uma perna; e da cadeira saltou para a beira da janela.</p>
<p>- Brr, que frio - resmungou Pequenu.</p>
<p>Realmente a janela estava um bocadinho aberta.</p>
<p>-Mas isso não quer dizer nada, talvez possa escorregar lá para fora e instalar-me na parte de fora da janela.</p>
<p>Havia porém, uma grande camada de neve em cima da janela.</p>
<p>Pequenu enterrou-se até ao fundo, mas via muito bem o Rapazinho e a Menina.</p>
<p>Faziam enormes bolas de neve, e punham-nas umas em cima das outras para fazerem um grande boneco.</p>
<p>Entretanto Pequenu começou a ter os pés frios e pós-se a passear, dum lado para outro, para aquecer.</p>
<p>Mas, de repente, escorregou e ficou pendurado no ar, com as mãos agarradas à beira da janela.</p>
<p>-Cinzentinho, Cinzentinho, vem acudir-me depressa! Depressa, senão caio - gritava aflitíssimo o pobre Pequenu.</p>
<p>Mas o Cinzentinho não ouvia, porque estava muito confortavelmente instalado e bem quente no seu buraquinho de ratos.</p>
<p>E o que havia de acontecer? Pumba,</p>
<p>catapumba! Pequenu rebolou por a1i abaixo e desapareceu na neve.</p>
<p>- Ai ai - gritava meio sufocado - não vejo nada.</p>
<p>No momento em que se ia levantar, sentiu que apanhavam toda a neve à sua volta; apertaram-na bem, e lá vai o nosso Pequenu pelos ares!</p>
<p>- Ai meu Deus, meu Deus que me irá acontecer!</p>
<p>E o pobre Pequenu berrava, e ninguém lhe acudia.</p>
<p>A bola de neve em que ele viajava pelos ares, esbarrou em qualquer coisa. Sabes o que era ?</p>
<p>O Rapazinho fez uma enorme bola e colou-a mesmo no meio da cara do homenzinho, para lhe fazer o nariz! E o pobre Pequenu estava no meio dessa bola.</p>
<p>Os Meninos, já se sabe, não deram conta de nada; começaram a dançar à volta do homenzinho e cantavam:</p>
<p>Homem de neve, homem de neve, não me podes apanhar!&#8221;</p>
<p>Como é natural, o homenzinho não os podia apanhar, porque era de neve!</p>
<p>O pobre Pequenu ouvia os Meninos cantarem, mas como não podia sair da bola de neve, começou a chorar.</p>
<p>Mas, neste momento, a Mãe começou a bater as palmas, claque claque claque para chamar os Meninos:</p>
<p>-Meus filhos, venham, são horas do lanche!</p>
<p>No buraquinho dos ratos, o desaparecimento do Pequenu, causava muita tristeza.</p>
<p>- Vamos - disse o Cinzentinho ao Finório, ao Comilão, ao Fuçopreto e ao Olhodeconta-, é preciso irmos procurar o Pequenu.</p>
<p>Foram todos lá para fora e começaram a chamar por toda a parte:</p>
<p>Pequenu! Pequenu! Onde estás? &#8221;</p>
<p>Mas, metido dentro da bola, Pequenu não podia responder; e os ratinhos começaram então a correr por aqui e por ali, à procura dele.</p>
<p>Mas foi o Finório que teve a melhor ideia; trepou até ao alto do homem de neve, e, santo Deus! que viu ele? um minúsculo bocadinho azul a sair do nariz do homem de neve!</p>
<p>Era o carapucinho do Pequenu.</p>
<p>- Venham, venham depressa - chamou ele pelos irmãos-, cá está o carapucinho do Pequenu.</p>
<p>Toda a família Ratona trepou para a cabeça do homenzinho, e todos começaram a arranhar aqui e ali, para tirar o Pequenu da sua prisão de neve e dali a um bocadinho viram aparecer uma carinha bem conhecida.</p>
<p>- Ai -que contente estou por me terem encontrado-suspirou o Pequenu-, acabem depressa de me libertar!</p>
<p>-Atenção, olha o Bigodes!</p>
<p>De repente, aos saltinhos todos os ratos desapareceram.</p>
<p>- Ai ai ai! - chorava o Pequenu -, como é que me vou desembaraçar sozinho!</p>
<p>Mas os ratos já tinham ido embora.</p>
<p>Flap, flap, flap, flap O Bigodes aproximava-se devagarinho sobre a neve, e o Pequenu viu-o logo.</p>
<p>-Bigodes! Bigodes-chamou o Pequenu.</p>
<p>- Quem me chama ? - miou o Bigodes.</p>
<p>-Eu, o Pequenu. Estou enfiado no nariz do homem de neve e não consigo sair.</p>
<p>-Olha, olha, és tu, Pequenu? E que estás a fazer aí?</p>
<p>- Fiquei preso no Homem de Neve! Podes ajudar-me a sair?</p>
<p>- Com certeza Pequenu, tenho muito gosto.</p>
<p>E o Bigodes deu uma grande</p>
<p>patada no nariz do homem de neve.</p>
<p>- Bum, bum, bum! o nariz do homenzinho caiu ao chão, com o Pequenu lá dentro.</p>
<p>Mas o Pequenu não se magoou nada, e pôs-se depressa em pé, no meio dos restos do nariz que se espalhou pelo chão.</p>
<p>Dum salto, o Bigodes aproximou-se dele; e, com muito jeitinho, pegou nele e levou-o</p>
<p>para casa, mesmo em frente ao seu buraquinho de ratos.</p>
<p>- Muito obrigado, Bigodes - disse Pequenu.</p>
<p>-És muito simpático e estou muito contente por ter voltado para casa.</p>
<p>Cra! cra! cra!</p>
<p>- Que será isto ? - perguntou Pequenu, que acordou do soninho com este barulho.</p>
<p>E o curioso do Pequenu aproximou-se da porta para ver o que se passava na sala.</p>
<p>Viu o Pai, a Mãe, a Menina e o Menino, todos de pé, em frente à janela. Mas o Pequenu continuava a não compreender o que era aquele barulho.</p>
<p>Cra! cra! cra! cra!</p>
<p>Esta agora! Donde viria este barulho? O Bigodes entrou na sala muito devagarinho.</p>
<p>- Bigodes - chamou o Pequenu baixinho -, Bigodes, quem faz este barulho?</p>
<p>E o Bigodes aproximou-se do buraquinho dos ratos para responder:</p>
<p>- É o Cracra, o corvo preto. Chegou</p>
<p>agora mesmo.</p>
<p>Meninos, chamou o Pai, são horas da escola: e eu tenho que ir para o escritório.</p>
<p>Quando todos saíram, Pequenu viu o Cracra debruçado no rebordo da janela, que estava aberta; e com os olhitos pretos e curiosos olhava para dentro da sala.</p>
<p>E, de repente, com uma grande rapidez, entrou na sala e pegou numa das agulhas do tricot da Mãe, que caiu ao chão.</p>
<p>- Cracra - gritou o Pequenu furioso -, larga já isso.</p>
<p>E correu a toda a pressa para apanharo trabalho da Mãe.</p>
<p>- Quem me falou ? -perguntou o Cracra.</p>
<p>- Eu - respondeu o Pequenu.</p>
<p>- Que é que tu queres, homenzinho ?</p>
<p>Aos saltinhos o pássaro avançava para o Pequenu.</p>
<p>- Cracra, tu és feio, muito feio - disse o</p>
<p>Pequenu. - Olha, embaraçaste o tricot da Mãe!</p>
<p>Mas o Cracra não se importava nada; e a toda a pressa pegou na segunda agulha.</p>
<p>Então Pequenu agarrou-a pela outra</p>
<p>ponta, e começaram os dois a puxar, cada um para seu lado.</p>
<p>Nesta altura o Cracra zangou-se, largou a agulha, e hop, hop, hop, em trés saltinhos aproximou-se do Pequenu. E pic, pic, pic, deu-lhe três bicadas no rabiote!</p>
<p>65</p>
<p>- Ai ai ai - gemeu o Pequenu fugindo</p>
<p>a toda a pressa.</p>
<p>Mas o Cracra corria atrás dele e ainda</p>
<p>queria picar mais; e o Pequenu escondeu-se debaixo do armário.</p>
<p>Mas entretanto chegou o Bigodes.</p>
<p>- Cracra, que é isso? Não arrelies o</p>
<p>Pequenu!</p>
<p>Mas que julgas que fez o Cracra? Pois</p>
<p>é verdade, começou a dar bicadas no rabo</p>
<p>do Bigodes.</p>
<p>Miau, protestava o gato que ainda quis</p>
<p>dar uma patada no corvo; mas o Cracra</p>
<p>voou e pousou na mesa, a fazer troça do</p>
<p>Bigodes.</p>
<p>Pequenu saiu do seu esconderijo, mas quando ia a passar pertinho da mesa, o feio do Cracra com uma patada voltou a caneca do leite, que se espalhou pela toalha.</p>
<p>Flic, floc, flic, floc e o leite todo começou a cair em cima do carapucinho do Pequenu.</p>
<p>Ai ai gemia o Pequenu, encharcado</p>
<p>em leite.</p>
<p>Quando o Cracra viu isto começou a rir :</p>
<p>66</p>
<p>- Ah ah ah - Como tu és tolo, Pequenu! havias mesmo de estar debaixo da mesa quando a caneca caiu!</p>
<p>Mas agora o Bigodes estava realmente muito zangado.</p>
<p>Deu um salto sobre a mesa e começou a correr atrás do Cracra, desse passarote tão feio!</p>
<p>Pronto, lá caiu o pimenteiro! Bum o pão caiu abaixo da mesa. E agora foi um copo que se partiu. O Cracra saltava de um lado para o outro e o Bigodes esforçava-se para lhe dar uma patada.</p>
<p>Chchch Nlas que é isto agora ? Pois bem, o maroto do Cracra tombou o açucareiro, e o açúcar caía em chuva sobre o Pequenu.</p>
<p>O pobre Pequenu cobriu a cabeça com as mãos, mas o açúcar corria tão depressa que de repente ficou enterrado num monte pegajoso.</p>
<p>Coitado! Nem sequer se podia mexer.</p>
<p>- Ó Cinzentinho, acode-me - gritava a voz sufocada do Pequenu.</p>
<p>-Como queres que Cinzentinho ouça?</p>
<p>Neste mesmo momento a porta abriu-se</p>
<p>67</p>
<p>e entrou alguém. Era a Mãe; que admirada ela ficou no meio daquela barafunda!</p>
<p>Fuit! O Cracra já tinha desaparecido, e o Bigodes fugiu a toda a pressa.</p>
<p>-Que trapalhada, mas que grande trapalhada - disse a Mãe zangadíssima. E o Pequenu sentiu que o varriam com o açúcar e lá foi ele pelos ares.</p>
<p>É que a Mãe, para arrumar tudo, pegou numa pá e numa vassourinha, e deitou tudo</p>
<p>no caixote do lixo: o açúcar e o Pequenu.</p>
<p>68</p>
<p>Flap! O Pequenu caiu na lata e a tampa fechou-se.</p>
<p>Pequenu caiu de cabeça para baixo e só parou no fundo da lata. Meu Deus, que escura e que suja, aquela lata.</p>
<p>Mas quem arranhava, quem raspava assim ?</p>
<p>- Sou eu, o Comilão - disse uma vozinha.</p>
<p>- Ai - disse o Pequenu aliviado -, que sorte tu estares aqui. Como poderei eu sair?</p>
<p>-Espera que eu já venho, trepas para as minhas costas e eu levo-te para casa.</p>
<p>Pequenu não se fez rogado.</p>
<p>E assim, uma vez mais, lá estava bem abrigado na sua casinha de ratos.</p>
<p>X</p>
<p>PEQUENU E OS SONHOS DE MAÇÃ</p>
<p>Pequenu estava muito bem sentado à porta do seu buraquinho e olhava para a sala; neste momento a porta abriu-se e a Mãe entrou.</p>
<p>- Hum, hum -disse o Pequenu levantando o narizinho -que bem que cheira!</p>
<p>E cheirou por sete vezes.</p>
<p>Já sabes que o Pequenu é muito curioso, por isso queria muito saber o que era aquele rico cheirinho que vinha da cozinha; assim esperou que a mãe voltasse para a cozinha e escapou-se atrás dela.</p>
<p>Na cozinha viu uma grande caçarola de</p>
<p>70</p>
<p>duas asas cheia de um líquido que cheirava</p>
<p>a óleo; e em cima da mesa, dentro duma tigela, estava muita farinha.</p>
<p>A Mãe começou a mexer a farinha com</p>
<p>uma grande colher de pau; depois, deitou-lhe</p>
<p>um bocadinho de leite, e de cada vez que a</p>
<p>Mãe levantava a colher, o Pequenu via que</p>
<p>ela estava a fazer uma massa.</p>
<p>Quando o óleo começou a ferver, a Mãe</p>
<p>pegou num prato cheio de maçãs cortadas</p>
<p>às rodelinhas, deitou-as na massa e pegou</p>
<p>numa concha.</p>
<p>Pluf! a canela mergulhou na tigela,</p>
<p>a Mãe trouxe algumas rodelas de maçã e muita</p>
<p>massa, e a Mãe deitou tudo no óleo a ferver.</p>
<p>zzz zzz A massa começou a chiar dentro do óleo. A mãe fez outro sonho, e depois outro, e outro.</p>
<p>Depois, pegou numa escumadeira e tirou o primeiro sonho. Hum! que apetitoso! Estava douradinho e mesmo bem frito e que bem cheirava!</p>
<p>A Mãe fez muitos sonhos de maçã e arrumou-os todos num grande prato. Pequenu olhava encantado, pois estavam muito bonitos.</p>
<p>Aqueles sonhos todos no prato até lhe faziam crescer água na boca.</p>
<p>Quando já não havia mais massa, a mãe começou a arrumar tudo.</p>
<p>- Pronto - disse ela - acho que o Pai e os Meninos vão gostar muito destes sonhos; agora depressa, vou já pór a mesa.</p>
<p>Logo que ficou sozinho na cozinha, Pequenu começou a trepar pela mesa com muito cuidado, e, num instante, chegou junto do prato dos sonhos. Para o nosso homenzinho o monte de sonhos parecia uma enorme montanha.</p>
<p>Mas que bom cheirinho, que rico cheirinho tão apetitoso. Mais perto, mais pertinho</p>
<p>72</p>
<p>ainda e o Pequenu aproximava-se com o narizito a tremer.</p>
<p>E o que havia de acontecer?! Pequenu estava na beira do prato, muito consolado a lamber um sonho.</p>
<p>Oh que bom que era! Uma dentada, só</p>
<p>uma dentadinha! Mas, parece que o sonho</p>
<p>lá de cima, o último que a mãe fez, ainda</p>
<p>estava melhor que os outros. Vamos lá prová-lo. E o Pequenu começou a subir a montanha.</p>
<p>Tudo correu muito bem, mas, de repente,</p>
<p>73</p>
<p>lá se enfia o Pequenu até ao pescoço entre dois sonhos!</p>
<p>Ai meu Deus, tenho que me despachar a sair daqui, pensou ele. Mas já se sabe, a porta abriu-se, neste mesmo momento, e toda a família entrou na cozinha : a Mãe, o Pai e os Meninos. Que medo teve o pobre Pequenu! Que é que ele havia de fazer? Fugir? não, senão viam-no. Esconder-se? mas onde?</p>
<p>Todos se aproximavam da mesa, e o Pequenu escondeu-se entre dois sonhos.</p>
<p>- Ai minha Mãe, que lindos estão - disseram os Meninos.</p>
<p>E o Rapazinho avançou a mão para se</p>
<p>servir.</p>
<p>- Não, não - disse a Mãe - agora não! São só para a sobremesa! Já embora para a mesa.</p>
<p>Que sorte, suspirou o Pequenu aliviado. Logo que eles se vão embora saio daqui e vou a toda a pressa para a minha casinha de ratos!</p>
<p>Mas, neste momento, a Mãe pegou no prato e levou-o para a sala de jantar, e pousou-o em cima de uma mesinha, em frente da janela aberta; e todos se sentaram à mesa.</p>
<p>74</p>
<p>Cra, cra, cra cra. Lá vinha o corvo.</p>
<p>Deitou uma olhadela para dentro, viu o</p>
<p>prato dos sonhos em frente à janela, e pic, roubou um.</p>
<p>Mas o que era isto? Alguém apertava o</p>
<p>bico do Cracra!</p>
<p>Assustado o corvo largou-o e o sonho</p>
<p>caiu ao chão.</p>
<p>Bigodes, que entretanto chegou à procura dalguma coisita de comer, viu-o logo.</p>
<p>Felizmente nem o Pai, nem a Mãe nem</p>
<p>os Meninos repararam em tanto movimento.</p>
<p>-Atenção Cracra-miou o Bigodes zangadíssimo -, se te aproximas deste sonho, arranho-te nos olhos.</p>
<p>- E tu toma também atenção Bigodes : se tentas apanhar o sonho, dou-te uma forte bicada!</p>
<p>E por isso, nem o Bigodes nem o Cra-</p>
<p>cra se aproximavam do sonho.</p>
<p>Mas, de repente, que viram eles?</p>
<p>O Bigodes e o Cracra nem acreditavam</p>
<p>no que viam&#8230;</p>
<p>Um pezinho saiu do sonho&#8230; e depois outro pezinho&#8230;</p>
<p>- Miau - miou o Bigodes espantado.</p>
<p>75</p>
<p>- Cra, cra - disse o corvo cheio de medo -, porque agora o sonho andava sobre as duas perninhas.</p>
<p>- Miau, miau.</p>
<p>E o Bigodes deu um salto para trás.</p>
<p>-Nunca na minha vida vi um sonho a andar!</p>
<p>Pif, paf, pif, paf! o sonho caminhava muito depressa em cima do tapete. O Bigodes arregalou os olhos, o sonho passou-lhe mesmo em frente do nariz, e lá se foi, sempre a andar até ao armário, meteu-se debaixo, e desapareceu no buraco dos ratos!</p>
<p>Os ratos quando o viram, nem acreditavam. um sonho a andar. Mas felizmente ouviram a voz do Pequenu, abafada mas reconhecível, lá do meio do sonho.</p>
<p>-Por amor de Deus, meus amiguinhos, comam depressa este sonho, porque eu, o Pequenu, estou cá dentro.</p>
<p>Os ratos comeram o mais depressa possível e o Pequenu saiu todo contente de dentro da massa douradinha.</p>
<p>-Ai! meu Deus!-suspirou o Pequenu-, que medo tive que alguém me comesse por</p>
<p>76</p>
<p>engano; nunca mais me sirvo de nada sem ordem.</p>
<p>Mas tu, estás mesmo a ver que toda a família Ratona ficou encantada e que aproveitaram o sonho, até à última migalha; comeram tanto que a sua barriguinha até ficou redonda.</p>
<p>Mas felizment nem o Pai, nem a Mãe, nem os Meninos repararam que um sonho &#8221; com perninhas tinha fugido.</p>
<p>77</p>
<p>XI</p>
<p>PEQUENU E A ZUMBIDORA</p>
<p>- Tem graça - disse o Pequenu aos seus amiguinhos ratos -, há já dois dias que não vejo a Menina; que lhe terá acontecido?</p>
<p>- Eu sei - disse o Cinzentinho - ontem fui lá acima; a Menina está doente e precisa de ficar bem quentinha na cama.</p>
<p>E o Pequenu disse então:</p>
<p>- Pois bem, logo à noite, vou levar-lhe uma flor. Cinzentinho, queres trazer-me uma flor do jardim?</p>
<p>- Boa ideia - disse o Cinzentinho - fica combinado.</p>
<p>Á noite, muito tarde, quando todos estavam</p>
<p>78</p>
<p>já a dormir, o Pequenu saiu do seu buraquinho, levando a flor que o Cinzentinho lhe tinha apanhado.</p>
<p>A flor era quase tão grande como o</p>
<p>Pequenu e ele tinha que a levar ao ombro.</p>
<p>Felizmente a porta da sala estava aberta e o Pequenu pode sair para a entrada.</p>
<p>Uf! como ele estava cansado de subir as</p>
<p>escadas.</p>
<p>E onde seria o quarto da Menina?</p>
<p>é Imóvel no patamar, Pequenu olhava a</p>
<p>toda a volta.</p>
<p>De repente, ouviu chorar baixinho e dirigiu-se para a porta de onde vinha o barulho.</p>
<p>Devagar, muito devagarinho, enfiou-se</p>
<p>pela porta, que estava entreaberta. Sim, a</p>
<p>79</p>
<p>Menina estava lá, doente na cama e chorava.</p>
<p>- Porque é que ela chorará? - perguntava o Pequenu - com certeza é por estar doente.</p>
<p>Zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz! alguma coisa voava pelo quarto.</p>
<p>-Vai-te embora vespa feia-exclamou a</p>
<p>Menina.</p>
<p>E o Pequenu viu uma vespa no quarto.</p>
<p>-Zumbidora - disse o Pequenu -, é muito feio afligires a Menina que está doente. Vai-te embora.</p>
<p>-Horrível Pequenu-replicou a vespa-, vai-te embora tu!</p>
<p>E com ar ameaçador, a vespa voou em direcção ao Pequenu.</p>
<p>- Pára - gritou o Pequenu -, ou bato-te com esta flor.</p>
<p>Zzzzzzz, zzzzzzz, zzzzzzz, fez a vespa e pôs-se a voar à volta da cabeça do Pequenu.</p>
<p>Pegando com as duas mãos no caule da flor, Pequenu bateu na vespa.</p>
<p>Bum, a flor bateu com força no nariz da Zumbidora, e a vespa feia caiu ao chão.</p>
<p>Zumbidora estava furiosa.</p>
<p>-Horrível Pequenu-gritou a Zumbidora</p>
<p>80</p>
<p>zangadíssima-, vou-te picar com toda a</p>
<p>força.</p>
<p>Mas o Pequenu tinha tanto medo que já</p>
<p>tinha fugido a toda a pressa.</p>
<p>Zzzzzzzzz, zzzzzzzz, zzzzzzzz, a Zumbidora perseguia o Pequenu.</p>
<p>Assustadíssimo, o Pequenu atravessou o</p>
<p>patamar a correr e a vespa, sempre atrás</p>
<p>dele.</p>
<p>Mas, mesmo no momento em que a</p>
<p>Zumbidora ia picar o Pequenu, o nosso</p>
<p>homenzinho meteu-se atrás do cesto dos</p>
<p>papéis, e o ferrão da vespa só deu no cesto.</p>
<p>Ah Ah Ah e o Pequenu começou a rir.</p>
<p>-Não me acertaste, bicho feio!</p>
<p>Mas a Zumbidora, cada vez mais furiosa, gritou-lhe:</p>
<p>- Não perdes com a demora, horrível</p>
<p>Pequenu, já te apanho!</p>
<p>E continuou a correr atrás dele. Pequenu</p>
<p>corria com força, sempre seguido pela vespa, que zumbia muito forte.</p>
<p>Bing, bang, bang! Pequenu descia as</p>
<p>escadas duas a duas.</p>
<p>Zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz, a vespa</p>
<p>voava atrás dele.</p>
<p>81</p>
<p>Mas o Pequenu já estava na sala; o Pequenu ia esconder-se no seu buraquinho de ratos, o Pequenu estava salvo. Mas não, mesmo no último momento, a vespa apanhou-o.</p>
<p>- Ah! Ah! Ah! - riu-se a Zumbidora-, agora vais ver como te pico com força.</p>
<p>Mas não teve tempo de cumprir o prometido, pois, nesse mesmo instante, uma grande pata prendeu-a no chão.</p>
<p>Era o Bigodes.</p>
<p>E, pumba! a Zumbidora rolou para o buraquinho dos ratos.</p>
<p>Pois, muito bem, agora, horrível vespa, vamos-te matar, disseram os ratos.</p>
<p>Mas a Zumbidora começou a chorar e a pedir :</p>
<p>-Querido Pequenu, queridos ratinhos, por amor de Deus, não me matem.</p>
<p>Os ratos olhavam para a Zumbidora, com uns olhos zangadíssimos. Mas o Pequenu teve pena.</p>
<p>- Ouve, Zumbidora - disse ele - se tu prometes nunca mais arreliar os Meninos e nunca mais ser má, podes ir-te embora e ninguém te fará mal.</p>
<p>82</p>
<p>A Zumbidora prometeu tudo o que eles</p>
<p>quiseram e voou embora a toda a pressa.</p>
<p>Mas o Pequenu estava muito aborrecido.</p>
<p>- Que tens Pequenu - perguntou o Cinzentinho?</p>
<p>- Agora já não tenho a flor para a Menina.</p>
<p>E o Cinzentinho não perdeu tempo; ele</p>
<p>e os irmãos correram ao jardim e trouxeram ao Pequenu um lindo ramo de flores.</p>
<p>Mas o ramo era grande demais para o</p>
<p>Pequenu.</p>
<p>-Bigodes-chamou o Pequenu-, podes</p>
<p>levar estas flores à Menina de meu mando?</p>
<p>-Miau, miau-disse o Bigodes-, com</p>
<p>certeza. E ainda te levo às costas, se quiseres.</p>
<p>Pat, pat, pat, o Bigodes subiu as escadas,</p>
<p>com o ramo de flores na boca e o Pequenu</p>
<p>às costas.</p>
<p>- Florinhas - disse o Pequenu muito baixinho -, amanhã de manhã tornem-se muito lindas para a Menina, que está doente, ficar muito contente.</p>
<p>- Com certeza, Pequenu - responderam</p>
<p>as flores.</p>
<p>Que grande surpresa teve a Menina na</p>
<p>manhã seguinte! Chamou logo a Mãe.</p>
<p>83</p>
<p>Oh, minha Mãe, anda ver que lindas</p>
<p>flores.</p>
<p>Então as flores ainda abriram mais, e ficaram lindíssimas.</p>
<p>No seu buraquinho de ratos, Pequenu ouviu a Menina rir e ficou muito contente.</p>
<p>Zzzzzzzz, zzzzzzzz, zzzzzzzz!</p>
<p>-O quê, Zumbidora, és tu outra vez?gritou o Pequenu.</p>
<p>-Sou, Pequenu, venho dizer-te que nunca mais arrelio a Menina.</p>
<p>E o Pequenu sorriu e ficou muito contente.</p>
<p>84</p>
<p>XII</p>
<p>PEQUENU E O RAPAZINHO GULOSO</p>
<p>Pequenu lá estava no seu lugar, no buraco dos ratos, mesmo por trás do armário. A Mãe e o Menino estavam sozinhos na sala. A Mãe trabalhava no seu bordado e o ;</p>
<p>Rapazinho brincava em cima da mesa com</p>
<p>os bichos de madeira.</p>
<p>-Minha Mãe-perguntou o rapazinho-, posso comer mais um chocolate; são tão bons !</p>
<p>-Não-disse a Mãe. -Já comeste muito.</p>
<p>Só te dou outro à noite, senão ficas doente.</p>
<p>Mas, neste momento a Mãe deixou cair a agulha. Baixou-se para a procurar e o</p>
<p>85</p>
<p>Pequenu escondeu-se muito depressa no seu buraquinho, para não o verem.</p>
<p>- Meu Deus - suspirou ela - não con sigo encontrar a minha agulha. Tenho que ir buscar outra.</p>
<p>Pequenu deitou uma olhadela para fora do buraco e viu a Mãe sair da sala.</p>
<p>Ao levantar-se, deixou cair o trabalho ao</p>
<p>chão.</p>
<p>-Vou procurar a agulha, e pó-la no bordado - disse o Pequenu -, e assim a Mãe, quando chegar, encontra-a logo.</p>
<p>E apressou-se a procurar a agulha.</p>
<p>Eh! lá! que grande agulha! Quase tão grande como o Pequenu.</p>
<p>Mas, disse o Pequenu, parece-me que ouço falar alguém.</p>
<p>Era mesmo, o rapazinho que dizia baixinho :</p>
<p>-Agora que a Mãe não está aqui vou comer um chocolate.</p>
<p>E o Pequenu ficou múito aborrecido. Se o rapazinho desobedecesse e comesse o chocolate, ficava doente com certeza. A caixa estava em cima da mesa, e horrorizado o Pequenu viu o rapazinho escutar à porta, para ter a certeza que a Mãe ainda não vinha.</p>
<p>86</p>
<p>- Ai ai ai - disse o Pequenu - o rapazinho não devia ser tão guloso; meu Deus, meu Deus, que hei-de fazer?</p>
<p>Mas, de repente, teve uma ideia. Arrastando a agulha atrás de si, correu depressa, depressa, até à mesa onde estavam os chocolates. Felizmente a caixa estava aberta.</p>
<p>Upa! Pequenu saltou para a caixa e escondeu-se entre os chocolates.</p>
<p>Então o rapazinho aproximou-se, devagarinho, na pontinha dos pés. Escondido entre os chocolates, Pequenu nem se mexia; de repente, viu a mão do Rapazinho avançar;</p>
<p>Pequenu olhou e viu a mão pegar num chocolate, e pic! deu-lhe uma grande picada.</p>
<p>87</p>
<p>- Ai ai ai - gritou o Rapazinho piquei-me nalguma coisa.</p>
<p>Pequenu riu baixinho e pensou: feio Rapazinho, se tornas, pico-te outra vez.</p>
<p>Mas a mão já regressava.</p>
<p>Um, dois, três, disse o Pequenu, e picou-</p>
<p>-lhe a mão.</p>
<p>- Ai! ai! ai! - gritou o Rapazinho. E ficou tão espantado que desistiu e voltou a sentar-se à mesa.</p>
<p>- Muito bem -disse o Pequenu -, nunca mais te apetece ser guloso!</p>
<p>Muito devagarinho o Pequenu arrastou-se para fora da caixa de chocolates, aproximou-se do trabalho e espetou lá a agulha.</p>
<p>Mas, neste preciso momento, a porta abriu-se e a Mãe entrou.</p>
<p>-Meu Deus, como hei-de voltar para o meu buraquinho de ratos, sem me verem - gemeu o Pequenu. A única coisa que posso fazer é esconder-me atrás deste banquinho.</p>
<p>Felizmente a Mãe começou a aproximar-se do Rapazinho para ver o jogo, e o Pequenu teve tempo de voltar para a sua casinha.</p>
<p>- Não comeste nenhum chocolate?-perguntou a Mãe.</p>
<p>88</p>
<p>- Não, minha Mãe, podes ter a certeza.</p>
<p>E o Pequenu ficou contentíssimo por o</p>
<p>Menino poder dizer a verdade.</p>
<p>Então sabes o que a Mãe fez? Nlão sabes?</p>
<p>Então escuta :</p>
<p>-Meu Rapazinho lindo-disse ela-, já que foste tão obediente, podes comer mais um.</p>
<p>Pequenu pôs a cabeça fora do buraquinho e viu a Mãe apanhar o trabalho.</p>
<p>- Olhem para isto -exclamou a Mãe - não percebo nada; a minha agulha está espetada no trabalho. Que bom!</p>
<p>E, contentíssimo por ver que tudo corria bem, Pequenu começou a dançar de alegria, no seu buraquinho.</p>
<p>89</p>
<p>XIII</p>
<p>PEQUENU E O CUCO</p>
<p>Pequenu saiu do buraquinho de ratos e entrou na sala grande, à procura de migalhinhas de bolo caídas no chão.</p>
<p>Cra, cra, cra, cra! : ouviu de repente; e compreendeu logo que o Cracra, o corvo preto tinha entrado pela janela.</p>
<p>-Olha! Cá está este horrível Pequenu - gritou o Cracra.</p>
<p>Mas o Pequenu zangou-se:</p>
<p>- Cracra, tu é que és feio, e aborreces-me muito.</p>
<p>-Cra, cra, cra, cra, arreliou o corvo, horrível Pequenu.</p>
<p>90</p>
<p>O corvo voou direitinho em direcção ao</p>
<p>Pequenu, com ar ameaçador e o nosso homenzinho fugiu para o buraquinho; meu Deus, que depressa ele corria!. . Estava mesmo a chegar quando o bico do Cracra o</p>
<p>agarrou pelo fundo das calças; e o feio Cracra levou o Pequenu pelos ares!</p>
<p>Pequenu gritava muito, porque tinha um</p>
<p>medo horrível, mas não havia ninguém na</p>
<p>sala para o ajudar.</p>
<p>O Cracra voava por aqui e por ali e o</p>
<p>pobre Pequenu balançava-se no ar.</p>
<p>Que é que ele iria fazer, este feio Cracra?</p>
<p>Aproximou-se do cuco, pendurado na</p>
<p>parede, muito lá no alto, e pós o Pequenu</p>
<p>mesmo em cima do relógio.</p>
<p>Pronto! E agora, horrível Pequenu, ficas</p>
<p>aí algum tempo.</p>
<p>E sempre para arreliar o Pequenu, o</p>
<p>Cracra levantou voo.</p>
<p>- Cracra, Cracra - suplicava o Pequenu -, não me abandones aqui, porque sozinho não</p>
<p>consigo descer; se cair, parto os braços e as</p>
<p>pernas.</p>
<p>Mas o Cracra cada vez ria mais.</p>
<p>- Ah ah ah, adeus Pequenu!</p>
<p>91</p>
<p>E lá vai ele pela janela fora.</p>
<p>Pobre Pequenu! Ficou sozinho, empoleirado no relógio, dependurado na parede.</p>
<p>Tic, tac, tic, tac, tic, tac; e o Pequenu agarrava-se com toda a força.</p>
<p>Tic, tac, tic, tac, tic, tac; ouviu-se um barulho surdo no interior do relógio, e bing, uma portinha abriu-se, e hop! um pequenino cuco de madeira apareceu na entrada da portinha.</p>
<p>Mas, com o movimento, o relógio estremeceu e o Pequenu caiu em cima do cuco, mesmo no momento em que ele saía; felizmente</p>
<p>92</p>
<p>teve ainda tempo de se agarrar com</p>
<p>os dois bracinhos à volta do pescoço do cuco.</p>
<p>O passarinho cantou: cucu, cucu, e tornou a</p>
<p>entrar no relógio. A portinha fechou-se e o</p>
<p>Pequenu desapareceu.</p>
<p>Sabes para onde tinha ido o Pequenu?</p>
<p>Pois bem, para dentro do relógio, com o</p>
<p>cuco. Que escuro estava! O pobre Pequenu</p>
<p>não via quase nada; de princípio nem se</p>
<p>podia mexer; um bocadinho depois já distinguia umas rodinhas que rodavam devagarinho.</p>
<p>Clic, clic, clic, faziam as rodinhas.</p>
<p>Então o Pequenu começou a chorar, com</p>
<p>lagrimazinhas pequeninas, com lágrimas minúsculas.</p>
<p>-Ai, ai, ai, chorava o pobre Pequenu, ninguém sabe onde estou, e nunca mais, nunca mais poderei sair deste relógio.</p>
<p>Que triste estava o pobre Pequenu!</p>
<p>Mas, de repente, que viu ele? Umas enormes pernas compridas e muito magrinhas, um corpinho redondo, uma cabecita e ainda mais pernas.</p>
<p>Tu não sabes o que era, mas o Pequenu</p>
<p>sabia muito bem.</p>
<p>93</p>
<p>Era Prateada, a aranha.</p>
<p>- Oh Prateada-gritou o Pequenu-que contente estou por estares aqui!</p>
<p>- O quê ? Bom dia, Pequenu. mas que estás tu a fazer neste relógio?</p>
<p>-Foi o Cracra que me meteu neste relógio - disse o Pequenu - mas, Prateada, tu podes ajudar-me; se fizeres um fio muito grande, daqui até ao chão, eu desço por ele.</p>
<p>-Pois sim, que boa ideia; vem atrás de</p>
<p>mim.</p>
<p>Pequenu segui-a com muito cuidado, e a Prateada começou a fazer um fio muito comprido e bem grosso, que pouco a pouco, foi chegando ao chão.</p>
<p>Então a Prateada chamou o Pequenu:</p>
<p>- Anda Pequenu : agora é só escorregares e já estás no chão.</p>
<p>O Pequenu agarrou-se ao fio, e devagarinho, com muito cuidado, deixou-se escorregar e chegou ao chão.</p>
<p>- Muito obrigado, Prateada - gritou o Pequenu - e fugiu a toda a pressa para o seu buraquinho de ratos.</p>
<p>Mas o que é que ele estava a ouvir?</p>
<p>Cra, cra, cra, cra!</p>
<p>94</p>
<p>-Ai! ai! ai!-exclamou o Pequenu-, lá</p>
<p>vem outra vez o Cracra!</p>
<p>E, pernitas para que vos quero, desapareceu por trás do armário.</p>
<p>- Cra, cra, cra, cra - dizia o corvo espera um bocadinho, Pequenu. Ainda te apanho.</p>
<p>Felizmente, neste momento, a porta</p>
<p>abriu-se e entrou o Bigodes.</p>
<p>- Bigodes - gemeu o Pequenu-, livra-me</p>
<p>do mauzão do Cracra!</p>
<p>Bigodes atirou-se ao Cracra, que cheio</p>
<p>de medo voou pela janela.</p>
<p>E o Pequenu voltou para o seu buraquinho, todo contente por estar outra vez em segurança com os seus queridos ratinhos.</p>
<p>95</p>
<p>XI V</p>
<p>PEQUENU E A BONECA CASTlGADA</p>
<p>Uma noite o Pequenu espreitava pelo buraquinho, a ver o que se passava na sala grande; e viu a Menina, num cantinho a brincar com as bonecas; pôs a boneca em pé, e disse muito zangada:</p>
<p>- Feia menina! Lá puseste outra nódoa no vestido; de castigo vais para o canto e ficas aqui sozinha toda a noite, enquanto as outras bonecas vão para a cama.</p>
<p>Pôs a boneca num canto, com o nariz contra a parede; e, depois, voltou-se para nem sequer olhar para ela.</p>
<p>- Oh meu Deus-disse o Pequenu-, que</p>
<p>96</p>
<p>zangada está a Menina; a pobre boneca irá realmente passar toda a noite sozinha no canto?</p>
<p>Mas, neste momento, entrou a Mãe:</p>
<p>- Anda queridinha, são horas de ir para a cama: arruma as bonecas.</p>
<p>A Menina apanhou as bonecas todas, menos a que estava de castigo, e saiu.</p>
<p>Pequenu olhava para a boneca com ar muito triste, cheio de pena por ela estar</p>
<p>sozinha no canto.</p>
<p>Quando já era noite escura, e que todos</p>
<p>estavam a dormir, Pequenu aproximou-se da boneca; com um ar muito cansado, tinha</p>
<p>a cabecinha abaixada.</p>
<p>97</p>
<p>Cric, crac, com um barulhito a porta abriu-se devagar e o Bigodes entrou.</p>
<p>- Bigodes - chamou o Pequenu -, queres fazer uma coisa muito linda?</p>
<p>Naturalmente que o Bigodes disse logo que sim.</p>
<p>- Bem, então ouve : - vês esta enorme boneca aqui de pé? Está no canto porque sujou o vestido. Es capaz de a agarrar com os dentes e de a levares lá acima, ao quarto da Menina? Eu não posso com ela, pois ela é muito mais pesada que eu; mas, na verdade, tenho pena dela. Como queres que ela durma em pé?</p>
<p>E o Bigodes fez o que o Pequenu lhe pediu: agarrou a boneca com os dentes e levou-a para o quarto da Menina, e o Pequenu atrás deles.</p>
<p>Pronto! Bigodes saltou para uma cadeira, perto da cama onde a Menina dormia.</p>
<p>Com muito jeitinho pousou a boneca na cadeira e o Pequenu seguiu-o.</p>
<p>Então o Pequenu escondeu-se debaixo da saia da boneca, e arranjou uma voz muito fininha para chamar:</p>
<p>Menina, faz favor, acorda!</p>
<p>98</p>
<p>-Quem me chama? - perguntou a Menina, acordando.</p>
<p>-Sou eu, a Lisa. Deixaste-me no canto, de castigo.</p>
<p>A Menina esfregou os olhos, para ver se</p>
<p>estava ou não a sonhar.</p>
<p>- Menina - continuou o Pequenu sempre escondido debaixo da saia da boneca-, tenho muita pena de ter sujado o meu vestido, mas bem sabes, caí mesmo no sítio onde</p>
<p>tinhas deixado a tua chávena de chocolate&#8230;</p>
<p>99</p>
<p>Se soubesses como é triste ficar toda a noite de pé, no canto. Por favor, só por esta vez, queres perdoar-me?</p>
<p>Espantada, a Menina sentou-se na cama e olhava para a boneca, que, de repente, começara a falar.</p>
<p>-Só por esta noite, deixas-me dormir na cadeira? - perguntou a Lisa - assim estava mais pertinho de ti. Lá em baixo tinha tanto frio, e estava já tão cansada!</p>
<p>E então a Menina teve pena da Lisa; meteu-a dentro da sua caminha tão quente, beijou-a e disse:</p>
<p>- Pobre Lisa, pronto, estás perdoada! E esta noite deixo-te dormir na minha cama. Fecha os olhos e dorme; amanhã vamos ver se a nódoa de chocolate sai com água e sabão. Boa noite, Lisa.</p>
<p>E a Menina abraçou a Lisa.</p>
<p>Que contente ficou o Pequenu por a pobre Lisa ser perdoada! Logo que a Menina adormeceu, escapou-se entre os lençóis, avançou muito depressa sobre a colcha, e deu um beijo na carinha da Menina!</p>
<p>Depois saltou para o chão e apressou-se a voltar para o buraquinho dos ratos.</p>
<p>100</p>
<p>Na manhã seguinte, Pequenu viu a Menina ensaboar o vestido da boneca; e a nódoa acabou por desaparecer.</p>
<p>Mas a Menina já não percebia nada e perguntava à Lisa:</p>
<p>-Como é que tu ontem subiste lá para cima ? E porque é que já não falas ? Eu não sabia que tu falavas!</p>
<p>Mas a Menina bem podia fazer perguntas à Lisa, que ela não respondia nada.</p>
<p>- Só gostava de saber - acabo u por dizer a Menina- só gostava de saber se não seria alguma fada que levou a Lisa para o meu quarto, e que a fez falar.</p>
<p>Então o Pequenu começou a rir porque ele sim, ele sabia muito bem que não tinha sido nenhuma fada.</p>
<p>101</p>
<p>XV</p>
<p>PEQUENÚ E O FRASCO DE COMPOTA</p>
<p>Ainda era muito cedo. Tão cedo, que o Pai, a Mãe e os dois meninos estavam a dormir; mas o sol já brilhava, e a luz entrava pela sala dentro até ao buraquinho onde o Pequenu dormia com os cinco ratinhos. Um raiozinho de sol fez cócegas no nariz do Pequenu, que acordou logo e então apeteceu-lhe dar uma voltinha pela sala. Devagarinho, Pequenu saiu do buraco e foi passear para a sala.</p>
<p>Zzzzzzzzz! E as moscas zumbiam à volta da mesa.</p>
<p>102</p>
<p>- Bom dia, moscas, porque estais a cantar tão contentes?</p>
<p>-Porque a Mãe esqueceu-se de fechar o frasco da compota-zumbiu uma enorme mosca-, e assim podemos comer à vontade.</p>
<p>- Pois eu acho isso muito feio - disse o</p>
<p>Pequenu.</p>
<p>- Zzzzzzzzzz, pois tu não nos hás-de impedir de comer o que quisermos-zumbiu a mosca grande.</p>
<p>- Isso é o que vamos ver - respondeu o Pequenu -, que já trepava por um pé da mesa.</p>
<p>103</p>
<p>Realmente no meio da mesa lá estava o frasco da compota com a rolha meia aberta.</p>
<p>Zzzzzzzzzz, cantavam as moscas.</p>
<p>- Esperem um bocadinho - resmungou o Pequenu-, já vão ver o que eu faço, empurro a tampa, e pronto!</p>
<p>E com toda a força empurrou a tampa com as mãozinhas.</p>
<p>Zzzzzzz, protestou uma enorme mosca.</p>
<p>Mas o Pequenu, por muito que puxasse, não conseguia mexer a tampa; e a mosca grande começou a rir:</p>
<p>- Nunca mais conseguirás, Pequenu!</p>
<p>E lá foi outra vez encher-se de compota, até que, bumba, caiu de cabeça para baixo dentro do frasco.</p>
<p>Assustada, batia as asas, e zumbia cada</p>
<p>vez mais forte.</p>
<p>- Zzzzzzzz, Pequenu, ajuda-me - gritava</p>
<p>a mosca grande -, depressa, depressa.</p>
<p>- A culpa é tua - respondeu-lhe Pequenu</p>
<p>zangadíssimo.</p>
<p>Mas apesar disso, trepou para a tampa, a fim de a ajudar.</p>
<p>-Estende uma pata-disse o Pequenu.</p>
<p>104</p>
<p>-Não posso-gemeu a mosca-, tenho</p>
<p>todas as patas coladas com compota.</p>
<p>As outras moscas voavam em volta do</p>
<p>frasco e da sua amiguinha, e zumbiam aflitas.</p>
<p>- Depressa, Pequenu, depressa, senão</p>
<p>a pobre Mosquinha afoga-se na compota.</p>
<p>E o Pequenu lá estendeu a mão, debruçou-se na beirinha do frasco e conseguiu agarrar uma das patas da Mosquinha; mas, a compota resistia, e o Pequenu puxava, puxava, e não conseguia nada.</p>
<p>E tanto puxou, tanto puxou, que Santo</p>
<p>Deus! pobre Pequenu, lá caiu ele também no</p>
<p>frasco da compota!</p>
<p>-Socorro, socorro-gritava Pequenu-, que, devagar, muito devagar, se enterrava na compota.</p>
<p>E, sem mesmo dar conta, perdeu o carapucinho azul; estava aflito, muito aflito o nosso Pequenu; a compota já lhe chegava quase até aos joelhos.</p>
<p>- Cinzentinho, Cinzentinho - gemia ele</p>
<p>desesperadamente-, vem depressa, ajuda-me, senão morro afogado na compota.</p>
<p>Mas o Cinzentinho não ouvia, pois todos</p>
<p>105</p>
<p>os ratos estavam ainda a dormir no buraquinho.</p>
<p>E o Pequenu já tinha compota até à cinta.</p>
<p>- Ai meu Deus, que vai ser de mim? - chorava o pobre Pequenu -e bem se esforçava, mas a compota já lhe chegava às mãozinhas.</p>
<p>Zzzzzzzzz : zumbiam as moscas em frente ao buraquinho dos ratos, e gritavam:</p>
<p>Zzzzzzz, o Pequenu caiu na compota, - zzzzzz</p>
<p>Mas os ratos não ouviam e o Pequenu enterrava-se cada vez mais!</p>
<p>Então, uma das moscas, entrou direitinha no buraco, e pousando na orelha do Cinzentinho, começou a zumbir muito alto:</p>
<p>- Zzzzz, zzzzz, zzzz! o Pequenu caiu no frasco da compota.</p>
<p>Então, o Cinzentinho acordou aflito:</p>
<p>- depressa, depressa - gritou para os outros ratos-, depressa, o Pequenu caiu na compota.</p>
<p>E, pata aqui, pata ali, corre que corre, os cinco ratinhos saíram a correr do seu buraco.</p>
<p>106</p>
<p>Plap, plap, plap, plap, plap e lá saltaram eles para cima da mesa.</p>
<p>Agora o Pequenu já só tinha a cabeça de fora.</p>
<p>Cinzentinho trepou para a beira do frasco e gritou: agarra-te ao meu rabinho Pequenu :</p>
<p>E, naturalmente, o Pequenu não esperou que o ratinho lhe gritasse outra vez, e então o Cinzentinho começou a puxar com toda a força; mas a compota prendia o Pequenu, que desesperado gritava:</p>
<p>- É impossível, é impossível!</p>
<p>Então o Cinzentinho teve uma ideia:</p>
<p>107</p>
<p>-Vem cá, Comilão, vou agarrar o teu</p>
<p>rabinho com os dentes, tu seguras com os teus dentitos o rabo do Finório, o Finório agarra-se ao rabito do Fuçopreto, e o Fuçopreto segura-se ao Olhodeconta; e</p>
<p>quando eu gritar: um, dois, três, puxamos todos ao mesmo tempo!</p>
<p>E dito e feito um, dois, três, gritou o</p>
<p>Cinzentinho.</p>
<p>Meu Deus, que difícil era, que esforço</p>
<p>faziam para puxar com toda a força! Que</p>
<p>bom! Lá começa o Pequenu a sair da compota; mais um esforçozinho e cá está o Pequenu fora do frasco.</p>
<p>Mas em que estado estava o pobre</p>
<p>Pequenu! Todo pegajoso, todo pegajoso!</p>
<p>Mas, não se esqueceu da Mosquinha, e</p>
<p>gritou :</p>
<p>- Cinzentinho, despacha-te, tira a Mosquinha que ainda está no frasco!</p>
<p>Era muito mais fácil que tirar o Pequenu.</p>
<p>Cinzentinho estendeu o rabinho à Mosquinha, que, por sua vez, lá saiu do frasco.</p>
<p>-Anda Pequenu, vamos depressa para nossa casinha -disse o Cinzentinho.</p>
<p>E o Pequenu põe-se às costas do ratinho.</p>
<p>108</p>
<p>E pata aqui, pata ali, corre que corre, entraram todos no buraquinho.</p>
<p>-Estou todo pegajoso-choramingava o Pequenu. - Mas os ratinhos não se atrapalharam: começaram os cinco a lambê-lo até que ele ficou muito limpinho.</p>
<p>Bzzzz, bzzzz As moscas zumbiam à porta do buraquinho, com a Mosquinha que já tinham lambido até ficar bem seca.</p>
<p>E sabes o que elas traziam? O lindo carapucinho azul do Pequenu! E ele ficou tão satisfeito por tornar a ter o seu bonezinho, que bateu palmas de contente.</p>
<p>-Muito obrigado, muito obrigado - gritou às moscas-, enquanto elas voavam para longe.</p>
<p>109</p>
<p>XVI</p>
<p>PEQUENU E O CARRINHO VERMELHO</p>
<p>Pequenu andava a passear na sala grande.</p>
<p>Já era tarde, tão tarde que toda a gente da casa estava a dormir: o Pai, a Mãe, e os dois Meninos. Mas não estava muito escuro, porque a Lua iluminava a sala, e assim o Pequenu via como se fosse dia.</p>
<p>Deu uma voltinha à mesa, olhou para a cadeira da Mãe, e, de repente, que viu ele no chão, perto da caixa dos brinquedos? O lindo carro vermelho do Menino.</p>
<p>- Que bom - disse o Pequenu - vou brincar com o carrinho!</p>
<p>110</p>
<p>Mas, neste mesmo momento, Olhodeconta e Fuçopreto entraram na sala, e o Pequenu escondeu-se dentro do carro, para lhes pregar uma partida.</p>
<p>E mal eles se chegaram ao carro, que fez o maroto do Pequenu? Põe-se a tocar a buzina! Pó, pó, pó, pó!</p>
<p>Meu Deus! Que medo tiveram os pobres ratinhos! Assustadíssimos, correram a toda</p>
<p>a pressa para o buraquinho. Ah ah ah, ria-se o Pequenu.</p>
<p>-Que tontos vocês são, Olhodeconta e Fuçopreto, não tenham medo, sou eu, o Pequenu!</p>
<p>Então os ratinhos voltaram para a sala, e aborrecidos protestaram:</p>
<p>111</p>
<p>-Não há direito, Pequenu, pregar-nos um susto tão grande!</p>
<p>Então o Pequenu pós um dedinho num botão, deu uma volta ao volante, e sabes que aconteceu ? O carro principiou a andar.</p>
<p>- Bravo, bravo, - gritavam os ratinhos - e o Pequenu, muito satisfeito, fazia grandes sinais com o carapucinho.</p>
<p>Mas o carrinho começou a andar depressa, e apesar de todos os esforços, o Pequenu não conseguia pará-lo.</p>
<p>- Ai ai ai, gritava com uma voz muito fininha; e fazia todos os possíveis para mexer o volante e metê-lo entre os móveis.</p>
<p>Os ratinhos olhavam para ele, presos ao chão com o susto; e o Pequenu andava com uma velocidade louca pela sala fora. Santo Deus! lá vai ele quase contra um banco!</p>
<p>O Comilão pôs as patinhas em frente aos olhos para não ver o desastre, mas o Pequenu conseguiu passar junto ao banco, sem nenhum acidente.</p>
<p>- Atenção, cuidado Pequenu - gritavam os ratos-, porque mesmo naquele momento a Prateada ia atravessar.</p>
<p>112</p>
<p>A aranha voltou a cabeça e viu aproximar-se um carrinho encarnado.</p>
<p>- Prateada, depressa, foge - gritavam</p>
<p>os ratos assustados.</p>
<p>E a Prateada só teve mesmo tempo para</p>
<p>se esconder debaixo dum pé da mesa, porque</p>
<p>neste momento, brrrrr, o Pequenu passou</p>
<p>com um barulho horríel!</p>
<p>Pequenu virou o volante; o carro deu</p>
<p>uma volta e caminhou direito ao armário.</p>
<p>E o Pequenu agarrava-se ao volante e a</p>
<p>sua barba branca voava, com o vento que o</p>
<p>carro fazia!</p>
<p>Encostados uns aos outros, os ratinhos</p>
<p>olhavam cheios de medo.</p>
<p>- Ai meu Deus -gritou Olhodeconta</p>
<p>agora com toda a certeza o Pequenu vai</p>
<p>esbarrar-se contra o armário.</p>
<p>Brrr, e o carro passou como um</p>
<p>furacão.</p>
<p>Brrrrrr :, desapareceu debaixo do</p>
<p>armário.</p>
<p>Brrrr :, tornou a sair do outro lado, com</p>
<p>o Pequenu sempre agarrado ao volante, e</p>
<p>agora o carrinho ia mesmo direito ao grupo</p>
<p>de ratinhos, todos agarrados uns aos outros.</p>
<p>113</p>
<p>- Cuidado! Cuidado! - gritou o Pequenu. E os ratos correram em todas as direcções.</p>
<p>Mas, mesmo neste momento, entrou o Bigodes; e, pata aqui, pata ali, os ratos fugiram para o buraquinho, porque tinham um medo terrível do gato.</p>
<p>Pó, pó, pó buzinava o Pequenu para prevenir o Bigodes.</p>
<p>-O quê? Que será isto?-perguntava ele. grr :, o carro passou-lhe mesmo debaixo do nariz com uma enorme velocidade.</p>
<p>Bigodes deu um salto e disse:</p>
<p>- Olha! Um rato vermelho! É engraçado, mas em todo o caso vou apanhá-lo.</p>
<p>E com grandes saltos, o Bigodes começou a perseguir o carro encarnado, pensando que era um rato. Pequenu continuava agarrado ao volante, e brrrr, o carro corria cada vez mais depressa.</p>
<p>E o Bigodes resolveu parar um bocadinho para observar aquele animal tão esquisito.</p>
<p>Mas, que será isto? é mesmo a voz do Pequenu que sai lá de dentro!</p>
<p>O carro voltava direito ao gato e o Pequenu gritava:</p>
<p>114</p>
<p>- Atenção Bigodes, cautela, Bigodes!</p>
<p>Espantado o Bigodes nem se mexia; e então aconteceu o que tinha que ser: o carro bateu contra ele, com toda a velocidade. E agora, que julgas que se passou? Pois bem, o Pequenu saltou do carro, deu uma grande curva no ar, e ploc, caiu de cabeça para baixo dentro da taça do leite do Bigodes.</p>
<p>-Miau, miau, miau-dizia o Bigodes - fugindo a toda a pressa para o corredor.</p>
<p>E dentro da sala já não havia barulho. Um de cada vez os ratinhos foram saindo do buraco.</p>
<p>-Onde estará o Pequenu, onde estará o Pequenu?-gritavam todos muito aflitos.</p>
<p>115</p>
<p>- Glu, glu, glu, glu - Que será este barulho? `</p>
<p>O Cinzentinho olhou à volta, e o que viu? Muitas bolhinhas na taça do leite do gato; a seguir, os ratinhos viram aparecer um bonezinho azul, no meio das bolhas, e a carinha do Pequenu. E o Pequenu saiu, enfim, da tacinha do leite: estava todo branco, dos pés à cabeça; e ficava tão engraçado que os ratos começaram a rir. Mas o Pequenu é que não achou graça nenhuma e pediu:</p>
<p>-Em vez de se rirem, ajudem-me a secar</p>
<p>E então, todos correram para o buraquinho, e os ratitos ajudaram o Pequenu a secar-se.</p>
<p>116</p>
<p>XVII</p>
<p>PEQUENU E O BALÃO VERMELHO</p>
<p>Pequenu estava sentado no buraco dos</p>
<p>ratos, muito ocupado a escovar o carapucinho com a sua escovinha, quando, de repente, o Comilão entrou.</p>
<p>-Pequenu, vem cá depressa!</p>
<p>Curioso como era, o Pequenu foi logo, muito depressa. E então que viu? Tinham dado à Menina um maravilhoso balão vermelho, tão grande que ela tinha que o agarrar com muita força para ele não voar; e</p>
<p>depois, com um fio, acabou por o segurar</p>
<p>nas costas duma cadeira.</p>
<p>117</p>
<p>Agora deixa o balão, disse a Mãe, são horas da escola.</p>
<p>Logo que a Mãe e a Menina saíram da sala, o Pequenu não pôde conter a sua curiosidade, e, saindo do buraquinho, avançou com muito cuidado até à cadeira onde estava o lindo balão.</p>
<p>Corre que corre, o Cinzentinho foi atrás</p>
<p>dele.</p>
<p>- Meu Deus, que beleza de balão -exclamou o Pequenu trepando para a cadeira e depois para o encosto.</p>
<p>Pegou no fio e puxou. Mas o balão nem</p>
<p>se mexeu.</p>
<p>Então a porta abriu-se e entrou o Bigodes.</p>
<p>Pata aqui, pata acolá, o Cinzentinho</p>
<p>correu para o buraco.</p>
<p>Mas o que havia de acontecer? Quando</p>
<p>o Bigodes abriu a porta, fez-se uma corrente de ar, porque a janela estava aberta, e o balão começou a balouçar perigosamente, o fio quebrou e! Puf! O balão voou.</p>
<p>Ora o Pequenu não tinha largado o fio, e tremia com medo. Mas ainda teve muito</p>
<p>mais medo quando deu conta que o balão subia, e que o levava consigo.</p>
<p>118</p>
<p>Socorro! Socorro! - gritava com toda</p>
<p>a força, Bigodes - segura-me! Depressa, depressa, o balão vai pelos ares!</p>
<p>O Bigodes deu um grande salto, estendeu a pata para apanhar o Pequenu, mas o balão já ia muito alto, e o Bigodes não podia dar um pulo tão grande.</p>
<p>119</p>
<p>O balão voava pela sala; passou por cima do armário, das cadeiras, da mesa, e lá vai ele pela janela fora!</p>
<p>- Socorro, socorro!</p>
<p>Pequenu continuava a gritar, mas nem o gato nem os ratos podiam vir em sua ajuda.</p>
<p>E agora o balão voava já por cima do jardim, do monte de areia e cada vez subia mais alto.</p>
<p>Da janela, o Bigodes olhava aflito para o Pequenu que se afastava cada vez mais.</p>
<p>Oh Pequenu, Pequenu - chorava o</p>
<p>Bigodes-com certeza nunca mais te vemos e vais-te perder nas nuvens!</p>
<p>Zzzzzz, zzzzzz Olha cá está a Mosquinha, a querida Mosquinha Azul!</p>
<p>-Olá, Bigodes, que estás tu a ver no</p>
<p>céu?</p>
<p>-Foi o Pequenu que se agarrou ao</p>
<p>balão, o balão voou e o pobre Pequenu lá</p>
<p>anda pelos ares!</p>
<p>A Mosquinha olhou para o céu, e compreendeu logo; e então começou a voar.</p>
<p>O vento empurrava o Pequenu com tanta</p>
<p>força que quase lhe tinha arrancado o bonezinho</p>
<p>120</p>
<p>azul; mas o Pequenu não podia largar as mãos do fio para o enfiar na cabeça.</p>
<p>Muito longe, por baixo dele, viu as casas</p>
<p>a igreja, e no horizonte, a grande florésta.</p>
<p>Zzzzzzzz, zzzzzzzz, O Pequenu escutou, e levantou a cabeça, cheio de esperança.</p>
<p>- Mosquinha - gritou ele -, vê se podes</p>
<p>segurar o balão.</p>
<p>A Mosquinha tentou, mas não tinha</p>
<p>força e o balão continuava a subir.</p>
<p>E a Mosquinha, estava tão cansada por</p>
<p>causa do esforço para agarrar o balão, que</p>
<p>se sentou em cima, e o balão voava, voava</p>
<p>cada vez mais longe; e o pobre Pequenú</p>
<p>principiava a ter dores nas mãozinhas.</p>
<p>- Ai meu Deus meu Deus! se eu nunca</p>
<p>tivesse trepado para aquela cadeira! Se eu</p>
<p>nunca tivesse pegado no fio do balão - lamentava-se o Pequenu.</p>
<p>-Nunca mais verei os ratinhos, nem o Pai, nem a Mãe, nem os Meninos&#8230;</p>
<p>Zzzzzzzz, zzzzzzz, zzzzzzz</p>
<p>-Que será isto?</p>
<p>Zzzzzzzz, zzzzzz, zzzzzzz !</p>
<p>121</p>
<p>De repente o Pequenu compreendeu: era</p>
<p>o Zumbidor, o moscardo!</p>
<p>-Zumbidor, Zumbidor, vem depressa</p>
<p>ajudar-me - chamou o Pequenu.</p>
<p>- Zzzzzzz, zzzzzzzz</p>
<p>O Zumbidor aproximou-se, e veio pousar no balão ao lado da Mosquinha.</p>
<p>-Despacha-te, faz qualquer coisa, querido Zumbidor-pediu o Pequenu-, doem-me tanto as mãos que estou quase a largar o fio.</p>
<p>E o Pequenu começou a chorar.</p>
<p>Mas o Zumbidor não perdeu a cabeça;</p>
<p>com o seu ferrão fez um buraquinho no balão.</p>
<p>Ffffff. . o gás começou a sair devagarinho pelo buraquinho, e aos pouquinhos o balão começou a esvaziar. Então, como é natural, principiou a descer.</p>
<p>-Faz mais um buraquinho, Zumbidor, ; pediu a Mosquinha.</p>
<p>Tic, outro buraquinho.</p>
<p>Pffffffffff. e o gás, agora sai pelos</p>
<p>dois buracos.</p>
<p>E o balão descia cada vez mais depressa.</p>
<p>Mesmo por baixo dele, Pequenu viu uma</p>
<p>122</p>
<p>casinha verde, em cima dum grande pau; e pousou direitinho em cima dela.</p>
<p>Crru, crru, crru, crru mas que barulho é este, nesta casinha tão engraçada? E sabes o que era a casinha?</p>
<p>Era um pombal! E lá dentro viviam vinte pombinhos.</p>
<p>Crru, crru, crru, crru, - Quem pousou na nossa casinha?- perguntou o Senhor Pombo.</p>
<p>-Sou eu, o Pequenu!</p>
<p>- E donde vens ?</p>
<p>- Da Casa Grande, da cidade - respondeu o Pequenu. -Vocês serão capazes de me levarem lá, queridos Pombinhos?</p>
<p>123</p>
<p>-Pois com certeza, Pequenu, trepa para as minhas costas - disse o Senhor Pombo.</p>
<p>E o Pequenu não esperou que o Pombo se oferecesse outra vez, e agarrou-se às penas do pombinho.</p>
<p>I Flap, flap, flap. As asas do Pombo batiam ao vento, e lá ia o Pequenu outra vez pelos ares.</p>
<p>Bzzzzzzzzz, Zzzzzzzzzzz, zzzzzzzzz, zzzzzzzzz! A Mosquinha e o Zumbidor seguiam-nos de perto. Mas depois passaram à frente, para irem anunciar à Casa Grande, a boa notícia da volta do Pequenu.</p>
<p>- Muito obrigado, Senhor Pombo - disse o Pequenu -, logo que se viu sobre a janela, donde, tão pouco tempo antes, tinha voado. E, com toda a pressa, voltou para a casinha dos ratos, e aninhou-se no buraquinho.</p>
<p>Os ratinhos, ficaram tão contentes por tornarem a ver o seu amiguinho, que até dançaram uma rodinha à volta dele; e depois o Pequenu contou-lhes o sarilho em que se metera.</p>
<p>124</p>
<p>XVIII</p>
<p>PEQUENU E O ANIVERSÁRIO DA MENINA</p>
<p>Pequenu estava sentado à porta do seu buraquinho, e estava todo contente, porque era o aniversário da Menina; via tudo o que se passava na sala, e era um lindo espectáculo.</p>
<p>A Menina trazia um vestido muito bonito, e a sua cadeira estava enfeitada com muitas flores vermelhas e brancas. Em cima da mesa, no lugar dela, havia uma pilha de presentes: uma linda boneca, uma loja de mercearia, um cartucho de bombons, um estojo de costura, e um lindo colar de prata!</p>
<p>125</p>
<p>Então a Menina pegou no colar com muito cuidadinho.</p>
<p>Cra, cra, cra, cra! O corvo estava pousado na beira da janela aberta e observava o</p>
<p>que se estava a passar no interior. Mas, o Pequenu, viu logo que ele estava com ar arreliador, e ficou muito aborrecido.</p>
<p>Iiop, hop! Em dois saltos o Cracra estava em cima da mesa.</p>
<p>- Minha Mãe - gritou a Menina -, olha que bonito é o corvo, veio-nos visitar outra vez!</p>
<p>E todas as pessoas se puseram a admirar o Cracra.</p>
<p>O Menino então perguntou:</p>
<p>- Mãe, posso dar-lhe migalhinhas de</p>
<p>bolo?</p>
<p>- Que bonito é o Menino - pensou o Pequenu.</p>
<p>Mas, que é isto? Que queria então este feio Cracra? Dum salto chegou ao pé da Menina, saltou para o colar, e flap, flap, o feio pássaro voou pela janela, levando o colar no bico!</p>
<p>O Pequenu estava tristíssimo, a Mãe e os Meninos espantados.</p>
<p>126</p>
<p>Ainda correram à janela, mas o Cracra já ia longe.</p>
<p>A Menina chorava tanto, que metia pena; chorava muito, muito e tinha a carinha cheia de lágrimas.</p>
<p>O Pequenu também quase chorava, com pena da Menina; quanto à Mãe, estava toda zangada com o Cracra.</p>
<p>Bzzzzz, bzzzzz Pequenu ouviu um zumbidinho perto do buraco dos ratos.</p>
<p>- Ainda bem - gritou o Pequenu -, é a Mosquinha, a grande mosca preta. Mosquinha, Mosquinha, corre, vai depressa ver</p>
<p>127</p>
<p>onde o horrível Cracra escondeu o colar de prata da pobre Menina.</p>
<p>Bzzzzz, bzzzzz - respondeu a Mosquinha-, já vou Pequenu, vou de repente.</p>
<p>E a Mosquinha lá foi a bater as asas. Procurou no jardim todo, e depois, como não encontrou nada, voou até às portas da cidade, à grande floresta onde morava o Cracra.</p>
<p>A Mosquinha sabia onde era o ninho, numa grande árvore.</p>
<p>Bzzzzz, bzzzzz A Mosquinha olhou com muito cuidado por cima dum ramo, e viu logo o lindo colar, no ninho do Cracra.</p>
<p>Imediatamente voou até à casa grande e disse ao Pequenu :</p>
<p>-O colar está no ninho do Cracra!</p>
<p>Então o Pequenu chamou um dos ratos:</p>
<p>-Cinzentinho, faz favor, leva-me para o telhado da casa.</p>
<p>Corre que corre, Cinzentinho pôs o Pequenu às costas e levou-o ao telhado da casa, e o Pequenu pôs-se a olhar para o céu.</p>
<p>- Pronto - gritou - lá está o Senhor Pombo!</p>
<p>Tirou o barretinho e pôs-se a fazer grandes gestos e a gritar:</p>
<p>-Senhor Pombo, Senhor Pombo! Fazes</p>
<p>o favor, levas-me ao ninho do Cracra?</p>
<p>-Com certeza, Pequenu, com todo o</p>
<p>prazer! É só sentares-te nas minhas costas.</p>
<p>Pequenu instalou-se, confortavelmente, nas penas do Senhor Pombo, que, com toda a rapidez o levou à grande floresta, onde o Cracra tinha o ninho.</p>
<p>Lá, na árvore maior, no ramo mais</p>
<p>grosso, Pequenu desceu das costas do amigo</p>
<p>Pombo, e, devagarinhho, dirigiu-se para o</p>
<p>ninho do Cracra.</p>
<p>Felizmente o Cracra não estava em casa!</p>
<p>Pequenu entrou rapidamente no ninho;</p>
<p>lá estava o lindo colar! O maroto do Cracra</p>
<p>tinha-o escondido no ninho! O Pequenu</p>
<p>pegou nele, e foi-se embora, em equilíbrio</p>
<p>sobre o ramo. Mas, meu Deus! lá está o</p>
<p>Cracra a chegar!</p>
<p>- Cra, cra, cra, cra, feio Pequenu -gritou o corvo, dá-me o colar, e depressa!</p>
<p>-Não e não-protestou o Pequenu. Tu</p>
<p>é que és feio, Cracra, e o colar não é teu, é</p>
<p>da Menina.</p>
<p>129</p>
<p>Furioso, o corvo deu uma bicada no Pequenu, e o pobrezinho desequilibrou-se, escorregou no ramo e caiu.</p>
<p>-Socorro, socorro, Senhor Pombo - gritava o Pequenu.</p>
<p>Mas continuava a cair, de ramo em ramo, cada vez mais depressa.</p>
<p>Bzzzzzz - chorava a Mosquinha assustadíssima-pobre Pequenu, vai quebrar as pernas e os braços! Ai, ai, ai!</p>
<p>Mas, de repente, o Pequenu parou, e ouviu uma vozinha dizer-lhe:</p>
<p>-Que sorte tiveste, Pequenu, que bom eu poder apanhar-te!</p>
<p>E sabes quem era? Caudafarta, o esquilo.</p>
<p>Conseguiu apanhar o Pequenu, e amarrou-o com a ponta do colar a um ramo.</p>
<p>- Que medo eu tive - suspirou o Pequenu - Muito obrigado, Caudafarta, sem o teu auxílio com toda a certeza teria partido os braços e as pernas!</p>
<p>Cru, cru, cru, cru, lá vinha o Senhor Pombo.</p>
<p>-Faz favor, leva-me a casa-pediu-lhe</p>
<p>o Pequenu.</p>
<p>130</p>
<p>-Com certeza Pequenu, não me custa nada.</p>
<p>- Adeus, Caudafarta, até à vista - gritou o Pequenu-, vou já para casa, levar o colar à Menina.</p>
<p>E, quando chegou a casa, encontrou a</p>
<p>Menina toda triste por ter perdido o seu lindo colar.</p>
<p>Mas, quando se foi deitar, que é que ela viu, em cima duma cadeira, ao pé da cama?</p>
<p>O colar!</p>
<p>-Minha Mãe, minha Mãe, anda ver, vem ver depressa!</p>
<p>131</p>
<p>E toda a gente apareceu a correr muito.</p>
<p>- Quem seria que me trouxe o colar ? perguntava a Menina muito admirada.</p>
<p>- Eu não sei - respondeu a Mãe - também estou admirada, com certeza foram as fadas.</p>
<p>E o Pequenu, que estava a ouvir a conversa, fartou-se de rir, porque sabia muito bem que não tinham sido as fadas.</p>
<p>132</p>
<p>XIX</p>
<p>PEQUENÚ E OS PINTORES</p>
<p>Uma bela manhã, Pequenu acordou e disse :</p>
<p>- Olha, já é dia! Já deve ser muito tarde mas, que grande barulheira é esta, na sala de jantar?</p>
<p>Ouvia-se arranhar, raspar, bater, empurrar!</p>
<p>Curioso como era, o Pequenu não pôde resistir; era mesmo preciso ir ver o que se passava.</p>
<p>E deu uma olhadela pela portinha; eh lá! tanta gente na sala! Uns poucos de homens levavam cadeiras, mesas, tapetes, todos os</p>
<p>133</p>
<p>móveis e até as cortinas; e o Pequenu não percebia nada.</p>
<p>-Só gostava de saber se a Mãe saberá disto tudo - afligiu-se o Pequenu.</p>
<p>A sala estava quase vazia, e o Pequenu</p>
<p>estava cada vez mais aflito.</p>
<p>-E se o Pai, a Mãe e os Meninos mudarem de casa? E se eles vão embora para sempre?</p>
<p>Meu Deus, que grande tristeza! Crac, crac, crac Que grande barulho será este? E o Pequenu começou a tremer.</p>
<p>Crac, crac, crac!</p>
<p>Com muito cuidadinho o Pequenu deu</p>
<p>uma olhadela para a sala, e, que horrível surpresa, viu um homem a arrancar o papel da parede.</p>
<p>- Meu Deus - disse o Pequenu - como a</p>
<p>Mãe se vai zangar! Ela está sempre a dizer</p>
<p>aos Meninos: não rabisquem nem sujem o papel, não quero nódoas; e agora vem este homem horrível arrancar o papel das paredes. Se ao menos o gato o arranhasse era uma grande coisa.</p>
<p>Mas o gato nem lá estava.</p>
<p>134</p>
<p>Mas, de repente, a porta abriu-se e a Mãe entrou.</p>
<p>Pequenu ficou aflito e pensou: que zangada ela vai ficar!</p>
<p>Realmente não se percebe nada, não só se não zangou, mas ainda se dirigiu ao homem com um ar muito amável:</p>
<p>- O trabalho está a correr bem? Quer beber alguma coisa?</p>
<p>E o Pequenu estava tão admirado que nem podia acreditar no que ouvia.</p>
<p>Corre que corre, o Cinzentinho entrou no buraco; e, todos a correr, lá vinham o Comilão, o Olhodeconta, o Fuçopreto e, por fim, o Finório.</p>
<p>135</p>
<p>Com um ar muito contente puseram-se</p>
<p>a dançar à volta do Pequenu, e, de repente, o</p>
<p>Cinzentinho e o Fuçopreto pegaram-lhe nas</p>
<p>mãozinhas, e a gritar e a cantar começaram</p>
<p>a dançar uma rodinha.</p>
<p>Bravo, bravo -cantavam eles-os pintores chegaram e vão pôr papéis novos na parede. E vão colá-lo com uma deliciosa cola feita com farinha, e nós vamos comer tanto, tanto, que havemos de ficar grandes e gordos.</p>
<p>Viva!</p>
<p>Mas o Pequenu ainda não percebia bem.</p>
<p>- Como ? - perguntava. - Que é que eles vão fazer?</p>
<p>E então o Cinzentinho explicou-lhe</p>
<p>melhor:</p>
<p>- A Mãe mandou mudar os papéis das</p>
<p>paredes; e os pintores vão colá-lo com uma</p>
<p>cola de farinha que tem um gosto maravilhoso.</p>
<p>E então todos os ratinhos se aproximaram da porta, à espera que os pintores trouxessem a cola.</p>
<p>Bim, bam, bum, Passos muito pesados</p>
<p>soaram no corredor, a porta abriu-se e um</p>
<p>pintor entrou, carregado com dois baldes.</p>
<p>136</p>
<p>- Olha a cola, olha a cola - murmuravam os ratinhos. E lá estão eles outra vez a dançar de roda!</p>
<p>O Pequenu achava tanto entusiasmo um exagero, e, um bocado aborrecido, foi-se instalar num cantinho; mas a curiosidade começou a aparecer e lá vai o nosso Pequenu espreitar pela porta, para ver bem o que se passava na sala.</p>
<p>O pintor passou um pincel enorme em cima duma grande fatia de papel; quando ela estava toda cheia de cola, levantou-a e com muito jeitinho colou-a na parede.</p>
<p>La, la, la-cantarolou o Pequenu-que lindo é o papel novo!</p>
<p>Dong, dong; dong : fez o grande relógio da entrada. E os homens pararam de trabalhar para irem almoçar.</p>
<p>Corre que corre, cheios de pressa, os ratos avançaram para os baldes de cola, para também almoçarem.</p>
<p>O Finório deu um salto para a beira do balde, e pumba! escorregou e mergulhou na cola.</p>
<p>O pobre ratinho gritava, gritava, mas desta vez não era de alegria.</p>
<p>137</p>
<p>-Pequenu, por favor, vem depressa acudir-me! Caí no balde da cola e não sou capaz de sair!</p>
<p>E lá vai o Pequenu, com todos os ratinhos atrás, acudir ao Finório, que chorava de aflição; Pequenu trepou muito depressa para a beira do balde; os ratinhos choravam e olhavam cheios de medo para o enorme balde onde o irmão se afogava.</p>
<p>O Finório debatia-se na cola grossa, mas sempre que estava a chegar à borda do balde, escorregava e caía.</p>
<p>138</p>
<p>E os ratinhos choravam em coro:</p>
<p>-Meu Deus, meu Deus, que havemos de fazer?</p>
<p>O Finório vai afogar-se! Pequenu</p>
<p>ajuda-nos, que havemos de fazer?</p>
<p>O Pequenu estava muito assustado e</p>
<p>olhava para todos os lados com aflição; mas, de repente, veio-lhe uma ideia!</p>
<p>Um dos grandes pincéis dos pintores estava encostado ao balde, pelo lado de fora, o Pequenu empurrou-o com toda a força, tão bem que conseguiu arrastá-lo, e, de repente, pluf, o pincel caiu no balde. E agora o Finório podia trepar pelo cabo do pincel e sair do balde.</p>
<p>Que alegria teve o Finório quando se viu cá fora!</p>
<p>Os outros ratinhos apressaram-se a lavá-lo, lambendo-o com toda a perfeição.</p>
<p>- E agora -disse o Pequenu -, agora vou para o meu buraquinho, pois já deve ser tardíssimo!</p>
<p>139</p>
<p>XX</p>
<p>PEQUENÚ E O NOVELO DE LÃ</p>
<p>Pequenu estava muito sossegadinho à porta do buraco a ver o que se passava na sala.</p>
<p>Mas, o que estaria ele a ver com tanta atenção? Estava a ouvir uma música maravilhosa, tão linda como nunca tinha ouvido.</p>
<p>A Mãe, o Pai, e os Meninos estavam sentados à volta da mesa, em cima da qual havia uma caixa quadrada. Em cima da caixa andava à roda um objecto redondo, preto e brilhante, donde saía a música.</p>
<p>Por fim, o Pai disse:</p>
<p>- Pronto, Meninos, chega por hoje, amanhã continuaremos.</p>
<p>140</p>
<p>- Oh Que pena - suspirou o Pequenu ao ver o Pai arrumar a caixa sobre a mesa, perto da janela.</p>
<p>Então os Meninos foram brincar, o Pai foi para o escritório e a Mãe foi trabalhar para a cozinha; mas quando ela saiu, uma corrente de ar fez cair ao chão o novelo de lã com que ela estava a trabalhar. O Pequenu viu e disse:</p>
<p>- É melhor apanhá-lo senão ainda o pisam, e sujam-no:</p>
<p>- Olha que rica ideia - disse o Pequenu</p>
<p>-vou apanhar a lã, e pousá-la na mesinha.</p>
<p>E quis apanhá-la; mas que pesado era o novelo! era tão pesado que o Pequenu não podia levantá-lo do chão. E então teve outra ideia: atou o fio de lã à volta do novelo, deu um nó, e trepou para a mesinha onde estava a caixa de música; e com o fio muito apertado nos dedinhos, tentou puxar o novelo todo para cima. Mas nem assim conseguiu.</p>
<p>Então o Pequenu subiu para a caixa e pôs-se de pé, em cima da caixa redonda e brilhante. Agora então ia puxar com muita força, tanta força que com certeza conseguiria.</p>
<p>141</p>
<p>Mas o que era aquilo? Quem estava a olhar pela janela? Cuidado Pequenu, cuidado!</p>
<p>Mas o Pequenu nem reparava em nada. Era o Cracra! O Cracra que estava em cima da janela; e o Pequenu estava tão ocupado a puxar pelo novelo que nem o via.</p>
<p>O Cracra olhava para ele e ria-se; de repente, sem fazer barulho, dum salto, o passarote aproximou-se da caixa, olhou para o Pequenu com olhos marotos, e com</p>
<p>o bico carregou num botãozinho preto que havia na caixa de música.</p>
<p>Então. Ai ai ai ai - gritava o Pequenu com a sua vozinha fina.</p>
<p>A coisa redonda começou a girar, com o Pequenu em cima; e o pobre Pequenu bem queria equilibrar-se, mas largou o fio de lã, e o disco girava cada vez mais depressa!</p>
<p>Andava tudo à volta e o Pequenu já tinha vertigens, precisou de pôr as mãozinhas nos olhos para não olhar. E o Cracra, aquele horrível Cracra, ria à gargalhada!</p>
<p>Cra, cra, cra - ria ele. Que engraçado, não é, Pequenu? Mas que engraçado!</p>
<p>142</p>
<p>Mas o Pequenu não achava graça nenhuma.</p>
<p>Meu Deus, que será isto? Alguma coisa se enrolava nas pernas do Pequenu.</p>
<p>Era o fio de lã! Mas que desgraça! O Pequenu continuava a andar de roda e a lã enrolava-se à sua volta; primeiro à volta das pernas, depois do corpo, e por fim o novelo todo se enrolou à volta dele e já nem se via o Pequenu, que estava no meio do novelo</p>
<p>- Ai meu Deus - suspirava o Pequenu -, não vejo nada, e ninguém me pode ajudar, nem os ratos, nem o Bigodes, nem ninguém!</p>
<p>De repente, o novelo de lã, com o Pequenu</p>
<p>143</p>
<p>lá dentro, rolou, caiu da caixa para cima da mesa, e da mesa para o chão.</p>
<p>Cra, cra, cra, cra, e o corvo sufocava</p>
<p>de riso.</p>
<p>- Onde estará o Pequenu ? - perguntavam os ratinhos. E procuravam-no por toda a parte.</p>
<p>Mas o Bigodes entrou e os ratos fugiram a toda a pressa.</p>
<p>Flip, flap, flip, flap o Cracra voou pela janela e foi poisar na árvore grande, no meio da relva.</p>
<p>- Cracra, perguntou-lhe o Bigodes -, que tolice fizeste? Tenho a certeza que não tens a consciência tranquila.</p>
<p>Cra, cra, cra, cra, -arreliava o corvo - olha Bigodes, e se tu deitasses uma olhadela para o novelo de lã?</p>
<p>- O novelo de lã, o novelo de lã, - resmungou o Bigodes-que terá de especial o novelo de lã?</p>
<p>E deu uma patada no novelo e ele começou a rolar; e então achou graça à brincadeira e ia continuar, quando viu uma coisa que ele conhecia muito bem: um bocadinho do bonezinho azul!</p>
<p>144</p>
<p>-Miau, miau, parece o barretinho do Pequenu!</p>
<p>Cra, cra, cra, cra-arreliava o corvo - é mesmo o boné do Pequenu.</p>
<p>E então o Bigodes ouviu uma vozinha que gemia :</p>
<p>-Ajudem-me! Socorro! Estou dentro do novelo!</p>
<p>Depressa, com muita pressa, o Bigodes principiou a desenrolar o novelo e apareceu a cabecinha de Pequenu.</p>
<p>-Ai!-gemia o Pequenu-que contente estou por me teres ajudado. Aquele feio Cracra&#8230;</p>
<p>145</p>
<p>Mas, neste instante, a porta abriu-se e a Mãe entrou.</p>
<p>Devagarinho, pé ante pé, o Pequenu fugiu para o seu buraco.</p>
<p>Mas que zangada a Mãe ficou quando viu o novelo todo ensarilhado!</p>
<p>- Feio gato - disse ela ao Bigodes - olha o que fizeste. Pois bem, de castigo hoje não te dou leite!</p>
<p>O Pequenu ouviu e ficou todo triste; que zangado estava com o Cracra! Mas, felizmente, a Mãe teve pena do pobre Bigodes, e apesar de tudo deu-lhe</p>
<p>mais tarde uma tigelinha de leite.</p>
<p>146</p>
<p>XXI</p>
<p>PEQUENÚ E O BALOIÇO</p>
<p>Na secretária do Pai havia uma linda régua de madeira, muito direitinha cheia de números.</p>
<p>Pequenu, trepado na secretária, observava tudo quanto lá havia: o tinteiro, a caneta e todo o resto.</p>
<p>E pronto! Lá chegou o Bigodes; dum salto estava em cima da mesa.</p>
<p>-Bom dia, Bigodes-disse o Pequenu.</p>
<p>- Bom dia, Pequenu. Andas a passear ?</p>
<p>-Ando, e estou todo satisfeito; ando a ver muita coisa bonita.</p>
<p>- Pequenu -disse o Bigodes - eu sei um</p>
<p>147</p>
<p>jogo muito interessante. Queres fazer um baloiço com a régua? É assim:</p>
<p>E o Bigodes pegou nela e pousou-a em cima do tinteiro.</p>
<p>- E agora - disse o Bigodes - sentas-te numa ponta e eu faço força na outra com a pata; assim é que se faz um baloiço!</p>
<p>E o Pequenu ficou encantado; sentou-se tal e qual como o Bigodes lhe ensinara e o Bigodes apoiou com a pata na régua.</p>
<p>Upa Lá vai o Pequenu muito alto! E quando o Bigodes, muito devagarinho, tirou a pata, o Pequenu desceu.</p>
<p>Acima e abaixo, acima e abaixo, o Pequenu subia e descia; mas que engraçado era!</p>
<p>148</p>
<p>Como ele ria ao agarrar-se ao seu baloicinho!</p>
<p>Mas, de repente, que fez o Bigodes? Carregou na régua com muita força, e pumba!</p>
<p>lá vai o Pequenu pelos ares!</p>
<p>E foi tão alto, que chegou ao candeeiro!</p>
<p>Gritava com o susto e conseguiu agarrar-se</p>
<p>ao abajur, e ainda bem, senão tinha caído.</p>
<p>- Ai meu Deus, que fui eu fazer? - miava o Bigodes todo aflito.</p>
<p>Como te vou tirar daí?</p>
<p>O Pequenu agarrava-se com as duas mãos na beirinha do abajur, mas estava muito longe do chão.</p>
<p>- Ai! ai!-gemia o Pequenu-já me</p>
<p>doem as mãos de tanto segurar.</p>
<p>- Deixa-te cair - disse o Bigodes - que eu apanho-te!</p>
<p>-Não, não, isso não-protestava o Pequenu-tenho muito medo.</p>
<p>- Vou chamar o Cracra - disse o Bigodes-e ele ajuda-te a descer.</p>
<p>O Bigodes foi-se embora e o pobre</p>
<p>Pequenu lá ficou como pôde, agarrado ao</p>
<p>candeeiro; e nem sequer olhava para baixo, com medo de ter vertigens.</p>
<p>149</p>
<p>- Ai que aflição - chorava ele - se o Bigodes não vem depressa, caio ao chão.</p>
<p>Mas o Bigodes bem procurou; nem encontrou o Cracra, nem o Senhor Pombo. Mas ainda havia outro bichinho que podia ajudar o Pequenu; era a Prateada, que ia mesmo a sair do relógio de cuco.</p>
<p>Quando viu o Pequenu ficou espantada!</p>
<p>-Aguenta um bocadinho, Pequenu - gritou a Prateada-, vou ajudar-te.</p>
<p>Cinzentinho e os outros ratos tinham ouvido contar onde estava o Pequenu e vieram a correr para o escritório do Pai.</p>
<p>Cric, cric, cric-chiavam os ratinhos</p>
<p>-que havemos de fazer para tirar dali o Pequenu ?</p>
<p>E estavam todos numa aflição.</p>
<p>- Depressa, depressa - dizia o Pequenu -senão não posso aguentar.</p>
<p>Mas a Prateada avançava com umas passadas enormes.</p>
<p>- Depressa - disse ela aos cinco ratinhos - assentem-se numa roda, debaixo do candeeiro.</p>
<p>Então a Prateada começou a fazer uma teia muito forte, entre as patinhas dos ratos.</p>
<p>150</p>
<p>E a Prateada era tão despachada que,</p>
<p>num instante, a teia ficou pronta.</p>
<p>- Trabalha depressa, Prateada - dizia, o</p>
<p>Pequenu - já não posso mais.</p>
<p>- Tem paciência, Pequenu - dizia a aranha a dar-lhe coragem; e cada vez trabalhava mais depressa. Os cinco ratinhos estavam tão quietinhos, que nem mexiam com</p>
<p>as orelhas.</p>
<p>Mas, neste momento, o Pequenu, que já não podia mais, largou as mãozinhas e caiu.</p>
<p>Caiu de cabeça para baixo, e deu voltas e reviravoltas, e caía cada vez mais depressa.</p>
<p>151</p>
<p>Por fim caiu em cheio a teia de aranhna</p>
<p>que os ratinhos seguraram com muita força.</p>
<p>E estava tão bem feita e tão forte que o</p>
<p>Pequenu não se magoou nada.</p>
<p>Cucu, cucu, cucu - crucitou o cuco do</p>
<p>relógio.</p>
<p>- Meu Deus, que já é tão tarde - gritou</p>
<p>a Prateada admirada-a Mãe deve estar a</p>
<p>chegar, e, se me vê, põe-me fora de casa.</p>
<p>-Adeus Pequenu, adeus ratinhos, vou</p>
<p>para a minha casa; e a Prateada fugiu com</p>
<p>quantas pernas tinha.</p>
<p>Pequenu, a toda a pressa correu para</p>
<p>o seu buraco com os ratinhos atrás dele.</p>
<p>Mas quem vem ali, pata aqui, pata acolá?</p>
<p>O Bigodes, muito aflito com a sorte do</p>
<p>seu amiguinho Pequenu.</p>
<p>- Não o vejo em lado nenhum - dizia</p>
<p>ele muito aflito. Onde estás, Pequenu?</p>
<p>- Aqui no meu buraquinho - disse o</p>
<p>Pequenu. Graças a Deus!</p>
<p>E sem sair do buraquinho, o Pequenu</p>
<p>contou ao seu amiguinho gato que a Prateada tinha feito uma rede muito bem feita, que os ratinhos a tinham segurado e que o tinham apanhado mesmo a tempo.</p>
<p>152</p>
<p>XXII</p>
<p>PEQUENU SALVO PELO DOURADINHO</p>
<p>Muito bem sentado à entrada do buraquinho, atrás do armário, o Pequenu olhava para a sala vazia.</p>
<p>Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio muito certinho; mas, de repente, tiquetaque, tiquetaque, mais devagarinho, cada vez mais devagar, até que parou. Que grande silêncio na sala onde já não se ouvia o tiquetaque do costume!</p>
<p>-Meu Deus-pensou o Pequenu-se o relógio pára, a Mãe, o Pai e os Meninos não sabem as horas, e tudo na Casa Grande vai correr mal.</p>
<p>153</p>
<p>Por isso o Pequenu chamou os ratinhos e disse-lhes o seguinte:</p>
<p>- Ratinhos, meus queridos amigos: temos que dar corda ao relógio, senão nada mais corre bem na Casa Grande; o almoço atrasa-se, o Pai chega atrasado ao escritório e os Meninos vão deitar-se muito tarde. Então, o Pequenu e os ratos correram para o móvel onde estava o relógio e treparam em fila.</p>
<p>Mas, nesse mesmo móvel, havia um grande aquário redondo onde morava o Douradinho.</p>
<p>Os ratinhos e o Pequenu agarraram-se</p>
<p>com toda a força à cadeia que caía do relógio, puxaram, puxaram para lhe dar corda mas ele nem se mexia.</p>
<p>-E se eu puxasse pelo</p>
<p>pêndulo com muita força?-lembrou o Pequenu.</p>
<p>Trepou para o aquário onde o Douradinho nadava, mas ainda assim não chegava ao pêndulo.</p>
<p>Então o Cinzentinho teve uma ideia:</p>
<p>- Pequenu, nós os ratinhos, vamos fazer uma</p>
<p>escadinha uns em cima dos outros, tu sobes lá para cima, e assim talvez lá chegues.</p>
<p>154</p>
<p>O Pequenu achou bem, e os ratos fizeram a escadinha; então o Pequenu trepou para os ombros do último, e ficou mesmo à altura do pêndulo; puxou por ele, o pêndulo abanou um bocadinho, mas quando veio para o outro lado, abanou com o Pequenu, que quase perdeu o equilíbrio.</p>
<p>Felizmente segurou-se com toda a força e tornou a agarrar-se ao pêndulo; mas mesmo neste momento o Bigodes entrou, e os ratitos, corre que corre, fugiram todos.</p>
<p>Agora o pêndulo balançava normalmente</p>
<p>e o Pequenu balançava-se também.</p>
<p>155</p>
<p>- Socorro, socorro - gritava o Pequenu assustadíssimo.</p>
<p>Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio.</p>
<p>Bing, bang, bing, ban, lá ia o Pequenu</p>
<p>a balançar-se pelos ares, Que terrível sensação!</p>
<p>E o pobre Pequenu já estava enjoado.</p>
<p>- Socorro - gritava o Pequenu. - Cinzentinho, Olhodeconta, Fuçopreto, Comilão, Finório!</p>
<p>Mas os ratos não tinham coragem de sair do buraquinho, enquanto lá estivesse o Bigodes.</p>
<p>- Bigodes - gritava o Pequenu - anda ajudar-me.</p>
<p>- Quem me chama - admirou-se o gato.</p>
<p>- Eu, o Pequenu - E agarrava-se ao pêndulo.</p>
<p>- Tiquetaque, tiquetaque, tiquetaque, fazia o relógio.</p>
<p>- Bing bang, bing bang, bing bang o Pequenu balouçava-se no fundo do pêndulo.</p>
<p>- Mas onde estás Pequenu ? - perguntou o Bigodes.</p>
<p>156</p>
<p>- Pendurado no fundo do pêndulo; e já quase não aguento, doem-me muito as mãos.</p>
<p>O Bigodes saltou para o móvel, mas, no</p>
<p>mesmo momento, o Pequenu largou as mãozinhas, e pluf, caiu em cheio dentro do aquário.</p>
<p>Os ratos, que tinham visto tudo, estavam</p>
<p>assustadíssimos!</p>
<p>Cricri, cricri, cricri, chiavam todos ao</p>
<p>mesmo tempo.</p>
<p>Miau, miau, miau, , gemia o Bigodes</p>
<p>que não podia ajudar o Pequenu.</p>
<p>Gluglu, gluglu, o Pequenu fazia bolhas na água e caiu mesmo no fundo do aquário.</p>
<p>-Ai! meu Deus!-lamentavam-se os</p>
<p>ratinhos-o Pequenu vai afogar-se!</p>
<p>E o Bigodes tentou enfiar a pata na água para apanhar o Pequenu, mas a patinha era muito pequena.</p>
<p>Gluglu, gluglu, gluglu. cada vez</p>
<p>vinham mais bolhas acima.</p>
<p>E os ratos estavam tão aflitos que escondiam a carinha com as patas para não verem o Pequenu afogar-se.</p>
<p>157</p>
<p>-Pequenu, meu querido Pequenu!chorava o Bigodes.</p>
<p>Mas o que estava a fazer o Douradinho? Pós-se a nadar em direcção ao Pequenu e enfiou-se entre as perninhas dele, tão bem, tão bem, que o nosso homenzinho ficou a cavalo no Douradinho. E então, o peixinho nadou para cima.</p>
<p>Bravo, bravo-miou o Bigodes, estendendo logo a pata ao Pequenu; então o Pequenu agarrou-se ao gato, e upa, saltou para o móvel.</p>
<p>158</p>
<p>E o pobre Pequenuzinho tossia e engasgava-se porque tinha engolido muita água; e, como é natural, estava encharcado.</p>
<p>Mas o Bigodes pegou nele, e levou-o para a casinha dos ratos.</p>
<p>Os ratinhos ficaram encantados por tornarem a encontrar o seu amiguinho.</p>
<p>E sabes o que fez o Pequenu logo que ficou seco e sossegado? Deitou um punhado de migalhas de bolo no aquário, para agradecer ao Douradinho ter-lhe salvo a vida.</p>
<p>159</p>
<p>XXIII</p>
<p>PEQUENU E O CHARUTO</p>
<p>No seu buraquinho de ratos, detrás do armário, Pequenu estava a pensar em ir deitar-se.</p>
<p>Todo o dia tinha estado a ajudar os ratinhos a arrumar e limpar a casa e estava muito cansado; deu uma última vista de olhos à sala. O Pai estava a ler um livro e a fumar um charuto.</p>
<p>Ui! que mal cheirava o fumo do charuto.</p>
<p>A porta abriu-se e entrou a Mãe:</p>
<p>- Não sabes que já é muito tarde?</p>
<p>- Realmente é tardíssimo - respondeu o</p>
<p>160</p>
<p>Pai olhando para o relógio. Já são horas de dormir.</p>
<p>Pousou o charuto no cinzeiro e esqueceu-se de o apagar; e depois saiu com a Mãe.</p>
<p>- Bem, e eu também vou deitar-me - disse o Pequenu.</p>
<p>Estava a abrir a sua caminha quando o Comilão entrou muito apressado no buraco dos ratos.</p>
<p>-Pequenu, Pequenu! chamou ele. Aconteceu uma coisa horrível! O Pai esqueceu-se de apagar o charuto, e ele caiu do cinzeiro em cima da toalha da Mãe.</p>
<p>161</p>
<p>Pequenu apressou-se a sair da cama e correu até à mesa, seguido pelos ratinhos, e todos subiram para a mesa.</p>
<p>Ai que espectáculo horroroso! Uma nuvenzinha de fumo subia no sítio onde o charuto tinha caído. O Pequenu olhou a toda a volta antes de tomar uma resolução. Olha! uma canequinha de leite que também ficou esquecida em cima da mesa! O Pequenu olhou lá para dentro; por sorte ainda tinha leite no fundo. Os ratos ajudaram o Pequenu a empurrar a canequinha até ao sítio do incêndio.</p>
<p>- Um, dois, três - gritou o
